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Capítulo 41 · Faróis

Faróis: A ironia dos vermes

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A ironia dos vermes

Eu imagino que és uma princesa

Morta na flor da castidade branca...

Que teu cortejo sepulcral arranca

Por tanta pompa espasmos de surpresa.

Que tu vais por um coche conduzida,

Por esquadrões flamívomos guardada,

Como carnal e virgem madrugada,

Bela das belas, sem mais sol, sem vida.

Que da Corte os luzidos Dignitários

Com seus aspectos marciais, bizarros,

Seguem-te após nos fagulhantes, carros

E a excelsa cauda dos cortejos vários.

Que a tropa toda forma nos caminhos

Por onde irás passar indiferente;

Que há no semblante vão de toda a gente

Curiosidades que parecem vinhos.

Que os potentes canhões roucos atroam

O espaço claro de uma tarde suave,

E que tu vais, Lírio dos lírios e ave

Do Amor, por entre os sons que te coroam.

Que nas flores, nas sedas, nos veludos,

E nos cristais do féretro radiante

Nos damascos do Oriente, na faiscante

Onda de tudo há longos prantos mudos.

Que do silêncio azul da imensidade,

Do perdão infinito dos Espaços

Tudo te dá os beijos e os abraços

Do seu adeus a tua Majestade.

Que de todas as coisas como Verbo

De saudades sem termo e de amargura,

Sai um adeus a tua formosura,

Num desolado sentimento acerbo.

Que o teu corpo de luz, teu corpo amado,

Envolto em finas e cheirosas vestes,

Sob o carinho das Mansões celestes

Ficará pela Morte encarcerado.

Que o teu séquito é tal, tal a coorte,

Tal o sol dos brasões, por toda a parte,

Que em vez da horrenda Morte suplantar-te

Crê-se que és tu que suplantaste a Morte.

Mas dos faustos mortais a regia trompa,

Os grandes ouropéis, a real Quermesse,

Ah! tudo, tudo proclamar parece

Que hás de afinal apodrecer com pompa.

Como que foram feitos de luxúria

E gozo ideal teus funerais luxuosos

Para que os vermes, pouco escrupulosos,

Não te devorem com plebéia fúria.

Para que eles ao menos vendo as belas

Magnificências do teu corpo exausto

Mordam-te com cuidados e cautelas

Para o teu corpo apodrecer com fausto.

Para que possa apodrecer nas frias

Geleiras sepulcrais d'esquecimentos,

Nos mais augustos apodrecimentos,

Entre constelações e pedrarias.

Mas ah! quanta ironia atroz, funérea,

Imaginária e cândida Princesa:

És igual a uma simples camponesa

Nos apodrecimentos da Matéria!

Faróis

Sinopse

Faróis, de Cruz e Sousa, é uma coletânea clássica da poesia simbolista brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 49 poemas com fonte pública validável na Wikisource, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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