Memorial de um Passageiro de Bonde

Universo da obra

Memorial de um Passageiro de Bonde

Capítulo 1 · Memorial de um Passageiro de Bonde

Prefácio

O meu amigo João Felício Trancoso, conceituado, chefe de seção, prometeu um dia, em troca já não sei de que serviço, que me faria um presente à minha escolha. Resisti, como cumpria, à promessa de outra compensação que não fosse a da sua velha e sempre nova amizade.

Mas Trancoso é obstinado e não me deixou sossegar. Exigiu sempre que eu lhe dissesse o que preferia - se a coleção das obras de Jorge Ohnet (a sua maior predileção em literatura), se uma cigarreira de prata, se um guarda-chuva de seda.

Como eu teimasse em recusar, mandou-me o guarda-chuva e, não satisfeito, pouco depois me veio ameaçar com as obras de Jorge Ohnet. Urgia romper o cerco.

Ora, eu sabia que Trancoso, muito calado, rascunhava um diário das suas impressões de viagem. Das viagens que há vinte anos faz, como bom empregado público, de casa para a repartição e da repartição para casa. Tomei-lhe um punhado de folhas, li-o, e disse-lhe: "Este é o presente que exijo".

Tentou repontar, quis sofismar o contrato: venci-o à força de senso jurídico e de severas admoestações.

Nenhuma lembrança do velho amigo me poderia ser mais grata do que esses papéis em que lançou uma verdadeira porção de si mesmo. Verdadeira, porque Felício não conhece a arte dos desdobramentos literários da personalidade. Nota no memorial as espontâneas modificações de sua alma ao contato das coisas e dos homens. Não edifica a sua obra: segrega-a. Não a escreve para verificar ou provar que também é capaz de fazer literaturas, mas "para ter a sensação de que se expurgou de uma inevitável porção de tolices".

Assim, o seu ponto de vista de escrevedor é inteiramente oposto ao dominante: outros constróem, com esforço, uma personalidade exterior, feita de escritos, na qual põem toda a sua complacência e o melhor das suas esperanças; este deita fora as suas idéias, como um refugo, para conservar o equilíbrio, a saúde e a leveza do seu ser interior e inviolável - o único que vale a pena de ser vivido e cultivado, (mesmo porque não se lhe pode sair da casca).

Demais, gosta de escrever "para ter a impressão, ao reler-se, de ser uma alma que vai vivendo, apesar de reduzida à mínima expressão social de empregado público e viajante de bonde." E acrescenta: "A lesma, na sua existência branca, só deve ter uma tal ou qual sensação de vida quando olha para o rasto prateado que vai deixando pela parede."

Contudo, os mais sonsos têm o seu sistema de idéias e Trancoso não escapa à necessidade. O seu ponto de vista autoral, atrás indicado, já representa uma posição filosófica diante do mundo e da sociedade. Há mais: o nosso memorialista visivelmente gosta dos casos e coisas mais ordinários, mais mesquinhos, mais insignificantes: esses, de preferência, regista e comenta. É que pensa, com Chamfort, que, "nas grandes coisas, os homens se mostram como lhes é conveniente, mas nas pequenas se revelam tais quais são". Daí o sabor das pequenas coisas, que são na verdade as realmente grandes, porque formam os alicerces e as armaduras de tudo. O sabor? Antes a amargura

Entretanto, Trancoso não é um cético nem um pessimista. Homem são na sua humana enfermidade e forte na sua complexão mediana, conhece o valor higiênico da variedade de exercícios e a conveniência de a gente se abandonar um pouco à ondulação natural do sentimento e das intuições ordinárias. No fundo, talvez, crente, - crente do bom senso da inteligência e do coração, qualidade ativa, inimiga nata do senso comum, "consagração social e passiva de toda a sorte de preconceitos mendazes e de pré-sentimentos daninhos".

Enfim, aqui tem o leitor as impressões de viagem de Felício Trancoso. Temo que este prefácio o prepare mal para avaliar a verdadeira índole dessas páginas despreocupadas. A eterna impertinência dos prefácios! As coisas da vida surgem por si mesmas, sem prefácios nem explicações, e no entanto conseguem perfeitamente o fim de todas as coisas: passar. Pois façamos de contas que este prefácio já passou. Não existe.

L'áme respire avec des paroles

UNAMUNO, L'Agonie du Christianisme

Memorial de um Passageiro de Bonde

Sinopse

Memorial de um Passageiro de Bonde, de Amadeu Amaral, é uma obra brasileira em domínio público publicada postumamente sob o pseudônimo Felício Trancoso. Esta edição gratuita do Literunico organiza as crônicas em capítulos HTML para leitura online, com fonte institucional da Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos da UFSC, espelhos completos de conteúdo e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Memorial de um Passageiro de Bonde

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Memorial de um Passageiro de Bonde

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias de Memorial de um Passageiro de Bonde

Adquira Relíquias do Livro como colaboração ao autor e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 1 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo