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Capítulo 234 · O Livro Derradeiro

O Livro Derradeiro: Marche aux Flambeaux

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Marche aux Flambeaux

I

Rompe na aurora o sol que a terra esbofeteia

Com látegos de chama, iriando o pó e a areia,

Iriando os vegetais de ricas pedrarias,

Dos rubis e cristais das ourivesarias;

Aurora acesa em cor de púrpura de cravos

Opulentos, febris, ensanguinados, bravos;

De ritmos leves de harpa e frêmitos e beijos

Que são da natureza os trêmulos arpejos;

Aurora que sorri, que traz pomposamente

Todo o raro esplendor da luz resplandecente,

Das paisagens loucas no fúlgido matiz

O aroma a derramar da meiga flor de liz.

Na alegria dos tons os pássaros cantando

Vão as asas abrindo, entre os clarões ruflando,

Asas emocionais, que assim dentre clarões

Palpitam num fervor de alados corações.

E no luxo oriental de etéreo Grão-Mogol

Como um Baco feliz rubro flameja o sol.

II

Filósofos titãs, filósofos insanos

Que destes turbilhões, que destes oceanos

De lutas e paixões, de sonho e pensamentos

Espalhásteis no mundo aos clamorosos ventos

A Ciência fatal, talvez como um veneno,

Que os tempos abalou no caminhar sereno;

Filósofos titãs, que os séculos austeros

No flanco da Matéria abris, graves, severos,

Sobre o escombro da fé, da crença e da esperança,

Da civilização o trilho que hoje alcança

No seu aço viril as regiões supremas,

Traçado em novas leis, doutrinas e problemas;

Vós que sois no Saber os monges da existência

E só acreditais na força da Ciência,

Que da morte sabeis os filtros invisíveis,

Narcóticos, sutis, incógnitos, terríveis,

Não sabeis, entretanto, apóstolos sombrios,

Como a luz da Ciência os homens estão frios,

Como o tudo ficou num doloroso caos

E os seres que eram bons, rudes, egoístas, maus.

Em vão! em vão! em vão! os vossos largos crânios

Lutaram pelo Bem dos Bens contemporâneos!

Tudo está corrompido e até mais imperfeito...

Não há um lírio são a florescer num peito,

De piedade, de amor e de misericórdia...

Se brota uma virtude o ascoso vício morde-a,

Envilece, corrompe e abate essa virtude

Com o cinismo revel dum epigrama rude...

E até muita alma vil, feroz, patibular,

Impunemente sobe ao mais sagrado altar.

Por isso vão passar perante a turbamulta

Como abrupta avalanche, enorme catapulta,

Numa marche aux flambeaux, os famulentos vícios

Que cavaram no globo horrendos precipícios,

Os vícios imortais, que infestam tribos, greis,

Povos e gerações, seitas, templos e reis

E que são como a lava obscura da cratera

Que subterraneamente em tudo se invetera.

Com toda intrepidez hercúlea de acrobata

Vou sobre eles soltar, gloriosa, intemerata,

A sátira que tem esporas de galhardo

Cavaleiro ideal que joga a lança e o dardo.

Vou com esse altanado e muscular esforço

De quem galga triunfal o soberano dorso,

A crista vigorosa, altiva, sobranceira,

Da mais agigantada e vasta cordilheira.

III

Lobos, tigres, chacais, camelos, elefantes,

Hipopótamos, ursos e rinocerontes,

Leopardos e leões, panteras acirrantes,

Hienas do furor, membrudos mastodontes

Tredas feras do mal, soturnos dromedários,

Serpentes colossais que rastejais na treva,

Monstros, monstros cruéis, medonhos, sangüinários,

Cuja pata esmagante a presa aos antros leva;

Ó ventrudos judeus, opíparos, obesos,

De consciência obtusa, ignóbil e caolha

Que no mundo passais grotescamente tesos

Com honras de entremez e grandezas de rolha.

Gafentos histriões, ridículos da moda,

Que fingis entender Berlim, Londres, Paris,

Mas nos altos salões, por entre a fina roda,

Meteis sordidamente o dedo no nariz;

Brasonados truões, inúteis como eunuco,

Que as pompas ostentais de aurífero nababo

Mas apenas valeis como um limão sem suco,

Tendes rabo no corpo e dentro d'alma rabo;

Nobres de papelão, milionários vândalos

De ventre confortado e rosto rubicundo,

Que no torvo cancã no cancã dos escândalos

Sois o horrendo espantalho, a ignominia do mundo;

Ó deuses do milhão, ó deuses da barriga,

Que sentindo a aguilhada intensa da luxúria

Buscais a mais em flor e linda rapariga

Para então vos fartar na luxuriante fúria;

Gamenhos de toilette e convicções de lama

Onde tudo afinal se atola e se chafurda,

Que do clube e do esporte sintetizais a fama

Mas tendes para o Bem a fibra sempre surda;

Palhaços, clowns senis, hediondos borrachos

Que aos trambolhões urrais afora no universo,

Desdenhando de tudo e até rindo dos fachos,

Do clarão do saber em toda a parte imerso;

Almas negras, servis, d’ergastulos caóticos,

Gerado no paul das lúgubres voragens,

Do crime nos bulcões, nos vícios mais despóticos

Aos quais tanto rendeis eternas homenagens,

Manequins, charlatães, devassos do bom-tom,

Que viveis nas Babéis das grandes capitais

Apodrecendo sempre infamemente com

O cancro do dinheiro as forcas virginais;

Mascarados tafuis de gordos ventres de ouro,

Ó bonzos do deboche e cínicos esgares,

Que sois o único sol esterlinado e louro

Das parvas multidões, das multidões alvares;

Fidalgos de barril, sicofantas, malandros

Do templo e do bordel, da crápula de harém

Que ao puro mar do Ideal, com torpes escafandros,

Arrancais, p'ra vender, a pérola do Bem;

Ó trânsfugas, ladrões que difamais a terra,

Que tudo poluís, do próprio lodo a flor,

A serena humildade, - intrepidez da guerra.

Aos beijos maternais, ao nupcial amor;

Espíritos de treva, espíritos de barro

Que enegreceis de horror o sangue das papoulas

E das ostentacões vos aclamais no carro,

Cobertos de cetins, arminho e lantejoulas;

Que se vem de repente o Nada sepulcral

Nunca deixais, sequer, no tétrico leilão,

No leilão da memória, estranho, universal,

Nem um som a vibrar do estéril coração!

Dentre feras brutais de ríspidos penhascos

E a torrente caudal de rijos versos francos

E a zombaria e o riso e as sátiras e os chascos,

Nesta marche aux flambeaux ides passar, aos trancos

Do mundo os naturais, zoológicos museus

Despejem pare fora as pavorosas massas,

Para virem reunir-se aos tábidos judeus

Irromper e seguir e desfilar nas praças.

Que a cada mate, a entranha, o seio virgem se abra

Jorrando tigres, leões, panteras do seu centro

E na dança infernal, estrupida, macabra,

Siga a marche aux flambeaux pelo universo a dentro.

Gargalhadas abri a rubra flor sangrenta

Da humanidade vã na amargurada boca

Vai agora passar a marcha truculenta

Sob o espingardear duma ironia louca.

E desfila e desfila em becos e vielas

E torna a desfilar por vielas e por becos

às risadas da turba, estultas e amarelas

Que tem o áspero som de gonzos perros, secos...

E desfila e desfila, estrídula e execranda,

Das praças na amplidão, rugindo em mar desfila,

Enquanto além dardeja, heróica e formidanda,

A metralha do sol que rútilo fuzila...

E mastodontes vão de braço dado a sérios

Burgueses que já são bem bons comendadores

E marqueses de truz, com ares de mistérios

De lunetas gentis e aspectos sonhadores

Dão o braco fidalgo e airoso das nobrezas

Aos ursos boreais, enquanto os conselheiros

Os condes, os barões, os duques e as altezas

Lá vão de braço dado aos lobos carniceiros.

E nessa singular, atroz promiscuidade,

Animais e truões de catadura suína

Gordalhudos heróis da infâmia e da maldade,

Vendidos da honradez, velhacos de batina

Bobos, cães, imbecis, humanos crocodilos

E déspotas, jograis, todos os miseráveis

De todas as feições e todos os estilos,

Uns aos outros lá vão jungidos, formidáveis!...

Mas a marche aux flambeaux derrama um pesadelo,

A agonia dum tigre, em sonhos, sobre um ventre,

Agonia mortal que envolve tudo em gelo...

E desfila e desfila entre sarcasmos e entre

As sátiras-fuzis, relampejando açoite,

Por essa imensa aurora, estranhamente imensa

Por um sol que angustia e que não tem da noite

Para a Miséria a sombra atenuante e densa.

Os vícios, as paixões, os crimes, ódios e erros,

Na marcha, de roldão, caminham fraternais

Com bandidos, vilões, burgueses rombos, perros

E focas e mastins, macacos e chacais.

Aos sobressaltos vão como visões, fantasmas

Bichos de toda a casta, anões de chapéu alto,

Deixando em convulsão todas as almas pasmas

E o globo num tremendo e fundo sobressalto.

E nas praças, ao sol, confundem-se os bramidos,

Os uivos com a expressão humana misturados,

Através do sussurro e bruscos alaridos

Das chacotas bestiais, dos risos trovejados.

E segue e segue e segue, afora, légua a légua

Essa marche aux flambeaux, ciclópica, estupenda

Caminha atravessando um longo sol sem trégua,

Um dia secular, um dia de legenda;

Caminha atravessando um sol de foco aberto,

Por um dia fatal, interminável, mudo,

O dia do remorso, aterrador, incerto

Que em todo o coração crava um punhal agudo.

Mas eu quero assim mesmo, eu quero-vos assim,

Em marcha tropical, à crua e ardente luz

Que vos seja uma febre indômita, sem fim,

Um cautério de fogo a vos queimar o pus

Venéreo da Moral, carbonizando-o até

Para que nunca mais se sinta dele a origem

Nem volte, como sempre, então, a ser o que é,

Deixando-vos no mundo inteiramente virgem;

Eu quero-vos assim, de fachos apagados,

Apagados, ao alto, os joviais flambeaux,

Que os tereis de acender nos campos ignorados

Que de sóis de Vingança a Eternidade arou.

E depois de vagar às sátiras de todos,

Na evidência da luz, numa perpetua aurora;

De caminhar ao sol, por tremedais, por lodos,

No tédio do sarcasmo, o tédio que a devora,

Essa Marcha afinal penetrará aos urros,

Titânica, sinistra e bêbada, irrisória,

Num caos de pontapés, coices, vaias e murros,

Na eterna bacanal ridícula da História.

O Livro Derradeiro

Sinopse

O Livro Derradeiro, de Cruz e Sousa, é uma ampla coletânea de poesia brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 246 poemas e textos com fonte pública validável na Wikisource, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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