Leia agora
O Livro Derradeiro

Universo da obra

O Livro Derradeiro

Capítulo 221 · O Livro Derradeiro

O Livro Derradeiro: A Espada

221 de 246 ≈ 7 min de leitura

A Espada

I

Cavalheiros, os tempos já passados,

De pajens, de canzéis, de fidalguia,

De castelos, de reinos brasonados.

Ar cortesão de graça e fantasia

Através dos olhares e dos beijos

-- No silêncio de cada galeria...

Foi nesse bravo tempo dos lampejos

De espadas, de punhais e de couraças

Por combater frementes de desejos.

No tempo dos floreios e das caças

Dos assaltos alegres e bizarros

Como as sonoras vibrações das taças.

Em que as almas airosas como jarros,

Cheios de vinho espumejante e ardente

Eram de glória vencedores carros!

Foi no tempo fidalgo e refulgente,

Quando o heroísmo fantasioso amava

A linha e a chama de luzida gente,

Que esta cena galharda se passava,

Quando um donzel partia para guerra

Como a nobreza do solar mandava.

O pai, um tronco transudando a terra,

Forte e viril, presença de profeta

Que no seu flanco a valentia encerra.

Barbas serenas de bondoso asceta

Em cuja alvura doce e veneranda

Vê-se a vontade e a intrepidez completa.

Fronte banhada de meiguice branda

A que o dever e os ríspidos conselhos

Dão sempre a austeridade que age e manda.

Lembra um ocaso de clarões vermelhos,

Musgoso, triste, desolado muro,

Por onde o luar abre fulgor d’espelhos.

E esse semblante que parece duro,

Áspero e torvo, trouxe-o dos combates,

Do torvelinho do nevoeiro escuro.

Dos pelouros sanguíneos escarlates,

De fogo aberto em turbilhões, vorazes,

Dos impulsivos, bélicos rebates.

Mas, bem olhadas, as feições audazes

Desse velho patriarca destemido

Tinha a suavidade dos lilazes.

Nos olhos, um passado consumido

Entre aventuras e colóquios belos

Como que faz um verdadeiro ruído...

Sente-se neles noites de castelos

Gozadas em amores dadivosos,

Em madrigais, em íntimos desvelos.

Cavalgadas, torneios donairosos,

Sonho feliz de rica mocidade,

Requintes ideais, cavalheirosos.

Tudo se sente na tranqüilidade

Desse deus varonil da força antiga

Feito com o rijo bloco da Verdade.

Tudo se sente nessa paz amiga

Que as crenças do passado às outras crenças

Vagas, futuras, para sempre liga.

Tudo se sente vir das névoas densas

E da ridente e cândida meiguice

Das suas barbas límpidas e imensas.

Sim! tudo da quase criancice

Que dão aos homens esses tons nevoentos

Da enregelada e trêmula velhice.

Porém, reatando aéreos pensamentos...

Comecemos na cena detalhada

Que já das eras se espalhou nos ventos.

É nada mais que a história duma espada,

História curta, mas interessante

Duma espelhante lâmina timbrada.

Não é pelo aço ou lâmina espelhante

Que irei contar, pois são comuns os aços,

Mas pelo nobre e original rompante.

Pelo ardimento que os primeiros braços

Que a manejaram com pujança e brio

Nela gravaram, com profundos traços.

II

O velho, em pé, atlético e sombrio

Diante do filho armado cavaleiro,

No aspecto dum leão ruivo e bravio.

Fala-lhe claro, d’alto e sobranceiro,

Numa solene e enérgica atitude

De quem nos prélios sempre foi primeiro.

O filho, grave o escuta e atende a rude

Lhanez estóica de palavra augusta

Que dos lábios lhe sai, com tal saúde.

Calmo, sem se mover, firme a robusta

Figura solarenga do estoicismo,

O velho disse esta nobreza justa:

"Aqui tens esta espada que o heroísmo

Dos teus avós honrou nessas campanhas,

Com o mais ousado, intrépido civismo.

Freme ainda hoje em convulsões estranhas,

Palpita e anseia dentro da bainha

Sonhando a luta, as implacáveis sanhas.

Tu, para a teres, como eu sempre a tinha,

Num triunfo imortal, quase divino,

De gládio que o valor maior continha;

É necessário um grande ardor leonino,

Que sejas bem idólatra do nome

Que fez de mim o extremo paladino.

A ferrugem, tu vês, o aço consome...

Porém, neste aço que ainda aqui fulgura,

Se houver ferrugem, tira-a com o renome.

Aqui tens, pois, a lâmina segura,

Alma e brasão da nossa velha casa

Coberta de ovações, famosa e pura".

Calou-se um instante, como a ave que a asa

Fechou no voar, já quase que abatida,

Caindo exausta junto a moita rasa.

O filho, mudo e respeitoso, erguida

A valente cabeça leal de moço,

Formoso estava, porejando vida.

E enquanto o velho, impávido colosso,

Calara-se num momento, emocionado

Ficara o filho em íntimo alvoroço.

Mas de repente, como iluminado

Por um clarão de glórias já extintas,

Tornou o velho, aos poucos transformado:

"Podes partir! Porém nunca desmintas

Nas pelejas o dom da nossa fama,

Por menos força que no peito sintas.

Como um clarim, por toda a parte aclama

O vigor deste ferro e do teu pulso

No combate que ruja, ulule e brama,'.

E cada vez mais pálido e convulso,

Mais nervoso e febril e mais altivo

Bradou ainda, num tremendo impulso:

"Se tu, que és da minh'alma o exemplo vivo,

Meu filho, tens de ser como um cobarde,

Como um vilão abjeto e repulsivo;

Não faças mais de fidalguia alarde,

Pega esta espada, meu Afonso, pega

E quebra-a de uma vez, que não é tarde.

Pois em lugar de fazer dela entrega

Aos sequiosos, feros inimigos

Antes a quebre a cólera mais cega.

Ei-la, aqui tens, a leoa dos perigos,

Que como outrora em minha mão lampeja

Da bravura e da fama nos abrigos.

Se não a tens de honrar nessa peleja

Escuta bem, ó meu amado filho,

Quebra-a, e o teu nome nem manchado seja.

Como eu faria noutra idade e brilho,

Com outras energias musculares,

Segue-me tu no denodado trilho,,.

E assim falando, em gestos singulares,

E agigantado corpo retesando

E um tom sinistro esparso nos olhares;

A cabeça nos ares agitando

Numa alucinação, -- enorme ereto,

Como heróica visão, deblaterando...

Fitando bem o filho predileto,

Como se de repente lhe brotasse

A força hercúlea dum poder secreto.

O velho, qual um templo que abalasse,

A mão crispada, lívida e nervosa,

Com todo o esforço a lhe afluir na face,

Partiu no joelho a espada vitoriosa.

O Livro Derradeiro

Sinopse

O Livro Derradeiro, de Cruz e Sousa, é uma ampla coletânea de poesia brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 246 poemas e textos com fonte pública validável na Wikisource, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978654776997643720495230
O Livro Derradeiro

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

O Livro Derradeiro

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de O Livro Derradeiro

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral O Livro Derradeiro Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 221 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de O Livro Derradeiro

Capa de O Livro Derradeiro
Continue a leitura O Livro Derradeiro: A Espada Capítulo 221 · 221 de 246 · ≈ 7 min
Todos os capítulos 246 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir