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Capítulo 26 · Faróis

Faróis: Piedosa

26 de 49 ≈ 7 min de leitura

Piedosa

A Nestor Vitor

Não sei por que, magoada Flor sem glória,

A tua voz de trêmula meiguice

Desperta em mim a mocidade flórea

De sentimentos que não tem velhice.

Guslas de um céu remotamente mudo

Gemem plangentes nessa voz que voa

E através dela, abençoando tudo,

Um luar de perdões desabotoa.

Vejo-te então sublimemente triste

E excelsa e doce, num anseio lento,

Vagando como um ser que não existe,

Transfigurada pelo Sofrimento.

Mas, não sei como, vejo-te por brumas,

Além da de ouro constelada Porta,

Na ondulação das lívidas espumas,

Morta, já morta, muito morta, morta...

E sinto logo esse supremo e sábio

Travo da dor, se morta te antevejo,

Essa macabra contração de lábio

Que morde e tantaliza o meu desejo.

Fico sempre a cismar, se tu morresses

Que angustia fina me laceraria,

Que músicas de céus saudosos, desses

Céus infinitos sobre mim fluiria...

Que anjos brancos soberbos, deslumbrantes,

Resplandecentes nos broqueis das vestes,

Claros e altos voariam flamejantes

Para buscar-te, dos Azuis Celestes.

Sim! Sim! Pois então tanta e atroz fadiga,

Tanta e tamanha dor convulsa e cega

Há de ficar sem doce luz amiga,

Da lágrima dos céus, que tudo rega?!

As batalhas cruéis do sacrifício,

As transfigurações dos teus calvários,

Essas virtudes, rolarão com o vício

Pelos mesmos abismos tumultuários?!

Toda a obscura pureza dos teus feitos,

A tua alma mais simples do que a água,

Essa bondade, todos os eleitos

Sentimentos que tens de flor da Mágoa;

Nada se salvará jamais, mais nada

Se salvará, no instante derradeiro?!

Ó interrogação desesperada,

Errante, errante pelo mundo inteiro!

Nada se salvará da essência viva

Que tudo purifica e refloresce;

De tanta fé, de tanta luz altiva

De tanta abnegação, de tanta prece?!

Nada se salvará, piedosa e pobre

Flor desdenhada pelo Mal ufano,

Só o meu coração e verso nobre

Hão de abrigar-te do desprezo humano.

Na transcendência do teu ser, tão alta,

Vejo dos céus como que os dons, a esmola,

O indefinido que de ti ressalta

Me prende, me arrebata e me consola.

E sinto que a tua alma desprendida

Do terrestre, do negro labirinto

Melhor há de adorar-me na outra

Vida Melhor sentindo tudo quanto eu sinto.

Porque não é por sentimento vago,

Nem por simples e vã literatura,

Nem por caprichos de um estilo mago

Que sinto tanto a tua essência pura.

Não é por transitória veleidade

E para que o mundo reconheça,

Que sinto a tua cândida Piedade,

As auréolas de Luz dessa cabeça.

Não é para que o mundo te proclame

Maravilha das mártires, das santas

Que eu digo sempre ao meu Amor que te ame

Mesmo através de tantas ânsias, tantas.

Nem é também para que o mundo creia

Na humilde limpidez da tua alma justa,

Que o mundo, vil e vão, desdenha e odeia

Toda a humildade, toda a crença augusta.

Mas sinto porque te amo e te acompanho

Pelas montanhas de onde sóis saudosos

Clarões e sombras de um mistério estranho

Espalham, como adeuses carinhosos.

Sinto que te acompanho, que te sigo

Tranqüilo, calmo desses vãos rumores

E que tu vais embalada comigo,

Na mesma rede de carinho e dores.

Sinto os segredos do teu corpo amado,

Toda a graça floral, a graça breve,

Todo o composto lânguido, alquebrado

Do teu perfil de áureo crescente leve.

Sinto-te as linhas imortais do flanco,

E as ondas vaporosas dos teus passos

E todo o sonho castamente branco

Da volúpia celeste desses braços.

Sinto a muda expressão da tua boca

Feita num doce e doloroso corte

De beijo dado na veemência louca

Dos céus do gozo entre o estertor da morte.

Sinto-te as nobres mãos afagadoras,

Riquezas raras de um valor secreto

E mãos cujas carícias redentoras

São as carícias do supremo Afeto.

Sinto os teus olhos fluidos, de onde emerge

Uma graça, uma paz, tamanho encanto,

Tão brando e triste, que a minha alma asperge

Em suavíssimos bálsamos de pranto.

Uns olhos tão etéreos, tão profundos,

De tanta e tão sutil delicadeza

Que parecem viver lá n’outros mundos,

Longe da contingente Natureza.

Olhos que sempre no tremendo choque

Dos sofrimentos íntimos, latentes,

Tem esse toque amigo, o velho toque

Original das lágrimas ardentes.

Ah! sÓ eu vejo e sinto esse desvelo

Que transfigura e faz o teu martírio,

O sentimento amargurado e belo

Que e já, talvez, quase mortal delírio...

Sinto que a mesma chama nos abraça,

Que um perfume eternal, casto, esquisito,

Circula e vive com divina graça

Dentro do nosso trêmulo Infinito.

E tudo quanto me sensibiliza,

Fere, magoa, dilacera, punge,

Tudo no teu olhar se cristaliza,

No teu olhar, no teu olhar que unge.

Sinto por ti o mais febril e intenso

Carinho quase louco, doentio...

Carinho singular, curioso, imenso,

Que deixa na alma um resplendor sombrio.

E e de tal forma esse carinho raro,

De tal encanto e tão sagrada essência,

De tal Piedade e tal Perdão preclaro,

Que canta na estrelada Refulgência.

Ah! nunca saberás quanto exotismo

De sentimento me alanceia e pulsa,

Vibra violinos de sonambulismo

Nest'alma ora serena, ora convulsa!

Tens luz de lua e tens gorjeios de ave

No mundo virginal dos meus sentidos,

E és sonho, sombra de Angelus suave

Nos nossos mútuos e comuns gemidos.

E sonho, sombra de Angelus, tão brandos,

Imortalmente tão indefiníveis

Que todos os terrores execrandos

Cobrem-se para nós de íris sensíveis.

É assim que eu te sinto, erma, sozinha,

Frágil, piedosa, nos singelos brilhos

Erguendo aos braços, nobremente minha,

Os dolentes troféus dos nossos filhos.

Erguendo-os como cálices amargos

De um vinho ideal de já mortas quimeras,

Para além destes céus mudos e largos

Na ampla misericórdia das Esferas!

Faróis

Sinopse

Faróis, de Cruz e Sousa, é uma coletânea clássica da poesia simbolista brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 49 poemas com fonte pública validável na Wikisource, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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