Leia agora
O Ateneu

Universo da obra

O Ateneu

Capítulo 3 · O Ateneu

O Ateneu: III - Iniciação

3 de 12 ≈ 30 min de leitura

III - Iniciação

Se em pequeno, movido por um vislumbre de luminosa prudencia, emquanto applicavam-se os outros á peteca, eu me houvesse entregado ao manso labor de fabricar documentos autobiographicos, para a opportuna confecção de mais uma infancia celebre, certo não registraria, entre os meus episodios de predestinado, o caso banal da natação, de consequencias, entretanto, para mim, e origem de dissabores como jamais encontrei tão amargos.

Natação chamava-se o banheiro, construido num terreno das dependencias do Atheneu, vasta toalha d'agua ao rez de terra, trinta metros sobre cinco, com escoamento para o Rio Comprido, e alimentada por grandes torneiras de chave livre. O fundo, invisivel, de ladrilho, offerecia uma inclinação, baixando gradualmente de um extremo para outro. Accusava-se ainda mais esta differença de profundidade por dois degráus convenientemente dispostos para que tomassem pé as crianças como os rapazes desenvolvidos. Em certo ponto a agua cobria um homem.

Por occasião dos intensos calores de Fevereiro e Março e do fim do anuo, havia ahi dous banhos por dia. E cada banho era uma festa, naquella agua gorda, salobra da transpiração lavada das turmas precedentes, que as dimensões do tanque impediam a devida renovação; turbulento debate de corpos nús, estreitamente cingidos no calção de malha rajado a côres, enleiando-se os rapazes como lampreias, uns immergindo, reapparecendo outros, olhos injectados, cabellos a escorrer pela cara, vergões na pelle de involuntarias unhadas dos companheiros, entre gritos de alegria, gritos de susto, gritos de terror; os menores agrupados no raso, dando-se as mãos em cacho, espavoridos, se algum mais forte chegava.

Dos maiores, alguns havia que faziam medo realmente, singrando a braçadas, levando a hombro a resistencia d'agua; outros se precipitavam cabeça para baixo, volteando os pés no ar como cauda de peixe, prancheando sem vêr a quem. E, borbulhando entre os nadadores, fartas ondas de resaca se emborcavam e iam transbordar pelas immediações do banheiro alagando tudo.

Ao longo do tanque, corria o muro divisorio, além do qual ficava a chacara particular do director. Á distancia, viam-se as janellas de uma parte da casa, onde ás vezes eram recolhidos os estudantes enfermos, fechadas sempre a venezianas verdes.

Trepada ao muro e meio escondida por uma mouta de bambús e ramos de hera, vinha Angela, a canarina, vêr os banhos da tarde. Lançava pedrinhas aos rapazes; os rapazes mandavam-lhe beijos e mergulhavam, buscando o seixo. Angela, torcendo os pulsos, reclinando-se para traz, ria perdidamente um grande riso, desabrochado em corolla de flôr através dos dentes alvos.

Ao primeiro banho, amedrontou-me a desordem movimentada.

Procurei o recanto dos menores. Determinava a disciplina a divisão dos banhistas em tres turmas, conforme as classes de idade. Mas, o descuido da fiscalisação permittia que as turmas se confundissem e o inspector de serviço, com a varinha destinada aos retardatarios, vigiava, affastado, de sorte que ficavam expostos os mais fracos aos abusos dos marmanjos que as espadanas d'agua acobertavam. Mal tinha eu entrado, senti que duas mãos, no fundo prendiam-me o tornozelo, o joelho. A um impulso violento caí de costas; a agua abafou-me os gritos, cobriu-me a vista. Senti-me arrastado. Num desespero de asphyxia, pensei morrer. Sem saber nadar, vi-me abandonado em ponto perigoso; e bracejava, á tôa, immerso a desfallecer, quando alguem me amparou. Um grande tomou-me ao hombro e me depôz á borda, estendido, vomitando agua. Levei algum tempo para me inteirar do que occorrera. Esfreguei por fim os olhos e verifiquei que o Sanches me tinha salvo. «Ia afogar-se!» disse elle, amparando-me a cabeça emquanto me desempastava os cabellos de cima dos olhos. Meio aturdido ainda, contei-lhe effusivamente o que me haviam feito. «Perversos!» observou-me o collega com pena, e attribuiu a brutalidade a qualquer peste que fugira no atropello dos nadadores, desvelando-se em solicitudes por tranquillisar-me. Tive depois motivo para crêr que o perverso e a peste fôra-o elle proprio, na intenção de fazer valer um bom serviço.

Mas a consequencia immediata do facto foi que forcei a repugnancia que o Sanches me causava e me fiz todo gratidão para com elle e intima amizade. Curiosa e accidentada tinha de ser essa minha aventura de apego e confiança...

No Atheneu formávamos a dous para tudo. Para os exercicios gymnasticos, para a entrada na capella no refeitorio, nas aulas, para a saudação ao anjo da guarda, ao meio-dia, para a distribuição do pão secco depois do canto. Por amor da regularidade do organisação militar, repartiam-se as tres centenas de alumnos em grupos de trinta, sob o directo commando de um decurião ou vigilante. Os vigilantes eram escolhidos por selecção de aristocracia, asseverava Aristarcho. Vigilante era o Malheiro, o heróe do trapezio; vigilante era o Ribas, a melhor vocalisação do Orpheon; vigilante era o Matta, mirrado, corcundinha, de espinha quebrada, appellidado o mascate, mellifluo no trato, nunca punido ninguem sabia por que, reputação de excellente porque ninguem se lembrava de verificar, que, entretanto, Rebello apontava como chefe da policia secreta do director; vigilante o Saulo, que tinha tres distincções na instrucção publica; vigilante Romulo, mestre cook, por alcunha, uma besta, grandalhão, ultimo na gymnastica pela corpulencia bamba, ultimo nas aulas, dispensado do Orpheon pela garganta rachada de requinta velha, mas exercendo no collegio, por excepção de saliencia na largura chata da sua incapacidade, as complexas e delicadas funcções de zabumba da banda. Não sei se este geito particular para o bombo, formula musical do annuncio, não sei se uma celebre herança que Romulo esperava de afortunados parentes, verdade é que entre todos fôra Romulo apurado por Aristarcho para o invejavel privilegio de seu futuro genro.

Diversos outros vigilantes contavam-se como estes, eleitos por um criterio que dava ensejo a que o escolhido por valentia á barra fixa representava no estudo um papel contristador; vice-versa, outro, como Ribas, exemplar nas aulas, magricella e esgotado, mal podia ao trapezio vacillar a acrobacia simplificada do prumo.

Sanches era tambem vigilante.

Estes officiaes inferiores da milicia da casa faziam-se tyrannetes por delegação da suprema dictadura. Armados de sabres de páu com guardas de couro, tomavam a sério a investidura do mando e eram em geral de uma ferocidade adoravel. Os sabres puniam summariamente as infracções da disciplina na fórma: duas palavras ao serra-fila, perna frouxa, desvio notavel do alinhamento. Regimen siberiano, como se vê, do que resultava que os vigilantes eram altamente conceituados.

No caso particular da nossa fortuita aproximação, não podia deixar de influir consideravelmente, a bella importancia collegial do vigilante Sanches. Mas outras circumstancias concertaram-se para determinar a nova feição das minhas disposições conforme se accentuou depois do incidente do banho.

Já me era licito julgar iniciada na convivencia intima da escola. Chamado por Manlio a provas, consegui agradar, conquistando uma aura que me devia por algum tempo favorecer. Encontrei o Barbalho. Tinha a face marcada pelas minhas unhas; evitou-me. No recreio commetti a injustiça de ir deixando o Rebello. Tambem o amavel camarada tinha na bocca um máu cheiro que lhe prejudicava a pureza dos conselhos; demais, falava prendendo a gente com dedos de torquez e soltando os aphorismos a queima-roupa. Por seu lado, o venerado collega correspondeu ao movimento massando-se commigo e amuando. Durante as aulas, em que nos sentavamos perto um do outro, absorvia-se em sua desesperada attenção e era como se estivesse a muitas milhas. Se, todavia, por imprescindivel necessidade tinha de me falar, então dirigia-me a palavra com a habitual affabilidade de joven cura.

Estava acclimado, mas eu me acclimara pelo desalento, como um encarcerado no seu carcere.

Depois que sacudi fóra a tranca dos ideaes ingenuos, sentia-me vasio de animo; nunca percebi tanto a espiritualidade imponderavel da alma: o vacuo habitava-me dentro. Premia-me a força das cousas; senti-me acovardado. Perdeu-se a licção viril de Rebello: prescindir de protectores. Eu desejei um protector, alguem que me valesse, naquelle meio hostil e desconhecido, e um valimento directo mais forte do que palavras.

Se não houvesse olvidado as praticas, como a assistencia pessoal do Rebello, eu notaria talvez que pouco a pouco me ia invadindo, como elle observara a efffeminação morbida das escolas. Mas a theoria é fragil e adormece como as larvas friorentas, quando a estação obriga. A lethargia moral pesava-me no declive. E, como se a alma das crianças, á maneira do physico, esperasse realmente pelos dias para caracterisar em definitiva a conformação sexual do individuo, sentia-me possuido de certa necessidade preguiçosa de amparo, volupia de fraqueza em rigor impropria do caracter masculino. Convencido de que a campanha do estudo e da energia moral não era precisamente uma cavalgata quotidiana, animada pelo clarim da rhetorica, como nas festas, e pelo verso emphatico dos hymnos, entristeceu-me a realidade crua. Desilludi-me dos bastidores da gloriosa parada, vendo-a pelo avesso. Nem todos os dias do militarismo enfeitam-se com a animação dos assaltos e das voltas triumphaes; desmoralisava-me o ram-ram estagnado da paz das casernas, o prosaismo elementar da fachina.

Com esta crise do sentimento casava-se o receio que me infundia o microcosmo do Atheneu. Tudo ameaça os indefesos. O desembaraço tumultuoso dos companheiros á recreação, a maneira facil de conduzir o trabalho, pareciam-me traços de esmagadora superioridade: espantava-me a viveza dos pequenos, tão pequenos alguns! O braço do Sanches vinha assim salvar-me, segunda vez, de submersão, acudindo na vertigem do momento.

Eu não estudava: a minha conta era, entretanto, regular, por um concurso de elementos eventuaes direitos da recente matricula á benevolencia, a minha recommendação ao professor Manlio, com os retalhos alinhavados de sciencia anterior. Mantinha-me em satisfactoria média; mas o risco da decadencia era constante. O methodo constituia o peior obstaculo; sem o auxilio de alguem, mais pratico, estava perdido. Sanches havia sem duvida de valer-me com a sua capacidade de grande estudante, sobretudo com a boa vontade insinuativa que desinteressadamente manifestava. Sem falar no proveito que rendia esta affeição, empunhando por meu favor o terrivel sabre de vigilante, com guardas de couro!

Com effeito não tardou que elle me desse a mão como a Minerva benigna de Fenelon.

Entrei pela geographia como em casa minha. As anfractuosidades marginaes dos continentes desfaziam-se nas cartas, por maior brevidade do meu trabalho; os rios dispensavam detalhes complicados dos meandros e affluiam-me para a memoria, abandonando o pendor natural das vertentes; as cordilheiras, immensa tropa de amestrados elephantes, arranjavam-se em systemas de orographia facillima; reduzia-se o numero das cidades principaes do mundo, sumindo-se no chão, para que eu não tivesse de decorar tanto nome; arredondava-se a quota das populações, perdendo as fracções importunas, com prejuizo dos recenseamentos e maior gravame dos uteros nacionaes; uma mnemonica feliz ensinava-me a enumeração dos estados e das provincias. Graças á destreza do Sanches, não havia incidente estudado da superficie terrestre que se me não collasse ao cerebro como se fosse minha cabeça, por dentro, o que é por fóra a esphera do mundo.

A seu turno a grammatica abria-se como um cofre de confeitos pela Paschoa. Setim côr de céu e assucar. Eu escolhia a bel prazer os adjectivos, como amendoas adocicadas pelas circumstancias adverbiaes da mais agradavel variedade; os amaveis substantivos! voavam-me á roda, proprios e appellativos, como creaturinhas de alfenim alado; a etymologia, a syntaxe, a prosodia, a orthographia, quatro gráos de doçura da mesma gustação. Quando muito, as excepções e os verbos irregulares desgostavam-me a principio; como esses feios confeitos crespos de chocolate: levados á bocca, saborosissimos.

A historia patria deliciou-me em quanto pôde. Desde os missionarios da catechese colonisadora, que vinham ao meu encontro, com Anchieta, visões de bondade, recitando escolhidas estrophes do evangelho das selvas, mandando adiante, coroados de flôres, pela estrada larga de areia branca, os columins alegres, aprendizes da fé e da civilisação, acompanhados da turba selvagem do gentio côr de casca de arvores, emplumados, sarapintados de mil tintas, em respeitosa contricção de fetichismo domado, avultando do seio, do fundo da matta escura, como uma marcha phantastica de troncos. Até ás éras da Independencia, evocação complicada de sarrafos commemorativos das alvoradas do Rocio e de anceios de patriotismo infantil; um principe fundido, cavalgando uma data, mostrando no lenço aos povos a legenda official do Ypiranga; mais abaixo, pontuadas pelas salvas do Santo Antonio, as acclamações de um povo mesclado que deixou morrer Tiradentes para se esbofar em vivas ao ramo de café da Domitilla.

Cada pagina era um encanto, prefaciadas pela explicação complacente do collega. Graças á habilidade das suas apresentações, apertei a mão aos mais truculentos figurões do passado, aos mais poderosos. Antonio Salema, o cruel, sorriu-me; o Vidigal foi gentil; D. João VI deixou-me rapé nos dedos. Conheci de vista Men de Sá, Mauricio de Nassau; vi passar o heróe mineiro, calmo, mãos atadas como Christo, barba abundante de apostolo das gentes, um toque de sol na fronte lisa e vasta, escalvada pelo destino para receber melhor a corôa do martyrio.

A historia santa revelou-me este épico, quem o diria?—o conego Roquette! E eu bebi a embriaguez musical dos capitulos como o canto profundo das cathedraes. Ouvi suspirar a Crença, o idyllio do Eden, o amor primitivo do Genesis, invejado dos anjos, sob o olhar magnanimo dos leões; ouvi a queixa terna do primeiro par banido para a dôr, para o trabalho; Adão vergonhoso, vestindo as parras da primeira pruderie, Eva a envolver a nudez joven de lyrios na tunica de ouro das madeixas, cobrindo com as mãos o ventre, obscenidade, das mães, stigmatisada pela maldição de Deus.

E crescia o canto na abóbada e o orgão falava á tradição inteira do soffrimento humano supplantado pela divindade. Modulava-se a harmonia em suave gorgeio, entoando a elevação dos psalmos, o extase sensual do Cantico dos Canticos na bocca da Sulamita, e a seducção de Booz enredado no estratagema honesto da ternura, e a melancolia tragica de Judith, e a serena gloria de Esther, a princeza querida.

Subitamente, entreabriu-se o quadro sonoro para irromper o côro das lamentações. Acabavam no ar, luciolas extinctas, os derradeiros sons da harpa de David; perdia-se em écos a derradeira antistrophe de Salomão; sumiu-se á extremidade do campo a imagem de Ruth, ao braço o feixe louro de trigo; entrou a Hebréa sombria na tenda de Holophernes, levando nos labios o beijo assassino; cobriu-se a apparição luminosa de Esther com o somno da noite de Mardocheu. Era a gamma dolente dos terrores. Clamavam as imprecações do diluvio, os desesperos de Gommorrha; flammejava no firmamento a espada do anjo de Sennacherib; dialogavam em concerto tetrico as supplicas do Egypto, os gemidos de Babylonia, as pedras condemnadas de Jerusalem. Vozeava o tenebroso grave das prégações dos prophetas. Embalde o fulgor das transfigurações, como o livido fuzil, escancarava abertas de luz sobre a tormenta nocturna; Ezequiel tinha a visão do Eterno; Elias visitava o Mysterio numa escapada de chammas. Nada. A musica solemne era o miserere. Nem o clarão da alvorada de Bethlem na Judéa debellava a sombra, nem a miragem viva do Thabor. A epopéa agonisava ao rodar do seculo; ecoava numa caverna onde havia um tumulo; bradava triumpho um momento pela Resurreição do Justo; morria, emfim, lento, lento com a prece dos martyres do amphitheatro, com a longinqua prece subterranea dos refugiados das Catacumbas.

A doutrina christã, annotada pela proficiencia do explicador, foi occasião de dobrado ensino que muito me interessou. Era o céu aberto, rodeado de altares, para todas as creações consagradas da fé. Curioso encarar a grandeza do Altissimo; mas havia janellas para o purgatorio a que o Sanches se debruçava commigo, cuja vista muito mais seduzia. E o preceptor tinha um tempero de uncção na voz e no modo, uma sobranceria de director espiritual, que fala do peccado sem macular a bocca. Empunha quasi compungido, fincando o olhar no tecto, fazendo estalar os dedos, num enlevo de abstracção religiosa; expunha, demorando os incidentes, as mais cabelludas manifestações de Satanaz no mundo. Nem ao menos dourava os chifres, que me não fizessem medo; pelo contrario, havia como que o capricho de surprehender com as phantasias do Mal e da Tentação, e, segundo o lineamento do Sanches, a cauda do demonio tinha talvez dous metros mais que na realidade. Insinuou-me, é certo, uma vez, que não é tão feio o dito, como o pintam.

O catecismo começou a infundir-me o temor apavorado dos oraculos obscuros. Eu não acreditava inteiramente. Bem pensando, achava que metade d'aquillo era invenção malvada do Sanches. E quando elle punha-se a contar historias de castidade, sem attenção á parvidade da materia do preceito theologico, mulher do proximo, Conceição da Virgem, terceiro-luxuria, brados ao céu pela sensualidade contra a natureza, vantagens moraes do matrimonio, e porque a carne, a innocente carne, que eu só conhecia condemnada pela quaresma e pelos monopolistas do bacalháu, a pobre carne do beef, era inimigo da alma; quando rectificava o meu engano, que era outra a carne e guizada de modo especial e muito especialmente trinchada, eu mordia um pedacinho de indignação contra as calumnias á santa cartilha do meu devoto credo. Mas a cousa interessava e eu ia colhendo as informações para julgar por mim opportunamente.

Na taboada e no desenho linear, eu prescindia do collega mais velho; no desenho, porque achava graça em percorrer os caprichosos traços, divertindo-me a geometria miuda como um brinquedo; na taboada e no systema metrico, porque perdera as esperanças de passar de mediocre como gymnasta de calculos, e resolvera deixar a Maurilio ou a quem quer que fosse o primado das cifras.

Em dous mezes tinhamos vencido por alto a materia toda do curso; e, com este preparo, sorria-me o agouro de magnifico futuro, quando veio a fatalidade desandar a roda.

Referi que Sanches me provocava uma repugnancia de gosma. Depois do caso da natação, o reconhecimento predominou sobre a repulsa e eu admitti as assiduidades com que de então por diante me quiz beneficiar o companheiro. Afinal, porém, tornou-me a apparecer o affastamento instinctivo que me separava do rapaz.

Descrente da fraternidade do collegio, cuja personificação representava-me o Barbalho, eu temia o alvoroço do recreio. Conservar-me na sala das licções era uma medida de prudencia. Estes intervallos regulamentares de descanço, aproveitava-os para me adiantar no curso. Pois bem, durante estes momentos de applicação excepcional em que ficavamos a sós, eu e o grande, definiu-se o fundamento da antipathia presentida. A franqueza da convivencia augmentou dia a dia, em progresso imperceptivel. Tomávamos logar no mesmo banco. Sanches foi-se aproximando. Encostava-se, depois, muito a mim. Fechava o livro d'elle e lia no meu, bafejando-me o rosto com uma respiração de cançaço. Para explicar alguma cousa, distanciava-se um pouco; tomava-me, então, os dedos e amassava-me até doer a mão, como se fosse argilla, cravando-me olhares de raiva injustificada. Volvia novamente ás expansões de affecto e a leitura proseguia, passando-me elle o braço ao pescoço como um furioso amigo.

Eu deixava tudo, fingindo-me insensivel, com um plano de rompimento em idéa, embargado, todavia, pela falta de coragem. Não havia mal naquellas maneiras amigas; achava-as, simplesmente, despropositadas e importunas, maxime não correspondendo a mais insignificante manifestação da minha parte.

Notei que elle variava de attitude quando um inspector mostrava a cabeça á entrada da sala e quando pretendia informar-me de alguma disciplina transcendente.

Então o mestre singular formalisava-se de gravidade severa e distante. Esta inconstancia era o meu alarme. Foi afinal um entretenimento. Eu perdia muitas vezes o fio da leitura para attender ás artimanhas d'aquella novissima comedia.

Por um dia de muito calor, acabava elle de enunciar como um padre uma pagina de religião, os diversos actos de Contricção, de Attricção, de Fé, de Esperança, de Caridade, quando propoz que eu lh'os repetisse sentado aos seus joelhos. Achei inutil a commodidade e repeti a licção passeando pela sala. Que diabo! Aquelle sujeito queria tratar-me definitivamente como um bêbê! Com pouco mais lhe daria o excesso de extremos para me offerecer uma volta de cueiros! Ah! que se ainda me vivesse no animo a bravura audaz que trouxera de casa, sem duvida nenhuma ha muito tempo que eu tinha despachado o Sanches com a cartilha pelas ventas. Mas eu era outro, e a vontade vegetava tenra e ductil como um renovo, depois do anniquilamento da primeira decepção. Fui transferindo o conflicto.

Ás vezes a minha resistencia passiva desapontava o preceptor. Elle encarava-me terrivel, e como quem diz: «perde a protecção de um vigilante!», ou disfarçava a impertinencia em riso amarello, numa abstracta expressão de physionomia, que era aliás o facies, de uma idéa fixa.

Os exercidos corporaes effectuavam-se á tarde, uma hora depois do jantar, hora excellente, que habituava a digestão a segurar-se no estomago e não escorrer pela guela quando os estudantes se balançavam a barra-fixa, pelas curvas.

Reconheci o bello campo das manobras quando lá fui pela primeira vez, depois da matricula; tive saudade das flammulas sobre o gramal verde. Mesmo, porém, desmontada a alegria de encommenda das festas, era um sitio amenissimo o campo. Descoberto a todo o céu, parecia mais abundante de ar; eu lá vingava os pulmões da compressão cerrada do regimen interno.

Findos os exercicios, partia o professor Bataillard, e, guardados por dois inspectores, o Sylvino e o João Numa, ou João Numa e o velho Margal, venerando invalido hespanhol querido de todos, ou o Margal e o Conselheiro, tinhamos, os alumnos, um prazo de recreio até cair a noite.

Uma vez, ao escurecer, passeando eu calado, com o Sanches igualmente, vendo escapar o dia para além das montanhas, percebi que o meu companheiro balbuciava uma pergunta. Falou desattento, admirando o crepusculo com a testa franzida, na meia abstracção que era o seu rictus costumeiro. Estavamos a um rodeio da avenida que circumdava o gramal, opposto á cancella onde conversavam os inspectores. Os collegas jogavam a barra através da grama, ou se divertiam ao saut-de-mouton em pontos affastados. Como não apprehendi a pergunta, o Sanches repetiu. Escapou-me involuntario o riso... Abarbava-me a mais rara especie de pretendente! Eu ria com franqueza, mas abysmado. Era de uma extravagancia original aquelle Sanches! Hoje, elle é engenheiro em uma estrada de ferro do sul, um grave engenheiro...

Vendo que não nos podiamos entender, metteu entre nós o esplendor da tarde, e resolvemos o embaraço concordando ambos num parecer unanime a respeito.

Durante os dias que se seguiram, Sanches esteve frio. Tive medo de perdel-o. Deu-me as licções sem uma só das intragaveis ternuras. Exprimia-se brevemente, entre enfezado e triste. Suspeitei uma revolução de caracter e julguei ter achado o que me convinha: um amigo moderado, que me livrasse dos vexames da vida collegial dos pequenos. O caso era outro. Sanches comprehendera que a ingenuidade tinha contraminado os zelos do seu ensino. Manobrava, então, para voltar á carga.

Entretanto, deu-se o cuidado de insistir na preparação edificante.

Inventou uma analyse dos Lusiadas, livro de exame, cuja difficuldade não cessava de encarecer.

Guiou-me ao canto nono, como a uma rua suspeita. Eu gozava criminosamente o sobresalto dos inesperados. Mentor levou-me por diante das estrophes, rasgando na face nobre do poema perspectivas de bordel a fumegar alfazema. Barbaro! Havia um trajo de modestia sobre a verdade do vocabulo; elle rasgava as tunicas de alto a baixo, grosseiramente. Fazia do meneio gracil de cada verso uma brutalidade offensiva. Eu acompanhava-o sem remorso; reputava-me vagamente victima, e me dava á crueldade, submisso, adormecido na vantagem da passividade. A analyse aguilhoava as rimas; as rimas passavam, deixando a lembrança de um requebro impudente. E o ar severo do Sanches imperturbavel.

Tomava cada periodo, cada oração, altamente, com o ademan sisudo do anatomista: sujeito, verbo, complementos, orações subordinadas; depois o significado, zás! um córte de escalpello, e a phrase rolava morta, repugnante, desentranhando-se em podridões infectas.

Iniciou da mesma forma um curso pittoresco de diccionario. O diccionario é o universo. Gaba-se de esclarecimento, mas atordôa, á primeira vista, como a agitação das grandes cidades desconhecidas. Encarreirados nas paginas consideraveis, os nomes seguem estranhamente com a numerosa prole dos derivados, ou sós, petits-maîtres faceiros, os gallicismos; vaidosos dandys os de proveniencia albionica. Molestam-nos com a maneira desdenhosa, porque os não conhecemos. As significações prolongam-se interminas, entrecruzam-se em confusa rêde topographica. O inexperiente não conquista um passo na immensa capital das palavras. Sanches estava affeito. Penetrou commigo até aos ultimos albergues da metropole, até á cloaca maxima dos termos chulos. Descarnou-me em caricatura de esqueleto, a circumspecção magistral do Lexicon, como polluira a elevação parnasiana do poema.

Eu me sentia amesquinhado sob o peso das revelações. Causava terror aquella sabedoria de cousas nunca sonhadas. O honrado director espiritual percebeu que havia agora um ascendente de dominio que me curvava. Olhava-me então de frente e tinha ousados risos de malicia. Depois dos dias de reserva, chegou-se de novo com uma segurança de possuidor forte. Eu andava num deploravel desmantelo de energia. Rebello, de vez em quando, acabrunhava-me, através dos oculos azues, com um olhar de desprezo ou condolencia ainda mais aviltante. Meu pae vinha vêr-me todas as semanas; eu mostrava os premios de applicação, conversava de casa; o resto calava. Sempre desconfiado e receioso dos outros, o meu companheiro era quasi exclusivamente Sanches. Sempre juntos eu e elle. Sabia-se no Atheneu que elle era meu explicador, suppunham até que pago. Não causavam estranheza as nossas relações.

Comtudo Sanches, como os mal intencionados, fugia dos logares concorridos. Gostava de vaguear commigo, á noite, antes da ceia, cruzando cem vezes o pateo de pouca luz, cingindo-me nervosamente, estreitamente até levantar-me do chão. Eu aturava, imaginando em resignado silencio o sexo artificial da fraqueza que definira Rebello.

Estimulado pelo abandono, que lhe parecia assentimento tacito, Sanches precipitou um desenlace. Por uma tarde de aguaceiro erravamos pelo saguão das bacias, escuro, humido, rescendendo ao cheiro das toalhas mofadas e dos ingredientes dentifricios, solidão favoravel, multiplicada pelos obstaculos á vista que offereciam enormes pilares quadrados em ordem a sustentar o edificio,—quando, sem transição, o companheiro chegou-me a bocca ao rosto e falou baixinho.

Só a voz, o simples som covarde da voz, rastejante, collante, como se fosse cada syllaba uma lesma, horripilou-me, feito o contacto de um supplicio immundo. Fingi não ter ouvido; mas houve intimamente a explosão de todo o meu asco por semelhante individuo, e muito calmo, desviando apenas a vista, pretextei a falta de um lenço, que me endefluxara a friagem e... fui buscal-o.

Fóra da zona magnetica em que me captivava o bom amigo, concertaram-se os meus instinctos sopitados de revolta e Sanches passou a ser um desconhecido. Sacrificava-se de golpe o amigo, o explicador e o vigilante: um rasgo de heroicidade. Ao primeiro encontro depois do rompimento, o homem viu que estava tudo acabado. Andou a rondar-me, temperando o olhar com um brilho de facadas.

A occasião é que não era a melhor para o conflicto. Conveniencias do ensino tinham feito dividir-se em duas turmas a aula do professor Manlio, e eu fôra incluido na secção confiada ao Sanches, como auxiliar idoneo. A consequencia foi o que devia ser. Maltratado e condemnado pelo ajudante, provando mal em razão do sobresalto no exame de verificação a que me sujeitou o professor, desmoralisado em reprehensão solemne com grande regosijo do Sanches, jurei vingança. Escandalisaria o mundo com uma vadiação sem exemplo! Percorrera a materia toda em rapida antecipação de estudo. Isto, porém, não bastava. Bastasse! foi o meu lemma. E toca a desandar. Fiquei abaixo do Barbalho, aliás fóra de classificação decente; fiquei abaixo do Alvares. Fui o ultimo da aula! Resultado razoavel, para emprego de uma energiazinha que despontava.

Ao mesmo tempo, como os philosophos atribulados, busquei a doce consolação dos astros.

Aristarcho iniciara um curso nocturno de cosmographia.

Estrellas era com elle. O nobre ensino! Nenhum professor, sob pena de expulsão, abalançava-se a intrometter-se nas onze varas da camisola, de astrologo. E vissem-no, á janella, indicando as constellações, impellindo-as através da noite com o pontudo dedo! Nós discipulos, não viamos nada; mas admiravamos. Bastava elle delinear sabiamente um agrupamento estellino ás alturas, para cada um de nós por seu lado ficar mais a quo. E voava, fugindo, a poeira phosphorecente.

Quanto a mim, o que sobretudo me maravilhava era a coragem com que Aristarcho fisgava os astros, quando todos sabem que apontar estrellas faz crear verrugas.

Uma vez, muito enthusiasmado, o illustre mestre mostrou-nos o Cruzeiro do Sul. Pouco depois, cochichando com o que sabiamos de pontos cardeaes, descobrimos que a janella fazia frente para o Norte: não atinamos. Aristarcho reconheceu o descuido: não quiz desdizer-se. Lá ficou a contra-gosto o Cruzeiro estampado no hemispherio da estrella polar.

Eu tomei amor ás cousas do espaço e estudava profundamente a mecanica do infinito pelo compendio de Abreu.

Para as noites brumosas, Aristarcho tinha os apparelhos. Uma infinidade de machinismos do ensino astronomico, exemplificando o systema solar, a theoria dos eclipses, a gravitação dos satellites, as espheras concentricas, terrestre e celeste; a de dentro, de cartão lustrado; a de fóra, de vidro. Um atravancamento indescriptivel, sobre a mesa, de estrellas e arames torcidos, rodas dentadas de latão, lampadas frouxas de naphta parodiando o sol. Aristarcho dava á manivella e gyrava tudo. Com o pince-nez grosso de tartaruga, á ponta do nariz, dominava o tropel dos mundos.

«Vêem, dizia, explicando a natureza, vêem a minha mão aqui?»

Mostrava a mão direita, ao realejo, bella manopla felpuda de fazer inveja a Esaú:

«É a mão da Providencia!»

O Ateneu

Sinopse

O Ateneu, de Raul Pompeia, é um romance clássico brasileiro em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza a obra em capítulos publicados, com espelhos de conteúdo completos, fonte institucional validável no Relei@/IFSertãoPE e versão digital de consulta na Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, com metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978653893096860927204942
O Ateneu

Resenhas do livro

1 publicadas
Eder B. Jr. 12/04/2025

https://www.instagram.com/p/DIX3DaOO6XP/?igsh=MXg0Mnl0OGY0enFwNQ==

Ir para o carrinho
Mercado de O Ateneu

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral O Ateneu Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 3 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

1 publicadas
Eder B. Jr. 12/04/2025

https://www.instagram.com/p/DIX3DaOO6XP/?igsh=MXg0Mnl0OGY0enFwNQ==

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir