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Capítulo 40 · Faróis

Faróis: Canção negra

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Canção negra

A Nestor Vitor

Ó boca em tromba retorcida

Cuspindo injúrias para o Céu,

Aberta e pútrida ferida

Em tudo pondo igual labéu.

Ó boca em chamas, boca em chamas,

Da mais sinistra e negra voz,

Que clamas, clamas, clamas, clamas,

Num cataclismo estranho, atroz.

Ó boca em chagas, boca em chagas,

Somente anátemas a rir,

De tantas pragas, tantas pragas

Em catadupas a rugir.

Ó bocas de uivos e pedradas,

Visão histérica do Mal,

Cortando como mil facadas

Dum golpe só, transcendental.

Sublime boca sem pecado,

Cuspindo embora a lama e o pus,

Tudo a deixar transfigurado,

O lodo a transformar em luz.

Boca de ventos inclemente

De universais revoluções,

Alevantando as hostes quentes,

Os sanguinários batalhões.

Abençoada a canção velha

Que os lábios teus cantam assim

Na tua face que se engelha,

Da cor de lívido marfim.

Parece a furna do Castigo

Jorrando pragas na canção,

A tua boca de mendigo,

Tão tosco como o teu bordão.

Boca fatal de torvos trenos!

Da onipotência do bom Deus,

Louvados sejam tais venenos,

Purificantes como os teus!

Tudo precisa um ferro em brasa

Para este mundo transformar...

Nos teus Anátemas põe asa

E vai no mundo praguejar!

Ó boca ideal de rudes trovas,

Do mais sangrento resplendor,

Vai reflorir todas as covas,

O facho a erguer da luz do Amor.

Nas vãs misérias deste mundo

Dos exorcismos cospe o fel...

Que as tuas pragas rasguem fundo

O coração desta Babel.

Mendigo estranho! Em toda a parte

Vai com teus gritos, com teus ais,

Como o simbólico estandarte

Das tredas convulsões mortais!

Resume todos esses travos

Que a terra fazem languescer.

Das mãos e pés arranca os cravos

Das cruzes mil de cada Ser.

A terra é mãe! -- mas ébria e louca

Tem germens bons e germens vis...

Bendita seja a negra boca

Que tão malditas coisas diz!

Faróis

Sinopse

Faróis, de Cruz e Sousa, é uma coletânea clássica da poesia simbolista brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 49 poemas com fonte pública validável na Wikisource, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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