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Diálogos das Grandezas do Brasil

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Diálogos das Grandezas do Brasil

Capítulo 5 · Diálogos das Grandezas do Brasil

Diálogo quinto

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Diálogo quinto

BRANDONIO Não quero que me agradeçaes o haver vindo a este posto mais cedo do que costumava; porque quiz nisto fazer força á minha vontade, o que é tão valorosa façanha, como a que David fez em vencer o gigante.

ALVIANO E de que causa nasceu fazerdes vós essa força ?

BRANDONIO Determinava alçar-me com a menagem de não cumprir a palavra, que vos tinha dado, de vos relatar todas as grandezas do Brasil, porque, imaginando que tinha já saltado o maior barranco, com haver tratado da abundancia dos frutos, como por elles se faziam os moradores desta terra ricos, examinei a memoria pera decorar o que havia mais que dizer, achei que fôra o salto curto, e que tinha ainda por diante outros barrancos maiores e mais difficultosos a perder de vista, que são os que o dia de hoje tenho entre as mãos pera haver de tratar; porque se me representam tantas aves de diversas calidades, tantos incognitos pescados, differentes na natureza e fórma, desconhecidos no mundo, tantas silvestres feras, extranhas nas figuras e inclinações, que requeriam grandes volumes pera se haver de tratar de todas ellas. Estas cousas me faziam grande carranca pera me haver de retirar do promettido; mas, vendo que o não podia fazer sem ficar mal reputado, arrazeime a passar avante, com descorrer por aquellas cousas que os elementos que rodeam a terra do Brasil encerram dentro de si, sem tratar do mais alevantado delles, que é o fogo, porque de todo o tenho por esteril, que a salamandra, que se diz criar-se nelle, entendo por fabulosa; porque, quando as houvera, nas fornalhas dos engenhos de fazer assucares do Brasil, que sempre ardem em fogo vivo, se deveram de achar. E como o seu consorte mais vizinho é o ar, quero começar por elle o que pretendo, que será tratar das aves, assim domesticas, como agrestes, que se acham por todo este terreno (1 ). As domesticas são innumeraveis gallinhas, das quaes são algumas maiores das ordinarias; muitos e bons gallipabos, que se produzem com facilidade, por ser o clima disposto pera a criação delles; pombas, patos e adens de excellente comer, e estas são as aves, que neste Brasil se criam em casa, as quaes abundam com grande multidão de ovos.

ALVIANO Pois em que parte do mundo se poderão achar, pera effeito de se criarem á mão, mais dessas que tendes nomeadas ? Ao menos eu nunca as vi em Espanha, posto que das agrestes se acham muitas de differentes castas e muita estima.

BRANDONIO Neste particular lhe sobrepuja summamente toda esta provincia, que, se me derdes attenção, e a mim me occorrer á memoria o nome e natureza dellas, vos causará espanto; posto que, por muito que diga, sempre deve de ficar curto.

ALVIANO Dou-vos a minha palavra de não distrair o pensamento em outra cousa senão em vos escutar.

BRANDONIO Além das aves domesticas, de que tenho feito menção, se acham pelos bosques e campos grande multidão de jacús, que são como gallinhas silvestres, de tanta estima, que lhes não fazem ventagem as mesmas gallinhas, posto que sejam muito gordas; e outra ave, chamada aquaham, da mesma maneira, e não de menos estima; outras a que chamam mutús, que são do tamanho de um grande gallipabo, não menos prezados que elles; jaburú que é muito maior que um pavão, bastante pela sua grandeza a abundar meia duzia de companheiros, posto que famintos, com ser carne assás saborosa. Outra ave a que chamam uruis, que não desmerece o nome de boa; inhapupé, semelhantes ás perdizes de nossa Espanha e não sei se me alargue a dizer que são melhores; inhambuaçú, tambem como as mesmas perdizes e do seu tamanho; nambús, não maiores que as codornizes, as quaes não invejam em bondade, gosto e sabôr aos tão estimados faisões da Europa; rolas sem conta assás gordas, que a pouco trabalho se tomam; da mesma maneira codornizes e pombas torcazes. Em todas estas aves agrestes se faz presa á custa de pouco trabalho; e assim ficam servindo, case como as domesticas, aos moradores da terra.

ALVIANO E que modo se tem na caça dellas ?

BRANDONIO Tomam-se com armadilhas e laços, e tambem á espingarda e frecha; porque neste Brasil não se usa de caça das aves, como em Portugal, por não se quererem os homens dar a isso. Acham-se tambem pelos campos uns passaros, a que chamam anuns, de uma calidade estranha, que, além do seu canto semelhar a chôro, não têm nenhum modo de sangue, nem nunca se lhes achou, e são de uma côr preta tristonha.

ALVIANO Nova cousa é pera mim a natureza desse passaro; porque nunca ouvi dizer de outro que carecesse totalmente de sangue.

BRANDONIO Pois assim passa, que estes passaros o não têm. Hyendayas são outros passaros que se criam no sertão; e, ao tempo da colheita das novidades, principalmente dos milhos, descem ás fraldas do mar pera se aproveitarem do cevo dellas, e nisto são tão importunas que custa muito trabalho o defende-las delles; porque não basta grandes gritos nem estrondos de bacias, nem o matarem-nas ás pancadas, pera se desviarem das milharadas; em tanto que já vi alguns homens, postos em affronta com ellas.

ALVIANO Desse modo deviam de ser as harpias.

BRANDONIO Se tiveram o rosto da feição que os poetas as pintam, não duvidara que eram as proprias. Outro passaro se acha, chamado sabiá, da feição do melro (* ) de Espanha, e antes cuido que é o proprio, porque cantam como elles, sem lhes faltar mais que um dobrete; rouxinóes, posto que não tão musicos como os da nossa terra, por carecerem daquelle doce dobrar e requebros, que os outros têm, porque todos os passaros do Brasil são faltos de semelhante suavidade; cujujuba é um passaro pequeno e de bico revolto, o qual, em se vendo preso, cerra voluntariamente o sesso, sem fazer mais por elle purgação, até morrer.

ALVIANO Tambem morrerá de não comer, que, pois sente tanto a prisão, deve de fugir disso.

BRANDONIO Parece que quer escolher antes semelhante maneira de morrer, porque se sabe delle que não deixa de comer. Macugagá é uma ave que dá grandes e continuos brados, repetindo muitas vezes este seu proprio nome; tucano, ave fermosissima, emplumada de varias côres, de sorte que alegra a vista a contemplação dellas; canindés se chama a um passaro, que, com ser pequeno de corpo, tem o rabo muito comprido; apeçú é ave que tem quatro esporões, a modo dos (*) Diz por cima em outra letra tordo. de gallo; gurainheté, passaro de pennas amarellas e pretas; garateuma, ave de côr loura, fermosissima; anacans, de feição de papagaio, mas não são da mesma especie. Outro passaro chamado pelo nome da terra gurainguetá, cuja estranha calidade quero deixar em silencio, por me não alargar em referi-la.

ALVIANO Antes vos peço que me digaes tudo o que souberdes a respeito..

BRANDONIO Este passaro tem tão grande amor aos filhos, que, pera os não furtarem, vai lavrar o seu ninho de ordinario a par de alguma toca, aonde as abelhas lavram mel, as quaes, por esta maneira, lhe ficam servindo de guardas dos filhos, porque, como todos arreceiam de se avizinhar a ellas, temendo o seu aspero aguilhão, ficam os filhos livres de perigo; aos quaes mostram tanto amor, que, pera effeito de os sustentar, se vão lançar por entre alguns bichos, que se The apegam nas carnes, sem arreceiarem que lh'a comam, havendo por cousa suave padecerem as dôres que elles lhe causam a troco de terem, por esta via, a sustentação certa pera os filhos, a que os dão a comer, quando têm fome, e só pera isto os trazem tanto á mão; e estes passaros são emplumados de varias côres.

ALVIANO Não se escreve mais dos pelicanos pera encarecimento do amor que têm aos filhos.

BRANDONIO Tambem ha outros passaros, aos quaes chamamos pica-páo, por dar uns golpes com o bico nos troncos das arvores, tão grandes, que toda pessoa que os ouvir, se ignorar a calidade do passaro, julgará sem duvida ser machado, com que se corta madeira. Outra ave povoa os campos desta terra, de bellissimas pennas, chamada tamatianguaçú a qual voa sempre muito por alto, por onde vai formando umas vozes, que parecem humanas. E da mesma maneira ha outra que lhe não é inferior na fermosura da plumagem, chamada curiquaqua, um passarinho que, com não ser maior de um ovo, tem o bico de mais de meio palmo de comprido, ao qual dão por nome arassari. Outra ave chamada miguá, semelhante a pato. Girubas são uns passaros que criam por barrocas, que têm as pennas de verde côr de mar; e da mesma maneira outra chamada pirariguá. Os dias passados me trouxeram a amostrar um passaro, que me disseram chamar-se japú, de uma côr amarella, digna de estimar. Guirejuuba são umas aves azues, assás prezadas da gente da terra; e assim outra ave chamada tiquarem, e outra de côr vermelha, chamada guaxe. Tambem ha outra sorte le passaros, cujo canto forma o choro de uma criança, que tem por nome cunhatanaipe. Tucanoçú é outra sorte de ave, que tem o bico do tamanho de um palmo, com o corpo não ser grande; e outro passaro a que chamam taraba. E entre estes se acham as arveloas e andorinhas do nosso Portugal.

ALVIANO As andorinhas tenho eu por africanas, e que de lá se passam pelo verão á Espanha a fazer seus ninhos, e maravilho-me daremse desta parte.

BRANDONIO Sim, dão em muita cantidade. Outra ave, por nome peitica, a qual é tão molesta e agourenta para o gentio da terra, que os obriga a fazer grandes extremos, quando a topam ou ouvem cantar, como adiante direi, quando tratar dos costumes da terra. Tambem se acham grandissimas emas, das quaes tenho por fabuloso o dizer-se que comem ferro, porque nunca soube que o comessem, posto que tenho visto muitas. Estas emas, quando correm, abaixam uma aza, e a outra dão ao vento, cruzando-a a modo de vela latina, e assim correm mais que um cavallo; da mesma casta ha outras que chamam seriemas, as quaes se ajudam dos pés e azas pera o correr, com o que ficam sendo velosissimas, sem nunca se alevantarem da terra.

ALVIANO Em Africa se acham muitas, e a mesma calidade ouvi já re latar dellas.

BRANDONIO De papagaios ha innumeravel cantidade, que andam em bandos, como as pombas o fazem na nossa terra, com fazerem por onde passam grande gralhada, e são bons pera se comerem; e destes ha differentes castas, como são os que chamam papagaios reaes, conhecidos pelos encontros das azas, que têm vermelhas, e são os mais. estimados pera se ensinar a fallar. Outra casta, a que chamam coriquas, que, ainda que não são tão fermosos, quando dão em fallar, o fazem muito bem. Outros, que se têm por estrangeiros, chamados cyia. E da mesma maneira araras, grandes e fermosas, que tambem fallam, quando são ensinadas. E outra especie, case desta mesma calidade, a que dão o nome de toins, de pequeno corpo e mui lindos, que explicam arrezoadamente tudo o que lhes ensinam; e destes taes os mais estimados são os que se chamam quaiquaiais.. de pennas pardas, pretas e verdes.

ALVIANO Tenho visto em Portugal alguns papagaios, que se levaram de cá, de côres differentes, mas tão compassadas que davam mostra de serem feitas á mão.

BRANDONIO Assim o são; porque, pera se haver de dar essas côres aos taes papagaios, os despem das pennas, e na carne que ao tirar dellas. The fica envolta em sangue, lhe accommodam, pelas partes que querem, certas pelles de rans, que têm propriedade de lhes communicar as taes côres.

ALVIANO Folgo de saber isso, porque entendia que erão naturaes, com vos affirmar que me tendes maravilhado com tanta sorte de passaros e aves, quantas me tendes nomeadas, de tão varias e estranhas calidades, do que infiro que em nenhuma das partes do mundo se poderão achar mais cópia dellas, e é muito poder-vos alembrar os seus nomes com serem tão arrevezados.

BRANDONIO Pois ainda me ficam outras tantas por nomear, por me não ser possivel fazer conserva na memoria de tanta diversidade dellas, que ainda não tratei das muitas sortes de aves de volataria, que se acham nesta terra. As aves são todas de tanta bondade, que as melhores, criadas em Irlanda, não poderão ter nunca com ellas comparação. A de mais estima destas aves é uma sorte dellas a que chamão garataurana que, como a rei lhe criou a natureza corôa na cabeça, case ao modo de crista de gallo, que entre todas as aves de volataria póde levar o preço em ligeireza e agilidade, que tem para caçar; e porque pelo pouco venhaes em conhecimento do muito, vos quero contar o caso que vi succeder a uma ave destas. Um homem assás nobre, capitão-mór por Sua Magestade de uma das capitanias do Estado, tinha um passaro destes já domestico, que criava em casa, o qual, alevantando-se acaso da alcandora, se foi pôr sobre um monte de pedras que estavam juntas dalli perto. Houve vista delle um grande gato e, cuidando que tinha a presa certa, se foi chegando pera o passaro mui alapardado com tenção de o atropellar e levar nas unhas; mas elle, tanto que sentiu vir o gato, alevantou uma perna, ficando sobre a outra; e ambos estiveram assim por um pequeno espaço, imaginando um de se cevar no outro, e o outro no outro; até que, alevantando a cabeça o gato, se lhe lançou em cima o gavião, e desta sorte engarrafou nelle com as unhas, que, a pouco espaço, abrindo o gato as mãos e pernas, ficou morto, e quando lhe quizerão acudir, já o estava.

ALVIANO Cousa estranha é essa pela fereza desse animal e forças de que é dotado.

BRANDONIO Pois ainda vos direi mais que dalli a poucos dias trouxeram de presente ao senhor da casa um leitão arrezoadamente grande, o qual, soltando-se nella, deu o gavião sobre elle, e em breve espaço lh'o tiraram das unhas morto.

ALVIANO Não deve ser de pequena bondade o passaro que a tanto se arroja, e folgára de saber de que modo se caça com elle nesta terra.

BRANDONIO Não se aproveitam destas aves pera caça, e em parte têm desculpa os que o podiam fazer e não fazem, por ser a terra muito coberta de matos, e não é possivel poderem-se soltar sem se perderem. Afóra os desta casta, ha outro modo de falcão ou gavião, que não sei de que especie seja, tambem mui agil pera caça, mas não tão grande, como os de que fiz menção, de que um dos taes se chama piron e outro gambia-piruéra, e outra casta a que chamão eixua, e outra semelhante, que tem por nome taguató, e outros guará-guará, e tambem guaquaque; e do mesmo modo jaqueretú, o qual é assás feio na composição. E, entre estes todos, ha uma casta chamada tuindá, que caça de dia e de noite. Todos estes passaros, que tenho nomeado, são de bico revolto e de unha retorcida.

ALVIANO Muitas mais aves de volataria ha logo nesta terra do que em Irlanda nem em outra parte do mundo.

BRANDONIO Todas as que tenho nomeado são excellentes pera o uso da caça; porque levam na unha qualquer gallinha, por grande que seja, e alcançam a mais ligeira ave, quando a seguem. Outros passaros, ha que não se mostram senão ao pôr do sol, já case noite, em grandes bandos, e não pequena gralhada, a que chamam burahú, e eu os comparo aos aivões da nossa terra. Kacum se chama uma ave, que nunca dorme, e faz da noite dia.

ALVIANO Acham-se desta parte por ventura aves nocturnas ?

BRANDONIO Sim; porque ha dessa casta todas as que se conhecem em Portugal, e ainda outras que nunca lá se viram; e tambem ha buitres que cá se conhecem com o nome de urubú, maiores que os da Europa. Demais das aves de que tenho tratado, ha infinidade de outras, que se sustentam de pescados, e pastam sobre os rios e alagoas, todas de maravilhoso gosto no comer, como são patas e adens fermosissimas, e outra sorte desta calidade, a que chamam Airires, patoris, massaricos, sericos, colhereiras vermelhas e brancas, que dão maravilhosas plumagens. Outra sorte, a que chamam caram, a modo de massaricos; gaquara, que é uma ave que não pesca senão de noite; gararina, que de ordinario mora dentro das aguas. De todas estas aves se acham grande cantidade por todos os rios e alagôas, e se tomam com facilidade á espinguarda, frecha, e outros modos, que pera isso buscam. E com isto confesso que tenho esgotado a memoria de tudo o que tinha conservado nella pera haver de dizer acerca das aves, com me ficarem outras muitas, que me não vieram á noticia.

ALVIANO Tendes dito tantas dellas, que me maravilha haverdes lhes podido recitar os nomes e propriedades, como tendes feito; e assim, conforme ao promettido, parece-me que vos fica agora obrigação de vos passar a tratar dos pescados que são os habitantes do terceiro elemento das aguas, conforme a ordem que dissestes tinheis determinado de levar enfiada vossa pratica.

BRANDONIO Já que me quereis obrigar pela palavra, antes de me metter por ellas, não quero deixar de vos dizer uma cousa de muita consideração, de que não tenho visto menção, que não é das que menos podem fermosentar o elemento aereo, a qual é que, nos annos seccos, costuma nestas partes a descer do sertão innumeraveis borboletas de diversas cores, que case occupam e enchem com a sua multidão o concavo do ar mais baixo (2 ); as quaes todas levam directamente o seu caminho enfiadas com o Norte, sem, por nenhum caso, se desviar daquelle rumo; de maneira que nunca vi ferro tocado na pedra iman que tão direito se inclinasse ao Norte; e em tanto succede isto assim, que se acaso, pelo caminho por onde vão passando, encontram com algum grande fogo, antes se contentam de alevantar no alto, pera haverem de passar por cima delle, com levarem o seu rumo direito, do que se desviarem pera uma das partes, que lhes foram mais faceis; com esta ordem vão correndo sempre, em igual multidão, por espaço de doze e quinze dias até passarem, dando remate á sua jornada com se afogarem nas aguas do mar.

ALVIANO Cousa estranha é essa e assás digna de consideração, e creio que deve de haver causa que obrigue a essas avesinhas (sic) a buscarem direitamente o Norte.

BRANDONIO Assim o tenho para mim; mas não me quero cansar em a especular, por não vir a me lançar em algum rio, como Aristoteles, e antes me contento de dar principio ao que tenho pera dizer dos pescados que habitam no terceiro elemento das aguas (3 ). Dos quaes é bem que demos o primeiro lugar ao regalado vejupirá, porque creio delle que, entre os demais peixes de posta, póde levar a palma a todos em bondade, e que lhe fica muito inferior o prezado solho da nossa Espanha; carapitanga, outra sorte de pescado medianamente grande, muito gostoso; cavalas, das quaes todas as que se tomam neste Estado são excellentes; o peixe chamado serra, tão prezado na India Oriental; camaropim, pescado grande e de bom comer, cujas escamas são do tamanho de um meio quarto de papel, aos quaes vi fazer uma cousa estranha, na qual me mostraram claramente haver tambem amor entre estes mudos nadadores.

ALVIANO E que é que lhes vistes fazer pera conjecturardes que havia nelles amor ?

BRANDONIO Em uma tapagem, que estava feita em certo rio, pera pescarem nella (a que nesta terra chamam gambôa ), se chegaram dous peixes de semelhante especie, dos quaes entrou um pera dentro, ficando o companheiro de fóra; o que entrára, tapando-se-lhe a porta, ficou preso, e, com a vasante da maré, foi tomado e morto. O companheiro, ou pera melhor dizer consorte, que tal devia ser, que ficára de fóra, esteve esperando por elle todo o tempo que a maré lhe deu lugar pera o poder fazer, mas tanto que as aguas foram faltando, por não ficar em secco, se desviou daquella parte, e se foi, com dar primeiro algumas pancadas grandes com o rabo sobre as aguas, case querendo mostrar com ellas o sentimento que levava e depois tornou a continuar a mesma paragem por espaço de seis ou oito dias, sempre ao tempo que a maré enchia, como que vinha buscar o companheiro no lugar onde o perdêra, e alli dava as mesmas pansadas na fórma das de primeiro.

ALVIANO Não é pequeno argumento esse pera se provar que em toda cousa vivente se póde achar amor, posto que em uns em mais cantidade, e em outros em menos.

BRANDONIO Pois assim passa, como vo-lo tenho referido. Tambem se pescam muitos dourados, meros, morêas, pescadas, tainhas, cações, albacóras, bonitos, lavradores, peixe espada, peixe agulha, charéos, salmonetes, sardinhas; todas estas sortes de pescados são gordos e gostosos pera se comer.

ALVIANO Os mesmos se acham em Portugal.

BRANDONIO Pois aqui os ha em mais cantidade. E antes de passar mais avante, vos quero dizer da estranheza de um peixe, se assim se deve chamar, o qual é conhecido por peixe boi, nome que lhe foi posto por se semelhar no rosto case com o mesmo animal, posto que é maior dous tantos, não em ser alevantado, mas na largura e compridão; porque em alguns desta especie se acha mais peso do que têm dous bois. Este pescado se toma e pesca ás farpoadas pelos rios aonde desembocam os dagua doce, e comido tem o mesmo sabor e gosto da carne de vacca, sem haver nenhuma differença de uma cousa a outra, em tanto que, se misturarem ambas as carnes em uma panella difficultosamente se conhecerá a uma da outra. E por este respeito se come este pescado cozido com couves, e se faz delle picados e almondegas, com aproveitar pera tudo o de que se usa da carne de vacca, e algumas pessoas a dei eu já a comer e lhes não disse o que era, e ficaram entendendo que comiam carne de vacca.

ALVIANO Pois não deixára eu de ter muito escrupulo, se nos dias de peixe usasse desse pescado; porque entendera que comia carne.

BRANDONIO Esse mesmo houve já nesta terra e foi questão assás debatida; mas determinou-se por theologos que era realmente peixe e que por tal devia de ser recebido realmente, visto ter o semelhante peixe a sua habitação sempre nas aguas, e não sahir nunca a pastar fóra dellas. Ubarana é bom pescado; e da mesma maneira outro chamado guibicuaraçú. Camorim é um peixe pequeno a que chamam peixe pedra, por ter outra dentro na cabeça em lugar de miolos; e por muito sadio é assás estimado por doentes, com se pescarem em grande cantidade.

ALVIANO Nunca ouvi dizer de féra, ave, nem peixe, que tivesse dentro na cabeça pedra em vez de miolo.

BRANDONIO Pois estes peixinhos a têm, como tenho dito. Corima é pescado de feição de tainhas, mas maiores e mais gordas; carapeva é peixe estimado por gordo, o qual se acha no mar e tambem nos rios dagua doce; curumata é reputado por savel de Portugal, porque são da propria feição, e têm tantas espinhas como elle; piranha é pescado pouco maior de palmo, mas de tão grande animo que excedem em ser carniceiros aos tubarões, dos quaes, com haver muitos desta parte, não são tão arriscados como estas piranhas, que devem de ter uma inclinação leonina, e não se acham senão em rios dagua doce: têm sete ordens de dentes, tão agudos e cortadores, que póde mui bem cada um delles fazer officio de navalha e lanceta, e tanto que estes peixes sentem qualquer pessôa dentro nagua: se enviam a ellas, como fera brava, e a parte aonde a ferram levam na bocca sem resistencia, com deixarem o osso descoberto de carne, e por onde mais frequentam de aferrar é pelos testiculos, que logo os cortam, e levam juntamente com a natura, e muitos indios se acham por este respeito faltos de semelhantes membros.

ALVIANO Dou-vos minha palavra que não haverá já cousa na vida que me faça metter nos rios desta terra; porque ainda que não tenham mais de um palmo dagua imaginarei que já são essas piranhas commigo, e que me desarmam da cousa que mais estimo.

BRANDONIO Bem podeis entrar por todos os rios sem receio, que nem em todos se acham estas piranhas, antes somente ouvi dizer que as havia no rio de São Francisco, e no Una e outros semelhantes, que são bem conhecidos, e se sabe criarem-se nelles piranhas, as quaes são bôas de comer, e se pescam ao anzol, posto que primeiro se perdem muitos, porque os cortam com os dentes. Ha outra casta, de pescado, que chamam peixe-gallo, por ter o espinhaço muito alevantado. Salé é de outra casta e tambem assás bom; soaçú, é peixe que tem grandes olhos gostosissimo de comer; saúna que é a modo de mugéns, mandeu da feição de solhos; roncadores, corcovados e baiacús, cuja propriedade extranha em ser peçonhento causa espanto.

ALVIANO E de que modo têm essa peçonha ?

BRANDONIO Este pescado, além de não ser muito grande, semelha a sapo e o fel delle é tão finissima peçonha, que toda pessoa, que o come ou cousa que fosse tocada nelle, não póde escapar de perder a vida, por ser o mais refinado veneno de todos quantos se acham no Brasil; e, com tudo, quando se tira o fel a este pescado, de maneira que se não quebre, nem se espalhe, tocando por algumas partes do corpo, se come a carne do pescado assado ou cozida sem nenhum impedimento.

ALVIANO Não o houvera eu de comer de nenhuma maneira, porque sempre cuidara que levava do fel.

BRANDONIO Pois ainda tem este peixe outra propriedade, a qual é que, despois de estar morto, se lhe esfregam a barriga, vai logo inchando como sapo. Tamoatés são outros que se armam, e despois que o estão, as suas escamas parecem laminas; arares se armam tambem da mesma sorte, e têm a cabeça maior que o corpo; jacundã é peixe dagua doce, excellente pera se dar a comer a doentes; piabas e saras possuem a mesma propriedade; tararira é pescado de muitas espinhas, que cria dentro na cabeça uns bichos. Tambem ha muitas tartarugas, que, com ser peixe maritimo, vem a desovar na terra, e nella, de ovos que põem, tiram seus filhos.

ALVIANO Com já haver muitas vezes ouvido tratar dessas tartarugas, nunca me disseram dellas essa propriedade.

BRANDONIO Pois passa na fórma que tenho dito. Tambem se acham muitos camarões, assim no mar, como pelas alagôas, em terra, de extranha grandeza, e da mesma maneira cágados.

ALVIANO Não passeis mais avante; porque tendes tratado de tantas castas de pescado, de differentes calidades e naturezas, que faz confusão o considerar nos modos delles.

BRANDONIO Pois vos poderei dizer que a terra deste Brasil é tão caroavel de produzir pescados, que nos campos por onde nunca os houve, quando pelo inverno se formam nelles alagoas, logo se acham nellas uns peixes, a que chamam muçús, semelhantes a enguias, e cantidade grande de camarões; de modo que todas as pessoas que vivem. pelo sertão se sustentam delles, com mandarem metter de noite uns cóvos, com algum cevo dentro, pelas taes partes, e de madrugada os mandam tirar cheios de semelhantes pescados.

ALVIANO Se com tanta facilidade se tomam, não devem de padecer os moradores desta terra falta delle.

BRANDONIO Dos semelhantes que se tomam em cóvos ha muita cópia.

ALVIANO E de que modo se pesca o demais peixe nesta terra ?

BRANDONIO Com redes e trasmalhos, e em certas tapagens, que se fazem por alguns esteiros, aonde com a crescente da maré entra muito peixe, e, despois de estar dentro, lhe tapam a porta, e, como as aguas fallecem, ficam case em secco, e os tomam sem trabalho; mas a principal pescaria, de que se aproveitam os demais moradores deste Estado, é a que mandam fazer por negros em jangadas, os quaes nellas saem fóra ao mar alto, aonde ao anzol pescam peixes grandes e fermosos, com os quaes se tornam a recolher ao pôr do sol, e desta sorte se toma muito pescado.

ALVIANO E porque não se aproveitam de ir pescar no alto em barcos, como fazem as chinchas do nosso Portugal ?

BRANDONIO Porque não está em uso; e algumas pessoas, que o começaram a fazer, desistiram logo disso. Tambem se criam, pelas alagôas e rios, um animal a que chamam capivára, os quaes vivem nas aguas e pastam sobre a terra, semelhantes á lontra na natureza, mas não nas feições, o qual é bom pera se comer.

ALVIANO E esse animal é reputado por peixe ou por carne ?

BRANDONIO Por carne se reputa, porque a tem elle muito boa e gostosa; além de que, conforme rezam, era bem que fosse tido por carne, por pastar na terra, que é ao que se deve de ter respeito pera semelhantes duvidas. Além destas capiváras, se acham tambem pelos mesmos rios e alagôas uns lagartos grandissimos, a que os naturaes da terra chamam jacaré, mas não tão carniceiros como os da India. Estes lagartos põem ovos ao modo dos de pato, mas não são redondos, porque são algum tanto chatos, os quaes têm em choco dentro na agua, somente com olharem pera elles porque a sua vista é bastante pera produzir nelles os filhos, como as aves o fazem com o calor das pennas; e ao tempo nascem delles lagartinhos.

ALVIANO Isso parece historia, a que se não póde dar credito.

BRANDONIO Pois não o tenhaes por cousa fabulosa, porque a mim me trouxeram uns ovos destes, que se acharam dentro na agua, e, quebrados, sairam de cada um dous lagartinhos já vivos, que se meneavam de uma parte pera a outra. E com isto me haveis por escuso de tratar mais dos pescados, dando-me licença pera que me passe aos mariscos, que ha muitos e diversos nesta provincia.

ALVIANO Não vos vi tratar das baleias, que de força deve de haver muitas, pelo ambar que lançam na terra.

BRANDONIO Sim, ha; porque nesta costa se acham muitas e mui grandes, principalmente no verão, e dellas saem algumas á costa de que se faz azeite de peixe; e na Bahia matam muitas ás farpoadas alguns biscainhos de que fazem o mesmo azeite, por ser cousa que tomaram por officio. Mas o cuidardes que as baleias lançam o ambar na terra, é engano manifesto; porque não ha tal, que a causa de vir á terra não é outra senão que essas mesmas baleias e outros grandes pescados o vão buscar pera o comerem no profundo das aguas maritimas, aonde nasce em grandes arrecifes, e, com a força que fazem pera o espedaçarem, se quebram alguns pedaços, uns grandes, e outros mais pequenos, que despois o mar lança á costa, aonde se acham; posto que ha poucos dias que me certificaram uma cousa, que succedeu nos limites do Rio Grande, assás verdadeira, a qual desbarata tudo o que acima digo, acerca da criação do ambar.

ALVIANO Pois não me tenhaes isso em segredo.

BRANDONIO Affirmaram-me dous homens dignos de fé e credito pelo haverem visto com o olho, que nas praias do Rio Grande, no Cabo Negro, um morador da mesma capitania, por nome Diogo de Almenda, condestable da fortaleza, achára nella um pão do comprimento de um braço e case da mesma grossura, que o mar lançára á costa, o qual tinha dous esgalhes de rama na ponta, um delles já quebrado, e outro inteiro, que tinha algumas folhas seccas, que semelhavam as de assipréste, e por este páo vinha pegado ao modo que o faz a rezina pelas arvores, tres ou quatro onças de ambargris, muito bom, que parece que no fundo das aguas se criam tambem em arvores, da sorte daquelle páo, que dão o ambar por rezina. E se assim é, enganaram-se os que entenderam até agora que nascia como arrecifes, e deram no alvo os que queriam que fosse rezina; porque o pão achado dá disso bastante prova. E porque o haver-se achado este páo não é cousa em que possa haver duvida, faço volta a tratar dos mariscos, dos quaes os primeiros quero que sejam cantidade grande de polvos, lagostins e lagartos, que se tomam pelos arrecifes nas conjuncções das aguas vivas, quando a maré está já descoberta de todo.

ALVIANO E de que modo os tomam a tal tempo ?

BRANDONIO Tomam-nos de noite com fachos accesos, donde o tal marisco, espantado da luz delles, se deixa tomar sem fugir. Tambem ha somma grande de perseves, e outro marisco, a que chamam lapas, caramujos, e ostras, das quaes se acha tão grande multidão, que case ficam servindo de ordinario mantimento aos moradores desta terra, principalmente aos que vivem chegados ao mar. E destas ostras vi já algumas tamanhas, e não o digo por encarecimento, que era necessario ser partido o seu miolo ás talhadas com faca, pera se haver de comer. Dão-se pelos rios salgados, nas margens dos mesmos rios, e pelos pés, ramos e troncos de uma arvore, a que chamam mangue, de que já tenho tratado.

ALVIANO Acham-se por ventura, nas taes ostras, perolas ou aljofares, como se acham nas que se pescam na costa das Indias ?

BRANDONIO Não creio que sejam estas ostras, de que trato, dessa calidade; porque as ostras, de que se tiram as perolas nas Indias, se pescam no mar alto, e as de cá se tomam pelos rios; posto que em algumas, despois de assadas ao fogo, se acham algumas perolas, que já vêm desbaratadas delle, mas isto raramente, e eu tenho em casa uma destas que vos darei.

ALVIANO Folgarei com ella pera a amostrar no reino, a poder dizer que no Brasil tambem se acham perolas.

BRANDONIO Da mesma maneira ha muitas amejoas, e outro marisco a que chamam sapimiaga, e sobre tudo um de calidade extranha, a que dão nome de sernambim.

ALVIANO Que calidade é a desse marisco ?

BRANDONIO Differente da que têm todos os mais, porque se acha nelle sangue, na forma que o têm os pescados, sem embargo de estar encerrado na sua concha, cousa de que todo outro semelhante marisco carece, e sobretudo o que mais espanta é que, nas conjuncções das luas, lhe acode o menstro, como costuma a vir ás mulheres.

ALVIANO Não ousarei eu contar isso em Portugal.

BRANDONIO Pois aqui vos poderei dar em prova da verdade que trato todos os moradores deste estado; porque não o perguntareis a nenhum dos antigos da terra, que vos não asselle o que tenho dito por verdadeiro.

ALVIANO Não duvido que seja assim, mas eu não me quero obrigar a buscar essas provas.

BRANDONIO Ninguem vos póde obrigar a que creaes senão o que quizerdes; mas no que digo não ha duvida. Acham-se tambem na terra differentes castas de cangrejos, que são verdadeiro sustento dos pobres, que vi vem nella e dos indios, naturaes e escravos de Guiné, pela muita abundancia que ha delles, e pouco trabalho. que dão em se deixarem tomar; ha uma casta dos taes, a que chamam uçá, e outra siri, e tambem goajá, e da mesma maneira guoazaranha. Aratú é outra casta delles, que se tem por contra peçonha, posto que eu o não experimentei. Tambem se acham uns de outra calidade, a que chamam garauçá; e sobre tudo os guanhamús, cuja natureza causa espanto.

ALVIANO Pois não ma deixeis encoberta.

BRANDONIO Esta sorte de cangrejo faz sua habitação em terra, ao longo dos rios salgados, por covas e lapas, que nella fazem com tirarem a terra pera fóra, pera lhes ficar despejado o lugar de baixo, ao modo que as formigas fazem os seus formigueiros, e dalli se sustentam com as hervas e frutos, que se produzem na terra, porque, ainda entre as sementeiras cultivadas, fazem a sua morada, com lhes fazerem assás damno. Estes taes se tomam, tirados das covas e por fóra dellas, com serem maravilhoso comer, e criarem dentro em si grandes e fermosos coraes; e, o que mais espanta, e que, com as primeiras aguas, que costuma a chover por estas partes pelo mez de janeiro ou fevereiro, saem de suas furnas em grandes esquadrões, donde se espalham pelo sertão case uma legua, occupando os campos, aonde nunca chegou o salgado, nem sombra delle. E por os taes se tornam innumeraveis, e ainda de irem elles, de por si, a metter pelas casas das pessoas, que por aquellas partes moram, com serem os que se tomam por esta maneira os mais gordos e gostesos pera se comerem. E dizem os naturaes, quando se acham estes cangrejos por esta maneira, que andam ao atá, que sôa tanto como andarem lascivos.

ALVIANO Maravilhosas cousas me ides dizendo, as quaes, se houveram chegado á noticia dos antigos, creio que houveram composto sobre ellas grandes volumes, das quaes nós não fazemos caso, como se não foram dignas de muita consideração.

BRANDONIO Isso é por respeito de já serem entre nós muito sabidas e usadas, e de tudo o que se trata desta maneira não causa espanto. Mas, porque tenho ainda muito que dizer das féras agrestes e domesticas, será bem que deixemos o mar, e ponhamos a prôa em terra, que é o quarto elemento, de que ainda não tratamos a respeito das féras.

ALVIANO Assim vos peço que o façaes.

BRANDONIO Não me envergonho agora de vos confessar uma fraqueza minha, a qual é que desejei summamente de furtar o corpo por me não metter no labyrintho de haver de tratar das varias castas, differentes naturezas, extranhas feições, arrevezados nomes das féras agrestes e domesticas, de que é povoado todo este grande terreno brasiliense; mas a obrigação da palavra, que vos tenho dado, me faz atro-- pellar por tudo com accommetter a jornada, o que farei com entenderdes que não póde a memoria capacitar, nem o engenho distinguir, o muito que havia pera dizer sobre semelhante materia, da qual vos affirmo dante mão que, por muito que diga, me ha de ficar os dous terços por dizer; e com este presupposto quero dar principio ao que já tenho entre as mãos. Começarei pelo neptunino, ligeiro e bellicoso cavallo (4 ), dos quaes, posto que ha muitos, abundara innumeravel cantidade nestes campos americanos, em tanto que nos de Buenos-Aires se não criára tanta cópia delles, mas têm crueis inimigos que os perseguem com lhes tirarem a vida; os quaes são os escravos de Guiné, que os matam sem reparo, pera os haverem de comer, em qualquer parte que os acham, e ainda aos regalados e de muito preço furtam das estrebarias, onde estão, pera o mesmo effeito. E deixando isto de parte, digo que os cavallos desta terra são grandes soffredores de trabalho, com andarem desferrados; porque, ou seja por serem mais duros dos cascos, ou pela terra ser menos pedregosa, não têm necessidade de ferraduras; e succede de ordinario a um cavallo destes correr-se nelle, em uma tarde, canas, argolinha e pato acompanhado tudo de muitas carreiras, e ás vezes continuam neste exercicio tres e quatro dias a réo, com terem pera tudo alento, e os acharem tão inteiros no principio como no cabo; sendo assim que um só exercicio destes bastára pera aguar vinte cavallos dos de Espanha, e estes têm alento pera tudo, com comerem mal, porque o seu mais ordinario mantimento é herva, a que nesta terra chamam capim; e de maravilha se lhe dá um pouco de milho, por quanto não se acha todas as vezes que se busca.

ALVIANO E quanto val um cavallo desses ?

BRANDONIO Alguns que eram summamente bons, vi já vender por quinhentos cruzados, e outros por menos; mas, quando no cavallo se acham as partes de ginete, sem manha má, sempre val ao redor de duzentos cruzados.

ALVIANO São de tanta dura os cavallos nesta terra como em Portugal ?

BRANDONIO Sim, são, e ainda mais; porque aqui não se enxerga em um cavallo ser velho, a respeito que tão agil está pera todo trabalho o de quinze e dezeseis annos, como o de quatro.

ALVIANO Dão-se tambem destas bandas bestas muares ? Sim, dão, mas não as ha.

Brandonio

ALVIANO Não vos entendo esse modo de fallar.

BRANDONIO Pois declarar-me-ei mais. Digo que se dão, porque de alguns asnos cavallares, que se mandaram vir do Reino, se produziram maravilhosos machos e mulas; mas, ellas mortas, seccou a geração delles; sem haver quem se quizesse cançar em mandar buscar outros, ou ao menos um asno e asna, pera que se produzissem dos semelhantes na terra e por isso disse que se davam bem as bestas muares, mas que as não havia.

ALVIANO Agora vos tendes declarado.

BRANDONIO Tambem ha nesta terra cantidade grande de gado vaccum; todo de muitas carnes e gordura, excellente pera se comerem, que dão infinidade de leite, do qual não se sabem ou querem aproveitar, e a maior utilidade que do tal gado tiram, são os novilhos, de que se fazem bois mansos pera serviço dos engenhos e das lavouras, com ser das melhores fazendas que ha na terra. E conhecia eu um homem que tinha mais de mil cabeças de gado vaccum, dividido por curraes, dos quaes tirava grande proveito; e outros têm menos, posto que todos pretendem ter curraes de vaccas, por ser fazenda de muita importancia.

ALVIANO — E por quanto se vendem cada uma vacca e novilho ?

BRANDONIO A vacca, sendo boa, é estimada nestas capitanias da parte do Norte, em quatro e cinco mil réis, e o novilho, que serve já pera se poder metter em carro, a seis e a sete mil réis; e um boi já feito val de doze até treze mil réis. E este é o preço mais ordinario. Tambem se produzem na terra muitas ovelhas, carneiros e cabras, em tanto que das ovelhas parem muitas de um ventre dous carneiros, e das cabras a dous e a tres cabritos (* ).

ALVIANO Isso é cousa extranha; e pois tanto multiplica o gado, de semelhante especie não deve de carecer a terra de queijos, nem de lã.

BRANDONIO Antes não ha nella nenhuma cousa dessas, porque seus moradores não se querem lançar a isso; que podendo ter grande cantidade de lã de ovelhas, ainda que não fôra mais que pera enchimento de colchões, se contentam antes de comprar a que trazem do Reino (*) Segue por outra letra: e " quatro". a tres e a quatro mil réis; e da mesma maneira os queijos. E passa esta negligencia tanto avante, que, com se dar semelhante gado grandemente na terra, não se querem dispor á cria delle, contentando-se cada um de criar somente o que lhe abasta pera provimento de sua casa, que não pode ser maior vergonha.

ALVIANO Isso é uma cousa que convém não tratar della por honra do Brasil.

BRANDONIO Deste gado, ovelhum e cabrum, se forma tambem outra especie, da qual eu já tive e muito; a qual é uns mestiços, filhos de ovelhas e de cabrão, que, representando a feição de ambos os paes, tomam de um uma cousa, e do outro a outra, com que se forma case outro annimal differente na composição e são excellentes pera se comerem.

ALVIANO Nunca ouvi tratar dessa nova casta de animal, nascido de semelhante mistura.

BRANDONIO Pois aqui no Brasil os ha, e tive já muitos delles, como tenho dito, pelo que não vos fique disso nenhum escrupulo. Tambem ha muitos porcos, excellentes, dos da casta do nosso Portugal, cuja carne, por se ter por muito sadia, se manda dar a doentes.

ALVIANO Pois eu me achei, um dia destes passados, em casa de um enfermo, o qual, perguntando ao medico se poderia comer carne de porco, lha defendeu com grandes encarecimentos.

BRANDONIO No principio da doença, sempre se teria por acertado deixar-se de usar della, mas, no seu decurso, não se acha que houvesse feito damno a algum enfermo; posto que estes modernos medicos querem perverter isto, que sempre foi approvado pelos antigos, póde ser que o façam sómente por serem reputados por scientes, sem outro fundamento.

ALVIANO Assim o fazem muitos com notavel prejuizo dos enfermos; mas folgarei que me digaes se todo esse gado, de que tendes tratado, era natural da terra, e o acharam já nella os nossos Portuguezes quando a vieram povoar, ou se foi mandado trazer de Espanha.

BRANDONIO Nenhum gado dos que tenho referido havia nesta provincia, antes se trouxe todo pera ella de Portugal, excepto alguns cavallos e eguas, que vieram do Cabo Verde, por se haverem lá produzido primeiro que nestas partes; e se quereis ouvir das naturezas e calidades das alimarias, que havia na terra natural de cá, dae-me attenção, e póde ser que vos faça arcar as sobrancelhas de espantado (5 ).

ALVIANO Dizei tudo, porque me tendes disposto pera vos ouvir.

BRANDONIO Acham-se por estas partes, muitos animaes, a que chamam anta, do tamanho de um boi, os quaes se criam pelos campos, e se caçam á espingarda e em fojos, e tem bôa carne pera se comer.

ALVIANO E a pelle é como a que nós usamos ?

BRANDONIO Da mesma maneira, mas não se servem dellas, por não se dispôrem a corti-las e concerta-las, e, sem nenhum beneficio, as deixam perder; tambem ha innumeravel cantidade de veados, corsas e porcos.

ALVIANO E esses animaes tomam-se de modo que se costuma de caçar em Portugal ?

BRANDONIO Não; porque somente se matam á espingarda e á frecha, com os irem esperar aos postos aonde costumam de continuar, e tambem com armadilhas e fojos; e desta maneira se tomam grande cantidade delles, com ser carne muito bôa pera se comer, semelhante a de Portugal. Os porcos são de differentes castas, como é uma a que chamam teaçú, e outra tahitetê, que são os nomes por que são conhecidos os taes porcos, por serem uns maiores, e outros mais pequenos; e todos os de semelhante casta têm os embigos nas costas, differente dos que vieram de Espanha, porque parece que assim os quiz criar a natureza.

ALVIANO Cousa extranha essa, e será dura de crêr a quem della não souber muito.

BRANDONIO Pois nisto não ha duvida, por ser cousa assás sabida; e posto que estes animaes se matam á espingarda e frecha, e por armadilhas e fojos, como tenho dito, todavia ha uma casta delles, que se caça por um modo extranho; o qual é que vai o caçador á parte aonde já tem feito certo o bando delles, e alli, antes de se amostrar, escolhe uma arvore que lhe fique mais accommodada para poder subir nella, quando lhe fôr necessario, e como a tem preparada, mostra-se ao bando dos porcos com dar, alguns brados, os quaes, tanto que o sentem, arremettem a elle, como leões, pera o espedaçarem. O prevenido caçador se acolhe logo á arvore, aonde espera que o bando dos porcos chegue a elle, que incontinente o fazem, roendo-lhe as raizes e tronco, por não poderem chegar ao que se acolheu em cima; mas o prompto caçador, como os vê envoltos naquella braveza, não faz mais que, com agudo dardo, que leva nas mãos, picar um dos porcos, de modo que lhe tire sangue, donde os os outros em lho vendo correr, arrematam a morder ao que está sangrado, e elle, por se defender, morde tambem aos que o perseguem; e assim se vão dessangrando uns aos outros, enganados com o cevo do sangue, que cada um de si derrama, até que travam todos uma cruel batalha, na qual se vão espedaçando com os dentes até cairem mortos, estando a tudo isto o caçador segurissimo assentado sobre a arvore, donde com muito gosto espera o fim da contenda pera colher o despojo, o que faz de muitos porcos, que no mesmo logar ficam mortos, os quaes faz levar pera sua casa, donde ordena delles o que lhe parece, por ser carne de maravilhoso comer.

ALVIANO Aprazivel e deleitosa caça deve de ser essa, por se fazer presa de tão pouco custo; tomára eu occupar-me sempre em semelhante exercicio.

BRANDONIO Pois aqui não se exercitam nelle senão os indios naturaes da propria terra. Tambem se acha cantidade grande de outro animal, a que chamam pacas, o qual é muito maior que lebre, listado de pardo e branco, cuja carne, por gorda, é semelhante da de porco, mas mais gostosa pera se haver de comer. Cotia, que é um animal pequeno, que se faz domestico, e anda pelas casas, quando o querem trazer nellas; e tambem outra sorte dos semelhantes, a que chamam Coati e assim uns como o outro são bons pera se comerem. Tatú é um bicho, que se vê pintado nos mappas pela sua extranheza e feição, de que é composto; porque anda armado de umas couraças, á maneira das que nós usamos, com não serem pouco fortes, e debaixo de semelhante armadura agazalham o seu pequeno corpo. E destes taes se acham muitos, que se estimam pera a mesa.

ALVIANO Estes dias atraz passados me amostraram um desses bichos, que me fez maravilha de ver o modo delle.

BRANDONIO Eu quiz levar um pera Portugal, mas não pude sair com a minha pretenção, por me morrer no mar.

ALVIANO Não fôra lá pouco estimado.

BRANDONIO Jarataquáqua (* ) é animal do tamanho de um gozo, de côr parda, da mais rara e extranha natureza, de quantos o mundo tem, a qual é que se acaso, andando pastando pelo campo, fôr accommettido de alguma pessôa, que o pretenda tomar, vai fugindo della; mas, quando se vê apertado, larga, pera sua defensão, uma ventuosidade que é poderosa, com o seu ruim cheiro, de abater e lançar por terra, sem accordo toda cousa viva que o segue, quer seja homem, quer cavallo, quer cão, ou outra qualquer sorte de animal, sem nenhum reparo, e alli fica arvoado, sem dar accordo de si, por tres ou quatro horas; e, o que faz maior maravilha, é que os vestidos, sella, estribos, ou a colleira do cachorro, a que alcança o ruim cheiro da ventosidade, nunca mais aproveita pera nada, e se deve de entregar ao fogo pera que o consuma. E não basta ao homem, a quem isto succedeu, lavar-se uma, dez, nem vinte vezes dentro nagua pera effeito de perder aquelle ruim cheiro, antes prevalece nelle por espaço de oito ou dez dias, até que, com o tempo, se vai gastando. E a mim me succedeu, estando um dia vendo pesar assucar, e entrar na casa de um homem, ao qual havia mais de sete dias que havia tocado a ventosidade do animal, e com vir já lavado muitas vezes, cabello e barba feita, e outro vestido, tanto foi o máo cheiro, que de si lançou que nos obrigou, aos que alli estavamos, a desamparar a casa e sair fugindo pera fora, com ignorarmos o caso, até que elle proprio contou o que lhe havia succedido. (*) Na primeira syllaba ha escripto por cima a emenda May, proveniente provavelmente do nome Maitacáca, porque tambem é designado em alguma outra provincia.

ALVIANO Cousa estupenda é essa, e certamente indigna de se poder crêr pela sua extranheza e raridade; assim aconselhára eu aos reis e principes que buscassem modo de industria para criarem semelhantes animaes domesticamente, em fórma que não soltassem a ventosidade senão quando lhe fosse mandado; porque com isso venceriam grandes exercitos sem arriscarem espadas.

BRANDONIO Pois não o tenhaes por graça; porque dessa maneira succederia, quando fôra cousa que se podera pôr em effeito. Tambem se acham na terra muitos coelhos, dos nossos de Portugal, não por serem naturaes de lá, mas parece que se deviam de transmontar alguns, que de lá vieram, e dos taes produziram os muitos que agora ha. Tambem ha outra casta dos naturaes, a que chamam sauja, mas mais pequenos; e outros, por nome punari, de rabo grande semelhante a rato; e da mesm maneira apariás, que são excellentes pera se comerem; e assim uma casta delles, muito pequenos, a que chamam mocó, os quaes se fazem domesticos, e se trazem pela casa, pera contra os ratos, por serem grandes perseguidores delles. Tambem ha outra sorte, a que chamam reruba, que todos são da especie de coelhos, uns pequenos, e outros mais grandes.

ALVIANO Não ha tantos em Portugal, e nisso parece que lhe faz o Brasil muita ventagem.

BRANDONIO Aquostimeri é um animal pequeno, o qual tem o rabo tamanho que lhe baste pera se cobrir todo com elle; e assim, quando o topam, não se lhe enxerga mais que o rabo, porque o corpo lhe fica escondido de baixo. Mocó ou guaqui, por outro nome, são uns bichos do tamanho de um laparo, com os quaes dispensou a natureza que tivessem bolso debaixo da barriga, dentro no qual agazalham os filhos, depois que os parem; e quando caminham os levam alli dentro mettidos, e estando parados, os soltam pera que pastem e comam pelo campo, e, querendo outra vez caminhar, os tornam a receber.

ALVIANO E esse bolso é por ventura aberto até as entranhas ?

BRANDONIO Não, porque tem uma pelle sobre a outra, e, na de fóra, se forma semelhante bolsinho.

ALVIANO Maravilhosas cousas me ides contando, com as quaes me tendes suspenso.

BRANDONIO Tamendoaçú é um animal de côr parda e branca, do tamanho de um poldro de seis mezes; o qual tem o rabo tão comprido e largo, que é bastante a cobri-lo todo dos pés até a cabeça; e a sua carne é muito bôa de comer. Tambem ha na terra diversos modos de raposas, grandes caçadoras, principalmente de gallinhas, que lhes não escapam, quando lhes podem chegar.

ALVIANO Quanto a essas, melhor fôra que as não houvera, porque em toda parte são damninhas.

BRANDONIO . Irara é um animal do tamanho de um gato, de côr negra, focinho comprido, a bocca de feição de coelho, cujo verdadeiro manti mento são formigas e dellas se sustenta.

ALVIANO Não sei de que modo possa ajuntar tantas formigas, que bastem pera a sua sustentação, por ser a caça muito miuda.

BRANDONIO Usa pera o effeito de uma extranha invenção, a qual é que vai buscar os formigueiros e outros (* ) lugares por onde costumam a andar formigas, e alli, lançado em terra, bota fóra da bocca a lingua, a qual, por ser muito comprida, e ter muita viscosidade, se cobre incontinente de formigas que, uma atraz outras, concorrem a buscar o cevo, e, como o bicho sente que se ajuntaram já muitas, recolhe a lingua pera dentro, com levar nella um arrezoado boccado, e, elle comido, torna a larga-la outra vez, e muitas até se fartar do seu mantimento, que por outra maneira não lhe é difficultoso o busca-lo.

ALVIANO Tambem não carece de muita consideração o modo desse animal, e calidade de sua sustentação, a qual, com parecer difficultoso, lhe fica sendo facil pela industria de que se aproveita.

BRANDONIO Tambem ha nesta terra muitos cameleões, que se chamam pela lingua natural della senebu, os quaes são grandes e fermosos, e de côr verde, que é a sua natural; e acontece estarem sobre uma arvore, por espaço de dous e tres dias, sem se mudarem della, parece que sustentando-se do vento, como escrevem os naturaes.

ALVIANO Pois é de saber se esses cameleões mudam tambem a côr, como elles affirmam.

BRANDONIO Sim, mudam; porque eu vi já muitos, que, postos sobre pannos de differentes côres, depois de estarem sobre (* ) elles por algum espaço, vão tomando case a mesma côr, posto que não tão perfeita, nem distincta; e o gentio da terra os come e diz delles ser " E outros" está riscado e emendado " pelos". " Sobre " riscado, e posto em cima " n ". bôa carne. Tejú é um sardão grande perseguidor de gallinhas, e comtudo estimado pera se haver de comer. Gia é animal de feição de rã, e tamanho como um cágado, muito bom pera se haver de comer, e quem quer que o tiver não carecerá de bôa ceia. Tambem ha nesta terra um extranho animal ao qual os nossos portuguezes chamam preguiça, e o gentio natural ahum, em cuja calidade, por ser assás notoria, não me quero cansar em vo-la relatar.

ALVIANO Antes vos peço que o façaes muito em particular, porque desse animal não sei, nem tenho ouvido dizer nada até agora.

BRANDONIO Esta preguiça é do tamanho de um cachorro, posto que não tão alevantada, de um extranho rosto e feições, tem a côr parda e preta, e as mãos e pés com dedos mui distinctos e acompanhados de grandissimas e agudas unhas: é bicho dotado por natureza de grande freima e preguiça, em tanto que, pera haver de subir ou baixar de uma arvore, posto que pequena, gasta pelo menos dous dias de tempo, e pela terra lhe succede o mesmo pera se haver de mover pequeno espaço; porque pera alevantar e estender um braço, e despois fazer o mesmo do outro pera ir avante, faz intervallo de um bom quarto de hora, sem bastar, pera que se mova com mais alguma pressa, açoutes, feridas, nem ainda fogo; porque, da mesma maneira e pelo mesmo compasso vai mostrando as mãos e pés, como se lhe não fizeram nada; e tem tanta força nelles, que aonde quer que aferra, não ha poder lhos desaferrar, senão com grande trabalho. Os filhos, emquanto são pequenos, trazem sempre comsigo pegados pelo corpo; porque elles têm cuidado de se aferrarem no pai ou mãi, de maneira que nunca os largam até serem grandes.

ALVIANO De cada vez me ides contando mais extranhezas, e taes que, pela calidade dellas, não capacita o entendimento pode-las haver no mundo.

BRANDONIO Pois, no que vos vou dizendo, não me arredo em nada da verdade, nem haverá quem a ella possa pôr glosa. Aguará-açú são uns animaes á feição de cão. Maracaia são de feição de gato, posto que do mato, muito fermosos, por terem todo o corpo listado. Tiquaam é outro gato, tambem do mato, mui agourento pera os indios, em tanto que, se acaso os encontram, tendo começado qualquer jornada, desistem logo della, por lhes parecer que lhes não pode succeder bem, havendo visto semelhante bicho. Heirate é um animal grande, o qual sobe sobre as arvores, aonde vê que ha mel, do modo que o fazem os gatos, e despois de estarem em cima dellas, com os dentes e unhas furam o tronco pera haverem de comer o mel, e assim se fartam della, sem arreceiarem o aguilhão das abelhas.

ALVIANO Deve de ter esse animal a natureza de urso, em ser inclinado ao mel.

BRANDONIO Eu não sei que natureza é a sua, mas sei que o seu verdadeiro mantimento não é outro; juparra é outro animal grande caçador, e a elle caçam tambem os indios com cachorros, pera o haverem de comer; quoandú é uma casta de ouriço da feição dos de Portugal, de que tambem os indios se aproveitam pera seu mantimento; guasuni é cachorro do mato, medianamente grande; jagararuapem é um animal, não muito grande, grandissimo caçador e mateiro pera semelhante arte.

ALVIANO Já que tão bem sabe caçar esse animal, não deve padecer de fome.

BRANDONIO Nunca se occupam senão da caça. Já tereis visto os fermosos e lindos saguins, que se criam nesta provincia, donde os levam pera Portugal, com serem lá estimados pelo seu bom cabello, pequeno corpo, feições de rosto, e viveza dos espiritos.

ALVIANO Dessa calidade tenho visto muitos, e ainda tenho um em casa, de que fizeram presente os dias passados; e são bichos de muita consideração.

BRANDONIO Confesso-vos que arreceio de vos dizer dos bugios, porque ha tanto que contar delles, que póde ser que me tenhaes por fabuloso; mas, como estou em parte aonde posso logo abonar minha verdade, direi o que souber da materia. Nesta terra se produzem grande cantidade de bugios, de differentes castas, uns muito grandes, e outros mais pequenos; os grandes são chamados guaribas, dos quaes direi por derradeiro. Destes, que não são tamanhos, se conhecem differentes habilidades e costumes, dos quaes o primeiro seja que têm de costume ir furtar o milho pelas milharadas, quando elle está de vez, e pera o effeito se previnem deste modo: antes de descerem das arvores, elegem dentre si tres ou quatro espias, que dividem pelas partes por onde melhor se descubra o campo de cima de grandes arvores, os quaes estão sempre vigiando com o olho aberto; e os demais bugios, havendo-se com esta prevenção por seguros, descem abaixo a fazer seu furto, levando cada um delles, por uma extranha invenção, a tres e quatro espigas, e se não forem sentidos, se recolhem com ellas; mas, se acaso vem gente, estando ainda occupados no furto, lhes fazem signal as espias, com darem certos brados, que como são ouvidos dos demais, se recolhem com prestesa no estado em que se acham; e se acaso as espias se descuidaram, e sobreveio gente, sem lhes haverem dado signal, estando elles occupados no furto, fazem o melhor que podem; e o primeiro que fazem é arremetterem ás sentinellas, e aos bocados as espedaçam, com lhes darem por esta via o castigo do seu descuido.

ALVIANO Não póde fazer mais, nem governar-se com melhor providencia uma pessoa racional; e folgára de saber que modo ha pera se tomarem esses bugios, porque vejo levar muitos delles mansos a Portugal.

BRANDONIO Tomam-nos com laços e armadilhas, dos quaes um escravo meu lhes fazia uma assás galante; a qual era que tomava uma botija de boca estreita a meava de milho, e assim a punha lançada no chão com alguns grãos por fóra ao redor da boca della; e, tendo assim a botija preparada na parte onde os bugios costumavam a vir fazer seus furtos, tanto que algum chegava a ella, vendo os grãos de milho, depois de os comer, olhava pelo buraco a ver se achava mais, e tanto que os divisava dentro, mettia a mão pela boca da botija, e quando a queria tornar a tirar pera fóra já cheia de milho, o não podia fazer, porque, como a mettera vazia, pôde bem caber pelo buraco, mas, trazendo-a cheia, não lhe era possivel pode-la tornar a tirar pera fóra, per este modo ficava preso; e como ignorava que lhe era necessario tornar a soltar o milho, pera poder levar a mão, o que fazia era somente dar muitos gritos até que ao rebate delles acudia o caçador a lhe lançar um laço, com o qual despois de quebrar a botija, o trazia pera casa.

ALVIANO Modo de caçar é esse, em que eu sempre me exercitára, pelo gosto que havia de ter de ver preso aquelle animal por semelhante via.

BRANDONIO Outra cousa estupenda vi contar dos mesmos bugios, posto que a não possa testificar de vista, mas affirmaram-me pessoas dignas de fé; a qual é que, quando o rebanho destes animaes vai fazendo o seu caminho pelo inverno, se acaso encontra algum rio crescido, que lhe empida a passagem, porque a nado o não podem fazer, pelo intervallo dos filhos pequenos que comsigo levam, usam de uma maravilhosa industria pera não deixarem de continuar o seu caminho, a qual é que buscam duas arvores crescidas, que fiquem fronteiras uma da banda daquem do rio e a outra dalem, e subidos á arvore, da parte donde se acham logo em uma rama della, que pende sobre o rio, se aferra um dos taes bugios com as mãos, deixando o corpo dependurado pera baixo, e áquelle se lhe ajunta outro, com lhe fazer da mesma maneira presa com as mãos na petrina, e logo outro, e muitos, até que se fórma por este modo uma corda de bugios, e como está bastantemente comprida se embalança tanto com ella, de uma parte pera outra, até que o ultimo bugio, dos de baixo, possa aferrar com as mãos a rama da arvore que The fica vizinha da outra parte, na qual, fazendo força, vai atezando a corda pouco a pouco, e despois que o está, por riba della passam os demais bugios com seus filhos ás costas; e, como taes estão já da outra parte, o primeiro, que se aferrou do tronco na arvore opposta, solta tambem as mãos della, e fica da outra parte com os companheiros; porquanto o que está de além não se solta, tendo a corda em perfeição até que o outro passou por esta via, e se ajunta com os demais.

ALVIANO Cousa é essa que, pela sua raridade, não sinto tanta confiança em mim, que me atreva a conta-la no Reino; porque arrecearei que me dêem apupadas.

BRANDONIO Pois aqui achareis muitas pessoas que assim vo-lo affirmem. A outra sorte de bugios se chama guaribas, os quaes são muito maiores e têm barba, e no modo que vivem e providencia com que se governam, case que se querem parecer com a gente humana. Estes fazem sempre sua habitação por cima de grandes matos e crescidos arvoredos juntos em cabildas, donde estão em continua grita, que se ouve de muito longe, e toda pessoa que ignorar a causa terá pera si serem vozes humanas, ou som de instrumentos, porque daquella maneira respondem. Estes guaribas costumam a fazer-se a barba uns aos outros, quando as têm crescidas, ajudando-se pera isso de certas pedras agudas, unhas e dentes; e quando se lhes tiram com algumas frechas e dellas são ligeiramente feridos, tornam com muita brevidade a tira-la logo do corpo; e, com accendida colera, a arremessam contra o que lha atirou, intentando fazer o mesmo que lhes fizeram, e a ferida curam depois com facilidade, applicando-lhe certas hervas só delles conhecidas. E quando succede serem feridos de ferida penetrante e mortal, conhecendo seu mal, antes de se entregarem a morrer, se dependuram na arvore em que estão, liando na rama della o rabo, de sorte que morrem alli dependurados, sem cairem pera baixo, tanto aborrecem o serem presos de seus matadores.

ALVIANO E quando esses guaribas encontram acaso com algum homem por esses matos, folgára de saber se o deixam passar livremente, sem lhe fazerem mal.

BRANDONIO A's vezes o deixam passar, porque não reparam nelle, e outras o perseguem com carrancas e biocos e outros medos que lhe fazem; em tanto que eu vi já um mamaluco, filho da terra, vir assás affrontado, de perseguido delles, e me affirmou que tanto o apertaram que se via em termos de se perder. Tambem se acham nesta terra umas onças ou tigres muito listados, do tamanho de um bezerro, grandes. perseguidores do gado domestico, do qual costumam matar muito. E de que modo o matam ?-

Alviano

BRANDONIO Com nenhum outro senão com se arremessarem a elle, e lhe darem com a mão uma bofetada sobre a cabeça com tanta força que é bastante oh cousa maravilhosa ! a lhe quebrar os cascos por muitas partes, com lhe espargir os miolos, morrendo logo a vacca ou novilho a que isto aconteceu, sem por a parte de fóra lhe fazer ferida, nem mostrar signal por onde recebera tanto damno.

ALVIANO Folgára de saber se assim como accommette e mata o gado, o faz tambem á gente.

BRANDONIO A homem branco não ouvi dizer nunca que matassem, mas aos indios e negros de Guiné sim, quando se acham muito famintos. Tambem ha outra sorte desta mesma especie, de menor corpo, a que chamam susurana, que costuma de matar alguns bezerros e gado miudo. Não são tão damninhos como os outros. Não quero calar as differentes castas de cobras peçonhentas, que se acham por toda esta provincia, como são jararacas, saracucús, cobra de coral, e outra a que chamam cascavel, porque tem uns nós no rabo semelhantes a elles, e quando os meneia com força formam um som que se parece com elles. Estas todas são peçonhentissimas, e matam as pessoas a que mordem em breve termo, e por isso são mui temidas. Outra sorte ha tambem de cobra, muito mais grande, a que chamam boaçú, e nós cobra de veado, porque comem, engulindo um inteiro, quando o tomam. Caçam dependuradas sobre arvores, e de salto fazem a sua presa; e já succedeu arremessarem-se a homens que mataram, com lhes metterem o rabo pelo sesso, por ser parte aonde logo acodem com elle. E destas semelhantes cobras vi eu uma tão grande que tenho temôr de dizer a sua grandeza, temendo de não ser crido, e se affirma tambem dellas uma cousa assás extranha, a qual é que, depois de mortas e comidas dos bichos, tornam a renascer como a Phenix, formando novamente sobre o espinhaço carne e espirito.

ALVIANO Isso tenho eu por cousa indigna de se poder pôr em pratica, porque não mostra nenhuma apparencia de poder ser verdade, por encontrar ás leis da natureza.

BRANDONIO Já vos disse que eu não o vi, mas ainda me atrevo a vos mostrar pessoas, que vos affirmem haver experimentado o caso, assim como vo-lo tenho relatado. E com isto vos confesso que não me acho pera mais, nem me atrevo passar avante, posto que me ficam ainda muitos animaes terrestres de que podera fazer menção.

ALVIANO Tendes dito de tantos, e mostrado tantas maravilhas de suas naturezas e calidades, que não sei que vos possa ficar mais por dizer, senão dos costumes deste gentio da terra, e é a ultima cousa de que promettestes tratar.

BRANDONIO Pera isso é necessario que cobre novo alento e novo animo, por ser materia tanto comprida como difficultosa; e pera dar remate á esta nossa pratica, o que summamente desejo, amenhã vos virei buscar a este mesmo posto, ás horas costumadas.

Diálogos das Grandezas do Brasil

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Leia gratuitamente Diálogos das Grandezas do Brasil, obra colonial de 1618 atribuída a Ambrósio Fernandes Brandão, em domínio público. Edição digital organizada em seis diálogos para leitura online no Literunico, com fonte integral da edição de 1930, busca, redes sociais e descoberta por pesquisa de IA.

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