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Capítulo 217 · O Livro Derradeiro

O Livro Derradeiro: Naufrágios

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Naufrágios

(Desterro)

O Mar! O mar! Quem nunca viajasse...

Quem nunca dentre dúvidas sentisse

O coração e ai, nunca embarcasse...

Oh! quem do mar as cóleras punisse!

Ora o mar e sereno, e calmo, e manso,

As vagas são melódicos arpejos

Dando à embarcação leve balanço,

Como um afago maternal de beijos.

Ora o mar franco, livre e transparente,

Tão tranqüilo que está, tão brando, rindo,

Que até parece, que até cuida a gente

Que os corações podem boiar, dormindo.

Ora ferve, rebenta, estoura, estala,

Rude, feroz, em convulsões; profundo,

Abrindo a corpos pavorosa vala

E mundos de agonia num só mundo!

Filho! Filho! Adeus, querido,

Vou viajar para além,

Sejas de Deus protegido...

Que sempre me queiras bem.

Vou deixar-te nesta terra,

Entregue aos destinos teus;

Filho, o que este adeus encerra

Só o pode saber Deus.

Levo as crenças em pedaços,

Como pedaços de céus.

Vou ver mar, vou ver espaços

Ver temporais, escarcéus.

Filho amado, vou deixar-te

Cá na terra, pelo mar;

Porem, crê, de qualquer parte,

Crê, meu filho, hei de voltar.

Adeus, noiva, vou-me embora,

Vou-me com Deus, é preciso.

Que colhas em cada aurora

Muita messe de sorriso.

Sou soldado, o meu destino

É viver bem longe, é certo,

Longe do canto divino

Da tua voz, sol aberto.

Custa bem esta partida

A mim que entanto sou forte.

Ninguém sabe o que é a vida

Para quem vive da morte.

Da morte, sim, pomba amada;

Que as minhas crenças já mortas

Tu, com essa alma estrelada

Sem tu sequer me confortas.

Perdi pai, perdi carinhos

De mãe, de irmãos e de todos.

Eu sou como a flor de espinhos

Nascida por entre lodos.

Tu vieste, ó noiva, apenas,

Como um íris de esperanças,

Dar-me alvoradas serenas,

Encher-me de confianças.

Só em ti confio, espero

Com ardor, com fé veemente,

Pomba de luz que eu venero,

Doce vésper do oriente.

Adeus, pois chegou a hora,

Vou-me com Deus, minha filha;

Não chores, que o mar não chora:

-- Olha, vê que canta e brilha.

Adeus, esposa estremosa,

Vou-me, não sei para quando

Voltar -- minh'alma saudosa

Por meus filhos vai chorando.

Ficam-te eles no entretanto

Pra tirarem-te os pesares,

Para enxugarem-te o pranto

Que há de ser maior que os mares.

Maior que os mares, não minto,

Não exagero tão pouco,

Porque ai, só tu e só eu sinto

O nosso amor como é louco.

Vou-me às viagens, aos dias

Passados entre horizontes

E mares e ventanias

Sem arvoredos, sem montes.

Os dias de céus eternos

E de mar ilimitado,

Com tempo de atroz infernos

Com tempo de sol doirado.

Adeus! Cá dentro do peito

Há dois corações unidos;

Sobre um o mar tem direito,

Sobre outro -- os filhos queridos.

Eis as canções e adeuses de saudade

Que as desgraçadas almas palpitantes

Soluçam na sombria imensidade

Desta vida de angústias lacerantes.

Ao mar! Ao mar! Frescas aragens puras

Aflam nas ondas maviosamente.

Que balada de plácidas venturas,

Que sinfonias, que gemer dolente!

Os céus abertos, claros, luminosos

Lembram a candidez branda das virgens.

Vítreos ares, magníficos, radiosos

Onde o sol arde em férvidas vertigens.

Lindíssimos painéis, bela paisagem

Abre na vista do viajante o ouro

Da luz que salta como uma homenagem

De oriental, esplêndido tesouro.

Vai bem, vai muito bem, mesmo, o navio.

As vagas desenrolam-se de leve.

Parece um berço por de sobre um rio

Manso, prateado, espúmeo, cor de neve.

Vive-se a bordo como em terra. -- As vagas

Nunca foram tão doces e tão meigas,

Como em desertas, viridentes plagas

É doce e meigo o mole chão das veigas.

Viver assim, na realidade, é gozo

Que até parece não haver na terra!

Tão belo é o mar, tão calmo e bonançoso,

Tal confiança nos semblantes erra!

Vogando assim a embarcação, quem pensa

Ir acordado afora pela Vida?!

Tudo é um sonho de esperança imensa

Um bom sonho de aurora indefinida.

Súbito os ares enchem-se de noite

E grita e zune, zargunchando o vento

Que esbraveja, morde com rijo acoite

O mar que espuma e empola num momento.

Não estrugem os raios pela treva

Não ha trovões bravios rebentando

Como canhões que estouram, -- mas se eleva

Do oceano um vendaval que vai urrando

Com fúrias e com cóleras enormes

Como potros sanhudos relinchando

Em pinotes e berros desconformes.

Caiu talvez no mar o etéreo espaço,

Toda a cúpula azul tombou, quem sabe?

Céus! há lutas ali, de braço a braço.

Horror! Crível sera que o mundo acabe?

Ninguém calcula o que será tudo isso...

Mas os ventos elétricos, largados

Nas amplidões do mar antes submisso,

Rugindo vão como desesperados.

Deus, ó meu Deus, todas as bocas gritam,

E se afervora mais e mais a crença.

Mas, onde os astros muita vez palpitam

No céu, há noite cada vez mais densa.

Ah! que mudez de túmulo nos ares.

Nada responde, oh! nada então responde;

Mas onde está o grande Deus dos mares

E da terra, onde está, aonde, aonde?

Tudo está mudo -- a natureza inteira,

Tudo emudece e não responde nada;

E só os vendavais têm a maneira

De responder dando uma gargalhada.

Gargalhada de lágrimas atrozes,

De lágrimas de morte e de agonia

Que abafa e extingue na garganta as vozes,

Gera a coragem que e a luz do dia.

O valentes e rudes marinheiros

Vindos da pátria para pátria nova,

Que sepultais amores verdadeiros

Do tão profundo coração na cova;

Ó viajantes de longe, de países

Onde a vida cintila e canta alerta

Como um turbilhão de aves felizes

Numa campina de rosais, deserta;

Ó vós todos que vindes lá do oceano,

Entre as mais bruscas e hórridas tormentas.

Lá do mar, alto, a vela, a todo o pano,

Com as almas ansiosas e sedentas,

De chegar cedo ao porto desejado,

Calculai, calculai o quanto é triste

Ver dar à praia um pobre desgraçado

Em cuja carne a podridão existe!

À praia! À praia! Dai à praia, morto,

Rejeitado por ondas convulsivas,

Indo encontrar na sepultura o porto,

Deixando ao mundo as ilusões mais vivas.

O eterno amor de mãe, de filho, esposa,

Tanta fé, tanto riso de alegria,

Tanta coisa dourada, ai tanta coisa

Que ao recordar toda a nossa alma esfria.

Morrer no mar, os nervos contraídos,

Numa asfixia atroz, cerrando os dentes,

Num abismo de cores e gemidos,

De maldições e de uivos de descrentes;

Morrer no mar, sem o farol amigo,

Esse farol que os náufragos anima,

Fora de proteção, fora de abrigo,

Sem sequer uma luz no espaço, em cima;

Morrer no mar, sem astros no infinito,

Na solidão das águas, fria, imensa,

Enquanto a treva aura de granito,

Ri-se de tudo, com indiferença;

Morrer no mar, só e desamparado

E num terror que não acaba nunca,

Vendo rasgar o corpo enregelado

O desespero como garra adunca.

É horrível! Bem sei! Mas ai daqueles

Que morrem mesmo assim lá no mar fundo

Sem ter alguém que ao menos neste mundo

Derrame uma só lágrima por eles!

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Sinopse

O Livro Derradeiro, de Cruz e Sousa, é uma ampla coletânea de poesia brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 246 poemas e textos com fonte pública validável na Wikisource, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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