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Faróis

Capítulo 46 · Faróis

Faróis: Monges

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Monges

Montanhas e montanhas e montanhas

Ei-los que vão galgando.

As sombras vãs das figuras estranhas

Na Terra projetando.

Habitam nas mansões do Imponderável

Esses graves ascetas;

Ocultando, talvez, no Inconsolável

Amarguras inquietas.

Como os reis Magos, trazem lá do Oriente

As alfaias preciosas,

Mas alfaias, surpreendentemente,

As mais miraculosas.

Nem incensos, nem mirras e nem ouros,

Nem mirras nem incensos,

Outros mais raros, mágicos tesouros

Sobre todos, imensos.

Pelos longínquos, sáfaros caminhos

Que vivem percorrendo,

A Dor, como atros, venenosos vinhos,

Os vai deliqüescendo.

São os monges sombrios, solitários,

Como esses vagos rios

Que passam nas florestas tumultuários,

Solitários, sombrios.

São monges das florestas encantadas,

Dos ignotos tumultos,

Almas na Terra desassossegadas,

Desconsolados vultos.

São os monges da Graça e do Mistério,

Faróis da Eternidade

Iluminando todo o Azul sidéreo

Da sagrada Saudade.

-- Onde e quando acharão o seu descanso

Eles que há tanto vagam?

Em que dia terão esse remanso

Os seus pés que se chagam?

Quando caminham nas Regiões nevoentas,

Da lua nos quebrantos,

As suas sombras vagarosas, lentas

Ganham certos encantos...

Ficam nimbados pela luz da lua

Os seus perfis tristonhos...

Sob a dolência peregrina e crua

Dos tantálicos sonhos.

As Ilusões são seus mantos sangüíneos

De símbolos de dores,

De signos, de solenes vaticínios,

De nirvânicas flores.

Benditos monges imortais, benditos

Que etéreas harpas tangem!

Que rasgam d'alto a baixo os Infinitos,

Infinitos abrangem.

Deixai-os ir com os seus troféus bizarros

De humano Sentimento,

Arrebatados pelos ígneos carros

Do augusto Pensamento.

Que os leve a graça das errantes almas,

-- Grandes asas de tudo --

Entre as Hosanas, o verdor das palmas,

Entre o Mistério mudo!

Não importa saber que rumo trazem

Nem se é longo esse rumo...

Eles no Indefinido se comprazem,

São dele a chama e o fumo.

Deixai-os ir pela Amplidão a fora,

Nos Silêncios da esfera,

Nos esplendores da eternal Aurora

Coroados de Quimera!

Deixai-os ir pela Amplidão, deixai-os,

No segredo profundo,

Por entre fluidos de celestes raios

Transfigurando o mundo.

Que só os astros do Azul cintilam

Pela sidérea rede

Saibam que os monges, lívidos, desfilam

Devorados de sede...

Que ninguém mais possa saber as ânsias

Nem sentir a Dolência

Que vindo das incógnitas Distancias

E dos monges a essência!

Monges, ó monges da divina Graça,

Lá da graça divina,

Deu-vos o Amor toda a imortal couraça

Dessa Fé que alucina.

No meio de anjos que vos-abençoam

Corações estremecem...

E tudo eternamente vos perdoam

Os que não vos esquecem.

Toda a misericórdia dos espaços

Vos oscule, surpresa...

E abri, serenos, largamente, os braços

A toda a Natureza!

Faróis

Sinopse

Faróis, de Cruz e Sousa, é uma coletânea clássica da poesia simbolista brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 49 poemas com fonte pública validável na Wikisource, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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