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Capítulo 4 · Histórias e Sonhos

Harakashy e as Escolas de Java

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Harakashy e as Escolas de Java

«Tudo o que este mundo encerra é propriedade do Brahmane, porque elle, por seu nascimento eminente, tem direito a tudo o que existe.»

( Código de Manu )

Na minha peregrinação sentimental por este mundo, fui ter, não sei como, á cidade de Batavia, na ilha de Java.

E’ fama que os franceses ignoram sobremodo a geografia; mas, estou certo de que, entre nós, pouca gente tem noticias seguras dessa ilha e da capital das indias Neerlandesas.

E’ pena, pois é da Terra um dos recantos mais originaes e cheios de surprehendentes mysterios que se vão aos poucos desvendando aos olhos attonitos da nossa pobre humanidade.

Lá, Dubois achou partes do esqueleto do Pithecanthropus erectus ; e o doido do Nietzsche tinha admiração por certas trepadeiras dessa curiosa ilha, porque, dizia elle, amorosas do sol, se enrodilhavam pelos carvalhos e, apoiadas nelles, elevavam-se acima dos mais altos galhos dessas arvores veneráveis, banhavam-se na luz e davam a sua gloria em espetáculo.

Os restos do afastado ancestral do homem que Dubois encontrou, não os vi quando lá estive.

Trepadeiras e cipós vi muitos, mas carvalho não vi nenhum. Nietzsche, que lá não esteve, certamente julgou que Java tinha alguma semelhança com Saxe ou com a Suissa.

Não eram precisos os carvalhos nem as taes trepadeiras, muito vulgarmente, como todas as plantas, amorosas da luz, para tornar Java interessante, porque só o aspecto mesclado de sua população, a confusão do seu pensamento religioso, as suas antiguidades buddhicas e os seus vulcões descommunaes seduzem e prendem a attenção do peregrino desgostoso ou do sabio esquadrinhador.

Por mezes e mezes, o tedio mais principesco desfaz-se naquellas terras de sol candente e orgia vegetal que, talvez, com a India e os grandes lagos da Africa, sejam os unicos lugares da terra que não foram ainda banalizados inteiramente.

Creio que não será assim por muito tempo. Lá estão os hollandezes; e edificaram até, na cidade de Batavia, um bairro europeu, chamado na lingua delles, Weltevreden (paz do mundo), cujas damas se vestem e têm todos os tics periodicos das moças de Hong-Kong ou de Petropolis.

Nos olhos das mulheres do bairro europeu, não há senão a mui terrena ancia da fortuna; mas, nos olhares negros, luminosos, magneticos das javanezas ha coisas, do Além, o fundo do mar, o céu estrellado, o indecifravel mysterio da sempre mysteriosa Asia. Também ha volúpia e ha morte.

A massa de indús, de chinezes, de annamitas, de malaios e javanezes, porém, esmaga a banalidade pretenciosa daquellas hollandezas rechonchudas que estão pedindo a sua immediata volta ás monotonas campinas da patria, com as suas vaccas nedias, os seus classicos moinhos de vento e a ligeira nevoa que parece sempre cobril-as, para readquirirem o necessario relevo das suas pessoas.

Não falando no famoso Jardim Botânico dos arredores, Batavia, como S.Paulo ou Cuyabá, possue estabelecimentos e sociedades de sciencia e de arte dignas de attenção.

A sua Academia de Lettras é muito conhecida na rua principal da cidade, e os litteratos da ilha brigam e guerreiam-se cruamente, para occuparem um lugar nella. A pensão que recebem, é modica, cerca de cinco patacas, por mez, na nossa moeda; elles, porém, disputam o fauteuil academico por todos os processos imaginaveis. Um destes é o empenho, o nosso pistolão , que procuram obter de quaesquer mãos, sejam estas de amigos, de parentes, das mulheres, dos credores ou, mesmo, das amantes dos academicos que devem escolher o novo confrade.

Ha de parecer que, por tão pouco, não valia a pena disputar acirradamente, como fazem, taes posições. E’ um engano. O sujeito que é academico, tem facilidade em arranjar bons empregos na diplomacia, na alta administração; e a grande burguezia da terra, burguezia de accumuladores de empregos, de politicos de honestidade suspeita, de leguléos afreguezados, de medicos milagrosos ou de ricos desavergonhados, cujas riquezas foram feitas á sombra de iniquas e aladroadas leis -- essa burguezia, continuando, tem em grande conta o titulo de membro da Academia, como todo outro qualquer, e o academico póde bem arranjar um casamento rico ou cousa equivalente.

Lá, a literatura não é uma actividade intellectual imposta ao individuo, determinada nelle, por uma maneira muito sua e propria do seu feitio mental; para os javanezes, é, nada mais, nada menos, que um jogo de prendas, uma sorte de sala, podendo esta ser cara ou barata.

Os medicos, que, em Java, têm outra denominação, como veremos mais tarde, são os mais constantes freguezes da academia. Estão sempre a bater-lhe na porta, apezar de não ter a medicina nada que ver com a litteratura.

Pertencendo á Academia de Letras -- é o que imagino -- como que elles ganham maior confiança dos clientes e mais segurança no emprego dos remedios. Assim, talvez, pensem elles e tambem o povo, tanto que a clinica lhes augmenta logo que entram para a illustre companhia javaneza.

E’ bem possivel que as suas letras e a sua fascinação pela Academia visem sómente tal resultado, porquanto, entre elles, a rivalidade na clinica é terrivel e mais ainda quando se trata de competir com colegas estrangeiros. Usam contra estes das mais desleaes armas.

Um houve, natural de um pequeno paiz da Europa e de extracção camponia, que só as poude manter á distância, usando de armas e processos grosseiramente saloios. Estava sempre de varapáo em punho e foi o meio mais efficaz que encontrou, para não lhe calumniarem e lhe prejudicarem a clinica.

A litteratura desses doutores e cirurgiões é das mais estimadas naquellas terras; e isto, por dous motivos: porque é feita por doutores e porque ninguem a lê e entende.

O criterio litterario e artistico dos medicos de Java não é o de Hegel, de Schopenhauer, de Taine, de Brunétiere ou de Guyau. Elles não perdem tempo com semelhante gente. Não admittem que a obra litteraria tenha por fim manifestar um certo caracter saliente ou essencial do assumpto que se tem em vista, mais completamente do que o fazem os factos reaes. Literatura não e fazer entrar no patrimonio do espirito humano, com auxilio dos processos e methodos artisticos, tudo o que interessa o uso da vida, a direcção da conduta e o problema do destino. Não, absolutamente não.

Os doutores javanezes de curar não entendem literatura assim. Para elles, é bôa litteratura a que é constituida por vastas compilações de cousas de sua profissão, escritas laboriosamente em um jargão enfadonho com fingimentos de lingua archaica.

Curioso é que a primeira qualidade exigida em um livro de estudo, é a sua perfeita, completa clareza, que só póde ser obtida com a maxima simplicidade de escrever, além de um encadeamento naturalmente logico de suas partes, evitando-se tudo o que distraia a attenção do leitor daquillo que se quer ensinar.

Vou explicar-me melhor e os leitores verão como os sabios javanezes prendem a attenção, poupam o esforço mental dos seus discipulos, empregando termos obsoletos e locuções que desde muito estão em desuso.

Supponhamos que um medico nosso patricio se proponha a escrever um tratado qualquer de pathologia e empregue a linguagem de João de Barros , mesclada com a do Padre Vieira , sem esquecer a de Alexandre Herculano . Eis ahi em que consiste a litteratura succulenta dos doutores javanezes; e todos de lá lhes admiram as obras escriptas em tal patuá inintelligivel. Darei um exemplo, servindo-me do nosso idioma.

Antes, porém, de dar essa mostra do modo de escrever dos esculapios de lá, dar-lhes-ei o de falar, com uma anecdota que me contaram lá mesmo -- porque lá ha também irreverentes e observadores. Uma familia media, tendo o chefe doente e vendo que a molestia não dava volta com o modesto medico assistente, resolveu chamar uma das celebridades da medicina javaneza. A mulher do doente era quem mais queria isto, porque, embora possam ser excellentes, com todos os bons predicados, nenhuma mulher perde de todo a vaidade; e a visita de uma notabilidade hyppocratica fazia falar a vizinhança. Foi chamado o homem, o Dr. Lhovehy, uma celebridade retumbante, professor, membro de varias Academias, inclusive a de Letras e a de Historia e Geographia.

Elle foi de carro, com a visita paga adiantadamente: 150 florins. Em chegando junto ao doente, com trejeitos de máo actor foi falando assim :

-- Até agora quem no ha tratado ?

-- O doutor Nepuchalyth.

-- Mister é que tenhais sempre atilamento com esses physicos incautos. Elles são homens que não curam senão por experiencia e costume; e é tão bom de enganar os nescios não affeitos ao bom parecer dos physicos de valia que dão côr a facilmente serem enganados por elles e o peior é que alguns scientes physicos ou por contentar todos os do povo e não querer trabalhar ou especular as curas, vão-se com o parecer delles; e porque ser aprazivel ao povo faz ao physico ganhar mais moedas, usam logo em principio as suas mezinhas delles.

Depois de ter pronunciado esse exordio com toda a solemnidade theatral e doutoral, o Garcia de Orta não annunciado, da sublime escola de Java, examinou o doente e receitou em grego. Quasi ao sair, a mulher perguntou-lhe :

-- Doutor, qual a dieta?

-- Polho cozido ou caldo delle.

A mulher voltou para junto do marido, sem ter comprehendido a dieta, pois temeu mostrar-se ignorante em face do sabio, indagando o que era polho.

Logo que a viu, o marido ralhou-a com doçura :

-- Filha, eu não dizia a você que esses médicos famosos não servem para nada… Este que você trouxe, fala que ninguem o entende, como se a gente falasse para isso… Receita umas mixordias misteriosas… Sabe você de uma cousa ? Continuo com o doutor Nepuchalyth, ali da esquina.

Este ao menos tem juizo e não inventou um modo de falar para elle só entender.

O exemplo de que falei acima, é o que se encontra em obras de um famoso doutor lá de Java. Cito um unico, mas poderia citar muitos. O javanez, doutor de curas, queria dizer:

« Sou de opinião que a febre deve ser combatida na sua causa ».

Julgou isto vulgar, indigno do seu titulo e das suas prerrogativas consuetudinarias, e escreveu provocando a maxima admiração dos seus leitores, da seguinte fórma:

« Erro, quere perescer-me, é não se attentar donde provem tal febre com incendimento e modorra, para só tratal-a ás rebatinhas, tão de prompto como se mesmo fôra ella a doença, senão consequencia muita vez de vitaes desarranjos imigos da sã vida e onde o physico de recado achará a fonte ou as fontes do mal que deixa assi o corpo sem os bons e sãos aspeitos de sua habitual composição. »

Depois de uma belleza destas, a sua entrada na Academia foi certa e inevitavel, pois é nessa espécie de pot-pourri de estylos de tempos desencontrados, com o emprego de um vocabulario senil, tirado á sorte; de salada de feitios de linguagem de epochas differentes, de modismos de seculos afastados uns dos outros, que a gente intelligente de Java encontra a mais alta expressão da sua ôca literatura. Ha excepções, devo confessar. Continuo, sem me deter nellas.

A sciencia javaneza esta muito adeantada. Nunca se fez lá a mais insignificante descoberta; nunca um sabio javanez edificou uma theoria qualquer.

Penso que tal se da por não haver precisão disso; os da estranja supprem as necessidades da mentalidade javaneza.

O sabio da Batavia é o contrario de todos os outros sabios do mundo. Não é um modesto professor que vive com seus livros, seus algarismos, suas retortas ou éprouvettes . O sabio de Java, ao contrario, é sempre um ricaço que foge dos laboratorios, dos livros, das retortas, dos cadinhos, das epuras, dos microscopios, das equatoriaes, dos telescopios, das cobayas, tem cinco ou seis empregos, cada qual mais afanoso, e não falta ás festas mundanas.

A presumpção de scientista, entretanto, não ha quem lá não a tome. Basta que um sujeito tenha aprendido um pouco de algebra ou folheado um compendio de anatomia, para se julgar scientista e se encher de um profundo desdem por toda a gente, sobretudo pelos literatos ou poetas. Comtudo todos desse genero querem sel-o e, em geral, são pessimos.

Vou lhes contar um caso que se passou com o Dr. Karitschá Lanhi, quando foi nomeado director do Cambio do Banco Central de Java. Esse doutor era professor da Escola de Sapadores, da qual mais adeante falarei, e por isso se julgou no direito de pleitear o lugar do Banco. No dia seguinte de sua nomeação, o seu subalterno immediato foi perguntar-lhe qual a taxa de cambio que devia ser affixada.

-- Sempre para a alta. Qual foi a taxa de hontem ?

O empregado retrucou :

-- 18 5|17, doutor.

O sabio pensou um pouco e determinou:

-- Affixe: 18 5|21, senhor Hatati.

O homem reprimiu o espanto e todo o banco riu-se de tão seguro financeiro que lhe caia do céo, por descuido. Não houve remédio senão demittir-se elle uma semana depois de nomeado.

São assim os graves sabios de Java.

Não nos afastemos, porém, do nosso estudo.

Das grandes artes technicas, a mais avançada, como era de esperar, é a medicina. O tratamento geralmente empregado é o do vestuario medico. Consiste elle em usar o doutor certo traje para curar certa moléstia. Para sarar bexigas, o medico vae em ceroulas; para congestão de figado, sobrecasaca e cartola; para tuberculose, tanga e chapéo de palha de coco; antraz, de casaca, etc., etc.

Este curioso methodo foi descoberto recentemente em um paiz proximo que o repudiou, mas veio revolucionar a medicina da grande ilha. Os physicos locaes adoptaram-no immediatamente e augmentaram o preço das visitas e redobraram a caça aos empregos, para aetender ás despezas com a indumentaria e os aviamentos.

Estava a ponto de esquecer-me de falar no ensino da celebre ilha do archipelago de Sonda, pois tanto me alonguei no estudo dos seus medicos, que vou ter a elle com pressa.

Existe uma universidade com tres faculdades superiores; a de «Sapadores», a de «Cortadores» e a de «Physicos». Os cursos destas faculdades duram cerca de cinco annos, mas cada uma dellas tem um sub-curso menor, de dois ou tres annos. A de «Sapadores» tem o de «concertadores de picaretas»; a de «Cortadores» o de «embrulhadores»; e a de «Physicos», o de «cobradores».

Nas margens do Jakarta, rio que banha Batavia, quem não tem um titulo dado por uma dessas faculdades, não póde ser nada, porquanto, aos poucos, os legisladores da terra e a estupidez do povo foram exigindo para exercer os grandes e pequenos cargos do Estado, quer os politicos, quer os administrativos, um qualquer documento universitario de sabedoria.

Todos, por isso, tratam de obtel-o e é a mais dura vicissitude da vida, ser reprovado no curso. E’ raro, mas acontece . Os jovens javanezes empregam toda especie de meios para não serem reprovados, menos estudar. Essa contingencia pueril da bomba , na sociedade javaneza, leva ás almas dos moços daquellas paragens, um travo tão amargo de desconforto que toda a felicidade que lhes chegar posteriormente não o attenuará, e muito menos será capaz de dissolvel-o.

E mesmo que elle se acredite por sua propria iniciativa, mais valiosa e mais segura que os papeis officiaes; por mais aptidões que demonstre sem titulo -- tem que vegetar em lugares subalternos e dar o que tem de melhor aos outros titulados, para que figurem estes como capazes. Ele escreverá as cartas de amor; mas os beijos não serão nelle.

Por um curioso phenomeno sociologico, as ideias brahmanicas de casta se enxertaram nas caducas concepções universitarias do medievo europeu e foram dar nas ilhas de Sonda, sob o pretexto de ensino, nessa extranha e original concepção do doutor javanez. Aproveito a occasião para avisar os leitores que essa concepção religioso-universitaria tambem existe na Republica de Bruzundanga .

Creio, porem, que ella é originaria da grande ilha da Malasia donde foi ter áquella Republica, por caminho que não descobri.

Como todo moço que tem legitimas ambições naquelle recanto do nosso planeta , Harakashy, um javanez que foi muito meu amigo mais tarde, conseguiu entrar para a Escola dos Sapadores, afim de acreditar-se na sociedade em que vivia, e ter o seu lugar sob o sól, com o titulo que a Faculdade dava. Era malaio com muitas gottas de sangue hollandez nas veias, mas sem fortuna nem familia. No começo, as cousas foram indo, elle passou; mas, em breve, Harakashy desandou e foi reprovado umas dez vezes, na Universidade.

Em absoluto não houve injustiça. O meu amigo nada sabia, porque ingenuamente deduzira dos factos que a principal condição para ser approvado, nos exames de Java, é não saber. Enganava-se, porém, supondo que tal homenagem fosse prestada a todos. Recebem-na os filhos dos grandes dignitarios da colonia, dos ricaços, dos homens de negocios que sabem levantar capitaes; mas escolares que não tem tal ascendencia, como o meu amigo, estão talhados para engrossar a estatistica dos reprovados, a fim de comprovar o rigôr que ha nos estudos da Universidade de Batavia.

Dá-se isto, não por culpa total dos professores; mas pelas solicitações de toda a sociedade batavense que quer seus lentes universitarios, homens de salão, de theatros caros, de bailes de alto bordo ; e elles, para aumentar as suas rendas, que custeiem esse luxo, têm que viver ajoujados aos ministros que dão empregos, ou aos brasseurs d’affaires que lhes pedem emprestados os nomes para apadrinhar emprezas honestas, semi-honestas e mesmo deshonestas, em troco de bôas gorjetas.

Quem meu filho beija, minha bocca adoça -- diz o nosso povo.

Em uma sociedade que se modelou assim, não era possivel que o meu Harakashy fosse lá das pernas.

Entretanto, eu o conheci e o senti muito intelligente, culto, amigo dos livros e todo elle saturado de anseios espirituaes. Gostava muito de philosophia, de lettras e, sobretudo, de historia. Leu-me ensaios e eu achei muito bem escriptos, revelando uma grande cultura e um grande poder de evocar.

Mas, Java é muito estupida e não admite intelligencia senão nos «sapadores», nos «physicos» e nos «cortadores».

Ainda não lhes disse o que são os taes «cortadores». São estes assim como os nossos advogados e o seu emblema é uma tesoura, devido a ser, senão de regra, mas de praxe, de tradição que toda a defeza ou accusação judiciaria tenha o maior numero de citações possiveis e taes peças são mais estimadas quando as referencias aos autores consultados vêm nellas coladas com os proprios retalhos dos livros alludidos. A thesoura é instrumento proprio para isto e, dessa maneira, enriquece os «cortadores,» pois os arrazoados dessa natureza são muito bem pagos, embora lhes estraguem as bibliothecas que alcançam muito baixas lecitações quando vão a leilão.

Attribui o desastre da vida escolar do meu amigo ao facto de elle não ter nenhum geito para qualquer das grandes profissões liberaes que a Batavia offerece aos seus filhos.

Se Harakashy nascesse em França ou em outro paiz civilizado, naturalmente a sua propria vocação encaminhal-o-ia para uma applicação mental, de acordo com a sua feição de espirito; mas, em Java, tinha que ser uma daquellas tres coisas, se quisesse figurar como intelligente. Não achando campo para a sua actividade cerebral, muito pouco attraido para o estudo das «Picaretas automaticas», muito orgulhoso para bajular os professores e acceitar approvações por commiseração, o meu amigo ficou naquella exuberante terra sem norte, sem rumo, absolutamente sem saber o que fazer.

Ensinava para vestir- se e comer. E todos que o conheciam desde menino, admiravam-se que, ao infante galhardo dos seus primeiros annos, se houvesse substituido nelle, um rapaz macambuzio, isolado, amargo e cruel nas suas conversas camararias, reçumando sempre uma profunda tristeza.

Aos profundos, parecerá vão; aos superficiaes parecerá tolo--tão grandes consequencias para tão fracas causas.

Não me animo a discutir, mas lembro que o amor tem qualquer cousa de parecido…

Visitei-o sempre. Amei-o na sua desordem de espirito, immensa e ambiciosa de fazer o Grande e o Novo. Em uma das minhas visitas, encontrei-o no seu modesto quarto, deitado em uma especie de enxerga, fumando e tendo um gordo livro ao lado. Eu entrava sem me annunciar. Trocamos algumas palavras e elle me disse logo após:

-- Fizeram muito bem em não me deixar ir adeante.

-- E essa !

-- Não te admires. Continuo a estudar historia e estou convencido.

-- Como?

-- Lê este manuscripto.

Passou-me então um codice fortemente encadernado em couro. Era o livro que tinha ao lado. Pude ler o titulo:

« Historia da Universidade de Batavia com a biographia dos seus mais distinctos alunos, por Degni-Hatdy. --1878»

-- Quem é este Degni-Hatdy? perguntei:

-- Foi um genio, meu caro. Um genio de escola… Recebeu medalhas, diplomas, premios… Vive ainda, mas ninguém o conhece mais.

-- E’ de interesse, a memoria ?

-- E’, e bastante, pois traz a lista dos alumnos illustres da Universidade.

-- Quaes foram?

-- Newton, Huyghens, Descartes, Kant, Pasteur, Claude Bernard, Darwin, Lagrange…

-- Chega.

-- Ainda: Dante e Aristoteles.

-- Uff !

-- Gente de primeira, como vês; e, quando soube, tive orgulho de ter sido de alguma forma collega delles; mas…

Por ahi accendeu um cigarro, tirou duas longas fumaças com a languidez javaneza e continuou com a pachorra batava:

-- Mas, como te dizia, bem cedo tive vergonha de ter um dia passado pela minha mente que eu era capaz de emparelhar-me com taes genios. E’ verdade que não sabia terem elles frequentado a Universidade… Vou esconder-me em qualquer buraco, para me resgatar de tamanha pretenção.

Sahi. Ainda o vi durante alguns dias; mas, bem depressa, desappareceu dos meus olhos. Pobre rapaz! Onde estará?

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Sinopse

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