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Capítulo 44 · Faróis

Faróis: Flor perigosa

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Flor perigosa

Ah! quem, trêmulo e pálido, medita

No teu perfil de áspide triste, triste,

Não sabe em quanto abismo essa infinita

Tristeza amarga singular consiste.

Tens todo o encanto de uma flor, o encanto

Secreto de uma flor de vago aroma...

Mas não sei que de morno e de quebranto

Vem, lasso e langue, dessa negra coma.

És das origens mais desconhecidas,

De uma longínqua e nebulosa infância.

A visão das visões indefinidas,

De atra, sinistra mórbida elegância.

Como flor, entretanto, és bem amarga!

Pólens celestes o teu ser inundam,

Mas ninguém sabe a onda nervosa e larga

Dos insetos mortais que te circundam.

Quem teu aroma de mulher aspira

Fica entre ânsias de túmulo fechado...

Sente vertigens de vulcão, delira

E morre, sutilmente envenenado.

Teu olhar de fulgências e de treva,

Onde as volúpias a pecar se ajustam,

Guarda um mistério que envilece e eleva,

Causa delíquios e emoções que assustam.

És flor, mas como flor és perigosa,

Do mais sombrio e tétrico perigo...

Fenômenos fatais de luz ansiosa

Vão pelas noites segredar contigo.

Vão segredar que és feia e que és estranha

Sendo feia, mas sendo extravagante,

De enorme, de esquisita, de tamanha

Influência de eclipse radiante...

Sei! não nasceste sob a luz que ondeia

Na beleza e nos astros da saúde;

Mas sendo assim, morbidamente feia,

O teu ser feia torna-se virtude.

És feia e doente, surges desse misto,

Da exótica, da insana, da funesta

Auréola ideal dos martírios de Cristo

Naquela Dor absurdamente mesta.

Vens de lá, vens de 1á -- fundos remotos

Adelgaçando como os véus de um rio...

Abrindo do magoado e velho lótus

Do sentimento, todo o sol doentio...

Mas quem quiser saber o quanto encerra

Teu ser, de mais profundo e mais nevoento,

Venha aspirar-te no teu vaso -- a Terra --

Ó perigosa flor do esquecimento!

Faróis

Sinopse

Faróis, de Cruz e Sousa, é uma coletânea clássica da poesia simbolista brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 49 poemas com fonte pública validável na Wikisource, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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