Apólogos

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Capítulo 1 · Apólogos

Os vizinhos

— O’ João, se te fosse dado pedir ao Senhor alguma coisa, que lhe pedias tu ?

— Eu? bem pouco.

Pedia-lhe saude para mim e para os meus, mais a sua benção sobre as minhas terras que, d’uns tempos a esta parte, andam bem precisadas do favor divino.

— Só isso?

Pois então se Deus apparecesse e quizesse amercear-te, só lhe pedias essa miseria?

— Para mim seria a melhor fortuna.

E tu?

— Eu?

Ah! eu . . .

Havia de pedir tanto ouro, tanto! que eu e a minha gente, dia e noite contando-o, não chegassemos, ao fim da vida, a saber a somma exacta da nossa fortuna.

— E para que tanto dinheiro?

— Ora! para ser o homem mais rico do mundo.

— Mas não o mais feliz.

— Como não?

Que entendes tu por felicidade?

— Eu entendo que a felicidade é a saude do corpo e a paz do espirito.

— Pois cá para mim é o dinheiro.

Quem tem dinheiro tem tudo.

— Nem tudo.

Entraram numa trilha que cortava o cannavial viçoso.

Rompia clara e fresca a manhan.

Passarinhos cantavam nos ramos e as aguas brandas que discorriam punham no ar agradavel murmurio.

O sino da igreja rustica, onde os dois homens haviam ouvido a missa do Natal, bimbalhava festivamente.

E elles lá iam com os seus altos cajados, por entre as hervas discutindo a felicidade.

Os sitios eram contiguos: limitava-os uma cerca de espinhos.

Junto á primeira porteira, o que ambicionava a fortuna incontavel, despediu-se do companheiro.

— Então adeus, João.

E olha que o Senhor não ficaria mais pobre se quizesse realisar o teu desejo.

Adeus!

E o outro respondeu caminhando: — E eu ficaria contente e renderia commovidas graças á sua misericordia.

Entrou o ambicioso no terreiro do seu sitio e, ainda não avistara a casa, quando lhe pareceu ouvir alegre som metallico como de peças de ouro que rolassem tinindo.

Estugou os passos ansiosos com o coração aos saltos, e, ao chegar á varanda, viu, sobre a mesa, um grande sacco transbordando de ouro.

E eram dobrões novos, reluzentes como se houvessem sahido, naquella mesma manhan, da cunhagem.

A mulher e os dois filhos empilhavam as moedas, tanto, porém, que viram o homem apparecer, correram a annunciar-lhe a boa nova.

« Entrara ali um formoso menino e, sem dizer palavra, deixára sobre a mesa aquelle sacco de ouro.

Como lidassem com elle para que dissesse quem era, donde vinha, apenas respondera: Que era portador dum presente de Deus.

E, com taes palavras, desapparecera. » Lembrou-se, então, o homem da conversa que tivera com o vizinho e sorriu pensando : « Se Deus assim tão de prompto attendeu ao meu pedido avultado, por certo não deixou o delle sem resposta. » Pobre João!

Como se ralará de inveja quando souber da minha riqueza.

Logo, porém, sem agradecer ao Senhor o generoso presente, disse para a mulher e para os filhos: — Bem.

Não percamos tempo.

Ha ahi muito que contar.

Vamos vêr quantos dobrões ha no sacco, que nem por isso é tão grande como podia ser.

Em menos de meia hora poderemos ter a tarefa acabada.

E os quatro, em volta da mesa, puzeram-se a contar as moedas.

Á medida que perfaziam um conto separavam as pilhas e assim cobriram a mesa e foram depois arrumando nos aparadores e nos bancos.

Veiu a noite, e o sacco sempre a despejar moedas.

Uma luz amarella aclarou o interior da casa.

As quatro criaturas allucinadas iam e vinham acastellando dobrões.

Os moveis já estavam cobertos, passaram a juntá-los no chão.

E não sentiam os dias nem as noites: contavam fascinadas pelo ouro.

A casa encheu-se.

Arrastaram o sacco para o paiol e o paiol ficou a deitar fóra.

Passaram ao moinho e abarrotaram-no; recolheram ás tulhas, á abegoaria, a todos os cantos onde pudessem enthesourar.

Por fim, como o sacco não se esvasiava, fôram empilhando mesmo no terreiro e ao longo dos caminhos onde as plantas haviam mirrado.

João, o modesto, logo ao passar a porteira do seu sitio, ficou deslumbrado vendo os seus milhos ostentando pendões viçosos, o seu feijoal alastrando, a sua vinha carregada, a fonte manando copiosamente, todo o seu gado nédio e luzidío, pastando afogado em hervas que haviam nascido em terreno sáfaro que sempre respondera com ingratidão a todo o tracto e ao mais penoso granjeio.

E ainda não sahira do pasmo quando viu apparecer á porta do casebre, que uma roseira recente floria e perfumava, a mulher, que elle deixara no leito, tolhida e ardendo em febre, rindo, robusta e córada, como no tempo em que a vira, ainda donzella e a pedira por noiva.

Comprehendendo immediatamente que, em tudo aquillo, andara a mão benefica de Deus, antes de acudir á mulher, que o chamava, ajoelhou-se e agradeceu o milagre.

Erguendo-se, então, encaminhou-se á casa e a mulher, atirando-se-lhe nos braços, disse: — Appareceu aqui um formoso menino e, tomando do regador, que ali estava, sahiu a regar as terras e, onde cahia a agua, fosse entre pedras, logo rebentava a planta.

O gado, depois de beber, de entrezilhado que estava, ficou assim como o vês; os milhos murchos cresceram e apendoaram ; o feijoal alastrou, o arroz veiu logo a flux, as arvores cobriram-se de flores, a fonte entrou a manar e, para maior espanto meu, quando abri os paióes, vi que estavam atulhados.

— E que te disse o menino?

— Sorriu e desappareceu; e foi o seu sorriso que me poz como estou.

Logo sentime outra : pude andar e com tanta facilidade e ligeireza que corri todo o sitio e vi que todo elle está ricamente coberto de flores e de frutos.

— Foi Jesus que aqui esteve, disse o bom homem.

— Nem podia ser outro, confirmou a mulher.

E João, pensando no vizinho, disse, sem sombra de inveja: — Se foi Deus que nos fez assim felizes, tambem a sua graça deve ter chegado ao nosso vizinho.

— Como sabes? perguntou a mu lher.

E João narrou a conversa que haviam entretido, depois da missa, atravessando o cannavial que se dourava ao sol.

— Deve estar, a esta hora, a contar o seu ouro.

— Não é mais feliz do que nós, disse a mulher.

— Não é, de certo, affirmou João, vendo chegar, a zumbir, um louro enxame de abelhas procurando cortiço onde aboletar-se.

Correram dias, correram mezes.

Todos os sabbados João descia ao mercado e já havia comprado uma carreta para transportar os produtos da sua abençoada herdade, que prosperava a mais e mais, quando, uma vez, perguntaram-lhe pelo vizinho: « Que era feito de tal homem que nao apparecia? » João sorriu lembrando-se da manhan do Natal.

« Para que havia elle de incommodar-se em lidas penosas se tinha, com certeza, mais ouro do que todos os reis da terra? » Quiz, entretanto, convencer-se e, esvasiada a ultima ceira, subiu para a carreta resolvido a passar nas terras do vizinho.

Logo que avistou a porteira travou-selhe o coração presago.

Um mattagal intonso cobria os caminhos; os talhões, outrora viçosos, desappareciam afogados em urtigas.

Nem uma ovelha balava e do casebre não subia o fumo denunciador da vida.

Estava tudo entristecido e calado como um cemiterio.

João foi guiando lentamente o animal e o carro rangia por entre as hervas altas que haviam reconquistado o terreno, dantes tão rico em flôr e em fruto.

Diante da porteira desceu e, depois de muito haver batido, resolveu penetrar com um presentimento de desgraça.

E foi.

O terreiro era um matto bravio.

A parietaria trepava nos muros tendidos do casebre.

Aves sinistras abalaram vendo aproximar-se o homem curioso.

João, parando no terreiro, bradou para o casebre escancarado.

Não teve resposta.

Resolveu caminhar e foi.

Ouando chegou ao limiar da casa viu pilhas e pilhas de moedas de ouro; tocando, porém, em uma d’ellas estremeceu ao vê-la desfazer-se em pó.

Proseguiu.

Por toda a parte eram montões de ouro, mas como as taboas do soalho oscillassem, a fortuna logo rolava convertida em poeira.

E João seguiu até a sala de jantar.

Em volta da mesa estavam quatro esqueletos curvados sobre montes de esqueletos e esconder-se-lhe no craneo como na propria lura.

Não se conteve então: recuando assombrado afastou-se da casa maldita e, mal chegou á porteira, ouviu grande estrondo como um desmoronamento.

O casebre aluira e uma poeirada negra escurecia os ares.

João persignou-se e, subindo para a carreta, tocou o animal fugindo áquelle sitio malsinado, lembrando-se do ambicioso desejo do vizinho, que Deus satisfizera: «Tanto ouro, tanto! que elle e a sua gente, dia e noite, contando-o, não chegassem, ao fim da vida, a saber a somma exacta da fortuna.» E ali tinham elles o ouro : poeira, sómente poeira.

Os desgraçados haviam succumbido á fadiga e á fome contando, sem pausa, as moedas que inexoravelmente transbordavam do sacco inesgotavel.

Quando avistou, por entre as arvores, a sua cazinha alegre, toda em verdura, e viu o seu gado robusto e a sua cultura exuberante, de novo rendeu graças ao Senhor que ouvira o seu voto e lhe recompensara largamente o desejo modesto, dando-lhe a saude, que é a riqueza do corpo, e a tranquillidade, que é a fortuna do espirito.

E os seus haveres eram mais que sufficientes, porque não só lhe davam para a abastança como ainda deixavam sobras que eram repartidas em esmolas.

E assim, acudindo ao pobre, demonstrava ao Senhor a sua gratidão.

E o outro, no proprio premio tivera o justo castigo da sua desmarcada ambição.

E foi assim que Jesus infante satisfez os desejos dos dois vizinhos.

Apólogos

Sinopse

Leia gratuitamente Apólogos, de Coelho Neto, coletânea brasileira em domínio público com contos morais para crianças, organizada para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi saneada a partir de fonte pública do Domínio Público/MEC e conferida com a galeria bibliográfica do Wikisource, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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