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Inspirações da Tarde

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Inspirações da Tarde

Capítulo 1 · Inspirações da Tarde

Invocação à saudade

Invocação à saudade Oh! filha melancólica dos ermos,

Consolo extremo, e amiga no infortúnio

Fiel e compassiva;

Saudade, tu que única inda podes

Nest'alma, erma de amor e de esperança,

Um som vibrar melodioso e triste,

Qual vento, que murmura entre ruínas,

Os gemebundos ecos acordando;

Vem, ó saudade, vem; - a ti consagro

De minha lira as magoadas cordas.

Quando o sopro da sorte impetuoso

Nos ruge n'alma, e para sempre a despe

Do pouco que há de amável na existência;

Quando tudo se esvai, - ledos sorrisos,

Suaves ilusões, prazeres, sonhos,

Ventura, amor, e até a mesma esp'rança,

Só tu, meiga saudade,

Fiel amiga, jamais nos abandonas!

Jamais negas teu bálsamo piedoso

Às chagas do infortúnio!

Qual de remotas, flóridas campinas

Da tarde a branda aragem

Nas asas nos conduz suave aroma,

Assim tu, ó saudade,

Em quadras mais ditosas vais colhendo

As risonhas visões, doces lembranças,

Com que vens afagar-nos,

E ornas do presente as sendas nuas

Co'as flores do passado.

Não, não é dor o teu pungir suave,

É um triste cismar que tem delícias,

Que o fel aplaca, que nos ferve n'alma,

E o faz correr banhando áridos olhos,

Em mavioso pranto convertido.

No íntimo do peito

Despertas emoções que amargam, pungem,

Mas fazem bem ao coração, que sangra

Entre as garras de austero sofrimento!

Agora que do dia a luz extrema

Se expande a frouxo nos calados vales,

Lá do róseo palácio vaporoso

Desce, ó saudade, vem, num desses raios

Que se escoam do ocaso enrubescido,

Envolta em nuvem mística e diáfana,

Lânguido o olhar, a fronte descaída,

Em minha solidão vem visitar-me,

E oferecer-me a taça misteriosa

Onde vertes a um tempo o fel e o néctar.

Agora, que o africano a enxada pondo,

Da terra de seus país saudades canta

Aos sons de tosca lira, e os duros ferros

Da escravidão por um momento esquece,

Enquanto no silêncio desses vales

Soa ao longe a canção do boiadeiro,

E o sabiá na cúpula virente

Ao manso rumorejo da floresta

Mescla o trinar de mágicos arpejos,

Vem, ó saudade, leva-me contigo

A alguma encosta solitária e triste,

Ou ignorado vale, onde só reine

Mistério e solidão;

Junto a algum tronco antigo, em cuja rama

Passe gemendo a viração da tarde,

Onde se ouça o monótono queixume

Da fonte do deserto.

Lá, ó saudade, cerca-me das sombras

De maviosa, plácida tristeza,

Que em lágrimas sem dor os olhos banha;

Vem, que eu quero cismar, até que a noite

Fresco orvalho esparzindo-me na fronte,

De meu doce delírio mansamente

Me venha despertar.

Recordação

Ilusão

Vê, que painel formoso a tarde borda

Na brilhante alcatifa do ocidente!

As nuvens em fantásticos relevos

Aos olhos fingem, que inda além da terra

Novo horizonte infindo se prolonga,

Onde lindas paisagens se desenham

Descomunais, perdendo-se no vago

De vaporosos longes

Lagos banhados de reflexos d'ouro,

Onde se espelham gigantescas fábricas;

Solitárias encostas, onde avultam

Aqui e além ruínas pitorescas,

Agrestes brenhas, serranias broncas,

Pendentes alcantis, agudos píncaros,

Fendendo um lindo céu de azul e rosas;

Fontes, cascatas, deleitosos parques,

Encantadas cidades quais só pode

Criar condão de fadas,

Surdem do vale, entre vapor brilhante,

Com a fronte coroada de mil torres,

De esguios coruchéus, de vastas cúpulas;

E além ainda mil aéreas formas,

Mil vagas perspectivas se debuxam,

Que por longes sem fim se vão perdendo!

Todo enlevado na ilusão donosa

Longo tempo meus olhos espaireço

Porém do céu as cores já desbotam,

Os fulgores se extinguem, se esvaecem

As fantásticas formas vem de manso

A noite desdobrando o véu das sombras

Sobre o aéreo painel maravilhoso;

Apenas pelas orlas do horizonte

Bruxuleia através da escuridade

O crespo dorso dos opacos montes,

E sobre eles fulgindo merencória,

Suspensa, como pálida lucerna,

A solitária estrela do crepúsculo.

Assim vos apagais em sombra escura,

Ledas visões da quadra dos amores!...

Lá vem na vida um tempo

Em que a um sopro gélido se extingue

A fantasia ardente,

Esse sol puro da manhã dos anos,

Que doura-nos as nuvens da existência,

E mostra além, pelo porvir brilhando,

Um céu formoso e rico de esperança;

E esses puros bens, que a mente ilusa

Cismara em tanto amor, tanto mistério,

Lá vão sumir-se um dia

Nas tristes sombras da realidade;

E de tudo que foi, conosco fica,

No fim dos tempos, a saudade apenas,

Triste fanal, brilhando entre ruínas!

O sabiá

L'oiseau semble la véritable embléme

du chrétien ici-bas; il pref`ère, comme le

fidèle, la solitude au monde; le ciel à la

terre, et sa voix bénit sans cesse les

merveilles du Créateur

(Chateaubriand)

Tu nunca ouviste, quando o sol é posto,

E que do dia apenas aparece,

Por sobre os ermos píncaros do ocaso,

A orla extrema do purpúreo manto;

Quando lã do sagrado campanário

Já reboa do bronze o som piedoso,

Abençoando as horas do silêncio;

Nesse instante de místico remanso,

De maga solidão, em que parece

Pairar bênção divina sobre a terra,

No momento em que a noite vem sobre ela

Desdobrar o seu manto sonolento;

Tu nunca ouviste, em solitária encosta,

De anoso tronco na isolada grimpa,

A voz saudosa do cantor da tarde

Erguer-se melancólica e suave

Como uma prece extrema, que a natura

Envia ao céu, - suspiro derradeiro

Do dia, que entre sombras se esvaece?

O viandante para ouvir-lhe os quebros

Pára, e se assenta à margem do caminho;

Encostado aos umbrais do pobre alvergue,

Cisma o colono aos sons do etéreo canto

Já das rudes fadigas deslembrado;

E sob as asas úmidas da noite

Aos meigos sons em êxtase suave

Adormece embalada a natureza.

Quem te inspira o doce acento,

Sabiá melodioso?

Que mágoas triste lamentas

Nesse canto suspiroso?

Quem te ensinou a canção,

Que cantas ao pôr do dia?

Quem revelou-te os segredos

De tão mágica harmonia?

Acaso a ausência tu choras

Do sol, que além se sumira;

E teu canto ao dia extinto

Mavioso adeus suspira?

Ou nessas notas sentidas,

Exalando o terno ardor,

Tu contas à meiga tarde

Segredos do teu amor?

Canta, que o teu doce canto

Nestas horas tão serenas,

Nos seios d'alma adormece

O pungir de acerbas penas.

Cisma o vate ao brando acento

De tua voz harmoniosa,

Cisma, e deslembra tristuras

De sua vida afanosa.

E ora n'alma se lhe acorda

Do passado uma visão,

Que em perfumes de saudade

Vem banhar-lhe o coração;

Ora um sonho lhe vislumbra

Pelas trevas do porvir,

E uma estrela d'esperança

Em seu céu lhe vem sorrir:

E por mundos encantados

Lhe desliza o pensamento.

Qual nuvem que o vento embala

Pelo azul do firmamento.

Canta, avezinha amorosa,

Em teu asilo soidoso;

Saúda as horas sombrias

Do silêncio e do repouso;

Adormenta a natureza

Aos sons de tua canção;

Canta, até que o dia morra

De todo na escuridão.

Assim o bardo inspirado,

Quando a eterna noite escura

Lhe anuncia a fatal hora

De baixar à sepultura,

Um adeus supremo à vida

Sobre as cordas modulando,

Em seu leito sempiterno

Vai adormecer cantando.

Colmou-te o céu de seus dons,

Sabiá melodioso;

Tua vida afortunada

Desliza em perene gozo.

No tope do tronco excelso

Deu-te um trono de verdura;

Deu-te a voz melodiosa

Com que encantas a natura;

Deu-te os ecos da valada

Pra repetir-te a canção;

Deu-te amor no doce ninho,

Deu-te os céus da solidão.

Corre-te a vida serena

Como um sonho afortunado;

Oh! que é doce o teu viver!

Cantar e amar eis teu fado!

Cantar e amar! - quem dera ao triste bardo

Assim viver um dia;

Também nos céus os anjos de Deus vivem

De amor e de harmonia:

Quem me dera qual tu, cantor dos bosques,

Na paz da solidão,

Sobre as ondas do tempo ir resvalando

Aos sons de uma canção,

E exalando da vida o sopro extremo

Num cântico de amor,

Sobre um raio da tarde enviar um dia

Minh'alma ao Criador!...

Hino do prazer

Et ces voix qui passaient, disaient joyeu-sement:

Bonheur! gaîté! délices!

A nous les coupes d'or, remplies d'un vin charmant,

A d' autres les calices!...

(V. Hugo)

Inspirações da Tarde

Sinopse

Leia Inspirações da Tarde, de Bernardo Guimarães, grátis no Literunico. Coleção poética clássica brasileira em domínio público, publicada para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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