Universo da obra
Universo da obra
Ela ergueu a cabeça, olhou para Fridolin, e as lágrimas continuaram a escorrer.
Ele teria gostado de lhe dizer alguma palavra amável, mas não conseguiu.
“É provável que a senhorita passe alguns dias no campo”, começou ele, constrangido. “Espero que me dê notícias suas... O doutor Roediger, aliás, me contou que o casamento acontecerá em breve. Permita-me apresentar-lhe desde já meus parabéns.”
Ela não se moveu, como se não tivesse tomado conhecimento nem de seus cumprimentos nem de sua despedida. Ele lhe estendeu a mão, que ela não aceitou, e repetiu, quase em tom de censura:
“Bem, espero que me dê notícias de sua saúde. Adeus, senhorita Marianne.”
Ela permaneceu sentada, como petrificada. Ele saiu e ainda ficou um segundo parado à porta, como se lhe concedesse um último prazo para chamá-lo de volta, como se lhe parecesse quase perder a cabeça ao voltar-se; então fechou a porta atrás de si. Lá fora, no corredor, sentiu algo semelhante ao remorso. Por um instante pensou em retornar, mas percebeu que isso, mais do que qualquer outra coisa, teria sido ridículo.
E agora? Para casa? Para onde mais? Hoje ele não podia fazer mais nada. E amanhã? O quê? E como? Sentia-se estranhamente desamparado; tudo se desfazia sob suas mãos, tudo se tornava irreal: sua casa, sua mulher, seu filho, sua profissão, sim, ele próprio, enquanto prosseguia mecanicamente pelas ruas noturnas, com os pensamentos vagando.
O relógio da torre da prefeitura marcava sete e meia. Mas, aliás, pouco importava que horas fossem; o tempo se estendia diante dele, inteiramente supérfluo. Nada, ninguém lhe importava. Sentiu uma leve compaixão por si mesmo. Surgiu-lhe de repente, não como uma decisão, a ideia de ir a uma estação qualquer, partir, indiferente para onde, desaparecer para todas as pessoas que o conheciam, reaparecer em algum lugar estranho e começar uma vida nova, como um homem novo e diferente. Lembrou-se de certos casos singulares de doença que conhecia dos livros de psiquiatria, as chamadas existências duplas: um homem desaparecia subitamente de circunstâncias perfeitamente ordenadas, ficava perdido, regressava meses ou anos depois, não se recordava sequer de onde estivera durante todo esse tempo, mas, mais tarde, alguém o reconhecia em algum país distante, onde o encontrara antes, e o homem que voltara para casa nada sabia a respeito. Casos assim eram raros, naturalmente, mas, ao menos, estavam comprovados. E algumas pessoas talvez os experimentassem de forma mais tênue. Quando se voltava dos sonhos, por exemplo? Claro, a gente se lembrava... Mas certamente havia sonhos que se esqueciam por completo, e dos quais nada restava além de um estado de espírito enigmático, de uma misteriosa vertigem. Ou então só se recordava mais tarde, muito mais tarde, e já não se sabia se algo fora vivido ou apenas sonhado. Apenas... apenas...
E, enquanto seguia assim e, no entanto, mudava involuntariamente de direção, encaminhando-se para seu apartamento, viu-se nas proximidades de uma ruela escura, bastante mal-afamada, onde, menos de vinte e quatro horas antes, seguira uma criatura perdida até sua pobre e, ainda assim, acolhedora morada. Perdida — só ela? E justamente aquela ruela, mal-afamada? Como a gente se deixa seduzir continuamente por palavras, ruas, destinos, e batiza e julga pessoas segundo hábitos preguiçosos. Aquela menina não fora, no fundo, entre todos os que ele encontrara por estranhas coincidências na noite anterior, a mais graciosa, talvez até a mais pura? Sentiu certa emoção ao pensar nela. E agora se lembrou também da resolução da véspera; decidiu-se depressa, comprou toda espécie de alimentos na loja da esquina, e, ao caminhar junto às paredes das casas com o pequeno embrulho, sentiu-se quase feliz por saber que estava prestes a cometer ao menos uma ação sensata, talvez até louvável.
Ainda assim, levantou a gola ao entrar no corredor; enquanto subia a escada de dois em dois degraus, a campainha do apartamento soou-lhe ao ouvido com uma estridência desagradável. E, quando uma mulher doente lhe comunicou que a senhorita Mizzi não estava em casa, ele suspirou aliviado. Mas antes que a mulher tivesse aceitado o pacote destinado à ausente, outra mulher, ainda jovem e nada feia, envolta de certo modo num roupão, entrou na antessala e disse:
“Quem o senhor procura? A senhorita Mizzi? Ela não volta para casa tão cedo.”
A velha fez-lhe sinal para que se calasse; mas Fridolin, como se necessitasse urgentemente de confirmação para algo que, de algum modo, já suspeitava, observou simplesmente:
“Ela está no hospital, não está?”
“Bem, se o senhor já sabe... Mas eu estou sã, graças a Deus”, exclamou a jovem, alegre, aproximando-se muito de Fridolin, com os lábios entreabertos e uma inclinação atrevida do corpo voluptuoso para trás, de modo que o roupão se abriu.
Fridolin disse, em tom de recusa:
“Vim apenas trazer algo para Mizzi”, e de repente pareceu-lhe estar agindo como um estudante colegial. Depois, num tom novo e prático, perguntou: “Em que enfermaria ela está?”
A jovem lhe disse o nome de um professor em cuja clínica Fridolin fora médico assistente alguns anos antes. E acrescentou, bem-humorada:
“Dê o pacote para mim; eu levo para ela amanhã. Pode confiar: não vou comer nada. E também mando lembranças suas, e digo a ela que o senhor não lhe foi infiel.”
Ao mesmo tempo aproximou-se dele e riu. Mas, quando ele recuou um pouco, ela desistiu imediatamente e comentou, tranquila:
“Em todo caso, o médico disse que ela volta para casa em seis, oito semanas no máximo.”
Quando Fridolin saiu pelo portão da casa e ganhou a rua, sentiu as lágrimas subirem-lhe à garganta; mas sabia que aquilo não significava tanto uma comoção quanto um gradual colapso de seus nervos. De propósito, imprimiu aos passos um ritmo mais rápido e mais vivo do que condizia com seu estado de espírito. Seria aquela experiência mais um sinal, um último sinal, de que tudo estava condenado ao fracasso? Por quê? O fato de ter escapado de um grande perigo não poderia, ao menos, ser tomado como um bom presságio? E era exatamente isso que importava: escapar ao perigo? Ainda havia toda sorte de coisas à sua espera. Ele não pensava, de modo algum, em desistir de investigar a mulher maravilhosa daquela noite. Agora, é claro, já não havia tempo para isso. Além do mais, era preciso ponderar cuidadosamente de que maneira essa investigação deveria prosseguir. Sim, se ao menos tivesse alguém com quem se aconselhar! Mas não conhecia ninguém a quem desejasse confiar as aventuras da noite anterior. Havia anos que não era, de fato, mais íntimo de ninguém do que de sua mulher; e com ela, justamente neste caso — nem neste, nem em qualquer outro —, quase não poderia se aconselhar. Pois, por mais voltas que se desse à questão, naquela noite ela o havia mandado crucificar.
E agora ele sabia por que seus passos, em vez de conduzi-lo para casa, o levavam involuntariamente cada vez mais na direção oposta. Ele não queria, não podia, enfrentar Albertine naquele momento. O mais sensato seria jantar em algum lugar fora, depois passar no departamento para ver seus dois casos — e só voltar para casa, “para casa!”, quando pudesse ter certeza de encontrar Albertine já adormecida.
Entrou num café, um dos mais elegantes e tranquilos das imediações da prefeitura, telefonou para casa para avisar que não o esperassem para o jantar, desligou rapidamente para que Albertine não atendesse ao telefone, sentou-se à janela e puxou a cortina. Num canto distante estava sentado um senhor de sobretudo escuro, vestido de maneira muito discreta. Fridolin teve a impressão de já ter visto aquela fisionomia em algum momento durante o dia. Naturalmente, também podia ser mera coincidência. Pediu que lhe trouxessem um jornal vespertino e leu, como fizera na noite anterior em outro café, algumas linhas aqui e ali: notícias sobre acontecimentos políticos, teatro, arte, literatura, sobre os pequenos e grandes infortúnios de toda espécie. Em alguma cidade da América, cujo nome ele nunca ouvira, um teatro pegara fogo. O mestre limpador de chaminés Peter Korand se atirara pela janela. A Fridolin pareceu, de algum modo, estranho que até os limpadores de chaminés às vezes se matassem, e perguntou-se involuntariamente se o homem teria se lavado antes, como convinha, ou se, negro como estava, mergulhara no nada. Num hotel elegante do centro da cidade, uma senhora se envenenara naquela manhã, uma mulher que ali se hospedara havia alguns dias sob o nome de Baronesa D., uma senhora de beleza extraordinária. Fridolin sentiu-se imediatamente tocado por um pressentimento. A dama voltara para casa às quatro da manhã, acompanhada por dois senhores que se despediram dela no portão. Quatro horas. Exatamente a hora em que ele próprio chegara em casa. E ao meio-dia ela fora encontrada inconsciente — assim dizia a notícia — na cama, com sinais de grave envenenamento... Uma jovem de beleza extraordinária... Bem, havia algumas jovens de beleza extraordinária... Não havia razão para supor que a Baronesa D., ou melhor, a senhora que se apresentava sob o nome de Baronesa D. naquele hotel, fosse uma só e a mesma pessoa com a mulher da noite anterior. E, no entanto, seu coração batia com violência, e a página tremia em sua mão. Num hotel elegante do centro... qual deles? Por que tão misterioso? Tão discreto?...
Ele baixou o jornal e, no mesmo instante, viu que o senhor no canto mais afastado erguera diante do rosto um jornal, um grande jornal ilustrado, como se fosse uma cortina. Fridolin também tornou a pegar imediatamente o seu, e naquele momento soube que a Baronesa D. não poderia ser outra senão a mulher daquela noite... Um hotel elegante do centro... Não havia tantos assim que pudessem ser levados em conta — para uma Baronesa D... E agora, acontecesse o que acontecesse, era preciso seguir essa pista. Chamou o garçom, pagou e saiu. À porta, voltou-se ainda uma vez para o cavalheiro suspeito no canto. Mas, estranhamente, ele já desaparecera...
Grave envenenamento... Mas ela estava viva... No momento em que a encontraram, ainda estava viva. E, afinal, não havia motivo para presumir que não pudesse ser salva. De qualquer modo, estivesse viva ou morta, ele a encontraria. E a veria, custasse o que custasse — morta ou viva. Ele a veria; nenhum ser humano na terra poderia impedi-lo de ver a mulher que, por causa dele, sim, por ele, morrera. Ele era culpado por sua morte — ele, e só ele —, se fosse ela. Sim, era ela. Voltou para casa às quatro da manhã, acompanhada por dois senhores! Provavelmente os mesmos que, algumas horas depois, levaram Nachtigall ao trem. Esses senhores não deviam estar com a consciência muito tranquila.
Ele parou na praça ampla e vasta diante da prefeitura e olhou para todos os lados. Apenas algumas pessoas estavam à vista; o cavalheiro suspeito do café não se encontrava entre elas. E, ainda que estivesse — os senhores tinham medo, ele é que estava por cima. Fridolin apressou-se, tomou um carro na Ringstrasse e mandou seguir primeiro para o Hotel Bristol; perguntou ao porteiro, como se tivesse autorização ou incumbência para isso, se a Baronesa D., que, como se sabia, fora envenenada naquela manhã, estava hospedada ali. O porteiro não pareceu surpreso; talvez, pensou Fridolin, o tomasse por um senhor da polícia ou por algum outro funcionário. Em todo caso, respondeu com polidez que o triste caso não ocorrera ali, mas no Hotel Erzherzog...
Fridolin dirigiu-se imediatamente ao hotel indicado e ali recebeu a informação de que a Baronesa D., logo depois de encontrada, fora levada para o Hospital Geral. Fridolin perguntou como se descobrira a tentativa de suicídio. Que motivo haveria, já por volta do meio-dia, para se preocupar com a senhora, que só chegara em casa às quatro da manhã? Ora, era muito simples: dois cavalheiros — dois cavalheiros outra vez! — haviam perguntado por ela às onze da manhã. Como a senhora não atendesse aos repetidos chamados da camareira, esta batera à porta; como, ainda assim, nada se movesse e a porta continuasse trancada por dentro, não restara senão arrombá-la, e então encontraram a Baronesa deitada na cama, inconsciente. Avisaram imediatamente o serviço de salvamento e a polícia.
— E os dois cavalheiros? — perguntou Fridolin, brusco, sentindo-se como um agente secreto.
Sim, aqueles senhores certamente davam o que pensar, mas haviam desaparecido sem deixar vestígio. Além disso, era pouco provável que se tratasse de uma baronesa Dubieski, nome com que a senhora se registrara no hotel. Era a primeira vez que ela se hospedava ali, e não existia família alguma com esse nome, ao menos não uma família nobre.
Fridolin agradeceu a informação e saiu às pressas, antes que um dos gerentes do hotel, que acabava de chegar e começava a fitá-lo com curiosidade desagradável, pudesse examiná-lo melhor. Voltou para o carro e mandou seguir para o hospital. Poucos minutos depois, na portaria, soube não apenas que a suposta Baronesa Dubieski fora internada na Segunda Clínica Médica, mas também que, às cinco da tarde, apesar de todos os esforços dos médicos, morrera sem recobrar a consciência.
Fridolin respirou fundo; pensou que respirava fundo, mas foi um suspiro pesado que lhe escapou. O funcionário de plantão olhou-o com alguma surpresa. Fridolin recompôs-se imediatamente, despediu-se com cortesia e, no minuto seguinte, estava outra vez ao ar livre.
O jardim do hospital estava quase deserto. Numa alameda próxima, um enfermeiro de uniforme listrado de azul e branco passava sob um lampião, de avental e boné branco.
“Morta”, disse Fridolin consigo mesmo. — Se é ela. E se não for? Se ela ainda estiver viva, como poderei encontrá-la?
Onde estaria, naquele momento, o corpo da desconhecida, a essa pergunta ele sabia responder facilmente. Como ela morrera havia poucas horas, devia encontrar-se ainda no necrotério, a poucas centenas de passos dali. Para ele, como médico, também não haveria, naturalmente, dificuldade alguma em entrar ali tão tarde. Sim — mas que queria ele lá? Conhecia apenas o corpo dela; o rosto jamais o vira, tivera dele apenas um relance no instante em que, naquela noite, fora retirado do salão de baile — ou, mais exatamente, expulso. O fato de nem sequer ter pensado nisso até agora devia-se a que, em todas aquelas últimas horas, desde que lera o anúncio no jornal, imaginara a suicida, cujo rosto desconhecia, com os traços de Albertine; sim, agora estremecia ao perceber que sua mulher pairara continuamente diante de seus olhos como a mulher que ele procurava. E de novo se perguntou o que realmente queria buscar na câmara mortuária. Sim, se hoje, amanhã, dali a anos, quando fosse, onde fosse, e em quaisquer circunstâncias, a encontrasse viva outra vez, teria reconhecido, estava convencido disso, pelo andar, pela postura, pela voz e, acima de tudo, pelos olhos, de maneira irrefutável. Mas agora deveria ver apenas o corpo, o corpo de uma mulher morta, e um rosto do qual nada conhecia senão os olhos — olhos que agora estariam apagados. Sim — esses olhos ele conhecia, e o cabelo que, naquele último instante antes de ela ser arrastada para fora do salão, se soltara de repente e cobrira a figura nua. Isso bastaria para que ele soubesse, sem sombra de dúvida, se era ela ou não?
E, com passos lentos e hesitantes, percorreu o caminho, tão conhecido, pelos pátios até o Instituto Anatomopatológico. Encontrou o portão destrancado, de modo que não precisou tocar a campainha. O piso de pedra ecoava sob seus passos enquanto ele atravessava o corredor fracamente iluminado. Um cheiro conhecido, quase familiar, de todo tipo de produtos químicos, sob o qual se abafava o odor ancestral daquele edifício, envolveu Fridolin. Bateu à porta do gabinete histológico, onde era de presumir que ainda houvesse algum assistente trabalhando. A um “Entre” algo rude, Fridolin entrou na sala alta, quase festivamente iluminada, no centro da qual, com o olho recém-retirado do microscópio, como Fridolin quase esperava, seu antigo colega, o próprio assistente do instituto, doutor Adler, levantou-se da cadeira.
— Ah, caro colega — disse o doutor Adler, cumprimentando-o ainda um pouco a contragosto, mas ao mesmo tempo surpreso —, a que devo a honra, a esta hora incomum?
— Desculpe incomodá-lo — disse Fridolin. — O senhor está bem no meio do trabalho.
— De fato — respondeu Adler, no tom áspero que lhe era peculiar desde os tempos de estudante. E, mais leve, acrescentou: — Que outra coisa se haveria de fazer nestes salões sagrados à meia-noite, senão trabalhar? Mas é claro que o senhor não me incomoda de modo algum. Em que posso servi-lo?
E, como Fridolin não respondesse de imediato:
— O Addison que o senhor nos entregou hoje ainda está ali, adoravelmente intacto. Autópsia amanhã de manhã, às oito e meia.
E, quando Fridolin fez um gesto negativo:
— Ah, sim — o tumor pleural! Bem, o exame histológico revelou irrefutavelmente: sarcoma. Portanto, não precisa deixar que lhe cresçam cabelos brancos por causa disso.
Fridolin tornou a sacudir a cabeça.
— Não se trata de assunto profissional.
— Melhor ainda — disse Adler. — Pensei que uma consciência pesada o tivesse impedido de dormir e o trouxesse até aqui.
— Com uma consciência pesada, ou ao menos com a consciência em geral, isso já tem alguma relação — respondeu Fridolin.
— Ah!
“Em suma”, disse ele, tentando assumir um tom seco e inofensivo, “gostaria de obter informações sobre uma mulher que morreu esta noite, na segunda clínica, por envenenamento por morfina, e que agora deve estar aqui, sob o nome de certa Baronesa Dubieski.” E prosseguiu mais depressa: “Tenho a suspeita de que essa suposta Baronesa Dubieski seja uma pessoa que conheci há alguns anos. E gostaria de saber se minha suposição está correta.”
“Suicídio?”, perguntou Adler.
Fridolin assentiu.
“Sim. Suicídio”, traduziu ele, como se quisesse devolver ao caso seu caráter privado.
Adler apontou para Fridolin o indicador estendido, em tom brincalhão.
“Amor infeliz por Vossa Excelência?”
Fridolin negou, com certa irritação.
“O suicídio dessa Baronesa Dubieski não tem absolutamente nada a ver comigo, pessoalmente.”
“Pois não, pois não, não quero ser indiscreto. Podemos nos certificar disso imediatamente. Pelo que sei, não chegou esta noite nenhum pedido da medicina legal. Portanto, de todo modo…”
Autópsia médico-legal, passou pela cabeça de Fridolin. Isso ainda podia muito bem acontecer. Quem poderia saber se o suicídio dela fora de fato voluntário? Lembrou-se dos dois cavalheiros que haviam desaparecido tão de repente do hotel depois de saberem da tentativa de suicídio. O caso podia muito bem transformar-se num processo criminal de primeira ordem. E se ele — Fridolin — não viesse a ser chamado como testemunha, sim, se não fosse até mesmo obrigado a apresentar-se espontaneamente à justiça?
Seguiu o doutor Adler pelo corredor até a porta em frente, que estava entreaberta. A sala alta e vazia era iluminada por duas chamas baixas de um lustre a gás de dois braços. Das doze ou quatorze mesas mortuárias, apenas algumas estavam ocupadas. Alguns corpos jaziam nus; sobre outros tinham sido estendidos lençóis de linho. Fridolin aproximou-se da primeira mesa junto à porta e puxou cuidadosamente o pano que cobria a cabeça do cadáver. De repente, caiu sobre ela o clarão intenso da lanterna elétrica do doutor Adler. Fridolin viu o rosto de um homem amarelado, de barba grisalha, e logo voltou a cobri-lo com a mortalha. Na mesa seguinte jazia nu um jovem magro. O doutor Adler, junto a uma das outras mesas, disse:
“Uma pessoa entre sessenta e setenta anos; portanto, provavelmente não será esta.”
Mas Fridolin, como que atraído de súbito, caminhou até o fundo da sala, de onde o corpo de uma mulher reluzia palidamente em sua direção. A cabeça pendia para o lado; longas mechas escuras de cabelo caíam quase até o chão. Instintivamente, Fridolin estendeu a mão para endireitar-lhe a cabeça, mas, tomado por uma timidez que de outro modo lhe era estranha, hesitou novamente, apesar de médico. O doutor Adler aproximou-se e, apontando para trás, observou:
“Todas aquelas estão fora de questão… então, esta?”
E lançou a luz da lanterna elétrica sobre a cabeça da mulher, justamente quando Fridolin, vencendo a própria timidez, a segurava com as duas mãos e a erguia um pouco. Um rosto branco, de pálpebras semicerradas, voltou-se para ele. O maxilar inferior pendia frouxo; o lábio superior, estreito e repuxado, deixava à mostra gengivas azuladas e uma fileira de dentes brancos. Se aquele rosto um dia fora belo — talvez ainda ontem —, Fridolin não teria sido capaz de dizê-lo; era um nada completo, vazio, era um rosto morto. Poderia pertencer tanto a uma pessoa de dezoito anos quanto a uma de trinta e oito.
Em A Novela do Sonho, Arthur Schnitzler conduz Fridolin por uma noite de desejo, ciúme e ameaça em Viena, enquanto a intimidade com Albertine se transforma em espelho inquietante entre fantasia, culpa e sonho. Tradução Literunico a partir do original alemão em domínio público.
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