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Capítulo 9 · Faróis

Faróis: Tedio

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Tedio

Valla commum de corpos que apodrecem,

Esverdeada gangrena

Cobrindo vastidões que phosphorecem

Sobre a esphera terrena.

Bocejo tôrvo de desejos turvos,

Languecente bocejo

De velhos diabos de chavelhos curvos

Rugindo de desejo.

Sangue coalhado, congelado, frio,

Espasmado nas veias...

Pesadelo sinistro de algum rio

De sinistras sereias...

Alma sem rumo, a modorrar de somno,

Molle, turbida, lassa...

Monotonias lubricas de um mono

Dançando n’uma praça...

Mudas epilepsias, mudas, mudas,

Mudas epilépsias,

Masturbações mentaes, fundas, agudas,

Negras nevrostenias.

Flores sangrentas do soturno vicio

Que as almas queima e mórde...

Musica estranha de lethal supplicio,

Vago, mórbido accorde...

Noite cerrada para o Pensamento,

Nebuloso degredo

Onde em cavo clangor surdo do vento

Rouco pragueja o medo.

Plaga vencida por tremendas pragas,

Devorada por pestes,

Esboroada pelas rubras chagas

Dos incendios celestes.

Sabor de sangue, lagrimas e terra

Revolvida de fresco,

Guerra sombria dos sentidos, guerra,

Tantalismo dantesco.

Silencio carregado e fundo e denso

Como um poço secréto,

Dobre pesado, carrilhão immenso

Do segredo inquiéto...

Florescencia do Mal, hediondo parto

Tenebroso do crime,

Pandemonium feral de ventre farto

Do Nirvana sublime.

Delirio contorcido, convulsivo

De felinas serpentes,

No sillamento e no mover lascivo

Das caudas e dos dentes.

Porco lugubre, lubrico, trevose

Do tabido peccado,

Fussando collossal, formidoloso

Nos lodos do passado.

Rhythmos de forças e de graças mortas,

Melancolico exilio,

Diffusão de um mysterio que abre portas

Para um secreto idyllio...

Ocio das almas ou requinte d’ellas,

Quintessências, velhices

De luas de nevróses amarellas,

Venenosas meiguices.

Insomnia morna e doente dos Espaços,

Lethargia funérea,

Vermes, abutres a correr pedaços

Da carne delectéria.

Um mixto de saudade e de tortura,

De lama, de ódio e de asco,

Carnaval infernal da Sepultura,

Risada do carrasco.

Ó tédio amargo, ó tédio dos suspiros,

Ó tédio d’anciedades!

Quanta vez eu não subo nos teus gyros

Fundas eternidades!

Quanta vez envolvido do teu luto

Nos sudarios profundos

Eu, calado, a tremer, ao longe, escuto

Desmoronarem mundos!

Os teus soluços, todo o grande pranto,

Taciturnos gemidos,

Fazem gerar flores de amargo encanto

Nos corações doridos.

Tédio! que pões nas almas olvidadas

Ondulações de abysmo

E sombras vêsgas, lividas, paradas,

No mais feroz mutismo!

Tédio do Requiem do Universo inteiro,

Morbus negro, nefando,

Sentimento fatal e derradeiro

Das estrellas gelando...

Ó Tédio! Rei da Morte! Rei bohemio!

Ó Phantasma enfadonho!

És o sol negro, o creador, o gêmeo,

Velho irmão do meu sonho!

Faróis

Sinopse

Faróis, de Cruz e Sousa, é uma coletânea clássica da poesia simbolista brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 49 poemas com fonte pública validável na Wikisource, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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