Leia agora
A Bico de Pena

Universo da obra

A Bico de Pena

Capítulo 1 · A Bico de Pena

Lavradores

Entre as sabias maximas dos etruscos, esses creadores da riqueza do campo latino, maximas que Plinio, mui judiciosamente, appellidou « oracula» , uma das mais concisas devia ser escripta em taboas que fossem levantadas em altos postes fincados nas encruzilhadas, nos ferteis outeiros, entre as plantações, impondo-se como um preceito a todos os agricultores que, de passagem, de manhan, em rumo dos talhões, à tarde recolhendo á casa, vissem e meditassem as suas singelas palavras : «Mão é o lavrador que compra aquillo que a terra lhe póde dar» .

Esses povos de tanta rusticidade, quasi barbaros, dedicando-se exclusivamente à terra com um amor aváro, vendo num torrão uma riqueza, numa semen te de trigo ou de linho o pão ou fio, considerando o alqueire como a melhor fortuna, esposando a leira pela qual viriam sacrificando aos deuses para que lhes não faltassem com a réga fecunda nem lhes demorassem nos canteiros as geadas esterilisadoras, gozando deliciosamente o suave arôma dos fenos cortados, alegrando-se com o lourejar da seara ondulante, extasiando-se com o fresco cantar das regas ao mugir melancolico dos gados, ao zumbir dos enxames, tinham noções exactas da verdadeira economia e da sciencia facil e tão pouco praticada do bem viver.

«Mão é o lavrador que compra aquillo que a terra lhe pode dar» .

Assim tiravam elles da terra o barro e as ripas com que edificavam a casa e modelavam o forno, a lenha que queimavam, o trigo que amassavam e coziam, o linho que as mulheres fiavam e com que teciam os vestidos e a lençaria domestica, a fructa, o azeite e o vinho.

Nos pastos engordavam o armentio que lhes fornecia os bois rubustos que, ao doce cerrar das tardes, lentamente, pelos caminhos cheirosos, levavam o pesado carro das colheitas, a vacca de ubres pojados, a rez para o córte e a ovelha que se despia da lan para vestil-os.

A agua era bebedouro no remanso e, correndo, escachoava na azenha d'onde sahia repartindo-se em azequias que iam abeberar as raizes e, isolados nos seus casaes, tinham os lavradores todo o necessario para a vida e das sobras abundantes faziam commercio levando-as ás feiras periodicas.

A terra não se recusa a crear a semente qualquer que ella seja: prometta uma arvore frondosa ou seja o simples germen de um arbusto ; o seu seio acolhedor é uma grande maternidade- alli acham abrigo favoravel todas as plantas : a seiva que alimenta o jequitibá não deixa inanida a relva, circula de um a outra distribuindo-se igualmente.

Uma das causas da decadencia do nosso lavrador é a sua mania rotineira da monocultura.

A proposito d'essa contumacia intransigente já houve quem declarasse que a nossa desgraça era o café.

Toda a confiança do lavrador funda-se nessa cultura : o café é o senhor absoluto da terra, só elle tem o direito de vida, só as suas flores trescalam, só a sua folhagem, que já cingio a corôa, é bella-por elle veio o negro da Africa, por elle vem o colono da Europa.

As machinas, que se installam nas fazendas, são para beneficiar o café, os ladrilhos que entram vão dilatar os terreiros, o adubo que se caldeia vae para O cafesal, o melhor gado trabalha nos eitos, a gente mais robusta é para lá destacada- alli fuzilam as melhores enxadas, a melhor agua corre para os tanques de lavagem e, como para que lhe não saia das vistas o precioso grão, o fazendeiro aconchega ao domicilio a casa das machinas e as tulhas, para que sempre ouça o fremito das Lidgerwood, para que sempre veja o enxame de cascas voando dos venti ladores, para que sempre tenha, a acariciar-lhe o olfacto, o cheiro acre das sementes novas.

Se ha moinho para triturar o milho é um pobre casebre esquecido num fundo de grota, se ha paiol é uma ruinaria-só o café tem agasalho digno em taboas lisas, sob telhados, entre muros fortes.

Se alguem, mostrando uma faixa de terra, lembra áo lavrador a vantagem de uma plantação de cereaes ou de canna ou indica uma baixada humida como excellente vargedo para um arrozal, elle sorri superiormente declarando : « Não vale a pena, isso é quitanda: o café dá para tudo » .

O resultado é que não ha residencia mais desprovida que a do fazendeiro- elle compra os cereaes para a despensa, a carne, o toucinho, o fubá e o milho e a forragem para os animaes.

Entretanto, no quintalejo do colono europeu, viceja a horta sempre fresca da rega, o milho apendôa-se, enfeixam-se touceiras de canna, sobem verdes latadas de vinha e de gordas aboboras, verdeja em estendal a rama da batata, o feijoal espiraladamente enfestoa as hastes dos milhos e ainda no chiqueiro grunhe o cevado, coincham os bacorinhos, a cabra lá está de peitos rijos, ruminando e na casa, pendente das cordas, defumando-se, os salpicões, o chouriço, o lardo e a um canto, em largas vasilhas, a carne em salga.

A previdencia do camponio europeu que vem da miseria, tão bem descripta por Michelet, tendo de realisar prodigios de trabalho para fecundar vagei ros e sáfaros terrenos erriçados de pedregulho, colhendo uns galões de vinho, que não bebe, umas medidas de trigo, que não come, umas estrigas de linho, que não veste, porque tudo é para o mercado ficando-lhe apenas a brôa e o canhamo de que se nutre e com que se cobre, sempre a pensar nos invernos, guardando avaramente todo o ramalho que encontra, aproveitando todas as migalhas, deve ser um exemplo para o lavrador brasileiro.

Posto que, com a fertilidade da terra e a amenidade do clima o colono vá, aos poucos, relaxando ainda assim com a idéa fixa de tornar á patria levando o necessario para viver regaladamente no seu campo natal, trabalha e accumula, passando sobriamente porque, pelo habito e ainda pela ambição, o melhor da colheita e da criação desce ao mercado mais proximo quando não é vendido ao proprio fazendeiro.

E o preço do café mantem-se miseravel, mal dá para o custeio da fazenda, e o plantador, sem recursos num mar de abundancia, com os terreiros cobertos, as tulhas attestadas e ainda os galhos vergados de fructo, sahe a procurar capitaes para acudir, ás necessidades da lavoura: ao salario do colono, á provisão da despensa e, como sempre viveu em fortuna, sem preoccupação de miseria, não se retrahe-mantem, como d'antes, a mesa farta, os quartos de hospedes preparados, veste a familia com esplendor, confiado na alta do precioso producto, certo de que, com um simples movimento na praça, resgatará o seu compromisso hypothecario, sald os seus debitos particulares, ficando-lhe ainda cap bastante para abastecer a casa e beneficiar a te no anno proximo de compensadora carga, lindame annunciada pela florescencia.

Infelizmente, porém, a sua illusão desfaz-se e dias correm.

Vae-se-lhe a ultima nota e só, dia do cofre aberto e vasio, o grande senhor rural co prehende a sua miseria e, com as folhas que arra ao bloco do annuario, vão-se-lhe as esperanças.

E que succede?

O colono, submisso e risor emquanto recebe regularmente a féria, torna-se tivo e hostil á falta de um pagamento.

O fazende sitiado pelos seus proprios homens, vendo appro mar-se o dia do vencimento da letra fatal, esmore o café baixa a mais e mais, as noticias do comr sario são desesperadoras - que fazer?

Lá fóra, colonia, o administrador procura, debalde, conver os trabalhadores a voltarem ao serviço -negam exigem o pagamento immediato, ameaçam cor consul, com o ministro, alguns mesmo falam no e logo, ingratamente, rompem referencias despe das á miseria da terra, á inclemencia do sol, á pereza dos outeiros ; lamentam as fadigas, as pr ções ; referem-se a molestias imaginarias, arre didos de haver deixado a patria, linda e rica, as suas vinhas e os seus trigaes côr de ouro. fazendeiro, emparedado, sem esperança de salva vê, com terror, chegar a data tremenda.

Lá fóra o cafezal murmulha com o vento, jorram as aguas soltas pelos canaes, o gado muge disperso e na casa, a portas fechadas, a familia reunida des- I T N F S pede-se, chorando, d'aquellas veneradas paredes que SAI foram levantadas pelos avós, d'aquellas terras ama- EIA das, para recomeçar a vida, onde? no desconhecido, H N I FI C I B aventurosamente, miseravelmente e com o humilde vexame dos decahidos.

Os optimistas dirão que exaggero e eu lhes respondo que traio a verdade para não a mostrar tão desoladora como se me apresenta.

Não sou, porém, do numero dos desesperados, dos que vêem perdido o campo, dos que não confiam na terra, não : ha um mal que tende a desapparecer porque vae sendo substituido por um bem- o mal é o lavrador por herança, o que entrou na vida pela porta doirada, o que não conheceu o trabalho e foi sempre um mimoso da Sorte, o que achou a arvore carregada, tendo apenas o trabalho de estender a mão e colher.

Creado na abastança, entre negros humildes, vendo-se obedecido em todos os caprichos ; senhor d'homens, teve uma grande e espantada surpresa, só comparavel á que teria um pastor que visse, de repente, tresmalhar todo o seu rebanho, quando, a 13 de maio, os negros, deixando os ferros, sahiram para a estrada livre, anciosos de liberdade.

Sem expediente, só, diante do vasto dominio, como num ermo mal assombrado, o fazendeiro julgouse perdido.

Ouvindo, porém, falar em colonos, tratou de adquiril-os.

Despachou emissarios para contractal-os por qualquer preço, comtanto que não se perdesse a colheita nem o matto subisse suffocando a lavoura.

E os colonos chegaram, a fazenda perdeu a sua antiga feição feudal- o systema modificou-se radicalmente, passando o senhor a patrão: o acto humilhante da compra foi substituido pelo compromisso reciproco do contracto.

Esse foi o primeiro golpe no fazendeiro antigo ou, dizendo melhor-foi a morte do velho regimen de trabalho.

O pagamento das primeiras férias foi feito com uma mal contida indignação - aquelles que acudiam á chamada com as suas cadernetas eram como ladrões que assaltavam.

Essa mesma revolta cessou e o fazendeiro julgou-se, de novo, feliz quando viu chegar o primeiro carro da safra a transbordar pelos caminhos o café em bagas purpurinas.

A terra, essa continuava submissa e fecunda, bella e fiel escrava ! e, confiado nella, o fazendeiro, á primeira difficuldade, sem energia para vencel-a, sem animo para affrontal-a e não podendo privar-se dos gosos habituaes- o seu descanço, a mesa lauta, o seu verão nas praias, o seu inverno na cidade, faustosamente installado, confiando a fazenda ao administrador, recorria ao emprestimo, prendia-se a hypotheca e, d'essa hora em diante, enlaçado pela constrictor, lá foi indo para a miseria, aos arrancos, torturado, anciado, até a hora dolorosa do abandono da casa.

Para salvar a lavoura ahi está o fazendeiro novo, typo perfeito do homem de acção, intelligente e energico, emprehendedor e activo.

Esse não fica na varanda mollemente estendido no pliant ou na rêde, ouvindo o cantarolar guaiado das lavadeiras no riacho e o zumbir monotono das abelhas errantes.- Cêdo está de pé, prompto para sahir, a cavallo ou de troly, e lá vae, ao ar fino da manhã, rompendo as nevoas que se desenrolam, fiscalisar o trabalho.

Caminha pelos torrões que o arado levanta ou pela terra fofa que espera a sementeira, olha, examina, indaga; entra no cafezal, dirige a carpa ou anima a colheita, lança uma vista de olhos ao gado no pasto, sobe ao moinho e, sem maior attenção á poeirada loura que se desprende da mó, toma o fubá entre os dedos, experimenta-o; corrige uma falta, activa um serviço, attende a uma reclamação, despacha um proprio e eil-o na casa das machinas attento a pesagem, depois nas tulhas e já o vêem a correr á estrebaria examinando as baias para que não falte a ração aos animaes e pára junto ao chiqueiro, chega ao paiol, percorre a abegoaria, vendo como interessado, não confiando no administrador que é apenas um intermediario entre elle e os colonos.

Se, pelo ceu, se vão arrumando nuvens de chuva e ha café nos terreiros, elle é o primeiro a lançar mão do rodo dando o exemplo para que se ajunte e recolha e, à noite, na sala vasta, emquanto a esposa acalenta o pimpolho, debruçado sobre um livro, cercado de jornaes e revistas, lê, annota observações sobre a terra, respigando o que lhe convem, aqui, alli : uma machina util, uma sementeira rica, um novo adubo, certo processo de enxertia e, ao primeiro bocejo, levanta-se, abre uma janella, respira largamente o ar puro da noite, sentindo em torno a terra viva e forte, tratada carinhosamente como um animal de raça, fecundando, florindo, fructificando ao esplendido luar silencio.

Dirão sorrindo : «Mas não ha vida mais material, Deus do ceu ! » Não ha vida melhor nem ha vida mais calma.

Que falem os errantes, esses que palmilham, sem destino, as estradas que d'antes pisavam como senhores e que agora vão trilhando como banidos.

Essa é a vida feliz do lavrador intelligente para o qual a crise é apenas um accidente e não um descalabro.

Saiba o lavrador aproveitar a terra e o elemento novo que a fecunda e a lavoura, no Brazil, será, em pouco, uma das mais prosperas e compensadoras do mundo para isso, porém, é necessario que não fique simplesmente nessa illusão do café porque a agricultura não se limita nem se póde limitar a uma producção unica.

O paiz do vinho é o paiz do azeite, é o paiz do pão, é o paiz do linho e é o paiz da fructa ; da nossa agricultura póde, e com rasão, dizer-se que dá apenas para encher uma chicara porque, em verdade, toda ella se reduz ao café, ao sul, e ao assucar, ao norte.

A Bico de Pena

Sinopse

Leia gratuitamente A Bico de Pena, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público com fantasias, contos e perfis organizada para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi saneada a partir de fonte pública preservada no Wikimedia Commons/HathiTrust e conferida com o registro do Domínio Público/MEC, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

A Bico de Pena

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de A Bico de Pena

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias de A Bico de Pena

Adquira Relíquias do Livro como colaboração ao autor e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Sinopse do universo · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo