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Capítulo 7 · Faróis

Faróis: Envelhecer

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Envelhecer

Flôr d’indolência, fina e melindrosa,

Captivante sereia da esperança,

Cêdo tivéste a crença dolorosa

De quanto a vida é velha e como cança...

Na languida, na mórna morbideza

Do teu amargo e triste celibato,

Tu te fechaste para a Natureza

Como a lua no célico recato.

No fundo delicado dos teus seios

Foste esconder os sentimentos vagos

E todos os dolentes devaneios

Das estrellas sonhando á flôr dos lagos

Todas as altas céllas de ouro e prata

De teu claustro de Virgem sem affecto

Fecharam sobre tu’alma ti: norata

Austéras portas, com fragôr secreto.

No entanto havia no teu corpo ondeante

As delicias subtis de um céo fugace...

E éra talvez o encanto mais picante

A graça aldeã do teu nariz rapace.

Teus olhos tinham certa mágoa nobre

E certo fundo de doirado abysmo.

E a malicia que logo se descóbre

Em olhos de felino narcotismo.

Mas na bocca trazias todo o occulto

Tóque sombrio de ironia grave...

E como que as bellezas do teu vulto

Abriam azas peregrinas de ave.

Tinhas na bocca esse elixir ardente

Da volupia mortal dos gosos e éssa

Chamma de bocca, feita unicamente

Para no goso envelhecer depréssa.

E envelheceste tanto, muito cêdo,

Sumiu-se tão depressa o teu encanto,

Foi tão fallaz o seductor segredo

Do teu carnal e languido quebranto!

Envelheceste para os vãos idyllios,

Para os estranhos estremecimentos,

Para os brilhos iriantes dos teus cilios

E para os sepulchraes esquecimentos.

Envelheceste para os vãos amores,

E para os olhos, para as mãos que abrias

Como dous talismans de brancas flôres

E de leves e doces harmonias...

Presa, sem ar, sem sol, crepusculada

No celibato que não tem perfume

De todo envelheceste abandonada,.

Já como um ser que não provóca ciume.

Envelhecer é reduzir a vida

A sentimentos de tristeza austéra,

Enclausural-a n’uma grave ermida

De luto e de silencio sem chiméra.

E envelhecer na juventude flórea,

Do celibato emmurchecido lyrio,

É ficar sob os pállios da illusória

Melancholia, como a luz de um cyrio...

Envelhecer assim, virgem e forte,

É cerrar contra o mundo a rósea porta

Do Amor e apenas esperar a Morte,

A alma já muda, ha muito tempo morta.

Envelheces de tédio, de cançaço,

D’illusões e de scysmas e de penas,

Como envelhéce no celeste espaço

O turbilhão das estrellas serenas.

O Amor os corações fez interdictos

Ao teu magoado coração captivo

E apagou-te os sublimes infinitos

Do seu clarão fecundador e vivo.

Hoje envelhéces na clausura immensa,

Dentro de um sonho pállido fenéces.

Tua belleza véste névoa densa,

Em surdinas e sombras envelhéces.

De pranto e luar, n’um desolado mixto,

Cáe a noite na tua puberdade

E como a Rediviva do Imprevisto,

Erras e sonhas pela Eternidade!

Faróis

Sinopse

Faróis, de Cruz e Sousa, é uma coletânea clássica da poesia simbolista brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 49 poemas com fonte pública validável na Wikisource, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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