Universo da obra
Universo da obra
A Andrade Murici
O carteiro Joaquim dos Anjos não era homem de serestas e
serenatas, mas gostava de violão e de modinhas. Ele mesmo tocava flauta,
instrumento que já foi muito estimado, não o sendo tanto atualmente
como outrora. Acreditava-se até músico, pois compunha valsas, tangos
e acompanhamentos para modinhas.
Aprendera a "artinha" musical na terra de seu nascimento, nos
arredores de Diamantina, e a sabia de cor e salteado; mas não safra daí.
Pouco ambicioso em música, ele o era também nas demais
manifestações de sua vida. Empregado de um advogado famoso, sempre
quisera obter um modesto emprego público que lhe desse direito à
aposentadoria e ao montepio, para a mulher e a filha. Conseguira
aquele de carteiro, havia quinze para vinte anos, com o qual estava
muito contente, apesar de ser trabalhoso e o ordenado ser exíguo.
Logo que foi nomeado, tratou de vender as terras que tinha no
local de seu nascimento e adquirir aquela casita de subúrbio, por
preço módico, mas, mesmo assim, o dinheiro não chegara e o resto
pagou ele em prestações. Agora, e mesmo há vários anos, estava de
plena posse dela. Era simples a casa. Tinha dois quartos, um que dava para a sala de visitas e outro, para a de jantar. Correspondendo a um
terço da largura total da casa, havia nos fundos um puxadito que era
a cozinha. Fora do corpo da casa, um barracão para banheiro, tanque,
etc.; e o quintal era de superfície razoável, onde cresciam goiabeiras
maltratadas e um grande tamarineiro copado.
A rua desenvolvia-se no plano e, quando chovia, encharcava
que nem um pântano; entretanto, era povoada e dela se descortinava
um lindo panorama de montanhas que pareciam cercá-la de todos os
lados, embora a grande distância. Tinha boas casas a rua. Havia até
uma grande chácara de outros tempos com aquela casa característica
de velhas chácaras de longa fachada, de teto acaçapado, forrada de
azulejos até â metade do pé-direito, um tanto feia, é fato, sem
garridice, mas casando-se perfeitamente com as anosas mangueiras,
com as robustas jaqueiras e com todas aquelas grandes e velhas árvores
que, talvez, os que as plantaram, não tivessem visto frutificar.
Por aqueles tempos, nessa chácara, se haviam estabelecido as
"bíblias". Os seus cânticos, aos sábados, quase de hora em hora,
enchiam a redondeza. O povo não os via com hostilidade, mesmo
alguns humildes homens e pobres raparigas simpatizavam com eles,
porque, justificavam, não eram como os padres que, para tudo,
querem dinheiro.
Chefiava os protestantes um americano, Mr. Sharp, homem
tenaz e cheio de uma eloqüência bíblica que devia ser magnífica em
inglês; mas que, no seu duvidoso português, se fazia simplesmente
pitoresca. Era Sharp daquela raça curiosa de yankees que, de quando
em quando, à luz da interpretação de um ou mais versículos da Bíblia,
fundam seitas cristãs, propagam-nas, encontram adeptos logo, os
quais não sabem bem por que foram para a nova e qual a diferença
que há entre esta e a de que vieram.
Fazia prosélitos e, quando se tratava de iniciar uma turma, os
noviços dormiam em barracas de campanha, erguidas no eirado da
chácara ou entre as suas velhas árvores maltratadas e desprezadas. As
cerimônias preparatórias duravam uma semana, cheia de cânticos
divinos; e a velha propriedade, com as suas barracas e salmodias,
adquiria um aspecto esquisito de convento ao ar livre de mistura com
um certo ar de acampamento militar.
Da redondeza, poucos eram os adeptos ortodoxos; entretanto,
muitos lá iam por mera curiosidade ou para deliciar-se com a
oratória de Mr. Sharp.
Iam sem nenhuma repugnância, pois é próprio do nosso
pequeno povo fazer um extravagante amálgama de religiões e
crenças de toda sorte, e socorrer-se desta ou daquela, conforme os
transes de sua existência. Se se trata de afastar atrasos de vida, apela
para a feitiçaria; se se trata de curar uma moléstia tenaz e resistente,
procura o espírita; mas não falem à nossa gente humilde em deixar de
batizar o filho pelo sacerdote católico, porque não há quem não se
zangue: Meu filho ficar pagão! Deus me defenda!
Joaquim não fazia exceção desta regra e sua mulher, a Engrácia,
ainda menos.
Eram casados há quase vinte anos, mas só tinham uma filha, a
Clara. O carteiro era pardo claro, mas com cabelo ruim, como se diz;
a mulher, porém, apesar de mais escura, tinha o cabelo liso.
Na tez, a filha puxava o pai; e no cabelo, à mãe. Na estatura,
ficara entre os dois. Joaquim era alto, bem alto, acima da média
ombros quadrados; a mãe, não sendo muito baixa, não alcançava a
média, possuindo uma fisionomia miúda, mas regular, o que não
acontecia com o marido que tinha o nariz grosso, quase chato. A filha,
a Clara, tinha ficado em tudo entre os dois; média deles, era bem a
filha de ambos. Habituada às musicatas do pai, crescera cheia de
vapores das modinhas e enfumaçara a sua pequena alma de rapariga
pobre com os dengues e a melancolia dos descantes e cantarolas.
Com dezessete anos, tanto o pai como a mãe tinham por ela
grandes desvelos e cuidados. Mais depressa ia Engrácia à venda de
"seu" Nascimento, buscar isto, ou aquilo, do que ela. Não que a venda
de "seu" Nascimento fosse lugar de badernas; ao contrário: as pessoas
que lá faziam "ponto" eram de todo o respeito.
O Alípio, uma delas, era um tipo curioso de rapaz, que, conquanto
pobre, não deixava de ser respeitador e bem comportado.
Tinha um aspecto de galo de briga; entretanto, estava longe de
possuir a ferocidade repugnante desses galos malaios de apostas, não
possuindo - é preciso saber - nenhuma.
Um outro que aparecia sempre lá era um inglês, Mr. Persons,
desenhista de uma grande oficina mecânica das imediações. Quando
saía do trabalho, passava na venda, lá se sentava naqueles característicos
tamboretes de abrir e fechar, e deixava-se ficar até ao anoitecer
bebericando ou lendo os jornais do senhor Nascimento. Silencioso
quase taciturno, pouco conversava e implicava muito com quem o
tratava por mister.
Havia lá também o filósofo Meneses, um velho hidrópico, que
se tinha na conta de sábio, mas que não passava de um simples
dentista clandestino, e dizia tolices sobre todas as cousas. Era um velho
branco, simpático, com um todo de imperador romano, barbas alvas
e abundantes.
Aparecia, às vezes, o J. Amarante, um poeta, verdadeiramente
poeta, que tivera o seu momento de celebridade em todo o Brasil, se
ainda não a tem; mas que, naquela época, devido ao álcool e a desgostos
íntimos, era uma triste ruína de homem, apesar dos seus dez
volumes de versos, dez sucessos, com os quais todos ganharam
dinheiro menos ele. Amnésico, semi-imbecilizado, não seguia uma
conversa com tino e falava desconexamente. O subúrbio não sabia
bem quem ele era; chamava-o muito simplesmente - o poeta.
Um outro freqüentador da venda era o velho Valentim, um por-
tuguês dos seus sessenta anos e pouco, que tinha o corpo curvado
para diante, devido ao hábito contraído no seu oficio de chacareiro
que já devia exercer há mais de quarenta. Contava 'casos" e anedotas
de sua terra, pontilhando tudo de rifões portugueses do mais
saboroso pitoresco.
Apesar de ser assim decente, Clara não ia à venda; mas o pai, em
alguns domingos, permitia que fosse com as amigas ao cinema do
Méier ou Engenho de Dentro, enquanto ele e alguns amigos ficavam
em casa tocando violão, cantando modinhas e bebericando parati.
Pela manhã, logo nas primeiras horas, os companheiros apareciam,
tomavam café, iam em seguida para o quintal, para debaixo do
tamarineiro, jogar a bisca, com o litro de cachaça ao lado; e
ai, sem dar uma vista d'olhos sobre as montanhas circundantes, nuas e
empedrouçadas, deixavam-se ficar até à hora do "ajantarado" que a
mulher e a filha preparavam.
Só depois deste é que as cantorias começavam.
Certo dia, um dos companheiros dominicais do Joaquim pediu-lhe licença para
trazer, no dia do aniversário dele, que estava próximo, um rapaz de
sua amizade, o Júlio Costa, que era um exímio cantor de modinhas.
Acedeu. Veio o dia da festa e o famoso trovador apareceu. Branco,
sardento, insignificante, de rosto e de corpo, não tinha as tais melenas
denunciadoras, nem outro qualquer traço de capadócio. Vestia-se
seriamente com um apuro muito suburbano; sob a tesoura de
alfaiate de quarta ordem. A única pelintragem adequada ao seu mister
que apresentava consistia em trazer o cabelo repartido no alto da
cabeça, dividido muito exatamente pelo meio. Acompanhava-o o violão.
A sua entrada foi um sucesso.
Todas as moças das mais diferentes cores que, ai, a pobreza
harmonizava e esbatia, logo o admiraram. Nem César Bórgia,
entrando mascarado, num baile à fantasia dado por seu pai, no
Vaticano, causaria tanta emoção.
Afirmavam umas para as outras:
-É ele! É ele, sim!
Os rapazes, porém, não ficaram muito contentes com isto; e,
entre eles, puseram-se a contar histórias escabrosas da vida galante
do cantor de modinhas.
Apresentado aos donos da casa e à filha, ninguém notou o olhar
guloso que deitou para os seios empinados de Clara.
O baile começou com a música de um "terno" de flauta, cavaquinho
e violão. A polca era a dança preferida e quase todos a dançavam com requebros
próprios de samba.
Num intervalo Joaquim convidou:
- Por que não canta, "seu" Júlio?
- Estou sem voz, respondeu ele.
Até ali, ele tinha tomado parte no "remo"; e, repinicando as
cordas, não deixava de devorar com os olhos os bamboleios de quadris de
Clarinha, quando dançava. Vendo que seu pai convidara o rapaz,
animou-se a fazê-lo também:
- Por que não canta, "seu" Júlio? Dizem que o senhor canta tão
bem...
Esse - "tão bem" - foi alongado maciamente. O cantador
acudiu logo:
- Qual, minha senhora! São bondades dos camaradas...
Concertou a "pastinha" com as duas mãos, enquanto Clara dizia:
- Cante! Vá!
- Já que a senhora manda, disse ele, vou cantar.
Com todo o dengue, agarrou o violão, fez estalar as cordas e anunciou:
- Amor e sonho.
E começou com uma voz muito alta, quase berrando, a modinha,
para depois arrastá-la num tom mais baixo, cheio de mágoa e langor,
sibilando os "ss", carregando os "rr" das metáforas horrendas de que
estava cheia a cantoria. A cousa era, porém, sincera; e mesmo as comparações
estrambóticas levantavam nos singelos cérebros das ouvintes largas
perspectivas de sonhos, erguiam desejos, despertavam anseios e visões
douradas. Acabou. Os aplausos foram entusiásticos e só Clarínha não aplaudiu,
porque, tendo sonhado durante toda a modinha, ficara ainda embevecida quando
ela acabou...
Dias depois, vindo à janela por acaso - era de tarde - sem
grande surpresa, como se já o esperasse, Clara recebeu o cumprimento
do cantor magoado. Não pôs malícia na cousa, tanto assim que
disse candidamente à mãe:
- Mamãe, sabe quem passou aí?
- Quem?
- "Seu" Júlio.
- Que Júlio?
- Aquele que cantou nos "anos" de papai.
A vida da casa, após a festança de aniversário do Joaquim,
continuou a ser a mesma. Nos domingos, aquelas partidas de bisca com
o Eleutério, servente da biblioteca, e com o Augusto, guarda municipal,
acompanhadas de copitos de cachaça, e o violão, à tarde. Não tardou
que se viesse agregar um novo comensal: era o Júlio Costa, o famoso
modinheiro suburbano, amigo íntimo do Augusto e seu professor de
trovas.
Júlio quase nunca jantava, pois tinha sempre convites em todos os
quatro pontos cardeais daquelas paragens. Tomava parte nas partidas
de bisca, de parceirada, e pouco bebia. Apesar de não demorar-se
pela tarde adentro, pôde ir cercando a rapariga, a Clara, cujos seios
empinados, volumosos e redondos fascinavam-lhe extraordinariamente
e excitavam a sua gula carnal insaciável. Em começo foram só
olhares que a moça, com os seus úmidos olhos negros, grandes,
quase cobrindo toda a esclerótica, correspondia a furto e com medo;
depois, foram pequenas frases, galanteios, trocados às escondidas,
para, afinal, vir a fatídica carta.
Ela a recebeu, meteu-a no seio e, ao deitar-se, leu-a, sob a luz da
vela, medrosa e palpitante. A carta era a cousa mais fantástica, no que
diz respeito à ortografia e à sintaxe, que se pode imaginar; tinha,
porém, uma virtude: não era copiada do Secretário dos amantes, era
original. Contudo a missiva fez estremecer toda a natureza virgem de
Clara que, com a sua leitura, sentiu haver nela surgido alguma cousa
de novo, de estranho, até ali nunca sentida. Dormiu mal. Não sabia
bem o que fazer: se responder, se devolver. Viu o olhar severo do pai;
as recriminações da mãe. Ela, porém, precisava casar-se. Não havia de
ser toda a vida assim como um cão sem dono... Os pais viriam a morrer
e ela não podia ficar pelo mundo desamparada... Uma dúvida lhe
veio: ele era branco; ela, mulata... Mas que tinha isso?
Tinham-se visto tantos casos... Lembrou-se de alguns... Por que não havia de
ser? Ele falava com tanta paixão... Ofegava, suspirava, chorava; e os
seus seios duros estouravam de virgindade e de ansiedade de amar...
Responderia; e assim fez, no dia seguinte. As visitas de Costa
tomaram-se mais demoradas e as cartas mais constantes. A mãe
desconfiou e perguntou à filha:
- Você está namorando "seu" Júlio, Clarinha?
- Eu, mamãe! Nem penso nisso...
- Está, sim! Então não vejo?
A menina pôs-se a chorar; a mãe não falou mais nisso; e Clara,
logo que pôde, mandou pelo Aristides, um molecote da vizinhança,
uma carta ao modinheiro, relatando o fato.
Júlio morava na estação próxima e a situação de sua família era
bem superior à sua namorada. O seu pai tinha um emprego regular
na prefeitura e era, em tudo, diferente do filho. Sisudo, grave, sério,
ia até a imponência grotesca do bom funcionário; e não seria capaz
de admitir que a namorada do filho dançasse na sua sala. Sua mulher
não tinha o ar solene do marido, era, porém, relaxada de modos e
hábitos. Comia com a mão, andava descalça, catava intrigas e
"novidades" da vizinhança; mas tinha, apesar disso, uma pretensão
intima de ser grande cousa, de uma grande família.
Além do Júlio, tinha três filhas, uma das quais já era adjunta municipal;
e, das outras duas,
uma estava na Escola Normal e a mais moça cursava o Instituto de Música.
Tiravam muito ao pai, no gênio sobranceiro, no orgulho fofo da
família; e tinham ambição de casamentos doutorais. Mercedes,
Adelaide e Maria Eugênia, eram esses os nomes, não suportariam de
nenhuma forma Clara como cunhada, embora desprezassem soberbamente
o irmão pelos seus maus costumes, pelo seu violão, pelos
seus plebeus galos de briga e pela sua ignorância crassa.
Pequeno-burguesas, sem nenhuma fortuna, mas, devido à situação
do pai e a terem freqüentado escolas de certa importância, elas não
admitiriam, para Clara, senão um destino: o de criada de servir.
Entretanto, Clara era doce e meiga; inocente e boa, podia-se
dizer que era muito superior ao irmão delas pelo sentimento, ficando
talvez acima dele pela instrução, conquanto fosse rudimentar, como
não podia deixar de ser, dada a sua condição de rapariga pobríssima.
Júlio era quase analfabeto e não tinha poder de atenção suficiente
para ler o entrecho de uma fita de cinematógrafo. Muito estúpido, a
sua vida mental se cifrava na composição de modinhas delambidas,
recheadas das mais estranhas imagens que a sua imaginação erótica,
sufocada pelas conveniências, criava, tendo sempre perante seus
olhos o ato sexual.
Mais de uma vez, ele se vira a braços com a polícia por causa de
defloramento e seduções de menores.
O pai, desde a segunda, recusara intervir; mas a mãe, dona Inês,
a custo de rogos, de choro, de apelo - para a pureza de sangue da
família, conseguira que o marido, o capitão Bandeira, procurasse
influenciar, a fim de evitar que o filho casasse com uma negrinha de
dezesseis anos, a quem o Júlio "tinha feito mal".
Apesar de não ser totalmente má, os seus preconceitos junto à
estreiteza da sua inteligência não permitiram ao seu coração que
agasalhasse ou protegesse o seu infeliz neto. Sem nenhum remorso,
deixou-o por aí, à toa, pelo mundo...
O pai, desgostoso com o filho, largara-o de mão; e quase não se
viam. Júlio vivia no porão da casa ou nos fundos da chácara onde
tinha gaiolas de galos de briga, o bicho mais hediondo, mais repugnantemente
feroz que é dado a olhos humanos ver. Era a sua indústria
e o seu comércio, esse negócio de galos e as suas brigas em rinhadeiros.
Barganhava-os, vendia-os, chocava as galinhas, apostava nas rinhas;
e com o resultado disso e com alguns cobres que a mãe lhe dava,
vivia e obtinha dinheiro para vestir-se. Era o tipo completo do
vagabundo doméstico, como há milhares nos subúrbios e em outros
bairros do Rio de Janeiro.
A mãe, sempre temendo que se repetissem os seus ajustes de
contas com a polícia, esforçava-se sempre por estar ao corrente dos
seus amores. Veio a saber do seu último com a Clara e repreendeu-o
nos termos mais desabridos. Ouviu-a o filho respeitosamente, sem
dizer uma palavra; mas, julgou da boa política relatar, a seu modo,
por carta, tudo à namorada. Assim escreveu:
"Queridinha confeço-te que ontem quando recebi a tua carta
minha mãe viu e fiquei tão louco que confecei tudo a mamãe
que lhe amava muito e fazia por você as maiores violências,
ficaram todos contra mim é a razão porque previno-te que não
ligues ao que lhe disserem, por isso pesso-te que preze bem o
meu sofrimento.
Pense bem e veja se estás resolvida a fazer o
que lhe pedi na última cartinha.
Saudades e mais saudades deste infeliz que tanto lhe adora e
não é correspondido. O teu Júlio".
Clara já estava habituada com a redação e ortografia do seu
namorado, mas, apesar de escrever muito melhor, a sua instrução era
insuficiente para desprezar um galanteador tão analfabeto. Ainda por
cima, a sua fascinação pelo modinheiro e a sua obsessão pelo casamento
lhe tiravam toda a capacidade critica que pudesse ter. A carta
produziu o efeito esperado por Júlio. Choro, palpitações, anseios vagos,
esperanças nevoentas, vislumbres de céus desconhecidos e encantados
- tudo isso aquela carta lhe trouxe, além do halo de dedicação e amor
por ela com que Clara fez resplandecer, na imaginação, as pastinhas
do violeiro. Daí a dias, fez o prometido, isto é, deixou a janela do
quarto aberta para que ele entrasse no aposento. Repetiu a façanha
quase todas as noites seguidas, sem que ele se demorasse muito
no quarto.
Nos domingos, aparecia, cantava e semelhava que entre ambos
não havia nada. Um belo dia, Clara sentiu alguma cousa de estranho
no ventre. Comunicou ao namorado. Qual! Não era nada, disse ele.
Era, sim; era o filho. Ela chorou, ele acalmou-a, prometendo
casamento. O ventre crescia, crescia...
O cantador de modinhas foi fugindo, deixou de aparecer a
miúdo; e Clara chorava. Ainda não lhe tinham percebido a gravidez.
A mãe, porém, com auxilio de certas intimidades próprias de mãe
para filha, desconfiou e pó-la em confissão. Clara não pôde esconder,
disse tudo; e aquelas duas humildes mulheres choraram abraçadas
diante do irremediável... A filha teve uma idéia:
- Mamãe, antes da senhora dizer a papai, deixa-me ir até à casa
dele, para falar com a sua mãe?
A velha meditou e aceitou o alvitre:
- Vai!
Clara vestiu-se rapidamente e foi. Recebida com altaneria por
uma das filhas, disse que queria falar à mãe de Júlio. Recebeu-a esta
rispidamente; mas a rapariga, com toda a coragem e com sangue-frio
difícil de crer, confessou-lhe tudo, o seu erro e a sua desdita.
- Mas o que é que você quer que eu faça?
- Que ele se case comigo, fez Clara num só hausto.
- Ora, esta! Você não se enxerga! Você não vê mesmo que
meu filho não é para se casar com gente da laia de você! Ele não
amarrou você, ele não amordaçou você... Vá-se embora, rapariga!
Ora já se viu! Vá!
Clara saiu sem dizer nada, reprimindo as lágrimas, para que na
rua não lhe descobrissem a vergonha. Então, ela? Então ela não se
podia casar com aquele calaceiro, sem nenhum título, sem nenhuma
qualidade superior? Por quê?
Viu bem a sua condição na sociedade, o seu estado de inferioridade
permanente, sem poder aspirar a cousa mais simples a que todas
as moças aspiram. Para que seriam aqueles cuidados todos de seus
pais? Foram inúteis e contraproducentes, pois evitaram que ela
conhecesse bem justamente a sua condição e os limites das suas
aspirações sentimentais... Voltou para casa depressa. Chegou; o pai
ainda não viera.
Foi ao encontro da mãe. Não lhe disse nada; abraçou-a chorando.
A mãe também chorou e, quando Clara parou de chorar, entre soluços, disse:
- Mamãe, eu não sou nada nesta vida.
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