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Ânsia Eterna

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Ânsia Eterna

Capítulo 1 · Ânsia Eterna

Ânsia eterna

A João Luso E o teu livro? Quando aparece o teu livro? Perguntou Rogério Dias ao amigo, refestelando-se numa almofadinha de marroquim do escritório. – Parece-me que nunca... – Por quê?! – Por isto: o que eu quero não é escrever meramente; não penso em deliciar o leitor escorrendo-lhe na alma o mel do sentimento, nem em dar-lhe comoções de espanto e de imprevisto. Pouco me importo de florir a frase, fazê-la cantante ou rude, recortá-la a buril ou golpeá-la a machado; o que eu quero é achar um engaste novo onde encrave as minhas ideias, seguras e claras como diamantes; o que eu quero é criar todo o meu livro, pensamento e forma, fazê-lo fora desta arte de escrever já tão banalizada, onde me embaraço com a raiva de não saber fazer nada de melhor. Estamos sós; sabes que sou contigo absolutamente sincero; dir-te-ei tudo. Quero escrever um livro novo, arrancado do meu sangue e do meu sonho, vivo, palpitante, com todos os retalhos de céu e de inferno que sinto dentro de mim; livro rebelde, sem adulações, digno de um homem. Se eu tivesse gênio, não me faltaria o resto, porque não escrevo por amor da turba ingrata, nem preciso da pena para ganhar a vida; sou rico e só escrevo por uma obsessão que me verga, tal como o furacão verga o caniço. Não te rias; a ordem vem do incognoscível, não a discuto, aceito-a como uma lei de Deus. E não cuides que a aceitei sempre com resignação e sem relutância; tenho rasgado muitas páginas, incendiado muitas palavras, assoprado muita cinza aos quatro ventos!

Ao princípio, mal desfazia uma página achava-me a fazer outra. Este martírio ainda dura; todo o meu protesto de acabar fica onde começa o desejo de criar mais e melhor. Posto o ponto final em um livro, abre-se-me logo a vontade de escrever o primeiro período de outro livro. E é sempre assim; afinal, por quê, e para quê? Se os velhos como os novos trabalhos não me trazem a consciência, nem glória, nem tranquilidade? Para quê? Não sei... Por quê? Porque é preciso obedecer, porque a natureza me fez tal o caniço... E a propósito dir-te-ei que a natureza foi cruel para mim, visto quo o meu ser moral não se confunde com o meu ser intelectual. Não nasci para escritor, sou orgulhoso, a popularidade ofende-me; não sei que melindre é este, que antes cresce do que diminui com o correr do tempo, fazendo-me cada vez mais sensível e descontente de mim mesmo. De que vale tanto esforço? És inteligente, vê se entendes isto: embora eu não me preocupe com o leitor, há sempre diante de mim, quando escrevo, um desconhecido, sombra no vácuo, indecisa, impalpável, mas que basta para enregelar-me os dedos quando a frase quer cair despida e franca na brancura do papel. Ah! O preconceito! O preconceito! E é uma criatura atada a ele, e assim, orgulhosa e tímida, que pensa em fazer um livro sadio, calmo, de regeneração e de esperança, como início de outra vida mais perfeita. Mas como hei de eu, dependente e fraco, fazer tal livro independente e forte? Eu, que pratico o mal, não posso sem ironia ensinar o bem. A minha boca, que mente, o meu pensamento, que atraiçoa, não são dignos de fazer uma apoteose à verdade absoluta, como a única fonte da felicidade humana. O livro a que aludiste é o meu martírio: penso nele à proporção que vou fazendo os outros, e sinto-o sempre à mesma distância, inatingível e sereno. O meu livro! Mas qual será o escritor, que não pense no seu livro definitivo, único? Diz! – Que hei de dizer? Que, talvez, mudando de hábitos alcançasses a tranquilidade necessária para um bom trabalho. Casa-te. – Não. Eu traria para casa uma inimiga. Por mais doce e modesta que fosse, ela teria a pouco e pouco ciúmes disso tudo... As leituras são absorventes, e as mulheres não admitem preterições. Tem razão, talvez.

De mais a mais eu tenho medo das mulheres...Vou agora contar- -te, com muita oportunidade, o meu último episódio amoroso, que bem pode servir de síntese a tudo que te disse. – A respeito do livro?! – Sim... podes pôr dentro desse sonho este outro sonho, certo de que a solução será a mesma. Deixa-me mandar vir café. Tu jantas hoje comigo. – Sim, jantarei contigo. – Minha mãe vai ficar contentíssima; não imaginas, está linda, com os cabelos brancos; alta, sempre muito direita... Chamo-lhe a minha torre da fé, iluminada! Escuta agora a tal história; é pequenina. * * * Entrei um dia com um amigo no Passeio Público, com o pretexto de combinarmos a colaboração de um drama. Sentamo-nos num banco, na ala esquerda, lembro-me bem; e enquanto eu fazia o meu cigarro, ele começou a expor o seu plano. A ideia era dele. Eu ao princípio ouvia-o com atenção, sem deixar por isso de olhar para duas crianças, vestidas à inglesa, que brincavam pela ala ensombrada. Em frente a nós, num outro banco de pedra, duas moças conversavam baixinho. É muito frequente em mim pensar paralelamente em dois fatos diferentes, até que um absorva o outro. Sem deixar de compreender o magnífico assunto do meu amigo... O Josino, conheces? Pois é esse; sem deixar de o ouvir, eu pensava na doçura que deveria haver em ser-se pai de umas crianças como aquelas que ali estavam, tão lindas e tão bem lavadas. Tal pensamento fez-me voltar os olhos para as duas moças. Uma, mais alta e mais nutrida, era evidentemente a mãe das crianças; tinha no colo os chapéus de palha à marinheira, e chamava de vez em quando os pequenos para arranjar-lhes o cabelo e compor-lhes a toilette1. 1 Palavra francesa que pode ser aqui traduzida como “visual”. Na presente edição será mantido o uso dos termos em língua estrangeira, comum à época, seguido por tradução em nota de rodapé.

A outra, mais franzina, era de uma beleza singular e comovente. Trazia um vestido de lã simples e um chapéuzinho de palha que mal lhe encobria a trança loira e grossa. Todos os seus traços eram regulares; mas, de tudo, o que mais me impressionou, viva e extraordinariamente, foram os seus olhos, de um azul escuro, triste, onde me pareceu sentir uma alma grande, séria, capaz de todas as lutas e de todos os sacrifícios. Nunca vi uns olhos assim. Num instante, desviando - -se da companheira, eles voltaram-se para os meus... e não te posso explicar a sensação deliciosa que me agitou. Todas as minhas mágoas negras se purificaram àquela luz; assaltou-me logo uma ideia: eu podia ter um chalet2, num canto de arrabalde, onde as rosas trepassem para o telhado e em que duas crianças saltassem no jardim, enquanto a mãe as vigiasse de um banco, como aquela que ali estava em frente. A minha vida não se consumiria na febre de um desejo vão; teria um lar feito por mim, risonho e confortável. Os olhos azuis da moça diziam-me no seu brilho discreto e sagrado: – Eu farei a tua felicidade. Sou educada, sou ativa, sou modesta; compreendo e amo as artes e tenho o coração aberto para as ternuras conjugais e maternas. Vê como sou simples. Fixamo-nos longamente. Aqueles olhos não se desviaram dos meus com o pudor pretencioso das moças, nem tampouco tiveram arrogância ou malícia: continuaram serenos e claros, tristes sem pretensão, com uma franqueza de alma limpa. Junta a isto a beleza das últimas horas do sol e o perfume das dracenas em flor. Acredita que o perfume é o cumplice de muitas paixões, muitas! Quando saímos do Passeio ainda elas lá ficaram. Durante a noite pensei várias vezes naqueles olhos azuis. Nesse tempo minha mãe estava fora, tinha ido fazer a sua estação em Caldas, de modo que ao meu quarto faltava o apuro a que me acostumara. Pela primeira vez vi pó no espaldar da minha cama, e encontrei gelhas nos lençóis. No dia seguinte, a minha mesa de trabalho, com o tinteiro transbordante e o cálice de conhaque sujo, irritou-me; e ao almoço, 2 Chalé

mal servido, lamentei a falta de uma salinha de jantar, alegre, onde os olhos azuis da minha esposa tivessem observado e prevenido tudo... Que influência profunda pode ter no destino, já determinado pela vontade de um homem, o simples relancear dos olhos de uma mulher! Por que voltava assim ao meu espírito aquele clarão azul? Decididamente, eu encontrara a realização da minha ventura – o casamento. Arte? Ora, adeus! Fazer arte aqui, para que, para quem? Não valia a pena sacrificar o coração pela liberdade de artista e de boêmio. Assim pensei, e fiz-me piegas como um namorado de quinze anos. Acreditarás que eu ia todos os dias ao Passeio Público? Percorria-o inutilmente: não a encontrava nunca; em todo caso não desistia, a esperança de ver os olhos azuis guiava-me através das ruas ensombradas. Se as árvores falassem, que diriam de mim, aquelas árvores! Que idílios, que lindos devaneios tive ali! Eram verdadeiros sonhos de adolescente, perfumando a vida profanada do homem desiludido e amargo. Ela já tinha para mim uma designação puríssima, era a minha noiva, e eu procurava-a, parecendo-me que só com o vê-la os meus dias se tornariam risonhos e plácidos. Vê-la não era tudo; eu queria ser visto, ser notado; queria falar-lhe, ouvir-lhe a voz, dizer-lhe que a amava! E tudo me parecia fácil, desde que a encontrasse! Exatamente no dia em que entrei no Passeio mais desanimado, e certo da inutilidade da procura, foi que vi, no mesmo banco, a doce mamãe, com os chapéus dos filhos nos joelhos, e a seu lado a beatificada da minha alma. Nunca senti o coração bater-me com tanta força. Ela voltara-se para mim, via-me ir chegando... Não te posso dar uma ideia da minha comoção: eu nem sabia onde pisava, quando um acaso me favoreceu, uma das crianças caiu a poucos passos de mim e abriu a boca num choro de assustar e pôr a nado os patos. Tomei-a imediatamente nos braços e levei-a, depois de a acariciar, às duas moças. A mãe ergueu-se, e veio apressadamente ao meu encontro, agradecendo muito; a outra ficou sentada. Cumprimentei-a timidamente; não me respondeu. Corei, interdito. A mamãe então murmurou com tristeza, indicando-a com um gesto, num tom de desculpa: – É cega...

Ânsia Eterna

Sinopse

Ânsia Eterna, de Júlia Lopes de Almeida, é uma coletânea clássica brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 30 contos com fonte pública validável na Biblioteca Digital do Senado Federal, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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