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Histórias e Sonhos

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Histórias e Sonhos

Capítulo 15 · Histórias e Sonhos

Magua que rala

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Magua que rala

Dos chefes de Estado que tem tido o Brasil, o que mais amou,
e muito profundamente, o Rio de Janeiro, foi sem dúvida, Dom João
VI; e a população da cidade e arredores ainda tem na memória, nos
dias contemporâneos, mais de um século após a sua chegada a estas
plagas, a lembrança do seu nome. Nas freguesias afastadas do antigo
Município Neutro, que conservam até hoje uma forte feição roceira, a
recordação do rei bondoso e bonachão é mais viva e o seu nome é
pronunciado pela gente mais humilde de tais lugarejos, sofrendo uma
abreviatura singular - "Dom Sexto". Os que o precederam e nos
governaram como vice-reis e governadores gerais portaram-se na
capital da ilimitada colônia portuguesa como simples funcionários,
executores de ordens dos reis, ministros, conselhos, mesas disto e
daquilo, sem olhar sequer as árvores, o céu, as cenas que os cercavam
e muito menos a gente da terra. Acredito que, com a sua empáfia de
fidalgos avariados, muitos deles duvidassem da humanidade dessa
última e se aborrecessem com a natureza local, pululante e grandiosa.
Não se pareciam com as cousas semelhantes de Portugal e não se
podiam medir pelo estalão delas; não prestavam, portanto. A gente,
para eles, um pouco mais que animais, eram uns negros à-toa; e a
natureza, um flagelo de mosquitos e cascavéis, sem possuir uma
proporcionalidade com o homem, como a de Portugal, que parecia um
jardim, feito para o homem.

Mesmo os nossos poetas mais velhos
nunca entenderam a nossa vegetação, os nossos mares, os nossos
rios; não compreendiam as nossas coisas naturais e nunca lhes
pegaram a alma, o substractum; e se queriam dizer alguma coisa
sobre ela caiam no lugar-comum amplificado e no encadeamento de
adjetivos grandiloqüentes, quando não voltavam para a sua arcadiana
e livresca floresta de álamos, plátanos, mirtos, com vagabundíssimas
ninfas e faunos idiotas, segundo a retórica e a poética didáticas das
suas cerebrinas escolas, cheias de pomposos tropos, de rapé, de latim,
e regras de catecismo literário.

Se, nos poetas, o sentimento da natureza era esse de paisagens
de poetas latinos, numa diluição já tão exaustiva que fazia que os
autores do decalque se parecessem todos uns com os outros, como se
poderia exigir de funcionários, fidalgos limitados, na sua própria
prosápia, uma maior força original de sentimento diante dos novos
quadros naturais que a luminosa Guanabara lhes dava, cercando as
águas de mercúrio de suas harmoniosas enseadas?
Dom João VI, porém, nobre de alta linhagem e príncipe do século
de Rousseau, mal enfronhado na literatura palerma dos árcades, dos
desembargadores e repentistas, estava mais apto para senti-los de
primeira mão, diretamente. Podia ele, perfeitamente, amar o passaredo
alegre na plumagem e triste no canto, a gravidade alpestre de
cenários severos, os morros cobertos de árvores de insondável verde-escuro,
que descem pelas encostas amarradas umas às outras, pelos
cipós e trepadeiras, até o mar fosco que muge ao sopé deles.

O sucesso de Rousseau entre a alta fidalguia do seu tempo foi
um estranho acontecimento que hoje surpreende a todos nós, tanto
mais que não se passa uma geração e vem ele a ser amaldiçoado
pelos filhos e netos dos que o festejaram, como sendo um dos autores
do 89 e do rubro 93.

Antes disso foi ele o enfant gâté da grande nobreza e da
grande burguesia que àquela se assemelhava nos gestos, nos
gostos, nos vestuários, em tudo, enfim, até no modo de assinar o nome.

Depois dos seus primeiros sucessos musicais e literários, mesmo
antes com a sua mãe-amante, Mme de Warens, Jean-Jacques foi o mimo,
o autor predileto da alta nobreza e da grande burguesia, que esperavam
a guilhotina da Grande Revolução lendo as suas declamações e objurgatórias
contra a civilização. Sempre lido por elas, sempre por elas
agraciado e socorrido, ambas sorveram com lágrimas nos olhos as
palavras do genebrino, cujas obras deviam inspirar e sustentar o
ânimo do sumo pontífice da guilhotina - Robespierre. E Rousseau,
nas festanças e bailes do rico financeiro Dupin, avô ou coisa parecida
de George Sand que, numa edição das Confessions, prefaciada por
ela, se confessa fiel ao espírito do comensal de seu avô, naquele
lacustre castelo de Chenonceaux, erguido a capricho sobre as águas
do Cher; é Mme d'Épinay, é a marechala de Luxembourg, é o marquês
de Girardin, é o príncipe de Conti, é Frederico II, é o marechal, governador
de Neuchâtel, em nome deste último, e tantos outros magnatas do tempo.

Dom João VI devia tê-lo lido e, sendo desgraçado três vezes,
como filho, como marido e como rei, havia de encontrar a sua alma
bem aberta para lhe receber as lições e compreender de modo mais
amplo a natureza, de modo a ser solicitado para um convívio mais
íntimo com as árvores, com os regatos, com as cascatas, fossem elas
civilizadas, bárbaras ou selvagens.

Fugindo do seu reino, trazendo consigo a mãe louca, que pedia,
ao embarcar em Lisboa, andassem mais devagar, para não parecer
que fugiam; obrigado pelo seu nascimento e as condições particulares
do seu estado, a suportar uma mulher que perdera toda a conveniência,
todo o pudor e todo o respeito a si própria, nos seus desregramentos
sexuais - o pobre rei, gordo, glutão, tido como estúpido,
desconfiado da sua paternidade oficial, só encontrava na música e
nos aspectos naturais derivativos para a sua muito humana necessidade
de efusões sentimentais.

Na sua vida de grandes mágoas e profundas dores, o seu
desembarque no Rio com certeza foi para a sua alma uma aleluia.
A augusta beleza do cenário natural, a sua originalidade imprevista e
grandiosa - sem atingir o incompreensível do desmedido e do colossal,
a efusão filial de toda uma bizarra população de brancos, índios,
negros e mulatos, quase toda a chorar, provocaram muito naturalmente
a simpatia, fizeram-lhe logo brotar no coração uma grande
afeição pelo lugar, animaram-no novamente a viver, sentir-se rei de
fato - Rei - o chefe aceito voluntariamente, como pai e senhor,
por todos aqueles súditos longínquos que o viam pela primeira vez.

Dom João, diz Oliveira Lima, caminha sereno, com a melancolia
a fundir-se ao calor da simpatia que o estava acolhendo.

Para bem ver a terra, então, ele se esqueceu das quinze mil pessoas
que o acompanhavam desde as margens do Tejo, daqueles
quinze mil "desembargadores e repentistas, peraltas e sécias,
frades, e freiras, monsenhores e castrados - enxame de parasitas
imundos", como diz Oliveira Martins, que aportava em São Sebastião para
esvair quotidianamente a Ucharia Real e enchê-la em troca de zumbidos
de intrigas, mexericos e alcovitices.

E o rei pagou bem o carinho filial com que o Rio de Janeiro o
recebeu; foi grato. Tratou logo de arranjar uma nobreza da terra, que
ele mesmo dizia não ser "nobreza" mas "tafetá"; protegeu José
Maurício e autorizou que a sua desgraciosa mas sagrada figura de rei,
de nobre da mais alta e pura fidalguia, apesar da filha do Barbadão,
fosse pintada na tela por um pobre pintor mulato, José Leandro, que
nunca vira a Itália, nem museus, nem academias, e talvez até nem
tivesse mestres.

Mas, não foi só aí que mostrou a sua gratidão para os afagos
recebidos por ele, na sociedade da Guanabara; não o foi também,
unicamente, nas instituições de ensino e outras que criou; foi para a
terra que o seu agradecimento se voltou, foi para a sua beleza de que
se enamorou, onde quis deixar as marcas e o penhor do grande
amor que ela lhe inspirara.

De fato, não há lugar no Rio de Janeiro que não tenha uma
lembrança do simplório rei erisipeloso e gordo. De Santa Cruz à ilha do
Governador, numa distância de vinte léguas, as há por toda parte; da
ilha do Governador à Gávea, também; e no centro da cidade são inúmeras.

Com as más entradas daqueles tempos, talvez pouco piores que
as de hoje, é incrível como esse homem, tido por preguiçoso, indolente,
vadio, vencesse tão grandes distâncias, andando de um lado
para o outro, só para gozar os pinturescos e pitorescos recantos de
sua improvisada capital ultramarina.

Hoje, com bondes elétricos, automóveis e o mais, os nossos
grandes burgueses, alguns, dados todos os descontos, mais ricos do
que o príncipe regente, só sabem amontoar-se em Botafogo, em
palacetes de um gosto afetado, pedras falsas de arquitetura, com as
tabuletas idiotas de "vilas" (sic) disto ou daquilo.

E não era só o rei; a própria rainha foi-se para Botafogo, hoje
"melindroso" e "encantador" mas, naquele tempo, roça perfeita; Von
Langsdorff, cônsul geral da Rússia, tinha uma fazenda na raiz da serra,
onde cultivava em larga escala a mandioca; Chamberlain, também
cônsul-geral, mas da Inglaterra, era proprietário de uma chácara em
Santa Tereza, para caçar borboletas e plantar café; um emigrado
político, o conde de Hogendrop foi morar como simples roceiro da
terra, nas Águas Férreas; e o pintor Taunay, membro do Instituto de
França, que veio com a missão artística de Lebreton, foi residir com
toda a família, nas proximidades da cascatinha da Tijuca.

A nossa burguesia atual, porém, é panurgiana e, por isso, banaliza
tudo em que toca ou de que se utiliza. Darwin, quando passou por
aqui, em 1832, habitou durante os belos meses cariocas de maio e
junho uma pequena casa de roça, nas cercanias da baía de Botafogo.
É impossível, diz elle, sonhar nada mais delicioso do que essa residencia
de algumas semanas em paiz tão admiravel. Hoje, se elle
visse esse suburbio do Rio de Janeiro, com as suas casas
quasi todas iguaes em pacholice; com os seus jardins economicos
de terra e, mais do que isso, avaros; com a sua
aristocracia de melindrosas desfructaveis e encantadoras
com o espirito nas pontas dos dedos, ambos, machos e
femeas, esthetas de cinemas; com os seus verdadeiros e falsos
ricos, arrogantes e avidos; com os seus lacaios e badauds
do luxo de pacotilha que lá impera; como não se
recordaria da meiguice primitiva do logar, quando por alli
elle caçava planarias , classificadas por Cuvier como vermes
intestinaes, mas que, por signal, não se encontram
nos intestinos de qualquer animal; como lhe dariam saudades
a musica vesperal e dissonante iniciada pelas cigarras
estridentes, e seguida pelo coaxar de rãs e sapos e pelo chiar
dos grillos, com a illuminação instantanea dos pyrilampos?
Mas, a nuvem pardo azul, que nos grandes dias de
luz funde ao longe as cores e as nuanças, observada pelo
sabio inglez, ainda se póde ver naquelle celebre recanto do
Rio de Janeiro. Os burguezes não se erguem da terra; não
escalam o céo. Isso é coisa para titans... A nossa plutocracia,
como a de todos os paizes, perdeu a unica justificação
da sua existencia como alta classe, mais ou menos
viciosa e privilegiada, que era a de educadora das massas,
propulsora do seu alevantamento moral, artistico e social.
Nada sabe fazer de accordo com o paiz, nem inspirar
que se faça. Ella copia os habitos e opiniões uns dos outros,
amontôa-se n’um logar só, e deixa os lindos recantos
do Rio de Janeiro abandonados aos carvoeiros ferozes que,
afinal, saem della mesma.

Encarando a burguezia actual de todo o genero, os recursos
e privilegios de que dispõe, como sendo unicamente
meios de alcançar faceis prazeres e baixas satisfações pessoaes,
e não se compenetrando ella de ter, para com os
outros, deveres de todas as especies falseia a sua missão e
provoca a sua morte. Não precisará de guilhotina...

É bom lembrar, porém, já que falavamos em Darwin, que elle -- e não podia deixar de fazel-o -- se refere tambem
ao jardim Botanico; e este recanto do Rio de Janeiro,
tão peculiar á cidade que é até um dos seus emblemas,
fala ainda de D. João VI. Até bem pouco tempo, era o
lugar predilecto para os passeios burguezes e familiares.
Era o logar dos pic-nics ou convescótes; e, aos domingos
e dias de festas, quem lá fosse, encontraria, á sombra das
suas veneraveis arvores, familias e convivas, creados e mucamas,
namorados e noivos, a comer o leitão assado e o
perú recheiado, votivos á bôa harmonia e felicidade dos
lares, em dias de sacrificio domestico do nosso culto aos
Penates. Foram prohibidos, e o Jardim Botanico só ficou
lembrado por causa de uma casa rustica que havia de
fronte delle, especie de hospedaria disfarçada em que, á
noite, se realisavam pandegas alegres de rapazes e raparigas
que não tinham o que perder. Assim mesmo, entretanto,
elle não se aguentou na memoria dos cariocas passeadores.
Como o Sylvestre, a Tijuca e o moderno Sumaré,
passou da moda. Hoje é em Copacabana e adjacencias
que se realisam as pandegas e se epilogam tragedias ou
comedias conjugaes. O Jardim Botanico, porém, ficou
socegado, quieto entre o mar bem proximo e a selva verde-negra
que cobre os contrafortes do Corcovado ao fundo,
polvilhada de prata após as grandes chuvas, lançando
sobre os que o abandonaram o desdem de suas palmeiras
altivas e titanicamente attraidas para o céo, á espera de
que, para as suas alfombras, voltem as familias em festança
honesta e os amorosos irregulares em transportes
sagrados, afim de abençoar, quer umas, quer outras, debaixo
das arcarias gothicas dos seus bambús veneraveis.

Comquanto tenha tido a primazia de nortear, para o
seu portão a primeira linha de bondes que se construiu no
Rio de Janeiro, de uns tempos a esta parte o Jardim deixou
de ser falado nos jornaes, nas chronicas elegantes, não mais
foi escolhido para festividades mundanas a estrangeiros
de distincção ephemera; e a massa dos cariocas, deshabituando-se
de lhe ouvir o nome, nem vendo a sua alameda
senhorial de palmeiras nas notas do Thesouro, esqueceu-se daquelle pedaço da cidade, que é bem e só elle
mesmo, elle unicamente, sem semelhança com outro.

Um bello dia de annos passados, porém, nas primeiras
horas da manhã, logo após o café, abrindo os jornaes,
deram os cariocas com a primeira pagina de quasi todos os
quotidianos occupada com uma longa noticia, entremeiada
de gravuras macabras e physionomias satisfeitas de policiaes
em diligencia.

Cada qual das gazetas tinha mais titulos e sub-titulos e
cada qual destes era mais campanudo e inexplicavel.
Leram a noticia e, em summa, tratava-se do seguinte:
tendo fechado o jardim, os guardas, conforme mandava
o regulamento, passaram revista a todo elle. Davamna
por acabada, quando um delles encontrou, na borda de
um gramado, um punhal exquisito, «esquinado», dizia
elle, com uma inscripção na face da lamina. Era simples e
em hespanhol o motte: «Soy io!». O achado intrigou-o,
esquadrinhou melhor os arredores e veio a dar, dissimulado
em uma moita, com o cadaver de uma mulher com o
rosto arroxeado e congestionado, inteiramente vestida, só
com chapéo fóra do logar, mas, posto por outra mão ao
lado della. Parecia estrangeira. De subito e de forma tão
tetrica, foi arrancado do esquecimento a lembrança do velho
jardim real; e elle surgiu a todos da cidade com uma
aureola de martyrio, feita da ingratidão de toda uma população
a cujos paes e avós, sem nada lhes pedir, elle soubera
dar tantos instantes de alegria e amor.

Os jornaes lembraram a sua historia, a sua fundação
pelo rei D. João VI, os beneficios que havia prestado com
fornecimentos de sementes de plantas uteis ou «mudas» de
variedades de canna de assucar; lembraram a plantação de
chá que lá houvera, sem esquecer de louvar as esguias e
magestosas palmeiras, uma das quaes, plantada pelas proprias
mãos do rei, estava morrendo de velha.

O inquerito veio a correr, ou melhor, a arrastar-se sem
esperança de resultado; e a inscripção em hespanhol, no
punhal, fazia que as autoridades policiaes prendessem, não
só todos os subditos do rei de Hespanha que encontravam mão, como também colombianos,
argentinos, chilenos, e até um filipino azeitonado foi preso, apesar de
ser um simples e inofensivo malaio vagabundo e cabeludo, que vivia
a catar ervas medicinais para vendê-las aos herbanários da rua Larga
e aos chefes de macumbas e "candomblés" dos subúrbios longínquos.
Tudo em pura perda.

A vítima foi identificada. Era uma criada alemã, arrumadeira de
um grande hotel de luxo do Silvestre ou de Santa Tereza, que, nos
seus dias de folga ou licença, gostava de passear pelos arredores da
cidade e beber cerveja em toda parte. Todos os freqüentadores de casas
de chopes conheciam aquela pequena alemã, de Baden, rechonchudinha,
polpuda que nem um repolho, com os malares sempre rosados,
possuidora de um perfeito aspecto de boneca alemã de carregação,
que bebia mais do que os patrícios, rindo e estalando as palavras no
duro e gutural alemão, cuja família diziam ser de camponeses de um
lugarejo do grão-ducado. Os seus papéis eram cartas dos pais, de
irmãos e parentes, além de lembranças de uns e outros, como
retratos, sem mais outro traço sentimental que não este da família; e
sobre o seu cadáver foram encontradas as jóias que a sua modesta
condição permitia possuir: um anel de pouco preço, umas bichas de
ouro e brilhantes mas de valor pouco considerável, um par de
pulseiras, algum dinheiro e mais nada.

O doutor Matos Garção era quem conduzia o inquérito; mas
esse moço, feito delegado de polícia, por empenhos de políticos
do interior e sendo ele mesmo de São Sebastião de Passa Quatro, pecava
por inteiro desconhecimento do Rio de Janeiro, de forma que, apesar
de ter alguma inteligência, andou dando por paus e por pedras, cego,
tonto, numa descontinuidade de esforços de causar riso e pena.

Houve até uma diligência que, inspirada por ele, parecia
encaminhá-lo para a descoberta do assassino da pequena Graüben
Hunderbrok; mas que ele não a soube aproveitar. Tendo observado
que muitos desses imigrantes espontâneos chegam ao Rio de Janeiro,
com passagem por Buenos Aires, conseguiu obter da polícia argentina
informações a respeito da alemãzinha assassinada. De lá, noticiaram
que ela estivera naquela cidade do Prata, havia já quatro anos, quando,
tendo vinte e três de idade, viera de França, de Paris, acompanhando
uma família rica argentina, como criada. Meses depois, poucos, quatro,
se tanto, despedira-se bruscamente e subitamente embarcara para a
Guanabara. Era o que informaram as pessoas da família Avendaña,
com a qual aportara em Buenos Aires. Um casal de alemães, cujo
marido tinha um emprego secundário nas oficinas da Cervejaria
Brama, sem ser solicitado, depôs perante o delegado. O que havia de
importante, no depoimento dele, era que Graüben tinha na sua com-
panhia um filho de quatro anos, a que dera à luz alguns meses após
a sua chegada de Buenos Ayres. O exame médico-legal tinha já indicado
essa maternidade que ela parecia querer ocultar.

O punhal foi bem examinado; mas apesar de parecer a todos
uma arma de luxo e antiga, cabo de prata lavrada, guarda de aço com
arabescos tauxiados e a tal inscrição sibilina - Soy yo! na lâmina também
tauxiada de arabescos, nenhum dos armeiros, chamados para quesitos,
se animavam a dizê-lo autêntico, hesitavam na determinação de sua
procedência, uns queriam-na toledana, outros italiana das primitivas
armas da Renascença e alguns mesmo chegaram a pensar em uma
imitação, para "engazopar" os colecionadores "rastas" da América do
Sul. A bainha não foi encontrada; a adaga estava imaculada de
sangue, pois a morte se dera por estrangulamento, tendo o assassino
simplesmente esganado a rapariga com ambas as mãos.

Ia assim o inquérito, cansando todos: delegado, escrivão,
comissários, guardas, agentes, polícias de farda, "encostados", jornalistas e
o público; e já o doutor Matos, de São Sebastião de Passa Quatro, se
resolvera a fechar a semana "espanhola" e inaugurar a "germânica"
com a detenção de muitos alemães, quando a 22 de junho, isto dias
depois do assassínio, surge na delegacia um rapaz de vinte e poucos
anos de idade, boa aparência, que se acusa como autor do homicídio
do jardim.

Chamava-se ele Lourenço da Mota Orestes e era empregado nos
Telégrafos, em um modesto lugar, sendo muito estimado pelos
chefes, superiores e colegas, pela sua reserva, sua assiduidade e obediência.
Fora, antes, empregado no comércio, onde seu pai era também muito
estimado e considerado, pela sua honestidade e rigor no
cumprimento das suas obrigações. Tinha este um grande "bazar"
muito apregoado, pelas bandas do Estácio de Sá, onde comerciava
com toda a lisura, não tendo por isso grande fortuna, empregando
quase toda a renda da loja nas suas despesas de família.
Lourenço, ao entardecer daquele úmido dia de junho de...,
chegou à delegacia e disse precisar falar ao delegado sobre o assassínio
da alemãzinha. Estava já a autoridade muito enfarada com o
caso e demorou razoavelmente em recebê-lo. Devido à insistência do
rapaz, veio a ser ouvido duas horas depois de sua chegada. Logo que
se aproximou do doutor Matos, disse-lhe sem mais detença que confessava
ser ele o matador de Graüben. O jovem bacharel de São
Sebastião de Passa Quatro estremeceu na ampla cadeira, levantou-se
como se fosse impelido por uma mola, e, acompanhando a fala com um
olhar desvairado, perguntou ao rapaz, para quem tinha a mão direita
estendida, apontando-o dramaticamente, com o dedo indicador:

- Foste tu, então?

- Fui, doutor, disse o rapaz serenamente.

Tocou o delegado a campainha, chamou os seus auxiliares, aos
quais disse em tom de grande satisfação:

- Está ali (apontou) quem matou a alemã no jardim.

Todos exclamaram a um só tempo:

- Este!

O delegado, de novo apontando para o rapaz, confirmou:

- Sim; é este.

Perguntou em seguida ao Lourenço:

- Não foste tu?

- Fui, doutor.

Determinou, então, o doutor Matos Garção que o metessem no
xadrez; que o vigiassem muito e não deixassem conversar com
ninguém. Logo que o rapaz se encaminhou para a prisão da delegacia,
onde estavam os xadrezes, ordenou ao prontidão que telegrafasse ao
chefe, aos auxiliares, à Associação de Imprensa, a todos os jornais,
convidando todos para assistir à confissão do criminoso.

Com tal notícia, a cidade teve um contentamento de alívio e
alguns, curiosos de ver o assassino e talvez ouvir-lhe a confissão que
a nova estampada à porta dos jornais tinha feito encaminharem-se
para o posto policial longínquo, tiveram que esperar até quase às
onze horas da noite o momento de serem satisfeitos e dele saíram nas
imediações da madrugada.

O chefe e os policias graúdos chegaram às nove horas, os
repórteres dos principais jornais pouco depois, mas faltava o do O
Arauto do Povo, um jomal ainda novo, mas de grande venda, que
chegou pelas proximidades das onze horas e foi esperado devido às
ordens do chefe, pois O Arauto fazia-lhe uma oposição cega e
queria ele provar à sua redação o quanto eram infundados os seus
artigos.

Tendo chegado, afinal, o repórter, seguido de fotógrafo como
alguns outros, o criminoso foi introduzido.

Antes, tinham os jornalistas tirado aspectos da "mesa", como
chefe de polícia, auxiliares, delegados, escrivão, sentados, e, de
pé, às costas destes, inspetores, guardas, polícias, etc.

O moço entrou e puseram-no em uma cadeira próxima ao delegado
distrital que esperou, para tomar por termo a confissão,
que os fotógrafos "batessem" a chapa à luz da explosão do magnésio.

No começo, correu tudo em ordem e o acusado, com voz firme,
articulando distintamente palavra por palavra, disse o seu nome, a sua
filiação, ter vinte e cinco anos de idade, etc., etc. Narrou como se dera
o crime. Tendo, todos os anos, quando podia gozar férias, aí pelo mês
de junho, o hábito de vir passar os quinze dias delas em casa de seu
amigo Leopoldo Martins Barroca, nos arredores da praia do Pinto, da
lagoa Rodrigo de Freitas, viera como de costume naquele ano.
Gostava de passá-los aí, pois, com a sua família, até aos quatorze
anos, antes de estabelecer-se seu pai, ao deixar de ser feitor do
jardim, ele residira naquelas redondezas das quais guardava as mais
suaves recordações. Naquele dia, 14 de junho de..., o do assassínio,
tendo almoçado com a mulher e os filhos do seu amigo, sem ele,
pois o fazia mais cedo para não perder o seu ponto no Arsenal de
Marinha, onde era escrevente, saiu e foi ler o Jornal do Comércio
na venda do "seu" Eduardo, que ficava justamente na praia, fazendo
esquina com a rua do Pau, em que estava a casa do seu hospedeiro amigo.

Lera a folha vagarosamente e dera-lhe vontade de ir ao jardim
passear. Assim fizera e, vagando pelas alamedas, naquele dia de
semana, silenciosas e desertas, encontrara com aquela alemã que, só
agora, pela leitura dos jornais, soube chamar-se Graüben. Travara,
a propósito não se lembra de quê, conversa com ela. Ria-se muito
a moça, com um riso estreito e de pouca duração, com propósito
ou não, e pareceu-lhe, por diversos gestos, ter-se ela apaixonado
por ele. Em um dado momento, quis beijá-la, ela o repeliu, mas continuou
a conversar com ele como se nada tivesse havido, no seu mau português.

Chegando a um lugar mais sombrio, repetiu a tentativa de
abraçá-la e beijá-la e repetiu com mais força e decisão. Ela, a alemã
se enfureceu e arrancou não sabia de que dobra do vestido, o punhal
que foi encontrado, tentando feri-lo. Foi por esse tempo que,
desvairado pela luxúria, pelo despeito, pelo medo - tudo isto misturado
e multiplicado levou-o a agarrar a rapariga pelo pescoço, com ambas as mãos, cheio de frenesi apertou-o loucamente, cegamente e,
quando pôde refletir, viu que ela estava morta. Vendo-a assim, ocultou
o cadáver em uma moita e saiu muito naturalmente, aí pelas três horas
da tarde. Foi para a casa de que era hóspede e, ao dia seguinte, no
noturno, embarcava para São Paulo, onde estivera até à véspera
daquele dia 22.

Essa parte principal do depoimento correu bem, mas logo que o
acusado deu por finda a acusação que fazia a si mesmo, todos
começaram a interrogá-lo, quase a um só tempo - chefe, delegados,
comissários, jornalistas, homens do povo e até polícias.

Apesar da barafunda, a todos respondia com calma e precisão,
mesmo porque, em geral, as perguntas eram as mais idiotas possíveis
ou não tinham relação alguma com o torpe crime do Jardim Botânico.
No dia seguinte, os jornais, pejados de retratos e outras gravuras,
traziam longas notícias, com os comentários do costume e alguns elogiavam
o chefe, outros calavam-se a tal respeito; mas, todos eram
acordes em tachar de revoltante o criminoso, tipo verdadeiramente
lombrosiano, pelas feições e pela cínica calma dos delinqüentes natos.
A não ser a calma, não havia nada de verdade nisso. O rapaz era
bem parecido e conformado de corpo e rosto, mais alto que baixo,
branco sem jaça, robusto mais do que a média; e tinha um olhar
agudo, por vezes agudíssimo, mas sempre meigo e triste, onde havia
muito de vago e de melancolia.

No dia seguinte, começaram a interrogar as pessoas aludidas na
confissão pelo criminoso. Dous guardas do jardim reconheceram-no;
um, porém, dizia que o vira entrar na véspera do crime, no dia de
santo Antônio; entretanto, o outro jurava que ele estivera no jardim, a
14, por sinal que o avistara, nas proximidades do chafariz, quando ia
o visitante dobrar a alameda à esquerda e perpendicular à principal
da entrada.

Este depoimento, se bem que fosse confirmado, mais tarde e em
acareação como protagonista da tragédia, estava em contradição com
muitos outros. Dona Zilda, a mulher do amigo em cuja casa Lourenço
estivera hospedado, depôs dizendo que, no dia do crime, o seu hóspede
lhe chegara à casa, aí pelas três horas e pelos fundos, pois era seu
hábito, depois de ler o jornal na venda, descer a praia, embrenhar-se
na restinga, chupar cambuim, pitangas, frutas de cardo, mexerica,
qualquer fruta silvestre e voltar para a casa pelos fundos que davam
para a restinga do Leblon. Perguntada se era costume dele ir ao jardim,
disse que sim, parecendo-lhe até que, no dia de santo Antônio, lá fora.

O proprietário da venda, o senhor Eduardo Silveira, mais ou
menos confirmou o depoimento de dona Zilda. Disse que, deixando
o senhor Lourenço de ler o Comércio pelas duas horas, o vira descer
à praia, como era do seu hábito, procurar um atalho que levava á
restinga; e não acreditava que tivesse ido ao jardim, naquele dia, por
aquelas horas, pois estava sem colarinho nem gravata, não se entrando,
como é sabido, naquele logradouro público sem esses complementos
do vestuário.

O marido de dona Zilda, o amigo de Lourenço, pouco sabia,
mas asseverava que ele fora ao jardim, a 13, dia de santo Antônio,
pois, tendo ficado em casa para remendar uma cerca e concertar o
galinheiro, o vira sair completamente vestido, convidando-o, a ele,
depoente, a acompanhá-lo, o que não fez, e com isso desculpou-se,
por ter de executar aqueles servicinhos caseiros.

Reinquirido, à vista do depoimento do vendeiro, a respeito de
como tinha podido entrar no jardim sem colarinho, nem gravara,
explicou Lourenço que obtivera esses dous objetos no caminho de

Jorge Turco, nas Três-Vendas, e os colocara no pescoço, nos fundos
do botequim do canto da estrada de Dona Castorina.
Jorge Turco, convidado a depor, afirmou nunca ter vendido um
alfinete ao rapaz, que conhecia, entretanto, por lhe passar pela porta
do negócio em companhia do "seu" Leopoldo da rua do Pau, um dos
seus bons fregueses e a mulher também.

O dono do botequim dissera que, de fato, um dia destes da semana
passada, tinha consentido que ele fosse aos fundos do seu negócio,
mas não sabia ao certo o dia e não podia garantir que, para lá entrasse
sem colarinho e gravata. Com eles, saiu; disso, tinha memória.

Apesar de toda essa confusão de depoimentos que resultava em
mostrar não ter ele co-participação nem ser autor do crime, Lourenço
continuava a afirmar com a mais convincente das firmezas que era
autor do assassínio; que fora só ele quem matara a alemã; que merecia
castigo e ajuntava detalhes elucidativos da sua luta com a alemã que
dizia ter morto, nas condições do seu primitivo depoimento.

Vindo a saber-se que os dias que mediaram entre o do crime e
o da confissão, não estivera ele em São Paulo, mas, na barra da
Guaratiba, em casa de uns antigos serviçais de seu pai, muito chegados
à família, sendo ele até padrinho de um dos filhos deles - vindo a
saber-se disso, explicava a falsidade, do seu primeiro depoimento
nessa parte, como tendo por fito não querer comprometer aqueles
pobres pretos aos quais muito estimava e amava.

Toda a sua confissão ia assim se desmoronando com as informações
que traziam as pessoas conceituadas no seu meio peculiar, e
indicadas tácita ou explicitamente nos depoimentos do acusado, as
quais procuradas para elucidar os passos dados por ele naquele sinistro
posmerídio de 14 de junho de..., vinham todas elas mostrar a
inverossimilhança de suas afirmações, fazendo-o claramente
inocente. Não se sabia o que pensar de tão esquisito caso...

O pai, como informante, depôs longamente sobre o caráter e os
hábitos do filho. O seu depoimento foi tocante e longo. Era um velho
português forte e firme, com um olhar ladino, mas bondoso, inspirando
toda a sua pessoa, retidão e franqueza. Contou ele que desde
uns cinco ou seis anos para cá o gênio do seu filho se transformara.
Até aos vinte anos, era alegre, até folgazão, gostava de regatas, de festas,
de vestuário e atavios. Logo, aos dezesseis anos, pedira-lhe que o
empregasse, porque não tinha propensão para os estudos. Ele, pois,
se entristecera, porquanto o julgava, como todos os seus mestres,
inteligente e aplicado. Fazendo-lhe a vontade, apesar de isso desgostá-lo
e também à mulher, empregara-o em uma casa comercial, por atacado,
onde fez carreira, sendo de ano para ano aumentado de vencimentos.
Deu em morar fora da casa paterna, sob o pretexto de ficar mais perto
do clube de regatas de que era sócio, e não precisar acordar-se tão
cedo para comparecer aos "ensaios". Não se opôs, já por julgá-lo
ajuizado, já por apreciar o seu desenvolvimento físico e o ar de saúde
que ia ganhando.

Aos dezenove anos para os vinte, sem explicação alguma (aí a
sua voz tremeu), soube que o seu filho tinha abandonado o emprego
e fugira não sabia para onde. Fora ao patrão, pagou-lhe uns
pequenos adiantamentos que fizera a casa ao rapaz e, quase dois anos
depois, veio a saber que o filho estava na maior miséria em São Paulo,
exercendo os duros e humildes ofícios de varredor e carregador de
uma venda de arrabalde. A instâncias de sua mulher, partiu para
aquela capital, trouxe-o e, um ano inteiro, Lourenço lhe ficou em
casa, trocando raras palavras com ele e os irmãos, só se expandindo
mais longamente com a mãe. Não atinava com a mágoa do filho e
temia que se matasse. Vivia a ler livros de religião e espiritas, cujos
títulos ele, o pai, não sabia repetir. Não queria ver jornais, nem revistas.
Seus cuidados com a integridade mental do filho eram grandes, tanto
mais que, várias vezes, lhe dissera a mulher que, quase sempre, quando
ia ao quarto, o encontrava a chorar ou com a fisionomia de quem
tinha acabado de fazer isso. Por intermédio dela, sempre lhe fornecia
dinheiro, para as suas pequenas necessidades; e, longe de empregá-lo
consigo, seu filho dava a maior parte aos criados da casa, às crianças
da vizinha, só reservando uma pequena e diminuta quantia para a
compra de cigarros ordinaríssimos e fósforos. Quisera-o mandar para
a Europa, e ele não aceitara, dizendo à mãe que tinha medo do
oceano. Preferia que lhe arranjassem um pequeno emprego público
modesto; com as suas relações, conseguira ele, o pai, obter; e, desde
que o exercia, como que tinha melhorado de estado de espírito.
Quanto ao crime, não sabia nada; mas não julgava seu filho capaz de
tanta maldade, antes o supunha louco, com a mania do martírio e, em
tempo, havia requerido o competente exame de sanidade mental.

A parte do depoimento do pai que aludia à fuga do filho para
São Paulo impressionou o repórter d'O Arauto, que, daqui e dali, veio
a saber e publicou o motivo dela. Ele abalara para lá, devido a ter
dado um desfalque na casa em que era empregado, no valor de dois
ou três contos, que foram pagos pelo pai.

A policia que já estava disposta a não acreditar na sua confis
são, à vista de tal precedente, voltou à carga, encerrou o inquérito e
remeteu-o ao juiz competente. As contradições e incongruências
entre a confissão do réu e os depoimentos de testemunhas e informantes
continuaram a encher de mistério o caso.

O juiz sumariante ficou completamente atrapalhado, doido até,
com tal crime e tal criminoso. Não havia uma hipótese a fazer, quase
todos os depoimentos levavam à convicção de que a confissão de
Lourenço era falsa; ele, porém, confessava com tal firmeza! Que
havia de pensar?

Quem sabe se ele não queria despistar a policia, mas com que
interesse? Os seus amigos do peito eram poucos e todos eles podiam
dar numerosas testemunhas como tinham passado todo o dia 14,
quase todo, nas suas repartições. Por dinheiro? Era absurdo.

O advogado, chamado pelo pai, disse-lhe logo:

- Aceito, mas o meu maior adversário é seu filho... Não cessa
de confessar que foi ele e justificar mais ou menos bem os desmentidos
às suas afirmações. Olhe como se saiu daquela "potoca" de São Paulo.
Perfeitamente aceitável... É o diabo! Mas... aceito!

O advogado, em desespero de causa, pediu exame de sanidade
mental para o seu cliente. O juiz com muito contentamento deferiu o
pedido. Lourenço foi para o hospício, onde esteve internado dois
meses. Da comissão, fazia parte o doutor Juliano Moreira, que empregou
todo o seu saber e toda a sua quente simpatia para decifrar aquele
angustioso enigma psicológico.

Observado cuidadosamente, virado o seu espírito pelo avesso,
interrogado dessa e daquela forma, escrevendo e falando não revelou
qualquer perturbação nas suas faculdades mentais. Era o homem
comum, o médio, sem nenhuma degenerescência ou psicose, inferior
ou superior, acentuada.

Foi pronunciado; mas, antes que entrasse em júri, uma pequena
revista lembrou um caso muito semelhante acontecido na Alemanha,
em Essen, e contando em um livro do senhor Hugo Fridlaender e
resumido, no Le Temps, por Th. de Wyzewa. Tratava-se de um tal
Alfred Land que, tendo praticado uma pequena falcatrua, um furto
doméstico, se sentiu tão angustiado, tão cheio de mágoa, de ralação
íntima a lhe pedir expiação da falta, que não trepidou em acusar-se
como autor de um assassínio misterioso, o qual ele estava materialmente
impossibilitado de executar.

Citando Wyzewa, o autor do artigo dizia que, em Lourenço, a
consciência de ter desonrado o seu nome, de ter cometido um crime
vil e covarde, de ter injuriado, maculado a honra dos pais e da família,
era o que o roía interiormente, o desassossegava, o ralava dia e noite,
silenciosamente, sem que ele avaliasse bem a tensão desse estado
d'alma, até o dia em que a notícia do assassínio da pequena alemã,
num recanto afastado do Jardim Botânico, sugeriu-lhe a idéia de
resgatar o seu erro de rapazola com uma condenação por assassínio.

Levava-o a júri uma espécie de necessidade de resgatar a sua
falta de um modo "heróico, romanesco e místico" da honestidade;
uma premente determinação de expiação do seu crime de furto,
determinação que invadira aos poucos, insidiosamente, a sua vontade,
no silêncio de suas meditações e nas horas angustiosas do
remorso e do arrependimento.

Ninguém aqui, como aquele juiz de instrução do Crime e castigo
se abalança a ler as pequenas revistas de rapazes, para estar a par da
psicologia mórbida dos criminosos cerebrais e inexplicáveis; e, por
isso, muito naturalmente, não houve quem interpretasse de modo
plausível a atitude daquele rapaz que parecia desejar com volúpia
uma condenação por crime hediondo e execrando.

Foi a júri e não foi difícil absolvê-lo. Ninguém acreditava na sua
criminalidade, nem o promotor, nem jurados, nem juiz, ninguém!
Quando, porém, o juiz, à vista das respostas do júri, mandou-o pôr
em liberdade, se por "al" não estivesse preso, conforme a linguagem
forense, Lourenço se levantou, pediu vênia ao juiz, e, perante este e
os jurados, protestou contra a sua absolvição, nos seguintes termos:

- Senhor juiz e senhores jurados, eu protesto contra a minha
absolvição que é iníqua e injusta, em face da minha consciência. Sou
um criminoso, ninguém melhor do que eu pode afirmá-lo; quero
sofrer, para resgatar-me e poder, então, viver outra vez com alegria e
satisfação, no convívio dos meus semelhantes. Nenhuma justiça,
nenhum homem tem o direito de se opor a esse meu sincero desejo...
Protesto, portanto!

Sentou-se; mas, o promotor não apelou.

Histórias e Sonhos

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