Universo da obra
Universo da obra
Passado o espanto, sua mulher, enternecida, perguntou com doçura: — Que é, Chico? Que é que você tem? Diga, que é... Gomensoro nada dizia. Mastigava monossílabos. Deixou-se f car numa cadeira e, com as i mãos na cabeça, curvara-se sobre uma pequena mesa. Sua mulher insistia; afinal, arrancou a causa do seu incômodo: — É a língua, filha! É a língua! — Mas que língua é essa? — A língua em que hei de escrever a minha obra. — Ué! Pois não é português? — Em português, sim; eu não sei português... — Como? Você não fala, já não escreveu alguma coisa, como é, então? — Falo, escrevo, Genica. Mas a língua que falo não é português, não é nada. É um vazadouro de imundícies, cheio de galicismos, anglicanismos, africanismos, indianismos, cacófatons, cacotenias, erros de regência, o diabo, filha. A obra imperecível deve ser escrita no português de Barros, de Vieira. Como há de ser? Que trabalho! disse o médico com angústia. Sua m lher, com quinze anos de casamento, já estava habituada àquelas deliqüescências. u Elas aumentavam-lhe o orgulho que tinha do marido. Casada pouco depois de sair do colégio das irmãs, Genica só conhecera dois sábios: o capelão do colégio, um padre francês, sabido nos manuais do bacharelato; e seu marido. Pelos seus sete anos, sua mãe fugira de casa e com um caixeiro janota do pai, um probo negociante português da Rua da Quitanda. Seu pai, que se casara por amor, recebeu a injúria com uma sobranceria superior. Meteu a filha no colégio da Imaculada. Fugiu do mundo. Fez-se provedor, andador, benfeitor de várias ordens terceiras, e, quando sua mulher lhe escreveu dizendo-se na miséria, enviou-lhe uma pensão mensal até que ela se veio a findar de tuberculose no Porto. Aos domingos, invariavelmente, ele ia buscar a filha para passeios. Andavam pelos arrabaldes silenciosos, cada um entregue aos seus pensamentos; jantavam juntos em hotel, e pela tardinha entregava a menina à irmã superiora. Durante os oito dias, Genica vivia no colégio a decorar frases do manual de conversação francesa e a fazer trabalhos vistosos de bordado e desenho. Aos bocados, o temperamento da menina se firmou frio, cauteloso, mas doce e resignado. E, quando ao sair do colégio, seu pai a aproximou do Francisco Gomensoro, ainda quintanista, ela ingenuamente se tomou de amores pelo rapaz com quem veio o casar. Dentro de um ano, após o consórcio, seu pai morrera. O velho negociante conhecera o pai de Gomensoro, de quem fora amigo. Era ele um espanhol que, tendo fugido de Espanha por ocasião de um pronunciamiento abortado, refugiara-se em Portugal. Casado aí, veio para o Rio como guarda-livros de uma casa de objetos cirúrgicos. As lojas ficavam perto e os dois, à tarde, com mais outro companheiro, jogavam o solo pachorrentamente. Em poucos anos, o revolucionário espanhol tornara-se proprietário da loja, e o filho que aqui nascera-lhe, tratando diariamente com médicos e estudantes, tomou-se de gosto pela arte deles. O velho Gomensoro morreu logo após o menino encetar os preparatórios; e a viúva ficou com a casa, dirigindo a educação do órfão, até o terceiro ano, quando morreu. O probo negociante português, pai de Eugênia, liquidara a casa na melhor forma, tutelou o jovem Francisco com munificência; e, ao morrer, sentindo-os casados e felizes, foi leve e sorridente apresentar-se a Deus. Fizera uma felicidade e a regara com algumas dezenas de contos. Terminadas as formalidades do luto, o casal partiu para o velho mundo. O doutor freqüentou clínicas, notabilidades, hospitais, e a dona Eugênia viu as cidades pelas portinholas da carruagem e das janelas dos hotéis em que se hospedara. Em vão seu marido chamava-lhe a atenção para as maravilhas. Ela não queria. Tinha medo, acanhava-se. Tanta gente, todos a olhavam; e impertinentemente pediu a volta. Estabelecendo-se de vez na cidade natal, Gomensoro começou a aprofundar a teoria concebida desde os tempos de estudante: o paludismo é o fundo de todas as moléstias nos países quentes. A sua biblioteca de rapaz decuplicou. Lia obras, tratados, memórias, revistas, em três línguas. Nervosamente tomava notas em papelinhos e, como se fosse esquecendo das notas, por fim deu para tomar nota das notas. Lia, lia, doidamente, desordenadamente. Fugia sempre de escrever, porém há oito dias começara a passar para o papel o resultado de suas meditações. E foi por isso que a questão da língua surgira-lhe. Sua mulher tinha por ele um respeito religioso. Era o sábio, o homem que conhecia um outro mundo que rege este. Era o doutor, o bonzo-homem, formado, respeitável e grandioso; e, ao lhe vir um desespero daqueles, ela o animava, dizia-lhe pequenas lisonjas sinceras. O Chico sorria, acalmava-se e beijava-a muito. No dia seguinte, continuava: lia, lia, desordenadamente e doidadamente. O patrimônio deixado pelo português filantrópico já estava gasto a meio. Gomensoro não se incomodava com a direção dos seus bens. Sua idéia cegava-o e a tola educação que sua esposa recebera não lhe permitia corrigir as desmandadas despesas do médico. Uma vez, ele lera, numa revista francesa, a notícia de um livro: As Formas Palustres nas Índias Neerlandesas, do doutor Van Bree. Imediatamente mandou buscar um exemplar; e, como não compreendesse o holandês, correu a cidade, foi ao consulado, ao cais; e arranjou um marinheiro que o traduzisse, mediante oito libras por capítulo, e para meio português. Recebendo o estipulado pelo primeiro capítulo, o marinheiro saiu. Logo adiante tomou uma grande bebedeira; esfaqueou um polícia e foi recolhido à detenção. Gomensoro empreitou advogados; pagou-lhes regiamente, e o marítimo morreu de beribéri antes de entrar em julgamento. O paludismo tudo exigia. Fora dessa idéia, pouco lhe preocupava o resto da atividade mental. Não lia filosofias, nem teorias sociais e muito menos literaturas; e, se por acaso era chamado a falar sobre esses assuntos, a sua lucidez era segura, perfeita, própria, com algo de paradoxal, o que o admirava por supor a de toda a gente. Não conhecendo as teorias a respeito, só via os fatos, dos quais tirava conclusões pessoais e imprevistas. Como de costume ao vê-lo em diluimento, sua esposa tratou de o consolar. Animando-o, interrogou-o: — Chico, essa língua é diferente da de hoje? — Muito, querida. Muito... Nem se compara. — Então é como se fosse outra, continuou a dona Eugênia. — É... É... É como se fosse outra, acabou, afinal, o Gomensoro por dizer. — Então você não tem mais que comprar uma gramática e estudá-la, concluiu triunfantemente a esposa do médico. — Mas é verdade, Gênica, fez admirado o Chico Gomensoro. Mas é verdade! Amanhã seguirei o teu conselho. E num afluxo de ternura, elogiou-lhe o talento, beijando-a nos olhos, no rosto e na boca. Sossegou, dormindo quieto. No dia seguinte, logo pela manhã, viu alguns doentes, e depois do almoço desceu à cidade, donde depois iria ver o contínuo Manuel em Catumbi. O médico, perseguido pela idéia tenaz de uma língua lídima, andou pelas ruas de comércio, buscando nas livrarias a famosa gramática do século XVI. Num sebo da Rua de São José, encontrou, sossegadamente esquecido, um velho exemplar da Enssynança de bem cavalgar, d’El Rei dom Duarte e adquiriu-o, para servir de leitura da nova língua que ia estudar, embora o livro fosse do século XV. Eram três e um quarto quando procurou o ponto dos bondes da companhia de São Cristóvão. Aí veio a encontrar o doutor Alfredinho, filho do visconde da Meia Ponte, senador por Goiás. — Oh, doutor! Por aqui? — É verdade! Vou ver um doente. E o doutor, onde vai? — Vou ao Rio Comprido, procurar o conselheiro Rosemiro. Esse negócio da legação tem me dado um trabalho, que o senhor não imagina... Que bonde toma? — Eu? Itapiru. Porque? — Em que rua vai? perguntou o bacharel, sem responder a pergunta. — Na Travessa do Laje. — Podemos fazer uma coisa, doutor: vamos juntos no bonde na Estrela, que lhe deixa próximo, propôs o advogado. O médico relutou um pouco; e, concordando afinal, os dois embarcaram, quando o veículo se punha em movimento para as ruas estreitas da velha cidade. Logo assentados, relembraram o dia anterior, a palestra, o jantar, as pessoas; e as “coisas” do Boaventura vieram à baila. — Doutor, perguntou o médico ao advogado, esse Comte era militar ou monge? — Nem uma nem outra coisa. Porque? — A sua doutrina é ferrenha, cheia de regrinhas, de disciplinas estreitas, medidas. Parece uma ordenança militar ou uma regra monacal. — Não há dúvida; mas até, ao contrário, o Comte prega a transformação dos exércitos em milícias e quer a paz universal, dis se o bacharel, após curta pausa. — Admira então que, refletiu o Gomensoro, admira que os nossos militares, de uns tempos para cá, convertam—se e propaguem-na. — É simples. Uma questão de vaidade profissional. A matemática é a pedra angular do sistema, e os militares estudam um pouco dessa ciência, dai... Demais, o prestígio do Benjamim concorre. — Oh! o Benjamim, o Benjamim, disse o médico, com um risinho de escárnio. — É um geômetra, doutor. — Geômetra — é muito, ou antes é pouco. Benjamim, para geômetra, faltam-lhe obras, documentos quaisquer de sua sabedoria. É antes..... — E “A Teoria das Quantidades Negativas”? indagou o filho do visconde. — Um artigo de estudante “furão”, e mais nada. Para mim, como ia lhe dizendo, f z o e Gomensoro, Benjamim é um visionário, um utopista perigoso. Em resumo: bom homem e amigo do Pedro II. E riu devagar, concertando os óculos, ao tempo que o bonde parava na cauda de outros enfileirados na rua. Os poucos passageiros levantaram-se: — Que há? Que foi? Não anda? indagaram. — Nada, responderam o cocheiro e o condutor, já pachorrentamente sentados no meio- fio da calçada. Um caminhão que está descarregando uns fardos numa loja, e não deixa o carro da Tijuca passar. O bacharel pôs-se impaciente. Erguia-se, olhava raivoso, cofiava os pequenos bigodes e, por fim, disse para o médico com lancinante desprezo: — Isso não é terra, doutor. É uma “droga”... — Porque, porque houve uma pequena interrupção no tráfego dos bondes? — Não. É tudo! É tudo! Uma cidade feia, suja, esburacada, sem estética, sem parques. Um relaxamento... maldita colônia... O médico não tinha o que responder e sentia-se constrangido disso. Calou-se. O bacharel, adivinhando-o magoado, virou-se para o Gomensoro e lhe disse confidencialmente: — Sabe o que nos matou? — Não, respondeu com simplicidade o paciente esculápio. — Foi o negro. O médico pareceu não se admirar muito do segredo e com alguma ironia retrucou: — Pois olhe, doutor. Eu julgava o contrário. Eles fizeram o Brasil. Lavraram as minas; plantaram a cana; guerrearam; e hoje colhem o café e cavam estradas. Chegava a pensar que fizeram a nossa unidade. Vejam como são as coisas, doutor Alfredo? — De fato fizeram alguma coisa disso, mas são inferiores, incapazes pra civilização. Não são árias, doutor Gomensoro, não são árias. — Que diabo é isso? — Oh! doutor. Não conhece a teoria dos árias? interrogou espantado o moço advogado. — Árias, árias... Ah! Espere... Recordo-me... Quando estive na Europa, alguém me falou nisso. É, se não me engano, uma hipótese alemã muito engraçada, que expli... — Hipótese, não, doutor. Uma conquista da ciência. A Filologia, a Lingüística, a Arqueologia, a Pré-História comprovam-na, e os recentes estudos de religiões comparadas afirmam-na soberanamente. Não é uma hipótese, absolutamente. — Não importa, retrucou o médico. Seja uma verdade... vá... mesmo porque o que é hipótese na Europa é certeza aquém da linha equinocial. Diga lá a teoria, doutor Alfredo. O moço bacharel atirou fora o cigarro que fumava, enquanto o médico dava duas olhadelas a um passageiro próximo. Depois, expôs a teoria. — Em uma época anterior a todo o testemunho histórico, e que se esconde na noite dos tempos, uma raça cresceu no plateau de Pamir, na antiga Bactriana, Ásia Central. Em migrações sucessivas e em instantes diversos, irradiou pela Europa e foi ao norte da Índia. Já no plateau originário, tinha uma língua admirável, onde se vinham refletir suas afeições meigas, suas admirações ingênuas e arroubos para um mundo superior. Eram pastores, crê-se que também agricultores. Conheciam o ouro, a prata, o bronze, exceto o ferro, que não conheciam. Como se fossem raios do sol — um dos focos da elipse de translação da terra — os árias, mestres, senhores — emitidos do plateau de Bactriana — seguiram vetores e pararam aqui, ali, pela Europa, pela Ásia, ao norte, ao noroeste, a oeste e a sul, com os nomes de lituanos, eslavos, germanos, celtas, gregos, latinos, persas e hindus, que quase fecharam a elipse alongada. O que caracteriza o ária é a capacidade para a civilização. Rapidamente evoluíram e vão ficando senhores do mundo. É o que veio revelar as afinidades do latim com o grego, do grego com o alemão, do alemão com o persa, e deste com o sânscrito... Eis, doutor, esboçada a teoria dos árias, a teoria da raça civilizadora. — Bonito! exclamou sem querer o calmo doutor Gomensoro. — Do grego-latino, continuou o filho do titular, do iraniano e do ramo hindu surgiram civilizações poderosas, o que... — E dos lituanos, eslavos, germanos, celtas, não? disse de repente o médico. — Estes povos mantiveram um relativo estado de cultura até que foram absorvidos na civilização romana, objetou o filho do senador por Goiás. —Estado de cultura, fuzilou Gomensoro, que de forma alguma é uma civilização... — Sim... concordo, mas é cultura... — De modo que dos árias, a raça da civilização, só os gregos criaram uma civilização. Os que ficaram no mágico plateau nada fizeram e os da Índia, imobilizados nas castas, e tão se s deixando roubar pelos primos da Europa? — Com os da Índia aconteceu isso, devido às condições do meio e a presença de raças inferiores, retrucou o doutor Alfredo. O médico calou-se, pensou, olhou o passageiro que o interessava e levantou a objeção: — Com as condições favoráveis da França nada fizeram, entretanto os da Índia... — Foram as raças inferiores, objetou apressado o doutor Alfredo. — Raças inferiores, respondeu, depois de uma pausa, o médico. Como essas raças se influiriam maléficamente? Por ação de presença, só? Não é possível? Na humanidade, as reações se fazem por via sexual, e esta, terminantemente, não operou nos Ganges, pois a religião proibia, e os costumes também, que os casamentos e até a mais simples união sexual se fizesse entre indivíduos de castas, e, sobretudo, raças diferentes. O bacharel não sentia a argumentação valiosa. Pareciam-lhe argumentos de um simplório e, entretanto, não sabia combatê-los. Para fechar a conversa disse: —O que lhe acabo de dizer é resultado de pacientes trabalhos. Max Muller, Pictet, Juin e outros sábios criaram essa teoria, desenvolveram-na e demonstraram-na. Demais, doutor, ligou ele rapidamente, se todos os outros ramos nada tivessem feito, bastava Grécia e Roma. — Concordo, disse frouxamente o médico, e concluo que a civilização não é intrínseca na raça, não depende... Ah! Espere... E sofregamente correu o banco vazio até a ponta e daí falou ao passageiro que ia na frente: — Desculpe-me..., desculpe-me... Sou médico e o senhor vai perdoar-me... Nunca teve maleita, sezões, febres? O desconhecido voltou-se com ar estúpido e obedientemente respondeu: — Nunca. — Tem estado doente? — Algumas vezes. Tive sarampão, bexigas doidas e que me lembre nada mais. — Sofre de prisão de ventre? — Não, senhor. — É curioso, insistiu o médico. E dores de cabeça tem tido? — Às vezes, tenho, retrucou o desconhecido um tanto impacientado. — Sempre? — Não, doutor. Uma vez ou outra. — E seu pai? — Meu pai, fez aborrecido o interrogado, meu pai teve febres, sezões, maleitas, prisões de ventre. — Ah! exclamou o médico satisfeito. Tome quinino, amigo; tome quinino. E, depois de pedir muitas desculpas, voltou ao seu lugar e disse baixo ao bacharel: — É um caso de paludismo hereditário, perfeito, tachado. Aquelas “orelhas de abano” não negam. O doutor Polyenesky, de Varsóvia, verificou seiscentos e vinte e sete casos idênticos na Bessarábia, e eu... O bonde corria célere pelo Rio Comprido, e o Alfredinho, que tinha consultado o relógio, verificou que chegava à hora de jantar em casa do conselheiro. — Doutor Gomensoro, onde vai? — Eu já não lhe disse? Vou ver o compadre do Carlos. — Aquele contínuo? Agora me lembro... Sua mulher esteve ontem lá. Eu conheci-o. Era um bom homem. Obediente, honesto, trabalhador, bom chefe de família... Quando meu pai foi ministro, ia sempre lá em casa levar papéis. Uma coisa. Vou com o senhor, doutor. Há inconveniente? — Nenhum. E, logo ao chegar no lugar propício, os dois saltaram e se embrenharam pelo labirinto de ruas ainda mal povoadas. III A medicação do doutor Gomensoro não fora milagrosa. O doente pouco melhorou e, levantando-se dias depois, recaiu em seguida mais gravemente. De recaída em recaída, ora melhor, ora pior, o ex-voluntário morreu numa quarta- feira de fevereiro, fulminado por moléstia do coração. Precavido, ele se fizera inscrever em algumas sociedades de socorro mútuo, as quais, dando pequenas quantias para o enterramento, pouparam à família dificuldades com esse piedoso ato. A viúva economizou alguma coisa dos auxílios; e os cuidados com a vida futura atenuaram em alguma coisa a dor da perda que sofrera. Durante os primeiros tempos, tendo delineado um plano a seguir, tratava de cumpri-lo. Para ela, queria roupa a lavar, e a filha iria trabalhar em um atelier de costuras, onde a sua virtude correria menor perigo. A preta velha encarregar-se-ia da casa; e assim levariam a vida até quando Deus quisesse. Diariamente saía e dava os passes que julgava precisos. Pedia a um, pedia a outro e, pela tardinha, voltava à casa, naquela travessa esquecida, às vezes desanimada, em outras esperançada de encontrar no dia seguinte o trabalho desejado. No fim de alguns dias, arranjou alguma roupa, mas era a de uma família residente no Catete, e, lavada que ela fosse, as despesas de transporte absorveriam o lucro possível. Não acertou. O plano lhe pareceu mau, pensou outro. Alugar-se-ia como criada; colocaria a filha como “ama” em alguma casa. Mas a babá? Que havia de fazer dela? Empregá-la? Estava tão velha, enferma, reumática, num estado de saúde que não permitia prestar trabalho fixo, certo... Além do que, Clara inquietá-la-ia, se o executasse. Moça ainda, com finura de mãe, adivinhava os perigos que ia correr. Fora de suas vistas estaria exposta a ser desviada do bom caminho. Conhecera tantas que como “ama”... Coitada da filha! Tão moça! Tão boa! E, toda a vez que ela evocava tais coisas, redobrava de energia em seguir o seu primitivo plano. Ao sair, olhava Clara, púbere ainda, de seios túmidos meio formados, contemplava-a em instantes enchendo os olhos d’água, e, com a vista empanada, jogando o xale aos ombros, antes que a filha lhe percebesse a comoção, punha-se em campo com ânimo. Deus Nosso Senhor havia de ajudá-la! Casaria a filha, estava certa, pobre naturalmente, humilde também, mas seria honesta, honrada. Entretanto, os seus esforços eram vãos; os dezessete anos de casada, sem ter que prover a subsistência, não lhe tinham dado a prática, o faro de viver. Os conhecimentos eram poucos e desvaliosos; e, mesmo da família de que fora cria, nenhum restava capaz. Semeados pelo Brasil, aqui, acolá, arrastavam uma vida desgraçada de infortunados. As relações do marido esquivavam-se delicadamente; e, já sem crédito qualquer, na vida das três mulheres havia fome. As coisas de algum valor foram vendidas e a casinha estava quase nua de trastes. Atrasada nos aluguéis, eram diárias as ameaças do proprietário ou seu preposto. Desenvolvia um tato enorme para contê-los. Nem sempre era feliz; suas palavras por vezes erravam o alvo e, longe de apaziguá-los, enfurecia-os mais. Como certa vez ela lembrasse a pontualidade do falecido Manuel, o cobrador se enchera de raiva e raivoso dissera que, assim fazendo, não fizera nenhum favor algum; era obrigação dele unicamente. Dona Florência, em desespero de causa, resolveu procurar o Alves da Silva. Uma manhã, na estação inicial de Pedro II, pôs-se a aguardá-lo, cheia de angústia. Tinha oito dias para mudança, assim a intimava o procurador — a menos que não quisesse sofrer despejo judicial: havia quase três meses de atraso, e não estava pra isso... nada tinha com dificuldades... não era pai de ninguém, dissera ferozmente, numa cena violenta, que a resignada dona Florência ouvira toda com pejo e ódio. A viúva saiu cedo. Chegada à estação, encostou-se bem perto do lugar de desembarque e, entre os passageiros que chegavam, com o olhar, catava sofregamente o compadre. O calor era sufocante. O dia de mormaço, baço, tristonho, enchia as almas de opressão. Todos andavam cabisbaixos; não havia um riso. Esperando até às onze horas, não via chegar o Alves da Silva, contudo ele não lhe teria podido escapar. Devorava angústias. Figurava resoluções. Talvez fosse melhor dar um pulo até à casa do compadre. Ia incomodá-lo. Não havia de gostar; e tinha razão — que tinham os mais com sua sina? Nada. Devia agüentar-se só; não tinha nada que importunar os outros... Veio até à porta do edifício. O jardim em frente tinha as árvores abatidas à temperatura do dia; uma névoa quente crestava tudo. Era como um bafio de forja. O rolar dos veículos levantava muito pó; e a poeira ficava pairando à meia altura, sobrecarregando ainda mais o ambiente já por si pesado. Alguém chegou e lhe falou: — dona Florência, como vai? — Oh! É o senhor, seu doutor? respondeu ao dar com a pessoa. — Eu já lhe tinha visto, mas não a conheci logo. Agora, ao se virar, é que lhe pude ver bem as feições. Soube, acrescentou, soube que seu marido morreu...Meus pêsames. De que foi? — Muito obrigada. Do coração. O Manuel não se tratava; era teimoso..., foi uma desgraça, disse a viúva com um suspiro. — Coitado! Era moço? perguntou o interlocutor. — Quarenta e cinco anos, seu tenente. — Moço... Vai tomar o trem ou vem de cima? perguntou o Alferes Boaventura. — Não, senhor. Esperava o compadre, mas... — O senhor Alves da Silva? — Sim, senhor. — Está doente, afirmou o militar. — De que, seu doutor? — Nada, uma coisa ligeira. Uma constipação, um pouco de febre. Não há gravidade. Boaventura tinha se chegado à humilde mulher muito naturalmente. Ao seu temperamento fundamental, acessível e compassivo, sem preconceitos — a não ser o de militar e sábio — as doutrinas utópicas que professava, e com as quais estava fabricando de si mesmo uma imagem diversa, se soldavam para que fosse mais chão e mais ameno de trato com os pobres. Com estes, o seu azedume habitual se apagava e falava-lhes com doçura mesclada de piedade. Não temia que o vissem na rua a discretear com eles, pois a ninguém fazia mistério de suas idéias igualitárias e da sua simpatia pelo sofrimento do povo. Sempre que tinha dois minutos de reflexão, procedia de acordo com elas. Detestava a riqueza, a burguesia, o fausto; queria a paz universal, mas tinha as pequeninas idéias dos seus companheiros de profissão. O Exército era uma coisa sagrada, intangível — a arca santa da pátria — na sua frase. As concessões especiais de foro, de prisão, de instrução separada, para filhos e netos de militares, ele as achava legítimas, naturais, defendia-as extremamente. Desse modo, de um salto, passava das inovações generosas, para admirar a Alemanha militar. Os teoristas da guerra desse país juntava às prédicas do fundador da religião da humanidade. E, como os humildes não percebessem essas contradições e se curvassem também ao seu saber matemático, Boaventura junto a eles perdia o azedume nascido da comparação da grandeza do seu sonho com a zombaria que era recebido. Era notável que, considerando o saber matemático a única forma de sabedoria, condenasse, no entanto, toda a exploração já feita ou nova, tendente a alargar o domínio dessa ciência. Afora determinadas explanações sobre teorias elementares, qualquer outra incursão no campo da análise matemática era para ele, além de sem significação, imoral. A ciência estava completa, o mais era algebrismo acadêmico — dizia. Viera, conforme dissera à viúva, consultar o horário e voltava ao quartel-general, indo à tarde fazer uma visita ao Alves da Silva. Depois das primeiras explicações trocadas, dona Florência insensivelmente foi lhe fazendo confidências. Boaventura ouvira-a atento e triste, sinceramente triste. Enterneceu-se. O seu fundo emotivo, exagerado com sonhos humanitários, interessou-se por aquele padecer. Mesmo sem saber como, ofereceu-se a ajudá-la, prometendo-lhe que a procuraria no dia seguinte em casa. — Contudo, disse ao despedir-se, não é mau ir ver seu compadre. Vá. Quando a envelhecida Florência entrou em casa de seu compadre, o doutor Alfredo saía. Saudou-a cerimoniosamente, ao encontrá-la na escada de pedra, enquanto da porta a menina Olímpia dava grandes mostras de agrado. Mal falou com a moça, foi ter com o compadre. Conversava Alves da Silva, na sala de jantar, com o doutor Gomensoro. Vestia de linho branco e tinha chinelas de tapete. A fisionomia estava algo abatida. O rosto anguloso tinha um tom mate, e o nariz adunco e firme perdera um pouco de sua dureza habitual. Os cabelos grisalhos saltavam da moldura azul que um gorro oferecia, cobrindo-lhe a calva. A barba estava crescida. As primeiras palavras que dirigiu à comadre foram exatamente as mesmas que lhe dissera no dia do enterro. — Paciência, comadre. Paciência. As coisas hão de se arranjar com o tempo. É triste, eu sei, a morte de um chefe de família, mas o que se há de fazer? O médico maníaco mantinha-se calado. De vez em vez, firmava muito o seu olhar vivo, de costume inquieto, sobre a viúva, medindo-a de alto abaixo. Logo que era percebido, disfarçava, fugia com olhos, passeando-os em torno pelos quadros pendentes das paredes. Reparava a reprodução da Ceia em oleogravura, a lagosta muito vermelha, o quadro das frutas, depois descia a vista palpando o etagère, o guarda-louças e o pano da mesa com guarnições encarnadas. Fatigado, mirava as pontas dos pés separados, e com os dedos nodosos tilintava sobre a beirada da cadeira. O oficial de secretaria continuava a repetir consolos. A comadre, mal sentada na cadeira, contemplava-o respeitosamente. O seu rosto miúdo, de traços empastados, com rugas precoces, não tinha uma expressão definida. Havia respeito, desespero, dúvida e esperança a um só tempo. — O que eu sinto, comadre, dizia com fadiga o Alves da Silva, o que sinto é que a minha casa não tenha cômodos, senão. O médico quis dar volta à conversa. Perguntou ao Carlos se ia à cidade no dia imediato. Respondida afirmativamente, os três estiveram por algum tempo mudos. A viúva, animando-se, com a voz embargada, falou nas dificuldades, na mudança, na necessidade de dinheiro... Alves da Silva, coçando a cabeça, encostou-se melhor na cadeira de lona e murmurou: — É, comadre. As coisas estão tão ruins. Ainda agora, essa moléstia... Nesse ponto, chegou do interior a mulher. Vinha de matinée de cassa, sem colete e com uma saia de ramagens claras. — Oh! Florência, como está você? Pensei que você estava zangada! De repente, sentindo que o seu acolhimento benévolo surpreendia o grupo, dona Adélia fechou a fisionomia, fez que procurava um objeto num móvel, apanhou-o e, olhando o marido de soslaio, saiu da sala dizendo: — Florência, antes de você ir, fale comigo. O Gomensoro, então, indagou: — Mas quais são as dificuldades, dona Florência? A viúva as explicou redundantemente. Contou as diabruras do proprietário, as vergonhas que estavam sofrendo. — Tenha paciência, espere hoje e amanhã, depois vá, ou mande sua filha lá em casa, que lhe poderei fazer alguma coisa. A fisionomia apalermada da mulher iluminou-se. Os seus olhinhos de conta muito abertos agradeceram melhor do que os repetidos: obrigada doutor, obrigada — que ela dizia. — É isso, comentou no fim o Alves da Silva, você se sofreu tudo o que contou, foi porque quis; se nos tivesse procurado há mais tempo tinha evitado esses desgostos. A mãe de Clara pediu licença e foi ao interior falar com dona Adélia. Olímpia fazia crochet na saleta, ao lado de sua mãe, que lia um jornal. Chegando a viúva, arredou um pouco a folha e indagou: — O que trouxe você aqui, Florência? Antes que pudesse responder, Olímpia por sua vez perguntou: — Como está Clara? Porque não veio? Florência respondeu à menina e explicou a dona Adélia os motivos que a traziam. — E você arranjou o que queria? — Sim, arranjei. — Foi o Carlos quem te ofereceu? — Não. Foi o doutor. — Ahn! fez a dona Adélia. — Quem te disse que o Carlos estava doente? perguntou ela logo em seguida. — Foi seu alferes Boaventura. — É verdade! exclamou dona Adélia... Depois, refletindo um pouco, disse para a filha: — Olímpia, fica aí, enquanto eu vou com Florência ate ao quintal. A dona da casa, logo que ficou fora dos ouvidos da filha, disse para a viúva: — Florência! eu queria saber uma coisa. Mas fica entre nós — olhe lá!... — Oh! comadre! Eu sei guardar segredos; sou de caixa encouradas... Assegurada da discreção da comadre, dona Adélia perguntou: — Clara nunca te disse se o Boaventura “gostava” de alguém? — Nunca. E como ela me podia dizer, se pouco conversava com “seu” Boaventura? — Não... Sim... É... E depois de uma série de volteios e meias palavras, a mulher do Alves da Silva contou à sua humilde comadre que, pelo seu sobrinho Alípio, soubera que o alferes “gostava” da filha. Por ela, dona Adélia achava um bom casamento, mas, sondando o marido, este lhe objetara. — Não lhe conhecemos a família. Ele diz que tem, mas nunca fala dela. E figurando mais o caso como sendo possível, dona Adélia havia já interrogado o marido assim: — E se ele te pedir a menina em casamento? — Se ele ma pedir, retrucou o Alves da Silva, exigirei um prazo e investigarei os seus precedentes de lar. Se forem bons, sim; senão, não. É coisa muito delicada.
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