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Capítulo 12 · O Ateneu

O Ateneu: XII - Sonho

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XII - Sonho

Musica estranha, na hora calida. Devia ser Gottschalk. Aquelle esforço agonisante dos sons, lentos, pungidos, angustia deliciosa de extremo gozo em que póde ficar a vida porque fôra uma conclusão triumphal. Notas graves, uma, uma; pausas de silencio e tréva em que o instrumento succumbe e logo um dia claro de renascença, que illumina o mundo como o momento phantastico do relampago, que a escuridão novamente abate...

Ha reminiscencias sonoras que ficam perpetuas, como um echo do passado. Recorda-me, ás vezes, o piano, resurge-me aquella data.

Do fundo repouso caído de convalescente, serenidade extenuada em que nos deixa a febre, infantilisados no enfraquecimento como a recomeçar a vida, inermes contra a sensação por um requinte morbido da sensibilidade—eu aspirava a musica como a embriaguez dulcissima de um perfume funesto; a musica envolvia-me num contagio de vibração, como se houvesse nervos no ar. As notas distantes cresciam-me n'alma em resonancia enorme de cisterna; eu soffria, como das palpitações fortes do coração quando o sentimento exacerba-se—a sensualidade dissolvente dos sons.

Lasso, sobre os lençóes, em conforto ideal de tumulo, que a vontade morrera, eu deixava martyrisar-me o encanto. A imaginação de azas crescidas, fugia solta.

E reconhecia visões antigas, no tecto da enfermaria, no papel das paredes rosa desmaiado, côr propria, enferma e pallejante... Aquelle rosto branco, cabellos de ondina, abertos ao meio, desatados, negrissimos, desatados para os hombros, a adorada dos sete annos que me tivera uma estrophe, parodia de um almanak, valha a verdade, e que lhe fôra entregue, sangrento escarneo! pelo proprio noivo; outra igualmente clara, a pequenina, a morta, que eu prezara tanto, cuja existencia fôra no mundo como o revoar das roupas que os sonhos levam, coma a phrase fugitiva de um hymno de anjos que o azul embebe... Outras lembranças confusas, precipitadas, mutações macias, incançaveis de nuvens, enlevando com a tonteira da elevação; lisas escapadas por um plano obliquo de vôo, oscillação de prodigioso aerostato, serena, em plena atmosphera...

Panoramas completos, uma partida, abraços, lagrimas, o steamer preto, sobre a agua esmeralda, inquieta e sem fundo, a gradezinha de cordas brancas cercando a pôpa, os salva-vidas como grandes collares achatados, cabos que se perdiam para cima, correntes que se dissolviam na espessura vitrea do mar; a camara dourada, baixa, suffocante, o torvelinho dos que se accommodam para ficar, dos que se apressam para descer aos escaleres...

Uma janella. Em baixo, o coradouro, espaçoso; para diante mangueiras arredondando a copa sombria na tela nitida do céu; além das mangueiras, conglobações de cumulus crescendo a olhos vistos, floresta collossal de prata; de outro lado, montanhas arborisadas, expondo num ponto e noutro, saliencias peitoraes de ferrugem como armaduras velhas. No coradouro estendidas, peças de roupa, iriadas de sabão, meias compridas de ourela vermelha, desenroladas na relva, saudosas da perna ausente, grandes lençóes, vestidos rugosos de molhados; acima do coradouro, cordas, ás cordas camisas transparentes, decotadas, rendadas, sem manga, lacrimejando espaçadamente a lavagem como se suassem ao sol a transpiração de muitas fadigas; saias brancas que dançavam na brisa a lembrança choreographica da soirée mais recente.

Quando o vento era mais forte, enfunava as roupas estendidas, inflando ventres de mulher nas saias, nas camisas. Angela apparecia. Sempre no seu raio de sol, como as fadas no raio de lua. Saudava-me á janella com uma das exclamações vivas de menino surpreso. Sem paletot, ás mãos, empilhados, dous montes de roupa enxaguada. Ajudava a lavadeira para distrahir-se. Falava olhando para cima, affrontando o dia sem cobrir os olhos.

Estava aborrecida, uma preguiça! uma preguiça! uma vontade de deitar no collo! começava as infinitas historias, narradas de vagar, como derretidas no labio quente, muito repisadas, de quando era pequena, aventuras da immigração, as casas onde trabalhara; contava as origens do drama do outro anno... Tratara de accommodar os dous para vêr se as cousas chegavam a bom termo; a desgraça não quiz. Agora, para falar a verdade, gostava mais do que morreu. O assassino era muito máu, exigia cousas d'ella como se fosse uma escrava; era bruto, bruto. Mas era de Hespanha; companheiros de viagem, e um homem bonito! sacudido, eu bem tinha conhecido; mas judiava d'ella; batia, empurrava: olhe, ainda tinha signaes, e levantava candidamente o vestido para mostrar, no joelho, na coxa, cicatrizes, manchas antigas que eu não via absolutamente, nem ella.

Cessava a musica...

As venezianas abertas davam entrada á claridade do tempo. Entrava simultaneamente um borborinho imperceptivel de arvores, falando longe, gorgeios ciciados de passaros, gritos humanos indistinctamente, attenuados pela immensa distancia, martelladas miudas de canteiro, tremor de carros nas ruas, miniatura extrema de trovão, parcellas infimas da vida pulverisadas na luz...

A porta da enfermaria descerrava-se de vagarinho e na matinée de musselina elegante e frouxa apparecia a amavel senhora. Vinha verificar se eu dormia, saber como passava agora.

Bastava a sua presença para reanimar-me no leito. Tão boa, tão boa no seu carinho de enfermeira, de mãe.

Junto da cama, um velador modesto e uma cadeira. Emma sentava-se. Pousava os cotovellos á beira do colchão, o olhar nos meus olhos aquelle olhar inolvidavel, negro, profundo como um abysmo, bordado pelas seducções todas da vertigem. Eu não podia resistir, fechava as palpebras; sentia ainda na palpebra com o halito de velludo a caricia d'aquella attenção.

Ao fim de algum tempo, a senhora, a vêr se eu tinha febre, demorava-me a pequenina mão sobre a testa, finissima, fresca, deliciosa como um diadema de felicidade.

Eu me perdia numa somnolencia sem nome que jamais lograram produzir os mais suaves vapores do narcotismo oriental.

Com o regimen fortificante d'esta therapeutica, voltava-me rapidamente a saude.

Logo depois da festa de educação physica, que foi alguns dias depois da grande solemnidade dos premios, eu adoecera. Sarampos, sem mais nem menos. Por motivo dos seus padecimentos, meu pae seguira para a Europa, levando a familia. Eu ficara no Atheneu, confiado ao director, como a um correspondente.

Meia duzia de rapazes eram meus companheiros. Que terrivel soledade o Atheneu deserto. No pateo, o silencio dormia ao sol, como um lagarto. Vagavamos, bocejando pelas salas desmontadas, despidas; as carteiras amontoadas num canto, na caliça os pregos sómente das cartas com alguns quadros restantes de maximas, por maior insipidez, os mais teimosos conselhos moraes. Nos dormitorios, as camas desfeitas mostravam o esqueleto de ferro pintado, o xadrez das chapas cruzadas. Principiava um serviço vasto de lavagem, envernizagem, caiação; vieram pintores reformar os aspectos do edificio que se renovavam todos os annos.

Os tristes reclusos das férias, ficavamos, no meio d'aquella restauração geral, como cousas antigas, do outro anno, com o deploravel inconveniente de se não poder caiar de novo e pintar.

Nesta situação, como do excesso de brilho das paredes em sol, que debatiam fulgores na melancolia morna da circumvizinhança dos morros, começaram a doer-me os olhos até á lagrima, forrou-me a lingua um sabor desagradavel de castanhas cruas. Seria isso o gosto do aborrecimento? Pesava-me a cabeça, o corpo todo, como se eu me cobrisse de chumbo.

Assim passei alguns dias, sem me queixar. Certa manhã, descubro no corpo, um formigueiro de pintinhas rubras. Aristarcho fez-me recolher na enfermaria, um prolongamento de sua residencia para os lados da natação. Veio medico, o mesmo do Franco; não me matou. D. Emma foi para mim o verdadeiro soccorro. Sabia tanto zelar, animar, acariciar, que a propria agonia aos cuidados do seu trato fôra uma resurreição.

A enfermaria era um simples lance da casa; especie de pavilhão lateral, com entrada independente pela chacara e communicando por dentro com as outras peças.

A senhora não deixava a enfermaria. Vigiava-me o somno, as crises de delirio, como uma irmã de caridade.

Aristarcho surgia ás vezes solemnemente, sem demorar. Angela nunca. Fôra-lhe prohibida a entrada.

Junto da cama, D. Emma commovia-se, mirando a prostração pallida, ao reabrir os olhos de um d'esses periodos de somno dos enfermos, que tão bem fingem de morte. Tirava-me a mão, prendia nas della tempo esquecido; luzia-lhe no olhar um brilho de pranto. A alimentação da dieta era ella quem trazia, quem servia. Ás vezes por gracejo carinhoso queria levar-me ella mesma o alimento á bocca, a colherinha de sagú, que primeiro provava com um adoravel amúo de beijo. Se precisava andar no aposento para mudar um frasco, entreabrir a janella, caminhava como uma sombra por um chão de paina.

Eu me sentia pequeno deliciosamente naquelle circulo de conchego como em um ninho.

Quando entrei em convalescença, a graciosa enfermeira tornou-se alegre. Ás escondidas do medico, embriagava-me, com aquella medicina de risos, gargarejo inimitavel de perolas a todo pretexto. Tagarellava, agitava-se como um passaro preso. Cantava, ás vezes, para adormecer-me, musicas desconhecidas, tão finamente, tão subtilmente, que os sons morriam-lhe quasi nos labios, brandos como o adejo brando da borboleta que expira. Quando me julgava adormecido, arranjava-me ao hombro a colcha, alisando-a sobre o corpo; uma vez beijou-me na tempora. E retirava-se, insensivelmente, evaporava-se.

Por um acaso da distribuição acustica dos compartimentos da casa, ouvia-se bem, agradavelmente amaciado, o som do piano do salão. A amavel senhora, para mandar-me da sua ausencia alguma cousa ainda, que acariciasse; que me fosse agradavel, traduzia no teclado com a mesma brandura sentida as musicas que sabia cantar. Nenhuma violencia de execução. Sentimento; apenas, sentimento, successão melodica de sons profundos, destacados como o dobre em Novembro, dos bronzes; depois, uma enfiada brilhante de lagrimas, colhidas num lago de repouso, final, sereno, consolado... effeitos commoventes da musica de Schopenhauer; fórma sem materia, turba de espiritos aereos.

A primeira vez que me levantei, tremulo da fraqueza, Emma amparou-me até á janella. Dez horas. Havia ainda a frescura matinal na terra. Diante de nós o jardim virente, constellado de margaridas; depois, um muro de hera, bambús á direita; uma zona do capinzal fronteiro; depois, casas, torres, mais casas adiante, telhados ainda á distancia, a cidade. Tudo me parecia desconhecido, renovado. Curioso esplendor revestia aquelle espectaculo. Era a primeira vez que me encantavam assim aquellas gradações de verde, o verde negro, de faiença, luzente da hera, o verde fluctuante mais claro dos bambús, o verde clarissimo do campo ao longe sobre o muro, em todo o fulgor da manhã. Tectos de casas, que novidade! que novidade o perfil de uma chaminé riscando o espaço! Emma entregava-se, como eu, ao prazer dos olhos. Sustinha-me em leve enlace; tocava-me com o quadril em descanço.

Absorvendo-me na contemplação da manhã, penetrado de ternura, inclinei a cabeça para o hombro de Emma, como um filho, entrecerrando os cilios, vendo o campo, os tectos vermelhos como cousas sonhadas em affastamento infinito, através de um tecido vibrante de luz e ouro.

Desde essa occasião, fez-se-me desesperada necessidade a companhia da boa senhora. Não! eu não amara nunca assim a minha mãe. Ella andava agora em viagem por paizes remotos, como se não vivesse mais para mim. Eu não sentia a falta. Não pensava nella... Escureceu-me as recordações aquelle olhar negro, bello, poderoso, como se perdem as linhas, as fórmas, os perfis, as tintas, de noite, no anniquilamento uniforme da sombra... Bem pouco, um resto desfeito de saudades para aquella inercia intensa, avassallando.

Apavorava-me apenas um susto, alarma eterno dos felizes, azedume insanavel dos melhores dias: não fosse subitamente destruir-se a situação. A convalescença progredia; era um desgosto.

No pequeno aposento da enfermaria, encerrava-se o mundo para mim. O meu passado eram as lembranças do dia anterior, um especial affago de Emma, uma attitude seductora que se me firmava na memoria como um painel presente, as duas covinhas que eu beijava, que ella deixava dos cotovellos no colchão premido, ao partir, depois da ultima visita, á noite, em que ficava como a esperar que eu dormisse, apoiando o rosto nas mãos, os braços na cama, impondo-me a lethargia magnetica do vasto olhar.

O meu futuro era o despertar precoce, a anciada esperança da primeira visita. Saltava da cama, abria imprudentemente a vidraça, a veneziana. Ainda escuro. Uma luz em frente, longinqua, irradiava solitaria, reforçando pelo contraste a obscuridade. Por toda a parte o firmamento limpo. O mais completo silencio. Dir-se-ia ouvir no silencio azul das alturas a crepitação das estrellas ardendo.

Eu tomava ao leito. Esperava. Não dormia mais. Ao fim de muito tempo, entrava na enfermaria, vinha ter aos lençóes, de mansinho, como uma insinuação derramada de leite, a primeira manifestação da alvorada. O arvoredo movia-se fóra com um bulicio progressivo de folhagem que acorda. A luz meiga, receiosa, desenvolvia-se docemente pelo soalho, pelas paredes.

Havia no aposento um grande chromo de paysagem, montanhas de neve no fundo, mais á vista, uma vivenda desmantelada, uma cachoeira de anil e pinheiros espectraes, trabalhados, encanecidos por um seculo de tormentas. A madrugada subia ao quadro, como se amanhecesse tambem na região dos pinheiros. Eu esperando. A madrugada progredia.

Toucava-se a vegetação de côres diurnas. Dialogava o primeiro trilar da passarada. Eu esperando ainda. E ella vinha... com a aurora.

Trouxe-me uma vez uma carta, de Paris, de meu pae.

«... Salvar o momento presente. A regra moral é a mesma da actividade. Nada para amanhã, do que póde ser hoje; salvar o presente. Nada mais preoccupe. O futuro é corruptor, o passado é dissolvente, só a actualidade é forte. Saudade, uma covardia, apprehensão outra covardia. O dia de amanhã transige; o passado entristece e a tristeza afrouxa.

Saudade, apprehensão, esperança, vãos phantasmas, projecções inanes de miragem; vive apenas o instante actual e transitorio. É salval-o! salvar o naufrago do tempo.

Quanto á linha de conducta: para diante. É a honesta logica das acções.

Para diante, na linha do dever, é o mesmo que para cima. Em geral, a despeza de heroismo é nenhuma. Pensa nisto. Para que a mentira prevaleça, é mister um systema completo de mentiras harmonicas. Não mentir é simples.

... Estou numa grande cidade, interessante, movimentada. As casas são mais altas que lá; em compensação, os tectos, mais baixos. Dir-se-ia que o andar de cima esmaga-nos. E como cada um tem sobre a cabeça um vizinho mais pobre, parece que a oppressão, aqui, pesa da miseria sobre os ricos.

A agitação não me faz bem.

Abro a janella para o boulevard: uma effervescencia de animação, de ruido, de povo, a festa illuminada dos negocios, das tentativas, das fortunas... Mas todos vêm, passam diante de mim, affastam-se, desapparecem. Que espectaculo para um doente. Parece que é a vida que foge.

Dou-te a minha benção...»

Momento presente... Eu tinha ainda contra a face a mão que me dera a carta; contra a face, contra os labios, venturosamente, ardentemente, como se fosse aquelle o momento, como se bebesse na linda concha da palma o gozo immortal da viva verdade.

«Ah! Tem ainda um pae» disse Emma, uma querida mãe, irmãos que o amam... Eu nada tenho; todos mortos... apparecem-me ás vezes á noite... sombras. Ninguem por mim. Nesta casa sou de mais... Deixemos essas cousas.

Não sabe o que é um coração isolado como eu... Todos mentem. Os que se aproximam são os mais traidores...»

A convivencia quotidiana na solidão do aposento estabelecera a entranhada familiaridade dos casaes.

Emma affectava não ter mais para mim avarezas de colchete. «Sergio, meu filhinho.» Dava-me os bons dias. Saia, voltava fresca, como grande, vernal sorriso rorejado ainda do orvalho das ablações. Rindo sem causa: da claridade feliz da manhã, de me vêr forte, quasi bom.

Debruçava-se expansiva, resplendendo a formosura sobre mim, na golla do peignoir, como um derramamento de flôres de uma cornucopia.

Tomava-me a fronte nas mãos, collava á d'ella; arredava-se um pouco e olhava-me de perto, bem dentro dos olhos, num encontro inebriante de olhares. Aproximava o rosto e contava, labios sobre labios, mimosas historietas sem texto, em que falava mais a vivacidade sanguinea da bocca, do que a imperceptivel confusão de arrulhos cantando-lhe na garganta como um collar sonoro.

Achava-me pequenino, pequenino. Sentava-se á cadeira. Tomava-me ao collo, acalentava-me, agitava-me contra o seio como um recem-nascido, inundando-me de irradiações quentes de maternidade, de amor. Desprendia os cabellos e com um ligeiro movimento de espaduas fazia cair sobre mim uma tenda escura. De cima, sobre as faces, chegava-me o bafejo tepido da respiração. Eu via, ao fundo da tenda, incerto como em sonhos, a fulguração sideral de dous olhos.

E fôra preciso que soubesse ferir o coração e escrever com a propria vida uma pagina de sangue para fazer a historia dos dias que vieram, os ultimos dias...

E tudo acabou com um fim brusco de máu romance...

Um grito subito fez-me estremecer no leito: Fogo! logo! Abri violentamente a janella. O Atheneu ardia.

As chammas elevavam-se por cima do chalet, na direcção do edificio principal. Immenso globo de fumo convulsionava-se nos ares, tenebroso da parte de cima, que parecia chegar ao céu, illuminado inferiormente por um clarão côr de cobre.

Na casa de Aristarcho reinava o maior silencio.

As portas abertas, todos tinham saído. Precipitei-me para fóra da enfermaria.

Entre os reclusos das férias, contava-se um rapaz, matriculado de pouco, o Americo. Vinha da roça. Mostrou-se contrariado desde o primeiro dia. Aristarcho tentou abrandal-o; impossivel: cada vez mais enfezado. Não falava a ninguem. Era já crescido e parecia de robustez não commum. Olhavam todos para elle como para uma fera respeitavel. De repente desappareceu. Passado algum tempo vieram tres pessoas reconduzindo-o; o pae, o correspondente e um criado. O rapaz, amarello, com manchas vermelhas, movediças, no rosto, mordia os beiços até ferir. O pae pediu contra elle toda a severidade. Aristarcho, que tinha velleidades de amansador, gloriando-se de saber combinar irresistivelmente a energia com o modo amoroso, tranquillisou o fazendeiro: «Tenho visto peiores.»

Carregando a vista com toda a intensidade da força moral, segurou o discipulo rijamente pelo braço e fel-o sentar-se. «Tu ficarás, meu filho! O moço limitou-se a responder, cabisbaixo, possuido de repentina complacencia: «Eu fico.» Dizem que o pae o tratava terrivelmente, vendo-o apresentar-se em casa, evadido.

Com a proximidade da festa dos premios o caso do desertor ficou esquecido, e ninguem foi jamais como elle exemplo de cordura.

Ardia effectivamente o Atheneu. Transpuz a correr a porta de communicação entre a casa de Aristarcho e o collegio.

Não havia ainda começado serviço serio de extincção. A maior parte dos criados eram licenciados por occasião das férias; os poucos restantes andavam como doudos, incertos, gritando: fogo!

Fui achar Aristarcho no terraço lateral, agitado, bradando pelas bombas, que estava perdido, que aquillo era a sua completa desgraça! Ao redor d'elle pessoas do povo, que tinham acudido, trabalhavam para salvar o escriptorio, antes que viessem as chammas.

O incendio principiara no saguão das bacias.

Por maior incremento no desastre, ardia tambem, no pateo, uma porção de madeira que ficara das archibancadas, aquecendo as paredes proximas, reseccando o travejamento, favorecendo a propagação do fogo.

O susto de tal maneira me surprehendera, que eu não tinha exacta consciencia do momento. Esquecia-me a vêr os dragões dourados revoando sobre o Atheneu, as salamandras immensas de fumaça arrancando para a altura, desdobrando contorsões monstruosas, mergulhando na sombra cem metros acima.

O jardim era invadido pela multidão; vociferavam lamentações, clamavam por soccorro. Dominando a confusão das vozes, ouvia-se o apito da policia em alarma, cortante, electrico, e o rebate plangente de um sino, á distancia, como o desanimo de um paralytico que quizera vir.

O fogo crescia impetos de enthusiasmo, como alegrado dos proprios clarões, desfeiteando a noite com a vergasta das labaredas.

Sobre o pateo, sobre o jardim, por toda a circumvizinhança choviam fagulhas, contrastando a mansidão da quéda com os tempestuosos arrojos do incendio. Por toda a parte caíam escorias incineradas, que a atmosphera flagrante repellia para longe como folhas seccas de immensa arvore sacudida.

Quando as bombas appareceram, desde muito tinham começado os desabamentos. De instante a instante um estrondo, prolongado de descarga, ás vezes surdo, agitando o solo como explosões subterraneas. Ás vezes, a um novo alento das chammas, a columna ardente desenvolvia-se muito, e avistavam-se as arvores terrificadas, immoveis, as mais proximas crestadas pelas ondas de ar torrido que o incendio despedia. As alamedas, subitamente esclarecidas, multiplicavam as caras lividas, olhando. Na rua, ouvia-se arquejar presurosamente uma bomba a vapor; as mangueiras, como interminaveis serpentes, insinuavam-se pelo chão, collavam-se ás paredes, desappareciam por uma janella. Nas cimalhas, destacando-se em silhueta, sobre as côres terriveis do incendio, moviam-se os bombeiros.

Perdido completamente o lance principal do edificio; sala de entrada, capella, dormitorios todos da primeira e da segunda classes. Uma turma de salvação procurava isolar o refeitorio e as salas proximas, entregando-se a um serviço completo de vandalismo, abatendo o telhado, cortando o vigamento, destruindo a mobilia.

Para o terraço lateral, onde conservava-se Aristarcho, impassivel sob a chuva chamuscante das fagulhas, chegavam continuamente os destroços miserandos da salvação: armarios despedaçados, apparelhos, quadros de ensino inutilisados, mil fragmentos irreconheciveis de pedagogia sapecada.

A frente do Atheneu apresentava o aspecto mais terrivel. De varios pontos do telhado, semelhando columnas torcidas, espiralavam grossas erupções de fumo; ás janellas superiores o fumo irrompia tambem, por braços immensos, que pareciam suster a mole incalculavel de vapores no alto. Com a falta de vento, as nuvens, accumuladas e comprimidas, pareciam consolidar-se em pavorosos rochedos inquietos. Ás janellas do primeiro andar as chammas appareciam, tisnando os humbraes, ennegrecendo as vergas. Tratadas a fogo, as vidraças estalavam. Distinguia-se na tempestade de rumores o barulho crystallino dos vidros na pedra das saccadas, como brindes perdidos da saturnal da devastação.

Nos logares ainda não alcançados, bombeiros e outros dedicados arremessavam para fóra camas de ferro, trastes diversos, veladores, que vinham espatifar-se no jardim, com um fracasso de esmagamento. As imagens da capella tinham sido salvas no principio do incendio. Estavam enfileiradas ao sereno, á beira de um gramal, voltadas para o edificio, como entretidas a vêr. A Virgem da Conceição chorava. Santo Antonio, com o menino Jesus ao collo, era o mais abstracto, equilibrando a custo um resplendor desproporcional, offerecendo ante os terrores a amostra de impassibilidade do sorriso palerma, que lhe emprestara um santeiro pulha.

O trabalho das bombas, nesse tempo das circumscripções lendarias, era uma vergonha. Os incendios acabavam de cançaço. A simples presença do Coronel, irritava as chammas, como uma impertinencia de petroleo. Notava-se que o incendio cedia mais facilmente sem o empenho dos profissionaes do esguicho.

No sinistro do Atheneu a cousa foi evidente. Depois das bombas, a violencia das chammas chegou ao auge. Do interior do predio, como das entranhas de um animal que morre, exhalava-se um rugido surdo e vasto. Pelas janellas, sem batentes, sem bandeira, sem vidraça, estaladas, carbonisadas, via-se arder o tecto; desmembrava-se o telhado, furando-se boccas hiantes para a noite. Os barrotes, acima de invisiveis brazeiros, como animados pela dôr, recurvavam crispações terriveis, precipitando-se no sumidouro.

No meio da multidão commentava-se, explicava-se, definia-se o incendio.

«Que felicidade ser o desastre em tempo de férias!—Dizem que foi proposital...» Affirmava-se que o fogo começara de uma sala onde estavam em pilha os colchões, retirados para a lavagem da casa. Diziam que começara simultaneamente de varios cantos, por arrombamentos do tubo de gaz perto do soalho. Alguns suspeitavam de Aristarcho e aventuravam considerações a respeito das circunstancias financeiras do estabelecimento e do luxo do director.

A noticia do incendio, apezar da hora, espalhara-se em grande parte da cidade. Nas ruas do arrabalde havia um movimento de festa. Grande numero de alumnos tinham concorrido a testemunhar. Alguns empenhavam-se com bravura no serviço. Outros cercavam o director, em silencio, ou fazendo exclamações sem nexo e manifestando os symptomas da mais perigosa desolação.

Aristarcho, que se desesperava a principio, reflectiu que o desespero não convinha á dignidade. Recebia com toda a calma as pessoas importantes que o procuravam, autoridades, amigos, esforçados em minorar-lhe a magoa com o lenitivo proficuo dos offerecimentos. Affrontava a desgraça soberanamente, contemplando o anniquilamento de sua fortuna com a tranquillidade das grandes victimas.

Acceitava o rigor da sorte.

Et comme il voit en nous des âmes peu communes Hors de l'ordre commun il nous fait des fortunes.

Depois de algumas horas de somno, voltei ao collegio. O fogo abatera. Parte da casa tinha escapado. Refeitorio, cozinha, copa, uma ou duas salas. Foram respeitados os pavilhões independentes, do pateo. Funccionavam ainda as bombas, refrescando o entulho carbonisado e as paredes. De todos os lados, como de extensa solfatara, nasciam filetes de fumaça, mantendo um nevoeiro terroso e um cheiro forte de madeiras queimadas. As paredes mestras sustentavam-se firmes, varadas de janellas, como arrombamentos iguaes, negrejantes como da acção continua de muitas idades de ruina.

Sobre as paredes internas que restavam, equilibravam-se pontas de vigamento, revestidas de um bolor claro de cinza, tições enormes, apagados. Na atmosphera luminosa da manhã fluctuava o socego funebre que vem no dia seguinte sobre o theatro de um grande desastre.

Informaram-me de cousas extraordinarias. O incendio fôra propositalmente lançado pelo Americo, que para isso rompera o encanamento do gaz no saguão das bacias. Desapparecera depois do attentado.

Desapparecera igualmente durante o incendio a senhora do director.

Dirigi-me para o terraço de marmore do outão. Lá estava Aristarcho, tresnoitado, o infeliz. No jardim continuava a multidão dos basbaques. Algumas familias em toilette matinal passeavam. Em redor do director muitos discipulos tinham ficado desde a vespera, inabalaveis e compadecidos. Lá estava, a uma cadeira em que passara a noite, immovel, absorto, sujo de cinza como um penitente, o pé direito sobre um monte enorme de carvões, o cotovello espetado na perna, a grande mão felpuda envolvendo o queixo, dedos perdidos no bigode branco, sobr'olho carregado.

Falavam do incendiario. Immovel! Contavam que não se achava a senhora. Immovel! A propria senhora com quem elle contava para o jardim de crianças! Dôr veneranda! Indifferença suprema dos soffrimentos excepcionaes! Majestade inerte do cedro fulminado! Elle pertencia ao monopolio da magoa. O Atheneu devastado! O seu trabalho perdido, a conquista inapreciavel dos seus esforços!... Em paz!... Não era um homem aquillo; era um de profundis.

Lá estava; em roda amontoavam-se figuras torradas de geometria, apparelhos de cosmographia partidos, enormes cartas muraes em tiras, queimadas, enxovalhadas, visceras dispersas das licções de anatomia, gravuras quebradas da historia santa em quadros, chronologias da historia patria, illustrações zoologicas, preceitos moraes pelo ladrilho, como ensinamentos perdidos, espheras terrestres contundidas, espheras celestes rachadas; borra, chamusco por cima de tudo: despojos negros da vida, da historia, da crença tradicional, da vegetação de outro tempo, lascas de continentes calcinados, planetas exorbitados de uma astronomia morta, sóes de ouro desthronados e incinerados...

Elle, como um deus caipora, triste, sobre o desastre universal de sua obra.

Aqui suspendo a chronica das saudades. Saudades verdadeiramente? Puras recordações, saudades talvez, se ponderarmos que o tempo é a occasião passageira dos factos, mas sobretudo—o funeral para sempre das horas.

Rio de Janeiro—Março de 1888.

FIN

O Ateneu

Sinopse

O Ateneu, de Raul Pompeia, é um romance clássico brasileiro em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza a obra em capítulos publicados, com espelhos de conteúdo completos, fonte institucional validável no Relei@/IFSertãoPE e versão digital de consulta na Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, com metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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LITEBN-978653893096860927204942
O Ateneu

Resenhas do livro

1 publicadas
Eder B. Jr. 12/04/2025

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1 publicadas
Eder B. Jr. 12/04/2025

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