Universo da obra
Universo da obra
“É ela?”, perguntou o doutor Adler.
Fridolin inclinou-se instintivamente, como se pudesse arrancar de suas feições rígidas, com um olhar penetrante, alguma resposta. E, no entanto, sabia ao mesmo tempo que, ainda que aquele fosse de fato o rosto dela, os olhos dela, aqueles mesmos olhos que na véspera haviam cintilado tão vivos diante dos seus, ele não sabia, não podia — no fundo, não queria saber. Com cuidado, pousou de novo a cabeça dela sobre a bandeja e deixou o olhar percorrer o cadáver, seguindo o brilho errante da lâmpada elétrica. Seria aquele o corpo dela? — aquele corpo maravilhoso, florescente, desejado ainda ontem com tanta dor? Viu um pescoço amarelado, enrugado; viu dois pequenos seios de moça, já um tanto flácidos, e entre eles, como se o trabalho da decomposição ali já se anunciasse, o esterno arqueando-se sob a pele pálida com cruel nitidez; viu a curva baça e acastanhada do ventre; viu, como se emergissem de uma escuridão agora misteriosa e sem sentido, agora indiferente, as sombras das coxas bem formadas, abertas; viu as curvas suavemente voltadas para fora dos joelhos, as arestas agudas das canelas e os pés estreitos, inclinados para dentro, com os dedos recurvos. Uma a uma, todas essas formas mergulharam rapidamente de novo na sombra, pois o cone de luz da lâmpada elétrica voltou a mover-se algumas vezes com maior rapidez, até deter-se por fim, tremendo de leve, sobre o rosto pálido. Involuntariamente, sim, como compelido e guiado por uma força invisível, Fridolin tocou com ambas as mãos a testa, as faces, os ombros, os braços da morta; depois entrelaçou os dedos aos dela, como numa brincadeira de amor, e, por mais rígidos que estivessem, pareceu-lhe que tentavam mover-se para agarrar os seus; teve mesmo a impressão de que, por entre as pálpebras semicerradas, um olhar distante e incolor se dirigia a ele; e, como enfeitiçado, inclinou-se.
Então, de súbito, ouviu-se atrás dele um sussurro:
“Mas o que você está fazendo?”
Fridolin voltou bruscamente a si. Desprendeu seus dedos dos da morta, segurou-lhe os pulsos delgados e depôs, com cuidado, sim, com certo pedantismo, os braços gelados ao longo do tronco. E pareceu-lhe que só agora, naquele exato instante, aquela mulher havia morrido. Em seguida, virou-se e caminhou para a porta; atravessou de volta o corredor ressonante e entrou no gabinete de trabalho que havia deixado pouco antes. O doutor Adler seguiu-o em silêncio e trancou a porta atrás de ambos.
Fridolin foi até a pia.
“Com sua licença”, disse, e lavou cuidadosamente as mãos com lisol e sabão. Enquanto isso, o doutor Adler, sem mais cerimônia, parecia disposto a retomar o trabalho interrompido. Acendera novamente o respectivo aparelho de iluminação, girara o parafuso do micrômetro e olhava pelo microscópio. Quando Fridolin se aproximou dele para se despedir, o doutor Adler estava inteiramente absorto em seu trabalho.
“Quer dar uma olhada no preparado?”, perguntou.
“Para quê?”, perguntou Fridolin, distraído.
“Ora, para aliviar sua consciência”, respondeu o doutor Adler, como se supusesse que a visita de Fridolin tivesse tido apenas uma finalidade médico-científica.
“Consegue orientar-se?”, perguntou, enquanto Fridolin olhava pelo microscópio. “É um método de coloração relativamente novo.”
Fridolin assentiu sem tirar os olhos da lâmina.
“Quase ideal”, observou. “Uma imagem colorida, pode-se dizer.”
E perguntou sobre diversos detalhes da nova técnica.
O doutor Adler deu-lhe as informações desejadas, e Fridolin declarou que aquele novo método provavelmente lhe seria muito útil num trabalho que pretendia realizar em futuro próximo. Pediu permissão para voltar no dia seguinte, ou no outro, a fim de obter esclarecimentos mais amplos.
“Sempre às ordens”, disse o doutor Adler, acompanhando Fridolin pelos ladrilhos de pedra ressonantes até o portão, que agora estava fechado e que ele destrancou com sua própria chave.
“O senhor ainda vai ficar?”, perguntou Fridolin.
“Mas é claro”, respondeu o doutor Adler. “São as melhores horas de trabalho: da meia-noite até o amanhecer. Pelo menos aqui quase nunca há interrupções.”
“Bem”, disse Fridolin, com um sorriso calmo, como se se sentisse culpado.
O doutor Adler pousou a mão no braço de Fridolin num gesto tranquilizador e perguntou, depois, com certa reserva:
“Então… era ela?”
Fridolin hesitou por um instante; depois assentiu, sem dizer palavra, e mal teve consciência de que aquela afirmação podia significar uma mentira. Pois, se a mulher que agora jazia na câmara mortuária era a mesma que, vinte e quatro horas antes, ao som selvagem do piano de Nachtigall, estivera nua em seus braços, ou se era outra pessoa, uma desconhecida, uma estranha absoluta, que ele jamais vira antes, morta ou viva; ele sabia que, mesmo que ainda vivesse a mulher que ele procurara, que desejara, que amara talvez por uma hora e que continuasse, no entanto, a viver aquela vida; aquilo que ficara para trás, no salão abobadado, à luz bruxuleante das chamas de gás, uma sombra entre sombras, obscura, sem sentido e misteriosa como todas elas, não significava para ele, não podia significar mais nada para ele senão aquele pálido cadáver da noite anterior, destinado à decomposição irremediável.
Em A Novela do Sonho, Arthur Schnitzler conduz Fridolin por uma noite de desejo, ciúme e ameaça em Viena, enquanto a intimidade com Albertine se transforma em espelho inquietante entre fantasia, culpa e sonho. Tradução Literunico a partir do original alemão em domínio público.
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