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Faróis

Capítulo 28 · Faróis

Faróis: Meu filho

28 de 49 ≈ 4 min de leitura

Meu filho

Ah! quanto sentimento! ah! quanto sentimento!

Sob a guarda piedosa e muda das Esferas

Dorme, calmo, embalado pela voz do vento,

Frágil e pequenino e tenro como as heras.

Ao mesmo tempo suave e ao mesmo tempo estranho

O aspecto do meu fiIho assim meigo dormindo...

Vem dele tal frescura e tal sonho tamanho

Que eu nem mesmo já sei tudo que vou sentindo.

Minh’alma fica presa e se debate ansiosa,

Em vão soluça e clama, eternamente presa

No segredo fatal dessa flor caprichosa,

Do meu filho, a dormir, na paz da Natureza.

Minh’alma se debate e vai gemendo aflita

No fundo turbilhão de grandes ânsias mudas:

Que esse tão pobre ser, de ternura infinita,

Mais tarde irá tragar os venenos de Judas!

Dar-lhe eu beijos, apenas, dar-lhe, apenas, beijos,

Carinhos dar-lhe sempre, efêmeros, aéreos,

O que vale tudo isso para outros desejos,

O que vale tudo isso para outros mistérios?!

De sua doce mãe que em prantos o abençoa

Com o mais profundo amor, arcangelicamente,

De sua doce mãe, tão límpida, tão boa,

O que vale esse amor, todo esse amor veemente?!

O longo sacrifício extremo que ela faça,

As vigílias sem nome, as orações sem termo,

Quando as garras cruéis e horríveis da Desgraça

De sadio que ele é, fazem-no fraco e enfermo?!

Tudo isso, ah! Tudo isso, ah! quanto vale tudo isso

Se outras preocupações mais fundas me laceram,

Se a graça de seu riso e a graça do seu viço

São as flores mortais que meu tormento geram?!

Por que tantas prisões, por que tantas cadeias

Quando a alma quer voar nos paramos liberta?

Ah! Céus! Quem me revela essas Origens cheias

De tanto desespero e tanta luz incerta!

Quem me revela, pois, todo o tesouro imenso

Desse imenso Aspirar tio entranhado, extremo!

Quem descobre, afinal, as causas do que eu penso,

As causas do que eu sofro, as causas do que eu gemo!

Pois então hei de ter um afeto profundo,

Um grande sentimento, um sentimento insano

E hei de vê-lo rolar, nos turbilhões do mundo,

Para a vala comum do eterno Desengano?!

Pois esse filho meu que ali no berço dorme,

Ele mesmo tão casto e tão sereno e doce

Vem para ser na Vida o vão fantasma enorme

Das dilacerações que eu na minh’alma trouxe?!

Ah! Vida! Vida! Vida! Incendiada tragédia,

Transfigurado Horror, Sonho transfigurado,

Macabras contorções de lúgubre comédia

Que um cérebro de louco houvesse imaginado!

Meu filho que eu adoro e cubro de carinhos,

Que do mundo vilão ternamente defendo,

Há de mais tarde errar por tremedais e espinhos

Sem que o possa acudir no suplicio tremendo.

Que eu vagarei por fim nos mundos invisíveis,

Nas diluentes visões dos largos Infinitos,

Sem nunca mais ouvir os clamores horríveis,

A mágoa dos seus ais e os ecos dos seus gritos.

Vendo-o no berço assim, sinto muda agonia,

Um misto de ansiedade, um misto de tortura.

Subo e pairo dos céus na estrelada harmonia

E desço e entro do Inferno a furna hórrida, escura.

E sinto sede intensa e intensa febre, tanto,

Tanto Azul, tanto abismo atroz que me deslumbra.

Velha saudade ideal, monja de amargo Encanto,

Desce por sobre mim sua estranha penumbra.

Tu não sabes, jamais, tu nada sabes, filho,

Do tormentoso Horror, tu nada sabes, nada...

O teu caminho e claro, é matinal de brilho,

Não conheces a sombra e os golpes da emboscada.

Nesse ambiente de amor onde dormes teu sono

Não sentes nem sequer o mais ligeiro espectro...

Mas, ah! eu vejo bem, sinistra, sobre o trono,

A Dor, a eterna Dor, agitando o seu cetro!

Faróis

Sinopse

Faróis, de Cruz e Sousa, é uma coletânea clássica da poesia simbolista brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 49 poemas com fonte pública validável na Wikisource, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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