Leia agora
A Novela do Sonho

Universo da obra

A Novela do Sonho

Capítulo 3 · A Novela do Sonho

Parte 03

3 de 11 ≈ 11 min de leitura

Fridolin deteve-se diante do portão da casa e ergueu os olhos para a janela que ele mesmo costumava abrir; as vidraças tremiam levemente à brisa do início da primavera. As pessoas que haviam ficado lá em cima, os vivos tanto quanto o morto, pareciam-lhe fantasmagóricas, irreais. Ele próprio tinha a impressão de haver escapado, não tanto de uma experiência, mas de um feitiço melancólico que já não deveria ter poder algum sobre ele. O único efeito que ainda sentia era uma estranha relutância em voltar para casa. A neve derretera nas ruas; à esquerda e à direita acumulavam-se pequenos montes brancos e sujos; as chamas de gás dos lampiões tremeluziam; numa igreja próxima, o relógio bateu onze horas. Fridolin decidiu, antes de se deitar, passar ainda meia hora em algum canto tranquilo do café perto de seu apartamento, e tomou o caminho do parque da prefeitura.

Aqui e ali, sobre os bancos sombreados, havia casais sentados, muito juntos, como se a primavera de fato já tivesse chegado e seu calor enganoso não trouxesse perigo algum. Num banco, estendido ao comprido, jazia um homem bastante esfarrapado, com o chapéu puxado sobre a testa. E se eu o acordasse, pensou Fridolin, e lhe desse dinheiro para uma hospedaria? Ah, de que adiantaria?, continuou a pensar. Então eu teria de cuidar dele amanhã também, ou não faria sentido algum; e talvez, no fim, ainda me vissem envolvido em relações suspeitas com ele. E apressou o passo, como se quisesse escapar o mais depressa possível a toda espécie de responsabilidade e tentação. Por que justamente esse?, perguntou-se. Há milhares de pobres-diabos como ele só em Viena. Se alguém quisesse ocupar-se de todos, de todos esses destinos desconhecidos!

E lembrou-se do morto que acabara de deixar; e, com certo estremecimento, na verdade não sem repugnância, pensou que naquele corpo magro e alongado, sob o cobertor de flanela marrom, a decomposição e a decadência já haviam iniciado sua obra, segundo as leis eternas. E alegrou-se por ainda estar vivo; por todas essas coisas horríveis, com toda probabilidade, ainda estarem longe dele; sim, por ainda se encontrar em plena juventude, por possuir uma mulher encantadora e adorável, e por poder ter ainda uma ou outra além dela, quando quisesse. É claro que, para algo assim, seria necessário mais ócio do que lhe era concedido. E ocorreu-lhe que no dia seguinte deveria estar no departamento às oito da manhã, visitar pacientes particulares das onze à uma, atender no consultório das três às cinco da tarde, e que à noite ainda o aguardavam algumas visitas a enfermos. Bem, esperava ao menos não ser chamado outra vez no meio da noite, como acontecera naquele dia.

Ele atravessou a Rathausplatz, que reluzia vagamente como uma lagoa parda, e voltou-se para seu bairro, a Josefstadt. Ao longe, ouviu passos monótonos, cadenciados, e viu, ainda a boa distância, surgindo de uma esquina, um pequeno grupo de estudantes de corporação, seis ou oito ao todo, que vinha em sua direção. Quando os rapazes entraram no clarão de um lampião, julgou reconhecer neles os Alemanni azuis. Ele nunca pertencera a nenhuma associação, mas, em seu tempo, batera-se em alguns duelos de sabre. Por associação, vieram-lhe à memória as dominós vermelhas que, na noite anterior, o haviam atraído para o camarote e logo tornado a abandoná-lo. Os estudantes já estavam muito perto; falavam alto e riam. Será que não conhecia um ou outro das clínicas? Mas, naquela luz incerta, não era possível distinguir claramente as fisionomias. Teve de se colar à parede para evitar uma colisão; agora já haviam passado. Só restava o último, um sujeito alto, de casaco de inverno aberto, com um curativo sobre o olho esquerdo, que parecia ter ficado um pouco para trás quase de propósito, e veio contra ele de lado, com o cotovelo estendido. Não podia ser acaso. O que esse sujeito pensa que está fazendo?, pensou Fridolin, e parou involuntariamente. O outro, depois de dois passos, fez o mesmo, e por um instante ambos se mediram com os olhos, a uma distância calculada. Mas, de repente, Fridolin virou-se de novo e continuou andando. Ouviu atrás de si uma risada curta. Quase se voltou outra vez para enfrentar o rapaz, mas sentiu estranhas palpitações no coração, como certa vez, antes do meio-dia, catorze anos antes, quando bateram violentamente à sua porta enquanto estava com ele a encantadora jovem que, sempre distante, divagava sobre um noivo vivo, provavelmente inexistente, a quem dizia amar; na verdade, fora apenas o carteiro que batera de modo tão ameaçador. E, assim como então, sentia agora o coração bater com força. Que diabo era aquilo?, perguntou-se com raiva, e só então percebeu que os joelhos lhe tremiam um pouco. Covarde? Tolice, respondeu a si mesmo. Eu deveria me bater com um estudante bêbado, eu, um homem de trinta e cinco anos, médico, casado, pai de uma criança! Desafio! Testemunhas! Duelo! E, no fim, por causa de uma pancada no braço, de um empurrão idiota? E ficar algumas semanas impossibilitado de trabalhar? Ou perder um olho? Ou até uma septicemia? E, dentro de oito dias, talvez, estar deitado sob o cobertor de flanela marrom da Schreyvogelgasse! Covarde? Ele travara três duelos de sabre e uma vez estivera até preparado para um duelo de pistolas; e não fora por iniciativa dele que, naquela ocasião, o assunto se resolvera amigavelmente. E sua profissão! Perigos por todos os lados e a cada minuto, disso todos sempre se esqueciam. Quanto tempo fazia que a criança com difteria tossira em seu rosto? Três ou quatro dias, não mais. Aquilo, sim, era ao menos mais preocupante que uma pequena brincadeira de sabres. E ele nem sequer pensara mais no caso. Bem, se voltasse a encontrar aquele sujeito, ainda saberia acertar as contas. De modo algum era obrigado, à meia-noite, a caminho de um doente, ou mesmo de uma doente, pois afinal poderia ter sido esse o caso, a responder a um empurrão estúpido de estudantes. Agora, se fosse o jovem dinamarquês que lhe surgisse pela frente com Albertine... Ah, não, que estava pensando? Ora, não seria diferente de se ela tivesse sido sua amante. Pior ainda. Sim, esse ele gostaria de encontrar agora. Ah, seria um verdadeiro prazer estar diante dele em alguma clareira de bosque e apontar o cano de uma pistola para sua testa, sob os cabelos loiros bem penteados.

De repente, percebeu que já havia passado de seu destino e se achava numa viela estreita por onde, à noite, apenas algumas prostitutas miseráveis vagueavam à caça de homens. Sinistro, pensou. E também aqueles estudantes de bonés azuis se tornaram de súbito espectrais em sua memória, assim como Marianne, o noivo dela, o tio e a tia, que ele agora imaginava todos enfileirados, de mãos dadas, em torno do leito de morte do velho conselheiro da corte. Também Albertine, que agora lhe aparecia na imaginação profundamente adormecida, os braços cruzados sob a nuca, flutuava diante dele; e até sua filha, encolhida naquele momento na estreita cama de latão branco, e a dama de faces vermelhas, com a pinta na têmpora esquerda, todos lhe eram completamente estranhos. E nessa sensação, embora ela o fizesse estremecer um pouco, havia ao mesmo tempo algo de apaziguador, que o libertava de toda responsabilidade, sim, que parecia dissolver todos os vínculos humanos.

Uma das garotas que rondavam por ali convidou-o a acompanhá-la. Era uma criatura franzina, muito jovem, muito pálida, de lábios pintados de vermelho. Também isso poderia acabar em morte, pensou, mas não tão depressa! Também covardia? No fundo, sim. Ouviu os passos dela, depois sua voz atrás de si.

— Não quer vir comigo, doutor?

Ele se virou involuntariamente.

— Como você me conhece? — perguntou.

— Não conheço — disse ela. — Mas por aqui todo cavalheiro é doutor.

Desde os tempos de estudante, ele não tinha nada a ver com uma mulher assim. Seria uma recaída súbita na juventude o que o atraía para aquela criatura? Lembrou-se vagamente de um conhecido, um jovem elegante, que tinha fama de fabulosa sorte com as mulheres e que, após um baile, se sentara com ele em um café noturno; ao notar o olhar um tanto surpreso de Fridolin diante de uma das frequentadoras profissionais, respondera: “É sempre o mais cômodo; e, além disso, elas não são das piores”.

— Como você se chama? — perguntou Fridolin.

— Ora, como é que eu haveria de me chamar? Mizzi, naturalmente.

Ela já havia girado a chave no portão da casa, entrara no corredor e esperava que Fridolin a seguisse.

“Depressa!”, disse ela, quando ele hesitou. De repente, ele se viu ao lado dela; o portão fechou-se às suas costas, ela o trancou, acendeu uma vela de cera e iluminou-lhe o rosto. Estou louco?, perguntou-se ele. É claro que não vou tocar nela.

No quarto dela ardia uma lamparina a óleo. Ela aumentou um pouco mais o pavio. Era um quarto bastante confortável, bem cuidado, e ali o cheiro, ao menos, era muito mais agradável do que, por exemplo, na casa de Marianne. Claro, ali nenhum velho estivera doente durante meses. A moça sorriu, aproximou-se de Fridolin sem insistência, e ele, com delicadeza, a manteve afastada. Então ela apontou para uma cadeira de balanço, na qual ele se deixou cair de bom grado.

“Você deve estar muito cansado”, disse ela.

Ele assentiu. E ela, enquanto se despia sem pressa:

“Pois é, que vida a de um homem, tudo o que ele precisa fazer durante o dia. A nossa, afinal, é mais fácil.”

Ele notou que os lábios dela não estavam pintados, mas tinham um vermelho natural, e a elogiou por isso.

“Sim, por que eu haveria de me pintar?”, perguntou ela. “Quantos anos você acha que eu tenho?”

“Vinte?”, arriscou Fridolin.

“Dezessete”, disse ela, sentando-se em seu colo e enlaçando-lhe o pescoço com seus braços infantis.

Quem no mundo poderia imaginar, pensou ele, que estou agora neste quarto? Eu mesmo teria considerado isso possível há uma hora, há dez minutos? E por quê? Por quê? Ela procurou-lhe os lábios com os seus; ele recuou. Ela o fitou com olhos grandes, um pouco tristes, e escorregou de seu colo. Ele quase sentiu pena dela, pois havia em seu abraço uma ternura muito consoladora.

Ela apanhou um roupão vermelho que estava pendurado ao pé da cama aberta, vestiu-o e cruzou os braços sobre o peito, de modo que toda a sua figura ficou velada.

“Assim está melhor para você?”, perguntou, sem zombaria, como que timidamente, como se se esforçasse para compreendê-lo.

Ele mal sabia o que responder.

“Você adivinhou”, disse então. “Estou muito cansado, e me faz bem ficar sentado aqui, nesta cadeira de balanço, apenas ouvindo você. Você tem uma voz tão doce e suave. Fale, simplesmente. Conte-me alguma coisa.”

Ela se sentou na cama e sacudiu a cabeça.

“Você só está com medo”, disse em voz baixa; e depois, para si mesma, quase inaudível: “Que pena!”

Essa última palavra lançou uma onda quente em seu sangue. Ele avançou para ela, quis abraçá-la, explicou que ela lhe inspirava toda a confiança, e nisso até dizia a verdade. Sentou-a junto de si, cortejou-a como a uma menina, como a uma mulher amada. Ela resistiu; ele se envergonhou e por fim a soltou.

Ela disse:

“Não dá para saber. Um dia isso acontece. Você tem razão de ter medo. E, se alguma coisa acontecer, depois vai querer me amaldiçoar?”

Ela recusou as notas que ele lhe oferecia com tanta firmeza que ele não pôde insistir. Pegou um estreito lenço de lã azul, acendeu uma vela, iluminou-lhe o caminho, acompanhou-o escada abaixo e destrancou o portão.

“Hoje eu vou ficar em casa”, disse ela.

Ele tomou-lhe a mão e a beijou sem pensar. Ela o olhou surpresa, quase assustada; depois riu, envergonhada e feliz.

“Como uma dama”, disse ela.

O portão fechou-se às suas costas, e Fridolin lançou um olhar rápido ao número da casa, gravando-o na memória, para poder mandar, no dia seguinte, vinho e doces à pobre criatura que tanto o encantara.

A Novela do Sonho

Sinopse

Em A Novela do Sonho, Arthur Schnitzler conduz Fridolin por uma noite de desejo, ciúme e ameaça em Viena, enquanto a intimidade com Albertine se transforma em espelho inquietante entre fantasia, culpa e sonho. Tradução Literunico a partir do original alemão em domínio público.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978657285444938222990693
A Novela do Sonho

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

A Novela do Sonho

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de A Novela do Sonho

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral A Novela do Sonho Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 3 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir