Universo da obra
Universo da obra
O futuro tinha reservado para Nearcho um feixe de melhores palmas, uma galhada de louros mais legitimos como tempero de victoria.
O Gremio Litterario Amor ao Saber, instituição recente, seria o verdadeiro theatro dos seus soberbos alcances.
Duas vezes ao mez congregavam-se os amigos das letras, numa das salas de cima; a mesma das licções astronomicas de Aristarcho. Havia ainda para illuminar as sessões pedaços de materia cosmica pelos cantos, esfrangalhada pela analyse do mestre. Não quer dizer que merecesse as eternas luminarias da ironia a benemerita associação.
As suas reuniões comparecia eu timidamente, para nada mais que simplesmente abusar, por excessivo consumo, de um direito dos estatutos: podiam os alumnos, todos do Atheneu, em silencio humilde, mariscar o que fossem deixando os segadores do trigal das litteraturas.
Assistente infallivel, saÃa cheio com a rhetorica espigada, que ia espalmar, prensando no diccionario, conservas de espirito, reliquia inapreciavel do Bello.
A difficuldade que encontrava um estudante para forrar-se ao privilegio de gremista, fazia-me mais a fundo veneral-o.
Nearcho não teve o menor embaraço. Entrara para o estabelecimento muito adiantado. Foi immediatamente proposto, acceito e empossado. à primeira sessão, depois do triumpho ao trapezio, tive occasião de aprecial-o á gymnastica do verbo.
Debatia-se este problema, dos inesgotaveis das aggremiações congeneres: Quem foi maior, Alexandre ou Cesar? indagação historica difficil evidentemente de levar a cabo sem o auxilio da trena.
Nearcho arranjou a cousa a olho e distinguiu-se com a esperada galhardia. Falou durante hora e meia com uma fluencia que lhe angariava para sempre o epitheto de facundo. Juxtapôz com o primor de um varegista de fazendas—Cesar sobre Alexandre Cesar protestou contra a maneira, de barriga para o ar, que nada tinha de artistica; além d'isso espetava-o a armadura de Alexandre. Aquillo faria rir a Pompeu no armario das legendas e a maledicencia do senado, compromettendo-se a seriedade secular do homem que foi, viu e venceu... Nearcho manteve-o inexoravelmente durante o percurso do parallelo critico. Cesar não podia contar com os legionarios do bom tempo; alli esteve a fazer caretas na sujeição inerme, anima vilis dos documentos. Alexandre, que afóra o capacete, via-se ainda maiorzinho que o outro, teve mais paciencia, deixando-se medir até á peroração, com a boa vontade de um defunto. Venceu com effeito. Nearcho proclamou-o magno dos magnos, diversas pollegadas maior que o temerario do Rubicon.
O Gremio esclarecido rejubilou. A discussão encerrou-se, não havendo mais quem falasse. Tambem havia cinco sessões que eram os pobres guerreiros tratados a metro.
Por este memoravel dia arvorou-se Nearcho em notabilidade firmada. Esqueceram todos que elle fôra matriculado sob o quasi compromisso de não dar um passo que não fosse um salto mortal, não descançar senão de pernas para cima em cadeiras equilibradas sobre garrafas, não ter outro recreio que não fosse a corda bamba, por não destoar da percorrida fama. Ficou em olvido a estréa acrobatica. O Gremio Amor ao Saber tomou-o a si, em posse exclusiva, como um orgulho.
Não faltavam, entretanto, poetas, jornalistas, polemistas, romancistas, criticos, folhetinistas. A sociedade tinha o seu orgão, O Gremio, impresso no Lombaerts, de que podiam ser canudos á vontade os socios quites e ainda, por maior riqueza de harmonias, os honorarios.
Entre os honorarios figurava Aristarcho, presidente, collaborando sempre no periodico com a transcripção em avulso das maximas de parede, e mandando sempre para a quarta pagina um annuncio garrafal do Atheneu, que pagava para auxiliar á empreza. Na interessante publicação appareciam quadrinhas mysticas do Ribas e sonetos lubricos do Sanches. Barreto publicava meditações, especie de harpa do crente em prosa arrebentada.
O rodapé-romance era uma imitação d'O Guarany, emplumada de vocabulos indigenas e assignada—Aimbiré.
Nearcho atirou-se á especialidade dos parallelos. Começou logo por dous de pancada: Scylla e Mario, Tito e Nero. No expediente promettia-se um terceiro curiosissimo: Plutarcho e os beocios.
Esta quéda para as linhas equidistantes, talento aliás de carril urbano e annexos muares, foi mais uma razão de prestigio para o extraordinario rapaz.
A eloquencia representava-se no Gremio por uma porção de categorias. Cicero tragedia—voz cavernosa, gestos de punhal, que parece clamar de dentro do tumulo, que arrepia os cabellos ao auditorio, franzindo com fereza o sobr'olho, que, se a rhetorica fosse susceptivel de assignatura, accrescentaria ao fim de cada discurso pesadamente: a mão do finado; Cicero modestia—formulando excellentes cousas, atrapalhadamente, no embaraço de um perpetuo début, desculpando-se muito em todos os exordios e ainda mais em todas as confirmações, lagrimas na voz, difficuldade no modo, selecto e engasgado; Cicero circumspecção—enunciando-se por phrases cortadas como quem encarreira tijolos, homem da regra e da legalidade, calcando os que e os cujo, longo, demorado, caprichoso em mostrar-se mais raso do que o muito que realmente é, amigo dos periodos quadrados e vasios como caixões, attenuando mais em cada conceito a attenuante do conceito anterior, conservador e ultramontano, porque as cousas estabelecidas dispensam de pensar, apologista ferrenho de Quintiliano, retardando com intervallos o discurso impossivel para provar que divide bem a sua elocução, com todos os requisitos da oratoria, pureza, clareza, correcção, precisão, menos uma cousa—a idéa; Cicero tempestade—verborrhagico, por páus e por pedras, precipitando-se pela fluencia como escadas abaixo, accumulando avalanches como uma liquidação boreal do inverno, annullando o effeito de assombroso destampatorio pelo assombro do destampatorio seguinte, eloquencia suada, offegante, desgrenhada, ensurdecedora, pontuada a murros como uma scena de pugilato; Cicero franqueza—positivo, indispensavel para o encerramento das discussões, dizendo a cousa em duas palavras, em geral grosseiro e mal falante, prompto para offerecer ao adversario o encontro em qualquer terreno, especie perigosa nas assembléas; Cicero sacerdocio—sacerdotal, solemne, orando em tremolo, alçando a testa como uma mitra, pedindo uma cathedral para cada proposição, calçando aos pés dous pulpitos em vez de sapatos, especie venerada e acatada.
Nearcho introduziu o typo ausente do Cicero penetração—incisivo, fanhoso e implicante, gesticulando com a mãozinha á altura da cara e o indicador em croque, marcando precisamente no ar, no soalho, na palma da outra mão o logar de cada cousa que diz, mesmo que se não perceba, pasmando de não ser entendido, impacientando-se até ao desejo de vasar os olhos ao publico com as pontas da sua clareza, ou derreando-se em frouxos de compaixão pela desgraça de nos não comprehendermos, porcos e perolas.
O gesto incisivo, mais a facundia desimpedida, mais o talento historico dos parallelos, consagrou a primazia do gremista.
O presidente effectivo da sociedade era o Dr. Claudio, professor da casa, homem de capacidade, benevolo para os desgarros de tolice da juventude, que teria desgosto para uma semana, se imaginassem que faltara a uma sessão por menosprezo. Esta constancia do chefe era o grande elemento de prosperidade do Amor ao Saber. O Dr. Claudio conduzia os trabalhos com verdadeira pericia de automedonte, esclarecia os embroglios, forjava adjectivos de encomio que ia dando a cada um por sua vez e a todos os estimáveis consocios, propunha algumas theses e achava graça em outras. Nas sessões solemnes pronunciava o discurso official.
A maior utilidade do Gremio para mim era a bibliotheca. Uma collecção de quinhentos a seiscentos volumes de variado texto, zelados pela vigilancia cerberesca do Bento Alves, bibliothecario, eleito de voto unanime.
Alves era da associação, como quasi todos os alumnos do curso superior. Filiava-se ao grupo sympathico dos silenciosos, usufruindo os lucros da circumstancia de não ser do regimento a taramela obrigatoria. Fóra da bibliotheca, os seus serviços aos intuitos do Gremio resumiam-se no apoiado! consciencioso e firme, á disposição sempre da melhor idéa, em questões elevadas, e do mais sabio alvitre em questões de ordem.
Alguns rapazes, não do Gremio e que não houvessem, nas letras, manifestado grammaticalmente notavel geito para a conjugação subrepticia do verbo adquirir, podiam obter do presidente o direito de ingresso na sala dos livros. Eu, como amigo que era das bonitas paginas impressas, apresentei candidatura. E como não divertia bastante o jogo da barra ao sol, nem o rapa-tira-deixa-pôe das pennas de aço e das carrapetas, nem o correr á panellinha das bolas de vidro espiraladas de côres, fez-se-me a bibliotheca a recreação habitual.
Esta frequencia angariou-me dous amigos, dous saudosos amigos—Bento Alves e Julio Verne.
Ao famoso contador do Tour du monde devo uma multidão numerosa dos amaveis phantasmas da primeira imaginação, excentricos como Fogg, Paganel, Thomas Black, alegres como Joe, Passepartout, o negro Nab, nobres como Glenarvan, Letourneur, Paulina Barnett, attrahentes como Aouda, Mary Grant. Sobre todos, grande como um semideus, barba nitente, luminosa como a neblina dos sonhos, o lendario Nemo da ilha Mysteriosa, taciturno da lembrança das justiças de vingador, esperando que um cataclysma lhe cavasse um jazigo no seio do Oceano, seu vassallo, seu cumplice, seu dominio, patria sombria do expatriado.
Possuia minha litteratura completa de thesouros de meninos, contos de Schmidt; visitara uma por uma no meu burrinho as feiras da sabedoria de Simão de Nantua; estudara profundamente pelas aventuras de Gulliver as vacillações da vida, onde, mal acabamos de zombar da pequenez extrema, vem sobre nós o ludibrio da extrema grandeza, especie de Pascal de mammadeira entre Liliput e Brobdignak; chegara á perfeição de duvidar das emprezas de Munchausen. Isto tudo sem falar nos Lusiadas do Sanches, no reverendo Bernardes, na refinada pilheria do Bertholdo e no Testamento do Gallo, symbolo aliás muito philosophico da odiosidade das successões, que por ventura do herdeiro autorisa o destripamento do gallinaceo como a tortura shakspereana de Lear.
Julio Verne foi festejado como uma migração do novidade. Onde quer que me levasse o Forward ou o Duncan, o Nautilus ou o balão Victoria, a columbiada da Florida ou cryptogramma de Saknussen, lá ia eu, esfaimado de desenlaces, prazenteiro, ávido como os tres dias de Colombo antes da America, respirando no cheiro das encadernações as variantes climatericas da leitura, desde as areias africanas até aos campos de crystal do Arctico, desde os grandes frios sideraes até a aventura do Stromboli.
A amizade do Bento Alves por mim e a que nutri por elle, me faz pensar que, mesmo sem o caracter de abatimento que tanto indignava ao Rebello, certa effeminação pode existir como um periodo de constituição moral. Estimei-o femininamente, porque era grande, forte, bravo; porque me podia valer; porque me respeitava, quasi timido, como se não tivesse animo de ser amigo. Para me fitar esperava que eu tirasse d'elle os meus olhos. A primeira vez que me deu um presente, gracioso livro de educação, retirou-se corado, como quem foge. Aquella timidez, em vez de alertar, enternecia-me, a mim que aliás devia estar prevenido contra escaldos de agua fria. Interessante é que vago elemento de materialidade havia nesta affeição de criança, tal qual se nota era amor, prazer do contacto fortuito, de um aperto de mãos, da emanação da roupa, como se absorvessemos um pouco do objecto sympathico.
Na bibliotheca, Bento Alves escolhia-me as obras: imaginava as que me podiam interessar; e propunha a compra, ou as comprava e offerecia ao Gremio, para dispensar-se de m'as dar directamente. No recreio não andavamos juntos; mas eu via de longe o amigo, attento, seguindo-me o seu colhar como um cão de guarda. Soube depois que ameaçava torcer o pescoço a quem pensasse apenas em me offender; seu irmão adoptivo! confirmava.
Eu, que desde muito assumira entre os collegas um bello ar de impavida altania, modificava-me com o amigo, e me sentia bem na submissão voluntaria, como se fosse artificial a bravura, á maneira da conhecida petulancia feminina.
A malignidade do Barbalho e seu grupo não dormia. Tremendo da represalia de Alves, faziam pelos cantos escorraçada maledicencia, digna d'elles.
Ãs vezes na bibliotheca, emquanto eu lia, Alves olhava-me do outro lado da mesa central de panno verde, com a mão á fronte e os dedos mergulhados nos cabellos. Olhava-me e eu o sentia sem levantar a vista, comprehendendo no mais fino refolho de ninada vaidade que aquella contemplação traduzia o horror do ridiculo, proverbial em Bento Alves, manietando-lhe rijamente uma demonstração effusiva. Não fosse a critica uma creatura do tempo, eu poderia achar comica a situação dos personagens d'esta scena de platonismo. Não havendo a critica para falsear a psychologia por desdobramento, limitava-me a ser sincero, como o pobre amigo. Ãs vezes vinha-lhe á palpebra uma lagrima sem origem.
No movimento geral da existencia do internato, desvelava-se caprichosamente; sabia ser de modo inexprimivel, fraternal, paternal, quasi digo amante, tanta era a minudencia dos seus cuidados. Não havia regalo, d'essas mesquinhas cousas de preço enorme na carestia perpetua da prisão escolar, de que se não privasse o Alves, em meu proveito, desesperando-se, a fazer pena, se eu tentava recusar. à conversa, falava da familia no Rio Grande do Sul; tinha duas irmãs; falava d'ellas, do tempo passado que não as via, muito claras, de bellos olhos, uma de quinze annos, outra de doze; elle tinha dezoito. Falava de cuidados hygienicos meus, mudar de cama no salão azul, que estava muito perto das janellas, e isto havia de ser nocivo... Outras ninharias, em tom de sentida brandura, como se desejasse decrescer das proporções solidas de sua conformação para reduzir-se á exiguidade balbuciante de uma carcassazinha de avó, minguada de velhice, animada, ainda e apenas, pela febre do ultimo alento, pela necessidade de carregar ainda alguns dias um coração, um affecto.
Os estatutos do Gremio marcavam duas occasiões de solemnidade: as festas annuaes de abertura e do encerramento dos trabalhos. Além d'estas, as sessões commemorativas que a casa resolvesse.
Para as festas litterarias, levava-se ao pavilhão do recreio um grande estrado, tres mesas que se alinhavam para a directoria, sob um rico panno côr de vinho, de ramagens negras, que lembravam tinteiros entornados de mau agouro, e uma tribuna familiarmente appellidada caranguejola.
Esta caranguejola, enorme e pesada, que parecia protestar, a cada solavanco, contra o caracter de movel que lhe queriam á força impingir, fazia figura em todas as salas do Atheneu, conforme as exigencias da rhetorica. Localisada a conferencia, a prelecção, a pratica solemne, abalava-se a misera e punha-se em caminho, aos encontrões, seguindo o fadario de mostrador ambulante de eloquencia. Nestas circumstancias não era uma simples tribuna, era um verdadeiro prognostico. Em se movendo a caranguejola, discurseira imminente. Teve um dia de razoavel orgulho: d'ella serviu-se no Atheneu o professor Hartt, para uma conferencia de anthropologia.
Quando a vimos andar um dia e soubemos que aquillo significava a installação do Amor ao Saber, congregou-se o Atheneu, unificado no mesmo impulso de enthusiasmo, e pela primeira vez a tribuna marchou sem o cerimonial das topadas. Despedimos os criados, tomámol-a nós aos hombros; levámol-a em ovação.
A festa inaugural esteve animada. Mais do que se esperava, infelizmente.
Encheu-se de bancos e cadeiras austriacas o vastissimo salão. Ao centro, em frente, a mesa da directoria; á esquerda, os convidados; á direita, os outros alumnos, o resto, como sé diz das maiorias sem voz activa.
Sobre o panno avinhado de ramagens, abria-se a pasta do secretario; sobre a tribuna scintillava crystallino o copo das urgencias instantes.
Poucos oradores. Aristarcho, presidente honorario, abriu a sessão com a chave do peregrino verbo, recommendando a nova associação como um tentamen honroso e de muito fructo para os moços applicados, que teriam ensejo de se dar ao cultivo da oratoria e das bellas letras.
Subiu em seguida á tribuna o presidente effectivo.
Com a facilidade da sua elocução, fez o Dr. Claudio a critica geral da litteratura brasileira: a galhofa de Gregorio de Mattos e Antonio José, a epopéa de Durão, o idyllio da escola mineira, a uncção de Sousa Caldas e S. Carlos, a influencia de Magalhães, os ensaios do romance nacional, a gloria de Gonçalves Dias e José de Alencar.
E passou a estudar a actualidade.
O auditorio que escutava, interessado, mas tranquillo, começou a agitar-se.
O orador representava a nação como um charco de vinte provincias estagnadas na modorra paludosa da mais desgraçada indifferença. Os germens da vida perdem-se na vasa profunda; á superficie de coagulos de putrefacção, borbulha, espaçadamente, o halito mephitico do miasma, fermentado ao sol, subindo a denegrir o céu, com a vaporisação da morte. Os passaros calados fogem; as poucas arvores proximas no ar parado, debruçam-se uniformes sobre si mesmas num desanimo vegetativo, que parece crescer, descendo,—prosperidade melancolica de salgueiros. O horizonte limpo, remoto, desfere golpes de luz obliqua, reptil, que resvalam, espelhando fachas parallelas, immoveis, sobre o dormir da lama.
Por entre os raros canniços, emergem olhos de sapo, meditando a vantagem d'aquella paz sombria, indolencia negra, em que chega a ser vigor de vontade estrebuchar quatro arrancos através da onda grossa em busca da femea. A arte significa a alegria do movimento, ou um grito de suprema dôr nas sociedades que soffrem. Entre nós, a alegria é um cadaver. Ao menos se soffressemos... A condição da alma é a prostração comatosa de uma inercia morbida. Quem nos dera a tonicidade lethal de uma vasca. Trituramos a vida por igual como um osso; roemos o dia, pacientes, de rojo, sobre o ventre, como cães ao pasto. Fosse manjar o craneo de Rogerio, ao menos teriamos a tragedia... Nada! A condição é o descanço ininterrupto do anniquilamento no plano infinito da monotonia. E não é o tecto de braza dos estios tropicaes que nos opprime. Ah! como é profundo o céu do nosso clima material! Que irradiação de escapadas para o pensamento a direcção dos nossos astros! O pantano das almas é a fabrica immensa de um grande emprezario, organisação de artificio, tão longamente elaborada, que dir-se-ia o empenho madreporico de muitos seculos, dissorrando em vez de construir. à a obra moralisadora de um reinado longo, é o transvasamento de um caracter, alagando a perder de vista a superficie moral de um imperio—o desmancho nauseabundo, esplanado, da tyrannia molle de um tyranno de sebo!...
Calculem agora que estava entre os convidados o Dr. Zé Lobo, pae de um alumno, devoto jurado e confirmado das instituições, irmão de não sei quantas ordens terceiras, primo de todos os conventos, advogado de causas religiosas, conservador em summa, enraivado e militante. O sebo da tyrannia caiu-lhe nos melindres como um pingo de vela benta.
«Protesto!» rugiu, rubro e rouquenho, dilacerando as barbas e erguendo o punho. Não podia admittir que viessem á sua vista ensebar as instituições! Por maior desgraça estava tambem presente o Senador Rubim, avô de outro alumno, senador de máus bofes, um pae da patria padrasto, sem considerações nem papas na lingua.
«Quem protesta contra o sebo da tyrannia é burro!» redarguiu ao apartista com a pachorra temivel dos velhos insolentes.
—Burro, não! clamou o outro, empallidecendo sob a vergasta da injuria, nervoso, perturbado pela attenção da sala inteira que o encarava. Burro, não! taes expressões são indignas de V. Exª., um senador e um velho!...
—Burro, sim!... repetia o outro vagarosamente, com um arreganho enfastiado de insulto. Burro, sim!...
Aristarcho conservava-se á presidencia, na pasmaceira de páu dos idolos affrontados. O salão enorme, alumnos e convidados, tumultuava em vagalhões, fragmentado em partidos oppostos, uns pelo senador e pela anarchia, outros pelo advogado e pela ordem publica. Muitos gesticulavam de pé; havia estudantes, gritando em cima dos bancos. Os insultos voavam como pelouros; os protestos rangiam como escudos feridos; havia mãos pelo ar que pediam espadas.
Aproveitando-se do escarcéu, o advogado ousara arremessar uns desaforos ao senador. O outro, sem ouvir bem, ia replicando com a impertinencia do seu estribilho: «Burro, sim», ate que, impaciente, pôz remate á polemica com as cinco letras da energia popular que Waterloo fez heroicas, Victor Hugo fez épicas e Zola fez classicas.
Sob o peso da conclusão, Zé Lobo cedeu.
Aristarcho achou que era tempo de funccionar a presidencia e sacudiu sobre o tumulto o badalo da ordem.
O orador na tribuna, erecto e calmo, promontorio sobre a tormenta, esperava que o alvoroço chegasse a termo. Apenas viu arrefecer o furor dos improperios:
«Corramos um véu sobre o scenario desolador,» continuou; «venha em soccorro a esperança de um renascimento.» E por ahi habilidosamente conduzindo a oração, acabou por um quadro de futuro, armado em aurora sobre a tribuna, portico de luz, jorrando um deslumbramento que extasiou os ouvintes com o encanto dos vaticinios felizes, levando o sopro da viração matutina as nuvens do desanimo esfumadas antes sobre o panorama.
Tiveram a palavra, ainda, dous estudantes, que moeram uma quantidade profusa de phrases communs a proposito de letras e litteratos. O filho do director, o republicanozinho que conhecem, tinha no bolso dez tiras, dez brulotes de eloquencia incendiaria, que resolveu suffocar depois do escandalo collossal do sebo.
A segunda sessão solemne do gremio, comquanto mais pacifica, não foi menos importante.
Realisou-se em principios de Outubro, pelas immediações das férias. A concorrencia foi maior, compareceram senhoras em grande numero, o que não succedera na de installação; houve mais capricho de ornatos na sala; forrou-se a tribuna de verde e amarello; inscreveram-se os mais aproveitados campeões da oratoria do Amor ao Saber. O collegio compareceu fardado; a directoria, de casaca.
A conferencia do Dr. Claudio foi subversiva, mas em sentido diverso da primeira. Versou não mais sobre a litteratura no Brasil, porém sobre a arte em geral:
Arte, esthetica, esthesia é a educação do instincto sexual.
A manutenção da existencia individua tem a razão de ser no instincto de vitalidade da especie. O momento presente das gerações nada mais é que a ligação prolifica do passado com a posteridade. E a razão de ser das especies? A indagação não perscruta.
Para que o individuo perdure, momento genesico da existencia especifica no tempo, é indispensavel adaptar-se ás imposições do meio universal. O rio a correr não despreza o detalhe do mais insignificante remanso, nem póde sophismar o obstaculo do menor rochedo no alvéu. O criterio inconsciente do instincto é o guia da adaptação.
O esforço da vida humana, desde o vagido do berço até o movimento do enfermo, no leito de agonia, buscando uma posição mais commoda para morrer, é a selecção do agradavel. Os sentidos são como as antennas salvadoras do insecto titubeante; vão ao encontro das impressões, avisadores opportunos e cautelosos.
A cada mundo de sensações notaveis corresponde um sentido. Os sentidos, theoricamente delimitados, são cinco, multipla transformação de processo de um unico—o tacto, exactamente o sentido rudimentar das antennas.
Faz-se, tacteando instinctivamente a procura dos agradaveis: agradavel visual, agradavel gustativo, agradavel tangivel, em summa. O agradavel é essencialmente vital; se é ás vezes funesto, é porque o instincto póde ser atraiçoado pelas illusões.
A perfectibilidade evolutiva dos organismos em funcção, manifestando-se prodigiosamente complexa, no typo humano, corresponde á revelação, na ordem animal, do mysterioso phenomeno personalidade, capaz de fazer a critica do instincto, como o instincto faz a critica da sensação.
A informação de reportagem de cada sentido não desperta, portanto, no homem a actividade cerebral dos impulsos de preferencia, de repugnancia, simplesmente, como nos outros animaes; mas amplia, pela psychologia inteira dos phenomenos espirituaes, a variedade infinita das comparações, permutadas de mil modos na unidade do espirito como as peças de um jogo maravilhoso sobre o mesmo panno.
Duas são as representações elementares do agradavel realisado: nutrição e amor.
Os animaes inferiores, não favorecidos por um razoavel coefficiente de progresso, produzem secularmente a condição da inferioridade: olham, tocam, farejam, ouvem, não provam com demasiado escrupulo e devoram grosseiramente para depois amar, como sempre fizeram.
O homem, por desejo de nutrição e de amor, produziu a evolução historica da humanidade.
A nutrição reclamou a caçada facil—inventaram-se as armas; o amor pediu um abrigo, ergueram-se as cabanas. A digestão tranquilla e a perfilhação sem sobresaltos precisaram de protecção contra os elementos, contra os monstros, contra os malfeitores,—os homens tacitamente se contractaram para o seguro mutuo, pela força maior da união: nasceu a sociedade, nasceu a linguagem, nasceu a primeira paz e a primeira contemplação. E os pastores viram pela vez primeira que havia no céu a estrella Vesper, expandida e pallida como o suspiro.
Mas era preciso que fossem leitos de amor as crinas de ouro e fogo dos leões, e que houvesse marfim, metaes luzentes, pedraria, sobre a alvura lactea da carne amada, que não bastavam beijos para vestir; era preciso deliciar a gustação, com o requinte das estranhezas. E os homens levaram a conquista aos reis da floresta, ao ventre do solo; foram colher aos ares os incolas mais raros, emplumados de luz como creações canoras do sol; e foram buscar ás ondas os mais esquivos viajores do abysmo, singrando celeres, phantasticos, na sombra azul, cm cauda um reflexo vago de escamas,—para morder-lhes á vida.
Urgiu ainda a fome, urgiu mais o amor e veio a guerra, a violencia, a invasão. Curvaram-se os captivos ao latego vencedor e foram abatidas as escravas sob a garrada lascivia sanguinaria, faminta de membros avulsos, olhos sem alma, labios sem palavra, formas sem vontade, pretexto miseravel de espasmos. Formaram-se os odios de raça, as oppressões de classe, as corrupções vingadoras e demolidoras.
Mas a scisma evoluiu tambem, aquella scisma poetica da pastoral primeva que buscara os astros no céu para adereço dos idyllios. O fundo tranquillo e obscuro das almas, aonde não chega o tumultuar de vagas da superficie, inflammou-se de phosphorescencias; geraram-se as aureolas dos deuses, coalharam-se os discos das glorias olympicas; as religiões nasceram.
Mas era preciso que fosse palpavel o espectro da divindade: as rochas descascaram-se em estatuas, os metaes se fizeram carne e houve templos, houve cultos, houve leis, vieram prophetas e pontifices ambiciosos. E esta evolução da scisma que fôra amante, feita instrumento da tyrannia, deu logar ás praticas do terror, aos apostolados do morticinio.
Mas uma lyra ficara da geração primeira de scismadores, e as cordas cantavam ainda e os sons falaram no ar as epopéas do Oriente e da Grecia. Roubou-se aos sacerdotes tyrannos o monopolio dos deuses para jungil-os á atrelagem do metro; que levassem, através dos seculos, o carro triumphal da estrophe, onda sonora de vibrações immortaes.
E os esculpidores dos idolos legaram o segredo da fabrica, revelando que vinham de um molde de barro aquellas arrogancias de bronze, e que se fazem deuses como as amphoras. E os artistas modernos recomeçaram, chamando a religião ao atelier, como um modelo de hora paga; e gravaram em tinta, pelos muros, as visões mysticas da crença.
A nitidez artistica das formas fizera crer aos homens que morava realmente um espirito sagrado na porosidade do marmore, e que realmente havia em proporções infinitas uma tela de olympos e paraisos, onde as côres do anthropomorphismo artistico viviam soberanas, olhando o mundo lá em baixo, vasando a urna providencial das penas e das alegrias.
DecaÃdas as phantasias sentimentaes, reformou-se o aspecto do mundo. Os deuses foram banidos como effeitos importunos do sonho. Depois da ordem em nome do Alto, proclamou-se a ordem positivamente em nome do Ventre. A fatalidade nutrição foi erigida em principio: chamou-se industria, chamou-se economia politica, chamou-se militarismo. Morte aos fracos! Alçando a bandeira negra do darwinismo spartano, a civilisação marcha para o futuro, impavida, temeraria, calcando aos pés o preconceito artistico da religião e da moralidade.
Sobrevive, porém, o poema consolador e supremo, a eterna lyra...
Reinou primeiro o marmore e a forma; reinaram as côres e o contorno; reinam agora os sons,—a musica e a palavra. Humanisou-se o ideal. O hymno dos poetas do marmore, do colorido, que remontava ao firmamento, fala agora aos homens, advogado energico do sentimento.
Sonho, sentimento artistico ou contemplação, é o prazer attento da harmonia, da symetria, do rhythmo, do accôrdo das impressões, com a vibração da sensibilidade nervosa. à a sensação transformada.
A historia do desenvolvimento humano nada mais é do que uma disciplina longa de sensações. A obra de arte é a manifestação do sentimento.
Dividindo-se as sensações em cinco especies de sentidos, devem os sentimentos corresponder a cinco especies e igualmente as obras de arte.
Da sensação acustica vem a esthesia acustica: sentimento nos sons, nas palavras—eloquencia e musica; da sensação da vista, a esthesia visual, o sentimento na fórma, no traço e no colorido,—esculptura, architectura, pintura; da sensação palatal e olfactiva nasce o sentimento do gosto e do perfume,—artes menos consideradas pela relativa inferioridade dos seus effeitos. A sensação do tacto, secundada por todas as outras, dá logar ao sentimento complexo do amor, arte das artes, arte matriz, razão de ser de todas as especies de esthesia.
O primeiro momento contemplativo de um amoroso foi o advento da esthetica, no gozo visual das linhas da formosura, na delicia auditiva de uma expressão inarticulada, que fosse emittida com expressão, na commoção de um contacto, na aspiração inebriante do aroma indefinido da carne. A obra d'arte do amor é a prole; o instrumento é o desejo.
Depois da arte primitiva e fundamental do tacto, a arte do ouvido. A obra de arte é a phrase sentida, habil para produzir emoção; o instrumento é a linguagem.
Esta arte devia mais tarde ramificar-se em eloquencia propriamente e poesia popular, graças á aproximação hybrida de terceira arte, do ouvido, a musica.
Com o progresso humano, o sentimento artistico da symetria e da harmonia destacou-se analyticamente da arte de amar. E, depois da arte primordial, descendente immediata do instincto erotico, da qual se desprendera, sob a fórma selvagem das interjeições primitivas, a arte da eloquencia; e em seguida, sob a forma de expressões homometricas, a poesia popular e a primeira musica; nasceram as artes intencionaes, de imitação, da esculptura, da architectura, do desenho. Depois da poesia popular, amorosa ou heroica, veio a rhapsodia.
Ainda mais, segundo um traçado naturalissimo de filiação, o sentimento da symetria, trasladado para a esphera das relações sociaes, serviu de plano á organisação das religiões, filhas do pavor, e das moralidades, invenção das maiorias de fracos. Com o predominio insensato das religiões, o amor deixou de ser um phenomeno, passou a ser um ridiculo ou uma cousa obscena.
Por um raciocinio de retrocesso, se ponderarmos que a moralidade é a organisação symetrica da fraqueza commum, que a religião é a organisação symetrica do terror, que a symetria, isto é, harmonia e proporção, é a norma artistica das imitações plasticas da ingenua admiração da creatura primitiva, e que esta admiração prazenteira, testemunhada por uma tentativa de desenho ou de estatua, por um canto popular ou por uma interjeição vehemente, nada mais é do que um modo accentuado de um esforço de attenção, e que a primeira attenção dos homens do principio,—a lenda de Adão que o diga,—devia ser do individuo de um sexo para o individuo de outro sexo, teremos averiguado o aphorismo paradoxal de que a arte subjectivamente, o sentimento artistico, nas suas mais elevadas, mais ethereas manifestações, é simplesmente—a evolução secular do instincto da especie.
Esta é a sua grandeza, e por isso vae zombando, através das idades, das vicissitudes tempestuosas do combate pela nutrição, dos proprios exasperos homicidas do amor.
A arte é primeiro espontanea, depois intencional.
Manifesta-se primeiro grosseiramente, por erupções de sentimento, e faz o amor concreto, a interjeição, a eloquencia rudimentar, a poesia primitiva, o primitivo canto. Manifesta-se mais tarde, progressivamente, por effeitos de calculo e meditação e dá o epos, a eloquencia culta, a musica desenvolvida, o desenho, a esculptura, a architectura, a pintura, os systemas religiosos, os systemas moraes, as ambições de synthese, as metaphysicas, até as formas litterarias modernas, o romance, feição actual do poema no mundo.
As manifestações espontaneas são coevas de todas as sociedades; a poesia popular, por exemplo, não desapparece, nem a eloquencia, ainda menos o amor. As manifestações intencionaes, ampliações, aperfeiçoamentos do modo primitivo de expressão sentimental, sujeitam-se aos movimentos e vacillações de tudo que progride.
O coração é o pendulo universal dos rhythmos. O movimento isochrono do musculo é como o aferidor natural das vibrações harmonicas, nervosas, luminosas, sonoras. Graduam-se pela mesma escala os sentimentos e as impressões do mundo. Ha estados d'alma que correspondem á côr azul, ou ás notas graves da musica; ha sons brilhantes como a luz vermelha, que se harmonisam no sentimento com a mais vivida animação.
A representação dos sentimentos effectua-se de accôrdo com estas repercussões.
O estudo da linguagem demonstra.
A vogal, symbolo graphico da interjeição primitiva, nascida espontaneamente e instinctivamente do sentimento, sujeita-se á variedade chromatica do timbre como os sons dos instrumentos de musica. Gradua-se em escala ascendente u, o, a, e, i, possuindo uma variedade infinita de sons intermediarios, que o sentimento da eloquencia suggere aos labios, que se não registram, mas que vivem vida real nas palavras e fazem viver á expressão, sensivelmente energica, emancipada do preceito pedagogico, de improviso, quasi inventada pelo momento.
Ha ainda na linguagem o rhythmo de cada expressão. Quando o sentimento fala, a linguagem não se fragmenta por vocabulos, como nos diccionarios. à a emissão de um som prolongado, a crepitar de consoantes, alteiando-se ou baixando, conforme o timbre vogal.
O que move o ouvinte é uma impressão de conjuncto. O sentimento de uma phrase penetra-nos, mesmo enunciado em desconhecido idioma.
O timbre da vogal, o rhythmo da phrase dão alma á elocução. O timbre é o colorido, o rhythmo é a linha e o contorno. A lei da eloquencia domina na musica, colorido e linha, seriação de notas e andamentos; domina na esculptural, na architectura, na pintura: ainda a linha e o colorido.
Na sua qualidade de representação primaria do sentimento, depois do facto do amor, a eloquencia é a mais elevada das artes. Dahi a supremacia das artes litterarias,—eloquencia escripta.
A eloquencia foi a principio livre, fiel ao rhythmo do sentimento; influenciada pela musica monotona dos mais antigos tempos, cadenciou-se em metro regular e monotono como a musica. Aproveitada como recurso mnemonico, libertou-se da musica, guardando, porém, a fórma do metro igual e da quantidade equivalente, que havia de ser um dia a metrificação da syllaba, que havia de dar em resultado a monstruosidade da rima, o calembour feito milagre de perfeição.
A musica seguiu á parte a sua evolução.
Na arte da eloquencia da actualidade accentuasse uma reacção poderosa contra o metro classico; a critica espera que dentro de alguns annos o metro convencional e postiço terá desapparecido das officinas da litteratura. O sentimento encarna-se na eloquencia, livre como a nudez dos gladiadores e poderoso. O estylo derribou o verso. As estrophes medem-se pelos folegos do espirito, não com o pollegar da grammatica.
Hoje, que não ha deuses nem estatuas, que não ha templos nem architectura, que não há dies iræ nem Miguel-Angelo; hoje que a mnemonica é inutil, o estylo triumpha, e triumpha pela fórma primitiva, pela sinceridade vehemente, como nos bons tempos em que o coração para bem amar e o dizer não precisava crucificar a ternura ás quatro difficuldades de um soneto.
Qual a missão da arte? Originaria da propensão erotica fóra do amor, a arte é inutil,—inutil como o esplendor corado das petalas sobre a fecundidade do ovario. Qual a missão das petalas córadas? De que nos serve a primavera ser verde? As aves cantam. Que se aproveita do cantar das aves? A arte é uma consequencia e não um preparativo. Nasce do enthusiasmo da vida, do vigor do sentimento, e o attesta. Agrada sempre, porque o enthusiasmo é contagioso como o incendio. A alma do poeta invade-nos. A poesia é a interpretação de sentimentos nossos. Não tem por fim agradar.
E, depois, reclamar titulos de utilidade ás divagações graciosas de uma energia da alma, que significa em primeira manifestação a propria perpetuidade da especie?!
Além de inutil, a arte é immoral. A moral é o systema artistico da harmonia transplantado para as relações da collectividade. Arte sui generis. Se é possivel efficazmente o regimen social das symetrias da justiça e da fraternidade, o futuro ha de provar. Em todo caso, é arte differente e as artes não se combinam senão em productos falsos, de convenção.
Poema intencionalmente moral é o mesmo que estatua polychroma, ou pintura em relevo. Apenas uma cousa possivel, nada mais; ha tambem quem faça flôres, com azas de barata e pernas.
A verdadeira arte, a arte natural, não conhece moralidade. Existe para o individuo sem attender á existencia de outro individuo. Póde ser obscena na opinião da moralidade: Leda; póde ser cruel: Roma em chammas, que espectaculo!
Basta que seja artistica.
Cruel, obscena, egoista, immoral, indomita, eternamente selvagem, a arte é a superioridade humana—acima dos preceitos que se combatem, acima das religiões que passam, acima da sciencia que se corrige; embriaga como a orgia e como o extase.
E desdenha dos seculos ephemeros.
à vista da tranquillidade do auditorio, subentende-se que não estavam presentes os dous heróes da primeira sessão solemne: o Dr. Zé Lobo não viera, para não encontrar o Senador; o Senador Rubim não viera, para não encontrar o Dr. Zé Lobo: impulsos equivalentes em sentido contrario annullam-se.
Havia na sala diversos ouvintes que se distrahiam de perseguir com attenção a galopada de hippogrypho, em que se elevava a eloquencia do orador.
Bento Alves, um; outro o Malheiro, moreno, nervoso, carrancudo, o primeiro gymnasta; outro, Barbalho.
A preoccupação de Bento Alves era uma injuria. Entre elle e Malheiro havia rixa velha de emulação. Malheiro não lhe perdoava a culpa de ser bravo. Os proprios prodigios da força e agilidade, applaudidos e proclamados pelo Atheneu, não davam para saciar a vaidade. De que valia ser forte, se era impossivel a applicação do seu esforço para affrouxar uma fibra á musculatura do Bento? Ah! não ser possivel por suggestão desfiar uma a uma aquellas meadas de arame, reduzir a infantilidade debil aquella corpulencia odiosa! Por que não iriam os desejos da inveja, como vampiros, sorver o sangue áquella força, a vida, gotta a gotta, áquelle vigor de ferro?
Bento Alves não dava mostras de perceber a rivalidade. Malheiro evitava-o. Era impossivel conservar-se um momento perto do collega, que lhe não dessem impetos de assaltal-o.
A façanha da prisão effectuada pelo rival definitivamente retirava-lhe a gloria de valoroso unico. Malheiro entrou em melancolia trancada. O rosto moreno amorenou-se mais; a animação de um brilho não lhe chegava á janella do olhar; o sorriso nos labios não abria a porta. Dir-se-ia um frontispicio de lucto.
Ficou a ruminar o projecto de um encontro.
O meu bom amigo, exaggerado em mostrar-se melhor, sempre receioso de importunar-me com uma manifestação mais viva, inventava cada dia nova surpreza e agrado. Chegara ao excesso das flôres. A principio, petalas de magnolia secca com uma data e uma assignatura, que eu encontrava entre folhas de compendio. As petalas começaram a apparecer mais frescas e mais vezes; vieram as flôres completas. Um dia, abrindo pela manhã a estante numerada do salão do estudo, achei a imprudencia de um ramalhete. Santa Rosalia da minha parte nunca tivera um assim. Que devia fazer uma namorada? Acariciei as flôres, muito agradecido, o escondi-as antes que vissem.
Mas o Barbalho espiava, ultimamente constituido fiscal occulto dos meus passos.
As circumstancias o tinham aproximado do Malheiro, e o açafroado caolho pretendia manejar a rivalidade dos dous maiores: um conflicto entre Malheiro e Bento podia ser a vergonha para mim.
O Malheiro, com o vozeirão grave de contrabaixo, começou a infernisar-me por epigrammas. Queria incommodar o Alves mortificando-me, julgando que me queixasse. Eu devorava as affrontas do marmanjo sem descobrir o meio de tirar correcta desforra. Barbalho lembrou-se de tomar as dôres. Depois de incitar o Malheiro contra mim, incitou o Bento contra o Malheiro. Procurou-o mysteriosamente e informou: «o Malheiro não passa pelo Sergio que não pergunte quando é o casamento... é preciso casar... Ainda hoje pediu convite para as bodas. O Sergio está desesperado.»
O furor do Alves não se descreve, furor poderoso dos calados. Uma onda de apoplexia ruborisou-lhe as faces. Por unico movimento de indignação contrahiu os dedos, como estrangulando. Procurou o Malheiro e com a voz talvez alterada, mas sem odio, fez intimação: «amanhã é a sessão de encerramento; em meio da festa saÃmos ambos; preciso falar-lhe das bodas.»
Malheiro percebeu: era o sonhado encontro!
Apenas desceu da tribuna o presidente effectivo do Gremio, os adversarios deixaram as cadeiras. Barbalho saiu pouco depois. Notei o movimento e adivinhei mais ou menos.
Quando saÃmos do pavilhão, finda a solemnidade, um criado entregou-me um enveloppe, uma carta do Alves, a lapis. «Estou preso; antes que te digam que por alguma indignidade, previno: por ter dado uma licção ao Malheiro.»
Minutos depois, Franco, muito satisfeito, contava a todos: «tinham luctado no jardim o Malheiro e o Alves; que briga dos dous brutos!» Alves saÃra ferido com um golpe no braço, acreditam que de navalha; Malheiro estava no dormitorio. Avisados pelo Alves, os criados tinham ido buscal-o sem sentidos, ao fundo de um bosquete no parque. «Sem sentidos! garantia o Franco; que pandega! que sopapos! ora o Malheiro malhado!»
Soube-se que Barbalho espreitara o combate através dos arbustos. Antes de o vêr acabado, correra activo, e concentrando a vesgueira numa só attenção de intrigante, preparara as cousas de modo que, ao voltar do jardim, Bento Alves foi surprehendido por uma ordem de prisão do director.
Não denunciar nunca é preceito sagrado de lealdade no collegio. Os contendores recusaram-se a explicações. Bento Alves negou o braço a exame e a curativo; Malheiro, em pannos de sal, fingindo-se muito prostrado, offerecia o mais impenetravel silencio ás indagações de Aristarcho e protestava esborrachar as ventas a quem caÃsse na asneira de insinuar o bedelho no que não era da sua conta.
«Ora o malhado!...» resmungavam os collegas; mas tratavam de esquecer o caso.
Por minha parte, entreguei-me de coração ao desespero das damas romanceiras, montando guarda de suspiros á janella gradeada de um carcere onde se deixava deter o gentil cavalheiro, para o fim unico de propôr assumpto ás trovas e aos trovadores medievos.
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