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Diálogos das Grandezas do Brasil

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Diálogos das Grandezas do Brasil

Capítulo 4 · Diálogos das Grandezas do Brasil

Diálogo quarto

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Diálogo quarto

ALVIANO HONTEM VOS estive esperando toda a tarde deste mesmo ponto, e por faltardes delle me tornei a recolher mais cedo do que imaginava.

BRANDONIO Certa occasião foi causa de não poder cumprir com o que vos tinha promettido; mas, se se vai dizer a verdade, quiz fazer pé atraz pera poder dar melhor salto sobre o que hoje havemos de tratar; porque a materia é tão fecunda que requer muito estudo pera se proseguir, que do seu processo se debuxarão mais ao vivo as riquezas e grandezas do Brasil, suppondo que as mais das cousas de que pretendo tratar são das capitanias da parte do Norte, porque das do Sul sei pouco por respeito de, como já disse outra vez, não haver andado por aquellas partes. Mas das que tenho entre mãos pera haver de tratar, ha tanto que dizer que não sei por onde comece.

ALVIANO Dizei tudo a vulto, como melhor puderdes, em fórma que deis cumprimento ao que pretendeis, que é mostrar claramente as riquezas deste Estado.

BRANDONIO Sem grandes colloquios as pudera eu mostrar numa só cousa, a qual é, e não o tenhaes por graça, que me esforçarei a provar, que, se as tres capitanias, que são a de Pernambuco, a de Itamaracá e a da Parahiba, quando foram todas de um senhor livre e isento na jurisdicção e vassallagem, lhe haviam de render, em cada um anno, mais de um conto de ouro.

ALVIANO Todo o reino de Portugal estou em dizer que não rende tanto á Sua Magestade, e vós quereis pôr em pratica que essas tres capitanias hajam de render tantos cruzados !

BRANDONIO Não são isto chimeras, nem phantasticos fingimentos, antes verdades que logo vos determino mostrar a certeza dellas, como já tenho mostrado outras semelhantes: E assim me torno a reformar que, se as tres capitanias forem de senhor livre, ha de colher dellas de rendimento, em cada anno, o que tenho dito; porque já vos mostrei, por conta, de como importavam os assucares, que se navegavam sómente destas tres capitanias pera o Reino, pera a fazenda de Sua Magestade, nos direitos que pagam ás alfandegas, mais de trezentos mil cruzados, e tantos havia de colher o senhor livre dos 'mesmos direitos por sahida, quando deixasse navegar os taes assucares, cada um pera parte donde os quizesse levar; sessenta e tantos mil cruzados mais o dizimo dellas; dez ou doze mil das pensões, que se pagam aos senhorios e capitães, se haviam de pagar a elle, pois o ficava sendo, e outrosim quarenta mil cruzados, que importam o rendimento do páo Brasil, e da mesma maneira o que haviam de pagar de direitos por entrada, á razão de 21 ( ?) por cento, as fazendas e mercadorias que viessem, e se navegassem de todas as partes pera as ditas tres capitanias, que, conforme a minha estimação deviam de importar ao redor de cento e cincoenta mil cruzados. E tudo isto é cousa que está já sabida, no que não póde haver duvida; e o que ainda se não sabe, nem experimentou, de que póde colher tambem muito rendimento, é a saber: pimenta da India, que póde fazer plantar e colher pelo modo que tenho dito, e outra diversidade de castas, que ha della, excellentes e assás estimadas dos extrangeiros; cantidade grande de malagueta, a qual se dá e colhe pelos mattos silvestres, sem beneficio nenhum, em abundancia; gengibre, que póde mandar cultivar por a terra ser muito caroavel de o dar, o qual, navegado pera Frandres e outras terras de extrangeiros, deixará muito proveito; infinidade de anil que póde mandar lavrar, porque a herva de que se faz (a qual na India e Indias se planta e grangêa com cuidado e diligencia ) aqui nasce pelos campos em tanta cantidade, sem nenhum beneficio, que se póde lavrar della grande somma de semelhante droga. Por maneira que todas estas cousas postas em uso, e juntas com as que já estão postas, devem de dar de rendimento ao tal senhor, quando o fosse no modo que tenho dito, muito mais do milhão de ouro de que vos maravilhastes.

ALVIANO Não duvido que, quando essas cousas viessem a lume, poderia succeder desse modo; mas, emquanto não estão em uso, não temos pera que fazer caso dellas, e assim vos peço que nos passemos á nossa pratica de que cuido que a de presente deve ser de como se fazem os moradores deste Estado ricos pela lavoura.

BRANDONIO Assim o farei, posto que tinha pera dar resposta mui concludente á essa vossa duvida. E vindo ao que nos importa, pera havermos de levar enfiado o que temos pera dizer acerca da lavoura, convém que comecemos primeiramente pelos mantimentos.

ALVIANO Assim me parece ser razão que o façaes, porque delles tem principio todo o modo de lavoura, e por elles se exercita com tanto cuidado e diligencia.

BRANDONIO Os mantimentos, de que se sustentam os moradores do Brasil, brancos, Indios e escravos de Guiné, são diversos, uns summamente bons, e outros não tanto; dos quaes os principaes e melhores são tres, e destes occupa o primeiro lugar a mandioca (1 ), que é a raiz de um páo, que se planta de estaca, o qual, em tempo de um anno, está em perfeição de se poder comer; e, por este mantimento se fazer de raiz de páo, lhe chamam em Portugal farinha de páo.

ALVIANO Asim é quando querem vituperar o Brasil, a principal cousa que lhe oppõem de máo é dizerem que nelle se come farinha de páo.

BRANDONIO Pois essa farinha é um excellente mantimento, e tal que se lhe póde attribuir meritamente o segundo lugar depois do trigo, com exceder a todos os demais mantimentos, de que se aproveita o mundo.

ALVIANO Pois dizei-me o modo que se guarda pera se haver de pôr esse mantimento em perfeição de se poder usar delle ?

BRANDONIO Faz-se desta maneira: despois de estar assasonada, se tira aquella raiz debaixo da terra, que é da grossura de um braço, e ás vezes mais cumprida, a qual, despois de limpa da casca de fóra, a ralam em uma roda que pera isso têm feita, forrados os seus extremos de cobre, a modo de ralo, e despois lhe espremem todo o sumo muito bem em uma prensa, que pera o effeito se faz; e assim como tiram a mandioca da prensa, a vão pondo de parte feita em umas bolas, das quaes a desfazem pera a cozerem em uns fornos, que para isso se lavram de barro, a modo de tachas, com fogo brando, e deste modo fica feita a farinha; mas pera ser bôa lhe hão de lançar tapioca, quanto mais lhe dançam, tanto melhor dá a farinha, das quaes a feita por este modo se chama farinha de guerra, que dura grande espaço de tempo sem corrupção e a levam pera comer no mar.

ALVIANO E que cousa é essa tapioca, que dizeis se lança nella ?

BRANDONIO Compõe-se da agua ou sumo que se espreme da mesma mandioca; porque despois de junta em um vaso, cria pó por baixo, a modo de farinha de Alemtejo, muito alva, e lançada a agua que está por cima fóra della, fica a que se chama tapioca, que é o que disse que se mistura com a farinha. E pera mantéos engommados e outras cousas semelhantes é muito melhor que a gomma que se faz em Portugal; mas ha nisto uma cousa notavel, que aquella agua ou sumo, que se lança do vaso, depois de se tirar a tapioca, é peçonha finissima, a qual toda pessoa ou alimaria, que a come ou bebe, morre sem remedio, e ainda despois de lançada na terra se fórma daquella humidade uns bichos que, se os tomarem seccos e os fizerem em pó, fica sendo o mais fino e apurado veneno de todos quantos se podem imaginar.

ALVIANO Não tenho eu por muito sadio o mantimento, donde tão grande veneno se fórma.

BRANDONIO Pois tambem vos direi mais que tambem a raiz, antes de se The fazer o beneficio que tenho dito, é veneno e mata a quem a come, excepto uma sorte de semelhante raiz, a que chamam macacheira; porque esta tal se come assada ou cozida, com ter o sabor das castanhas da nossa terra; e comtudo a de outra sorte, posto que é tão peçonhenta, preparada como tenho dito, fica sendo mantimento assás sadio muito acommodado pera a natureza humana, e não se sabe haver nunca feito mal a ninguem por nenhuma via.

ALVIANO Pois se a sorte dessa mandioca é peçonhenta, como tendes dito, e a outra não, porque se não usa antes da que o não é ?

BRANDONIO Não o fazem, porque, como a que não faz damno se póde comer sem beneficio, furtam muito della por ser mantimento que sempre está no campo, e vão tirar delle quando o querem comer; e assim fica sujeita aos ladrões, os quaes se inclinam a furtarem daquella de que se aproveitam logo sem beneficio. E ainda, além do modo que tenho dito, ha outro, com o qual se faz esta farinha mais regalada, de que usa a gente nobre e mimosa, por ser de muito bom gosto.

ALVIANO Pois dizei-me o modo como isso se faz.

BRANDONIO Tomam a mandioca despois de colhida e lançam-na de molho em agua corrente, porque é melhor, até apodrecer, e podre a despem da casca, e a desfazem entre as mãos; e, desfeita, a põem a cozer no forno, que já disse, e como está cozida a comem assim fresca; e quanto mais quente melhor, com ficar de tanto gosto que muitas pessoas rejeitam pão alvo muito bom por ella. Tambem se faz da mandioca, despois de ralada em fresco, umas como obreias, a que chamam beijús, e por outro nome tapioca, das quaes se servem na mesa em lugar de pão, e duram muitos dias.

ALVIANO Ides transformando essa mandioca em tantos modos, que ficará tendo mais côres que um sardão.

BRANDONIO Pois ainda se fazem mais transformações della, a qual é que, despois da mandioca estar podre nagua, pelo modo que tenho mostrado, porque a que está desta maneira se chama mandioca puba, The tiram a casca, e a põem no fumeiro, donde, despois de estar curada e secca, se chama carimá, e se faz della uma excellente farinha, de que se fazem umas papas em caldo de gallinha e de peixe, e tambem com assucar; as quaes são de maravilhoso gosto e de muito nutrimento, e tambem as applicam pera mantimento de enfermos com muita vitalidade dos taes, e a este semelhante manjar dão por nome mingáo.

ALVIANO Pois dizei-me por que preço se vende um alqueire de farinha ordinaria e quanta cantidade della é necessaria pera sustentação de um homem ?

BRANDONIO Os alqueires destas capitanias são maiores que os do Reino duas vezes e meia, em fórma que um alqueire dos de cá responde por dous e meio dos de Portugal; um alqueire dos semelhantes é bastante pera sustentar a um homem per espaço de um mez, e val a duzentos e cincoenta réis e a trezentos, e ás vezes é mais barata, segundo a falta ou abundancia que ha della.

ALVIANO Já que tendes dado o primeiro lugar de bondade entre os mantimentos do Brasil á mandioca, dizei-me agora qual é o segundo de que seus moradores se aproveitam ?

BRANDONIO O mantimento que occupa o segundo lugar (posto que em muitas partes do mundo se tem pelo primeiro ) é o arroz, que nesta provincia se produz em muita abundancia á custa de pouco trabalho (2 ); mas os seus moradores, por respeito da mandioca, de que já tenho tratado, plantam muito pouco, porque reputam quasi por fruta e não mantimento, por acharem a farinha de mais sustancia.

ALVIANO Pois não devera de ser assim, que o arroz é excellente, e por ser tal se sustenta delle a maior parte da Asia.

BRANDONIO Assim passa, mas os moradores desta terra aproveitam mais da mandioca, com lhes custar mais trabalho o uso della; porque o arroz se produz com facilidade por qualquer parte, e nas terras alagadas, que não servem pera outra cousa, se dá melhor. Verdade é que, por se não traspôr, como se faz na India, não amadurece todo junto, e por esse respeito dá trabalho a sua colheita; mas por outra parte a facilita, com se deixar colher dous e tres annos, e dar outras novidades; porque o rastolho que fica, quando não é trilhado e destruido das alimarias, na entrada do mais proximo inverno torna outra vez a reverdecer de novo e a levar fruto perfeito.

ALVIANO Passemo-nos agora a tratar do terceiro modo de mantimento, de que haveis dito se fazia caro por ser bom.

BRANDONIO Este terceiro é o milho de massaroca, que em nosso Portugal, chamam zaburro e nas Indias Occidentaes maïs, e entre os Indios naturaes da terra abatî (3 ): é mantimento mui proveitoso pera sustentação dos escravos de Guiné e Indios, porque se come assado e cozido e tambem em bolos, os quaes são muito gostosos, emquanto estão quentes, que se fazem delle, despois de feito em farinha; e pera sustentação de cavallos é mantimento de grande importancia, e pera criação de aves.

ALVIANO Pelo menos nas Indias se tem por tal, e se usa geralmente delle.

BRANDONIO Pois nesta terra se dá á custa de pouco trabalho, antes com muita facilidade, em tanto que em cada um anno se colhem duas novidades delle.

ALVIANO Não sei como isso possa ser, se não quereis attribuir a esta provincia dous invernos.

BRANDONIO Não ha senão um somente, como já tenho dito, mas as duas novidades se colhem deste modo: com as primeiras aguas, que chovem na entrada de fevereiro pouco mais ou menos, que é o principio do inverno se planta, e, quando vém no mez de maio, se colhe, porque já então está perfeito, e logo o tornam a semear na propria terra, e segunda vez leva fruto, que se colhe por agosto.

ALVIANO Fertilissima deve ser a terra que dá duas novidades no anno.

BRANDONIO E ' tanto que ainda de alguns frutos dá tres, como adiante direi. E estas são as tres sortes de mantimentos principaes de que se usa no Brasil.

ALVIANO Não vos vejo fazer menção do trigo, centeio e cevada, nem milho, mantimentos tão estimados na nossa Espanha e por toda a Europa, e assim em geral na mór parte do mundo, pelo que me parece que os não deve de produzir a terra.

BRANDONIO Por não me envergonhar a mim e aos demais moradores deste Estado, desviava-me de mover pratica sobre esses mantimentos, os quaes não produz a terra, não por culpa sua, senão pela pouca curiosidade e menos industria dos que a habitam (4 ); porque eu semeei já por duas ou tres vezes na capitania de Pernambuco trigo, do qual a verdadeira sementeira deve ser por São Pedro, fim de junho, pouco mais ou menos, porque o tal tempo corresponde, na qualidade, com o da sementeira de Portugal; do qual trigo deixei crescer uma parte delle na fórma que fôra semeado, e a segunda parte lhe metti a fouce pera que tornasse atraz, e a terceira seguei da mesma maneira duas vezes; todo este trigo veio á perfeição, posto que o que foi segado deu melhores espigas, do qual colhi perto de um alqueire delle, por a semente não ser pera mais; e cada um grão filhava de maneira que correspondia com cinco e seis espigas. Verdade seja que algumas dellas eram faulhentas, mas o trabalho desta sementeira está em que o trigo não amadurece todo junto, antes quando umas espigas estão de todo perfeitas, outras estão em leite e algumas começam de botar pendão; pelo que foi necessario segaremse as espigas gradas e maduras, com deixar ficar as outras, o que dá muito trabalho.

ALVIANO E pera se haver de emendar essa falta se usaria de alguma industria ?

BRANDONIO Entendo que sim; porque no anno de mil e quinhentos e noventa e nove em Portugal, tratando eu da materia com um fidalgo velho Austuriano, me veio a dizer que na terra aonde vivia estava uma grande varzea, da qual nunca se aproveitaram por dar o trigo da mesma maneira, respeito de sua muita fertilidade; mas de poucos annos a esta parte usaram de um excellente remedio, com o qual dava já trigo perfeito, com grandar todo junto, pera se poder segar; o qual remedio era que, despois do trigo semeado e sahir da terra quasi um palmo, lhe tornavam a metter o arado de novo, pera que se arrancasse e espedaçasse assim em a terra amainando de sua furia, e por esta maneira vinha a levar a novidade igualmente como o demais trigo; pelo que despois de eu tornar a esta, quiz fazer a experiencia do que o Austuriano me dissera, com traspôr uns grãos de trigo que semeei em terra fertil, a qual foi tomando o fruto todo por um, e da mesma maneira começava a grandar; mas não chegou á perfeição, porque um anouteceu todo comido dos passaros.

ALVIANO Pois, porque não tornastes a segundar com a experiencia !

BRANDONIO Porque se me communica tambem o mal da negligencia dos naturaes da terra; mas o que acerca disto entendo é que, se fôr plantado o trigo nas campinas, que é terra arisca, dará fruto perfeito, sem mais outra diligencia; posto que o não experimentei, porque as que fiz até agora todas foram em terras de varzea de massapês, fertilissimas, aonde vicejava o trigo muito, o que não deve de fazer nas campinas por ser terra fraca.

ALVIANO Em verdade que tenho paixão de ver a pouca curiosidade dos habitantes desta provincia, pois se lhe não alevantam os espiritos pera fazerem experiencia de cousa tão importante, e de que tanta utilidade se seguirá a todos. Mas que me dizeis da cevada, centeio e milho ?

BRANDONIO Do centeio e cevada não tenho ainda feito experiencia, mas do milho sim, o qual se dá melhor e em mais cantidade do que se dá em Portugal; mas não se usa delle, porque a gente da terra se contenta sómente com aquillo que os passados deixaram em uso, sem quererem anadir outras novidades de novo, ainda que entendam claramente que se lhes ha de conseguir do uso dellas muita utilidade, de maneira que se vem a mostrar nisto serem todos padrastos do Brasil, com lhes ser elle madre assás benigna.

ALVIANO Não sei que diga a tanto descuido e negligencia, senão que são todos ingratos a Deus, em não se saberem aproveitar dos beneficios que lhe faz e promette neste Estado; posto que tambem creio haver de vir ainda pera o futuro quem lance mão delles. Mas, parece-me que haveis dito que, além dos tres mantimentos, cuja calidade e natureza tendes referido, havia ainda outros.

BRANDONIO Sim, ha, os quaes aproveitam pera o tempo da esterilidade, posto raramente succede have-la nesta terra; os quaes são estes (5 ): o primeiro a raiz do caravatá, que se dá pelos campos sem nenhum beneficio, da qual se faz farinha de bôa sustentação; o segundo é fo- Inas de mandioca cosidas, a que chamam maniçoba, as quaes são tambem excellentes pera tempo de fome, e ainda sem ella a usam muitas pessoas por mantimento; o terceiro é o fruto de uma arvore grande, a que chamam comari ( ?), o qual serve. tambem de mantimento; o quarto uns coquinhos que pelo nome da terra se chamam aquês. Estes taes se colhem dos pequenos coqueiros, em que se dão em cachos despois de maduros, e se espreme delles uma substancia doce e gostosa, que se lhe tira dentre a casca, esprimidos com as mãos dentro na agua e de tudo junto, sendo cosido ao fogo, se formam umas papas que comem, e com ellas juntamente os coquinhos, que estão dentro no caroço, despois de esbrugado e partido; e deste mantimento se sustenta grande parte do gentio da terra e dos negros de Guiné. O quinto é a raiz de um sipó, a que chamam macuna, a qual desfazem em farinha, que comem despois de cozida.

ALVIANO Dizeis que esses mantimentos, que tendes referido, servem pera tempo de necessidade, de fome, e eu não sei como isso possa ser, porque, quando a esterilidade é geral, abrange a todas as sementeiras, frutos e plantas.

BRANDONIO Verdade é que em Espanha succede isso dessa maneira, mais aqui no Brasil não; porque todas estas cousas nascem pelos campos sem beneficio nenhum, com serem agrestes e sempre, de qualquer maneira que o tempo curse, se acham por elles em abundancia.

ALVIANO Por essa maneira não se deve de arreceiar a fome neste Estado.

BRANDONIO Quando a haja, nunca perece por causa della gente, porque usam de semelhantes remedios, e com isso passemos avante, ainda que vos confesso que se me representam ante os olhos tantas cousas sobre que haver de tratar, que receio de me metter em tão grande labyrintho; mas já que tenho tomado á minha conta o haver de dizer das grandezas do Brasil, irei mostrando primeiramente a grande fertilidade de seus campos, e despois formarei uma fresca horta abundante de diversidades de cousas, e logo irei ordenando um pomar bastecido de diversas arvores e com excellentes pomos, e da mesma maneira um jardim povoado de flores e boninas sem conto. E então julgareis se se póde dar ao Brasil nome de ruim terra, como de principio lhe quizestes chamar.

ALVIANO Já vejo que me enganava, e pera que de todo me acabe de desenganar, vos peço que me leveis essa ordem, porque me parece maravilhosa.

BRANDONIO Quero dar o primeiro lugar dos legumes desta terra ás favas, porque são por extremo boas, e na grandeza e gosto muito melhores que as de Portugal (6 ); mas a planta é differente, assim na folha, como ao modo della, porque a de cá trepa como hera, colhem-se verdes e seccas, e de ambas as maneiras são excellentes.

ALVIANO Não se devem de dar na terra de Portugal, pois se não usa dellas.

BRANDONIO Sim, dão; mas os moradores deste Brasil querem se aproveitar antes de estoutras, por serem naturaes delle e se grangearem com menos trabalho, com darem mais rendimento no fruto. O outro legume tambem muito bom são feijões, como os nossos de Portugal, que se dão em grande cantidade, dos quaes tambem usam em verde e despois de seccos. Tambem se colhem na terra muitas ervilhas, das quaes se aproveitam do modo que o fazem em Portugal e da mesma maneira ha outros feijões de differente feição, que se chamam gandus, os quaes vieram aqui de Angola, e se dão em arvores, não muito grandes, com serem de excellente gosto e reputados. por maravilhoso legume.

ALVIANO Nunca ouvi que se déssem feijões em arvores.

BRANDONIO Pois estes são de differente casta, e por isso produzem nellas. E da mesma maneira se acham outros feijões, que nascem em bainhas, chamados sapotaja. Tambem ha um modo de milho, semelhante ao que chamam naxenim na India, antes entendo que é o proprio; o qual se trouxe de Angola, que os escravos chamam massa gergelim, se produz de tão boamente que de pequena sementeira delle se apanha grande colheita. Outra sorte de legume ha a que chamam amendoim, que são de feição de bolotas, e dentro de cada coculo tem dous pinhões maravilhosos na substancia e gosto, comem-se assados e cozidos e tambem crús, sem nenhum beneficio. E outro chamado passendo, a modo de canna, que se tem por legume. E da mesma maneira ha uma raiz que se colhe debaixo da terra, chamada tamotarana, assás gostosa. E pelo conseguinte outra a que dão o nome tajoba; e outra chamada taiá, que todas são raizes de muita sustancia.

ALVIANO Ides formando tantos legumes, que já cuido que lhes ficam os que se acham em Espanha inferiores.

BRANDONIO Pois tenho muito que dizer delles, porque ha uns como aboboras, a que no Reino chamam de Guiné, e antes cuido serem as proprias, de duas sortes, das quaes a uma se chama geremú, e a outra geremú pacova, que servem de mantimento, do qual se sustenta muita gente, por ser de grande sustancia, e se come assado e cozido, e quando se lhe ajunta azeite e vinagre, póde fazer postoleta na mesa dos grandes, pera os quaes se compõem tambem em assucar, com serem muito estimados, e conservam-se muitos dias sem apodrecerem.

ALVIANO Tambem em Portugal se guarda essa abobora, a que daes o nome de geremú, muito tempo sem corrupção.

BRANDONIO Pois aqui no Brasil se dão muito melhores. Tambem ha muitas aboboras, a que chamam de cabaço, de summa grandeza, e outras mais pequenas, que se comem. E das grandes vi algumas que levavam dentro em si dous alqueires e meio de farinha, que são cinco de Portugal.

ALVIANO Onde ha semelhantes cabaças, podem-se escusar saccos, por-- que alojam mais dentro em si.

BRANDONIO Pois assim passa: e se quizerdes ve-los vo-los amostrarei, porque vos não fique escrupulo. Tambem se produzem na terra muitas e excellentes batatas, muito melhores das que se levam a Portugal, de que se fazem bocados, doces maravilhosos e batatadas em panellas, como marmelada, e tambem se comem assadas e cozidas. Da mesma maneira se produzem muitos e bons inhames e outra casta delles chamados carás, que são da mesma especie, mas muito maiores; e todos estes legumes, que o são na realidade da verdade, se guardam em casa, aonde duram muitos dias livres de podridão, e sobretudo o mais excellente legume de todos são umas castanhas que chamam de cajú, muito gostosas de comer e de muito nutrimento, que se conservam longo tempo, e se comem assadas, e da mesma maneira se servem dellas pera tudo em lugar de amendoas.

ALVIANO Tendes nomeado tantos e tão diversos modos de legumes, que é necessario uma cartilha pera se poder estudar o nome delles; mas folgára de saber por que se não aproveitam tambem de grãos, chicharos, lentilhas, tremosos de nosso Portugal, de que cuido deve de ser a causa não os produzir a terra.

BRANDONIO Sim, produz, porque eu semeei semelhantes legumes, posto que em pequena cantidade e deram fruto. E de se não usar delles, não sei dar outra causa senão á geral enfermidade do Brasil, que já tenho apontado.

ALVIANO Quanto mais me dizeis disso, tanto vou concebendo da terra melhor opinião, e de seus moradores muito má.

BRANDONIO Dizei quanto quizerdes sobre essa materia, porque tenho a culpa geral por tão grande, que commetteria erro quem os quizesse defender; mas já que imos tratando dos frutos, que os campos produzem, quero vos mostrar que são taes estes brasilienses, que The ficam muito atraz os Eliseos tão celebrados dos poetas em seus fingimentos, e da mesma maneira o fabuloso paraiso do torpe Mafamede, do qual põem a felicidade em que corriam por elles rios de mel e de manteiga; porque estes nossos campos, com serem naturaes e não sonhados pera se fabricarem na idéa, correspondem gozando daquellas cousas que, com tanto estudo de fingimentos, se representaram; porque nestes nossos campos achareis rios de mel excellentissimo, e de manteiga maravilhosa, de que se aproveitam seus moradores com pouco trabalho.

ALVIANO Não sei como isso possa ser.

BRANDONIO Pois crede-me que assim passa; porque pelas muitas arvores, de que abundam os campos, nas tocas dellas criam o seu favo de mel innumeraveis abelhas, e tambem na terra por buracos della em tanta cantidade, que pera se haver de colher não é necessario mais que um machado, com o qual a poucos golpes se fura a arvore, e um vaso pera recolher o mel, que de si lança, que é em tanta cantidade que somente delle, sem mais outro mantimento, se sustentam muitas gentes, como adiante, quando tratar dos costumes do gentio, direi. E além do mel que se colhe por esta via, se acha um fruto agreste chamado piqueá a modo de uma laranja, dentro do qual se tira mel maravilhoso, como clarificado, que se come com colher. E estes se podem chamar verdadeiros rios de mel e não os fabulosos e os mahometanos; pois se os quereis buscar de manteiga, dar-vos-ei pelos campos cantidade grande della no muito leite, que por elles se colhe, de vaccas, cabras e ovelhas, do qual se compõe maravilhosa manteiga, e da mesma maneira outra muita que se faz dos porcos, dos quaes ha cantidade grande neste Estado, assim domestiços, como agrestes.

ALVIANO Não ha quem possa ir contra isso; porque claramente vejo que assim passa e que temos entre as mãos os verdadeiros campos Eliseos fingidos dos poetas.

BRANDONIO Não pera aqui, porque outras muitas cousas tenho ainda que vos mostrar nelles, das quaes a primeira quero que seja grande cantidade de vinhos, que se acham pelos seus matos, posto que não do nosso de Portugal, que se faz das uvas (7 ), não porque terra o não daria muito bom, mas por descuido dos que a habitam, como adiante direi; mas de outros que se acham em grande cantidade como é o vinho que se faz das cannas de assucar, que pera o gentio da terra e escravos de Guiné é maravilhoso; e outro que se faz do mesmo assucar com especiaria, a modo de aloxa, que para os brancos é cousa mui regalada. Tambem se faz vinho de mel de abelhas, misturado com agua, de muito gosto e assás proveitoso pera a saúde de quem o costuma beber. Outro vinho, de uma fruta chamada cajú, de que abundam os campos, do qual se aproveita muita gente branca; vinho de palma, da sorte que se usa na Cafraria, de que se póde fazer muita cantidade, por abundar a terra de semelhantes plantas; tambem o vinho que se faz dos coqueiros, da seiva que se tira delles, tão usado na India, do qual os moradores desta terra ainda se não aproveitam pelo costume geral que tenho apontado.

ALVIANO Com tantas sortes de vinhos bem se poderão escusar os que trazem das Canarias e ilha da Madeira, principalmente com esse que dizeis que semelha á aloxa, a que sou muito affeiçoado.

BRANDONIO Pois os que apontei se acham em muita abundancia. E já que temos tratado delles, vos quero agora mostrar a muita cantidade de azeites, que se dão pelos campos sem cultura nenhuma (8 ): primeiramente se colhe muito bom azeite de comer, e não pouco, do fruto de uma arvere chamada abatiputá, que nasce agreste por esses campos; e de outra fruta, chamada inhanduroba, do tamanho de um pecego, que dá dentro umas favas, se faz grande copia de azeite maravilhoso pera se allumiar com elle, com ter outra excellencia pouco de estimar, a qual é que os bichos, nem aves por nenhum caso comem elle. Tambem de uns pinhões, que se chamam de purga, se colhe muito com a mesma propriedade. De muitas figueiras de inferno, de que a terra abunda, se faz tambem muito azeite, principalmente de uma sorte dellas de differente casta, que dá umas bolotas do tamanho de avelães, das quaes tirado o miolo de dentro, se desfaz toda em azeite, sem lhe ficar nenhum bagaço; em tanto que, despois de ser pisada, sem mais beneficio, póde servir em lugar de sebo pera todas as unturas que delle se quizerem fazer, e pera unguentos e cura de chagas se tem por muito bom; e tanta copia de azeite encerra dentro em si esta frutinha, que enfiada em um páo allumia, como candeia, emquanto lhe dura o nutrimento que é por grande espaço. Tambem se póde fazer azeite de coco, como se usa na India, porque se dão aqui grandemente os coqueiros; mas a manqueira tantas vezes apontada dos brasilienses lhes impede usarem deste beneficio.

ALVIANO Não póde padecer falta de azeite terra que tanta calidade tem delle.

BRANDONIO Mui bem podera escusar o que vem do Reino, e da mesma maneira outras muitas cousas, como no decurso de nossa pratica ireis vendo, das quaes a principal fôra o panno de linho e mais sorte de lençaria; porque na propria terra se podera fazer muito.

ALVIANO E de que modo ?

BRANDONIO Já vos tenho dito do muito algodão que aqui se colhe, pois na India se faz delle tanta sorte de lençaria, porque se não fará tambem nestas partes, quandos seus habitadores se quizerem dispor a isso ? Demais do algodão, se acha pelos campos umas folhas de uma arvore, a que se dá o nome de tucum da qual se tira o fiado assás fino e rijo, e por extremo bom; e deste é que se faz a pita, tão estimada em Espanha, que vem das Indias, e com se dar nesta terra melhor e em mais cantidade, não se aproveitam della. Tambem se acha uma planta agreste, chamada caroatá, que dá grande copia de linho fino e assás proveitoso; e assim de todas estas cousas, que se acham pelo campo, se poderá a lavrar toda a sorte de lençaria.

ALVIANO Posto que tudo isso seja muito bom, o nosso linho é cousa excellente e estimado do mundo por tal.

BRANDONIO Ninguem poderá encontrar essa verdade, o qual tambem se produziria nesta provincia em grande cantidade, de modo que se pudesse levar delle por mercancia pera Espanha, principalmente do que chamam canhamo, mas não usam delle.

ALVIANO Pois não devêra ser assim, porque o linho, como é cousa de tanta importancia, em toda parte se devêra estimar.

BRANDONIO Isso é cousa que não leva remedio, como já disse, e pera que vejaes mais claramente a riqueza da terra, vos quero amostrar, pelos campos, finissima lã, da qual se poderão aproveitar pera pannos, dos que se fazem della, e em forros de vestidos, enchimentos de colchões, travesseiros e almofadas.

ALVIANO Pois, se pelos campos pastam as ovelhas e carneiros, quem duvida que delles se possa tirar essa lã ?

BRANDONIO Verdade é que esses carneiros e ovelhas a poderão dar em abundancia; mas não é essa sorte de lã de que eu trato, senão de outra differente especie, que produz uma arvore chamada monguba, a qual é a lanujem sobre que havemos começado esta pratica, que sem duvida fará muito bons pannos e chapéos. Tambem ha outra arvore a que não sei o nome, que produz um fruto do tamanho de uma pinha, quadrangular dentro no qual se acha um modo de lã, que tenho pera mim ser a mesma que na India chamam panha, maravilhosa pera enchimento de tudo o que é necessario ser cheio pera o serviço de cama, e vestidos, e outras cousas. E ainda além desta panha de que abundam os campos, se fazem arrezoados colchões, dos quaes se serve muita gente branca, de um junco chamado tabúa, que se cria por terras alagadas, o qual, por ter corpo e bastante grossura, dá bom jazigo com ser muito quente, pois pera esteiras ha diversidades de castas de juncos, de que se podem fazer muito finas.

ALVIANO Já me tendes mostrado por estes campos americanos mantimentos e legumes bastantes pera sustentação de muita gente, e da mesma maneira mel, manteiga, vinhos, azeite, pannos de lençaria e outros de lã, camas brandas pera se repousar nellas, não espero agora senão que me deis casas pera morar.

BRANDONIO E que será quando vo-las dér ?

ALVIANO Isso é cousa impossivel, se não buscardes Urganda pera que vo-las fabrique por encantamento (9 ).

BRANDONIO Pois não tenhaes por tal; porque, sem industria de pedreiros, nem compassos de carpinteiros, nem maço de ferreiros, nem adjutorio de oleiros, se alevantam neste Estado muito boas casas, de cousas que se colhem pelo campo.

ALVIANO Pois dizei-me o modo, e não me tenhaes mais suspenso.

BRANDONIO Já vos tenho dito das muitas madeiras que ha nesta terra. Estas se mandam cortar por escravos, com as quaes se alevantam casas de duas aguas; e em lugar de pregos se servem de dous modos de cordas, com que se amarram e seguram as taes madeiras; a uma dellas chamadas sipó, e a outra timbó, que são tão bôas e tão fortes pera o effeito, que se traz por commum adagio que se não houvera sipó, não se podera povoar o Brasil pelas diversas cousas de que se aproveitam delle. Esta casa armada por este modo fica tambem facil a cobertura della; porque dos mesmos campos colhem uma herva a que chamam sapê, que serve em lugar de telha, e tem de bondade ser mais quente que ella; e tambem de uma arvore como palma, a que chamam pindova, se faz mui boa cobertura; e nestas casas alevantadas por este modo vivem nos campos muitos moradores deste Estado, posto que tambem as ha de pedra e cal bem lavradas.

ALVIANO Com saber claramente que o que me contaes são verdades puras, todavia me parecem cousas phantasticas pela grandeza dellas; mas dissestes que desse sipó e timbó se fazem cordas, folgarei de saber se são bôas pera fabrica de náos.

BRANDONIO Por nenhum caso servem pera isso, senão pera o que tenho dito e outras cousas semelhantes; mas, pera cordoalha de navios se aproveitam da casca de uma arvore chamada envira, da qual se fazem excellentes cordas, rijas e de muita dura. Tambem se poderão fazer das de cairo, como as que se fazem na India, por haver nesta terra grande cantidade de coqueiros (e haveria muito maior se plantassem ), dos quaes se poderia tirar muito cairo pera o effeito, e é tanto isto assim que na Parahiba ha um coqueiro que os côcos que dá, em vez do amago que se come delles, o não tem, antes occupa todo o concavo do tal côco com cairo, cousa que nunca vi en outra parte; mas não se aproveitam disso. Tambem da casca de outra arvore chamada zabucai se faz maravilhosa estopa pera calafetar navios melhor e de mais dura que a de que se usa. Nasce tambem pelos campos um modo de rotas, como as da India, a que chamam tixarimbó, maravilhosas pera se lavrarem dellas cestas e açafates. E da mesma maneira cannas, a que chamam de Bengala, tão boas como as da India. E porque me não esqueça, direi que de duas cousas de que os campos abundam, ha uma muito bôa, e outra assás pessima, posto que digna de consideração. E quaes são essas ?

Alviano

BRANDONIO A boa uns palmitos, que se tiram de certas palmeiras grandes e formosas, e de excellente comer, muito melhores que os de Portugal; e ha mais uma herva ou planta que chamam viva, a qual, em lhe tocando uma pessoa com a mão, se marchita e torna secca, e assim persevera por um espaço, até que, pouco a pouco, torna a reverdecer, tanto aborrece ser tocada. E posto que se ha trabalhado por se saber a theorica da causa disso, não se ha podido até agora alcançar. E a raiz da tal herva é peçonha finissima, que mata ao que come sem remedio.

ALVIANO Cousa maravilhosa e de consideração é essa, com a qual me parece que deveis ter dado fim ás muitas quasi milagrosas cousas de que haveis affirmado abundarem todos estes campos, pelo que será bom começarmos a tratar de outras.

BRANDONIO Não dei, que ainda agora começo; porque tambem se acha por elles maravilhosas drogas, como são pimentas de muitas sortes e castas, grandes e pequenas, e ainda de outras que são doces no sabor; gengibre, o qual produz a terra em abundancia, quando é semeado, melhor na grandura e tudo mais daquelle que se traz de India; outro fruto que se apanha de uma arvore chamada envira, de que usam muitas pessoas, e por rezão deverão de usar todas, por ser excellente droga, a qual usurpa pera si o effeito que faz a pimenta, cravo e canella, com tingir como açafrão, cousa que não crerá senão quem o experimentar. Tambem se acha grande somma de malagueta, que agrestemente se produz pelos matos e campos, com haver pouco tempo que se descobrio, e póde ser que fosse eu o primeiro descobridor della, tão pouca curiosidade mora por estas partes; das quaes não se póde desinçar a herva de que se faz o anil, a qual na India se planta e grangêa com muito cuidado e diligencia, e aqui nasce sem nenhuma industria (10 ), e a pouco trabalho se poderá della fazer copia grande de anil, e eu o experimentei já, e fiz um pouco tal e tão bom que não podia ter inveja ao que se lavra nas Indias.

ALVIANO Drogas são todas essas que dariam grande proveito, quando se puzessem em uso, e se navegassem pera as partes extrangeiras, principalmente essa da envira, que tanto gabaes.

BRANDONIO A nada se dispõe a gente desta terra; porque, além das drogas, têm muitas tintas de que se poderão aproveitar. E sem tratar do páo chamado do Brasil, por ser bem conhecido, ha outra tinta tão boa como a que elle dá, quando não seja de vantagem, a qual é a que chamam urucú, que dá uma tinta vermelha maravilhosa; e assim uns cachos, que tem uma fruta semelhante a ameixas, que se produzem de umas pacoveiras pequenas, a qual faz uma excellente tinta, de mais transformações que um cameleão, porque se applica pera differentes côres, e despois de secca dura muito tempo, com conservar sua tinta perfeita. Outro páo pardo, a que não sei o nome, que em tudo faz o effeito da gualha, porque, lançado dentro na agua em rachas, se se lhe ajunta uma pequena de caparosa, incontinente se tornam o pão e a agua tão negros como a tinta. Este páo fiz experimentar no Reino, e acharam os tintureiros ser bom pera com elle se dar a primeira tinta, sobre que se assentam as outras. Tambem se faz tinta amarella muito bôa de um páo chamado tatajuba. E da fruta de uma arvore por nome genipapo se forma tinta preta, o qual fruto, com dar o sumo branco, se qualquer pessoa se untasse com elle, ficaria a parte untada negra, e não se The tirará a negridão por espaço de alguns dias, ainda que se lave muitas vezes.

ALVIANO Zombaria pesada ouvi contar haver-se feito em Espanha com essa agua lançada na pia dagua benta em uma igreja, em um dia de festa solemne, donde todos que a tomavam ficavam manchados de preto, com grande confusão principalmente das mulheres, que perseveraram nella até passarem os dias em que se gasta semelhante côr.

BRANDONIO Tambem ha outro páo de uma arvore pequena, que se chama araribú, que dá outra tinta excellente em ser vermelha, muito mais fina e subida na côr que a do pão do Brasil, e della se aproveitam as mulheres pera o rosto. Acham-se tambem mineiras de almagra muito fina, e outro modo della branca, a que chamam tabatinga (11 ), com o que se caiam as casas, supprindo com ella em falta de cal, com ficarem as casas alvissimas e limpas.

ALVIANO E porque se não servem antes da cal ?

BRANDONIO Muito se faz della na terra, mas desta tabatinga usam em muitas partes pela terem mais á mão. Da mesma maneira abundam os campos de grande cantidade de gommas de arvores maravilhosas, como é finissima almecega, e outra do cajueiro, excellente pera grudar papeis, e a de outra arvore, da qual se faz tinta amarella, e se servem della de lacre pera cerrar cartas (12 ). Por fim são tantas as sortes de gommas que me não atrevo a referi-las; somente direi que se colhe muita cera das arvores, onde as abelhas criam o nel, e cantidade grande de anime por maneiras.

ALVIANO Desse anime vi já aproveitarem-se muitas pessoas pera dôr de cabeça com feliz successo.

BRANDONIO Pois aqui nem para isso se aproveitam delle, e menos da virtude de muitas raizes e hervas medicinaes e proveitosas, assim pera purgas, como cura de chagas, havendo por melhores as que vêm de Portugal já corruptas, porque custam dinheiro. Não sei que diga mais senão duas cousas, com as quaes quero concluir de andar tanto vagueando pelos campos e matos: que até o sabão pera lavagem da roupa se acha nella; e se quizerdes armar aos passaros, vos darei pera isso excellente visco, que produz uma arvore chamada visgueiro. E com isto nos passaremos a formar a horta que temos promettida.

ALVIANO Tendes dito tanto dos campos e matos agrestes, que não sei que mais possa esperar dessa horta, a qual, posto que por ser cousa cultivada lhe deve de sobrepujar em muita cantidade, não lhe vejo lugar onde a possais metter.

BRANDONIO Não faltará algum em que a encaixemos, com não perder do seu preço a respeito da comparação alheia.

ALVIANO Pois alembre-vos que a horta, pera ser perfeita, ha de ter noras, poços.dagua e tanques, com que se regue, e eu sei que no Brasil não os ha.

BRANDONIO Não se póde dizer que não ha a cousa, quando se póde haver com facilidade; porque tambem Portugal não foi antes de ser, quero dizer que antes de se fazerem os jardins, tanques d'agua, fontes, esquichos, que hoje vemos, em tanta cantidade, careceu delles, porque nada se faz de per si; pelo que, se a esta terra lhe faltam de presente todas essas cousas, não é a culpa sua, senão dos que lhas não fazem; porque nella ha as melhores aguas, que tem o mundo, assim de rios caudalosissimos, como de outros mais pequenos, regatos e fontes sem conto, dos quaes se podem fazer todos esses brincos de fontes, tanques, esguichos a muito pouco custo; e assim não se póde dizer que falta o que ha.

ALVIANO Tenho ouvido que na capitania da Parahiba, além de as aguas serem excellentes, se acham algumas de tanta virtude, que os que têm costume de bebe-las, não padecem o mal da dôr de pedra, nem de colica.

BRANDONIO Assim passa por muitas experiencias, que hão feito e por este respeito mandam os governadores, bispos e pessoas poderosas levar de semelhante agua a Pernambuco pera beberem (13 ). E porque temos muito que dizer e se vai fazendo tarde, com sabermos que não faltam as aguas, comecemos a dar principio a nossa horta, a qual poderá ter muitas e bôas alfaces, grande cantidade de rabãos, infinidades de couves, que se plantam e se colhem a pouco trabalho.

ALVIANO Pois, e porque ? Ha por ventura outro modo de planta é de colheita differente do que se usa em Portugal ?

BRANDONIO Sim, tem, principalmente as couves, das quaes deixam crescer algumas até espigarem e dellas vão colhendo dos grelos que lançam em raminhos, os quaes mettem na terra, e logo prendem e em breve tempo se fazem grandes formosas couves.

ALVIANO Isso deve de ser por não dar nesta terra semente a hortaliça, como já ouvi dizer.

BRANDONIO Sim, dá, que é vicio manda-la vir de Portugal, principalmente as alfaces que dão infinidade de sementes. Tambem ha de ter a nossa horta chicoreas muito formosas, acelgas, borragens, coentro, hortelã, cheiro, funcho, cominhos, bredos de differentes castas e côres; porque todas estas cousas se acham em abundancia na terra.

ALVIANO Não produzem mais sortes de hortaliças as hortas de Espanha !

BRANDONIO Tambem poderá ter rabaças, agriões, beldroegas e uma excellente casta de mostarda, cujas folhas se comem cruas e cozidas, e assim umas folhas largas, a que chamam inhambús, mui bôas pera comer; porque, despois de cozidas, têm um requeimo saboroso; e, da mesma maneira, outra sorte de folha a que chamam tajoba, a modo de couves, grandemente estimadas.

ALVIANO Não padecerá fome quem essas cousas tiver.

BRANDONIO Assim se dão cenouras, cardos, beringelas, pepinos, balancias, aboboras das ordinarias, tenras e gostosas, e outras mais pequenas, a que chamam tanquira; tabaco, a que dão o nome de herva santa em Portugal, e sobretudo melões sem conto, todos extremadissimos em bondade; em tanto que de maravilha se póde achar entre elles um que seja ruim, e com todas estas cousas em abundancia julgae se poderei formar uma bôa horta.

ALVIANO Antes me maravilho do descuido geral por não se haverem... (formado ?) muitas.

BRANDONIO Pois não ha pessoa que a tenha perfeita, nem que se queira occupar nellas, que não póde ser mais desgraça; pois se por esta maneira se póde fazer a horta bôa, não seria peior o jardim pelas muitas diversidades de flôres, das quaes se podia povoar e paramentar, que, por serem muitas e varias e na calidade estranhas, não é possivel haver quem possa atinar com ellas, nem saber-lhes os nomes (14 ); pelo que direi sómente de algumas, que andam mais em uso, como é a flôr da larangeira, que se dá em grande abundancia; goivos de muitas castas e côres differentes, cravos amarellos, roxos e brancos, jasmins, madresilvas, balsaminho, a arvore triste, alfavaca, e mangericão, de que os campos estão cheios; outro modo de flôr que chamam de camará-açú, e a, digna de estima e consideração, flôr de maracujá, pela formosura della, varias côres de que é composta, raios formosos que lança, com outras particularidades dignas de notar; por fim as flôres, que produz a terra naturaes. della, são tantas que me não atrevo a metter em tão grande pégo, como fôra o querer tratar de todas; pois, pera se formarem figuras enredadas e outras cousas de brinco, se acham tantos sipós pera o effeito maravilhosos, pelo muito que se extendem, que lhes ficam muito atraz as murtas de Portugal.

ALVIANO Estou admirado de vos ouvir, porque não pintava eu o Brasil dessa sorte.

BRANDONIO Pois, se pera ornato desta horta e jardim forem necessarias latadas, vos darei muitas, como é uma que fórma bôa sombra e aprazivel verdura, a qual dá um fruto chamado curuá, do tamanho de uma abobora das ordinarias, que, despois de colhido e mettido alguns dias na caixa, cobra um cheiro tão suave, que basta pera espalhar grande fragrancia delle por toda a casa, e assim se conserva muitos dias sem corrupção. Outras latadas se fazem de maracujá, de cuja flôr já tratei acima, que dá um fruto do tamanho de uma pinha, mui regalado, cujo miolo que é como o da abobora, se sorve ou come ás colheradas, com dar muito e maravilhoso cheiro, e destes taes ha quatro castas: uma chamada maracujá-açú, por grande, e o segundo maracujá-peróba, excellente pera conserva, a terceira maracujá-mexiras, a quarta maracujá-mirim, por pequena, que todas fazem mui bôas latadas e dão igual sombra.

ALVIANO Parece-me que vos não alembrais das latadas das nossas parreiras, porque nesta terra as tenho visto.

BRANDONIO Sim, alembrava; mas de industria fugia de tratar dellas, por não envergonhar tantas vezes aos moradores deste Estado, porque deveis de saber que toda sorte de vindonho se dá nella em grandes maneiras, e somente se servem do de parreiras, as quaes dão muitas uvas ferraes, e outras brancas maravilhosas, com levarem duas e ainda tres vezes fruto no anno.

ALVIANO Isso é cousa impossivel.

BRANDONIO Posto que assim pareça, não o é; porque eu o experimentei muitas vezes, haverem de dar tres vezes fruto no anno, que, de darem duas, não dá que tratar, por ser isso cousa assás sabida.

ALVIANO Pois dizei-me como succede isso.

BRANDONIO Com nenhuma outra cousa mais que podarem as parreiras, tanto que lhes acabam de colher o fruto; porque com isso tornam a metter de novo, e em quatro mezes levam perfeito outra vez; emtanto que eu vi alguns homens, que, pera haverem de ter uvas nas con-- juncções de algumas festas que determinavam fazer, podaram as parreiras quatro mezes antes, e vieram dar fruto, sem discrepancia, para o tempo que pretendiam.

ALVIANO Pois, se as uvas se dão com tanta facilidade, e em tão breve tempo, como se não usa dellas pera vinho ?

BRANDONIO Por não tratar da causa disso como tenho dito, fugia de me embaraçar nesta materia; porque de muitas partes deste Brasil se poderia colher mais vinho que em Portugal, por estarem livres da formiga, que é o que faz damno ao vidonho, principalmente sei eu uma, que ha na serra chamada de Copaoba, distante das capitanias de Pernambuco e da Parahiba cousa de quinze até dezoito leguas, que o daria sem conto, por ser terra fresca, fria e sem nenhuma formiga.

ALVIANO Tenho lastima de vos ouvir dizer essas cousas, e folgára estar em minha mão o remedio dellas.

BRANDONIO O tempo deve de curar semelhante enfermidade, como costuma. E pois vos tenho já formado as hortas, jardins, latadas com suas fontes, tanques e esguichos, que vos prometti, quero arrumar o pomar (15 ), que falta, e com isso daremos fim á pratica deste dia; o qual dividirei em dous modos, não porque assim os haja, senãoporque se poderão fazer, quando a curiosidade excitar aos que cá vivemos, os quaes nos não sabemos aproveitar do que temos entre as mãos. E assim formarei primeiramente um jardim de arvores de espinho, e despois me passarei ao pomar, com dividir nelle os frutos que já estão em uso de se cultivar daquelles que a negligencia tem deixado até agora ser agrestes. Este jardim se poderá fazer povoado de formosas, verdes e copadas laranjeiras, bastecidas de branquissimas flores, cuja fragancia de suave cheiro alevantassem os espiritos dos que as gozassem, colmadas todas de louras e apraziveis laranjas em tanta cantidade que muitas vezes são mais que as folhas, umas tão doces que a par dellas perde do seu preço assucar e o mel, outras bicaes de tão gostoso comer, que não ha quem se acabe de fartar dellas; tambem das azedas, que pera o que aproveitam são maravilhosas, por levarem muito sumo. Acompanharão este laranjal crescidos e formosos limoeiros com tanta cantidade de fruto, que causa maravilha poderem-no sustentar; por com elle perseveram todo o anno, em tanto que quando um está em flôr, o outro vem crescendo, os demais estão de vez. A estes limoeiros se ajuntarão grande cantidade de limas doces com suas bem compostas plantas, excellentes no gosto e bom sabor, as quaes se produzem na terra muito maiores em cantidade, que as que se dão em Portugal; e da mesma maneira outra casta dellas, a que chamam zamboa, assás prezadas por bôas. Logo irão avante forrosentando este jardim grandes limões francezes com o seu amarello alegrissimo pera a vista. Tambem não carecerá de modernas laranjas, porque se produzem em grande copia. Rodeará pelos extremos, quasi servindo de muro, a espinhosa cidreira, colmada dos bellissimos pomos, maiores que uma botija, tão prezados pera conservas, as quaes por todo o decurso do anno se acham sempre assazonadas.

ALVIANO Se isso é assim, e se póde fazer desse modo, confessarei que lhe ficam inferiores os jardins lavrados e cultivados a tanto custo ao nosso Portugal; pois não vejo que lá haja mais castas de fruto de espinho dos que tendes apontado.

BRANDONIO Pois ainda estoutros têm um não sei que de verdes e frescos, com que fazem grandes paisagens. E porque o sol se vai já transpondo, me quero passar a tratar do pomar promettido, do qual o primeiro fruto quero que seja os figos, porque sempre fui muito affeiçoado a elles; os quaes se dão em tanta cantidade, assim dos brasajotes, como dos brancos e negros, e de outras castas, que os monturos estão bastecido de semelhantes figueiras, que levam duas vezes fruto no anno, e carregam em tanta cantidade, que causa espanto. Façamos logo uma rua de romeiras com seu coroado fruto, que encerra dentro em si finissimos rubis, as quaes se produzem grandemente nesta terra. Far-lhe-hão companhia retorcidos marmeleiros com seus cheirosos e dourados pomos, que se dão em abundancia por algumas das capitanias deste Estado. Formarão deleitosa sombra grandes pacovaes, cujo fruto se chama do mesmo nome, posto que na India, pelo contrario, são conhecidos por figos, uns grandes e outros mais pequenos, de differentes castas e feições, gostosos no comer e de com cheiro, dos quaes ha numero infinito. Farlhe-á companhia um fruto, natural da terra, chamado goiaba, do tamanho de um marcotão, que se dá em arvores medianamente grandes, pegado pelo tronco; logo se irá erguendo, e com suas miudas folhas, accommodadas pera fazer appetitosa salsa, o tamarinho tão medicinal e por tal prezado em todo o mundo; pelas partes sombrias, em baixas plantas, á feição de cardos, se mostrarão os gavados e fermosos ananazes semelhantes a pinhas, lançando de si suave cheiro, com se lhe communicar os sabores de todas as cousas que melhor o têm. E por aqui tenho concluido com as plantas e arvores que até agora estão em uso de serem cultivadas neste Brasil.

ALVIANO Quando não houvera outras, essas eram bastantes pera lhe dar nome de abundante em frutos.

BRANDONIO Pois as que estão até o dia de hoje agrestes por falta de cultivadores são infinitas; e posto que não é possivel pode-las trazer todas á memoria, irei tratando sómente das que me occorrerem. E assim demos o primeiro lugar, pela formosura da planta, ao cajá, que na India se chama ambare, do qual pera tantas cousas lá se servem, e aqui pera nenhuma senão pera se comer despois de madu-- " ro, com deixar um azedo gostoso e muito cheiro nas mãos: outra fruta chamada uticroy do tamanho de uma grande pinha, de tanto gosto que tenho por sem duvida ser melhor que a perada e marmelada tão estimada do mundo, o qual se dá em uma arvore muito grande; araticú, de feição das jacas da India, não má fruta; outra sorte do mesmo araticú, chamado apê, mais pequeno, e grande no gosto, de modo que não ha quem se acabe de fartar dellas (e um amigo meu fazia delles filhós com ficarem maravilhosos ); mangava, fruta que póde ser estimada entre as bôas que ha no mundo, a qual semelha ás sorvas de Portugal; o abundante cajueiro, o qual demonstra que, de soberbo por se desviar das demais arvores, leva o fruto ao revéz de todas, porque as castanhas, que nas demais se escondem no amago dellas, nestes cajús campêam por fóra, em fórma que na cabeça do fruto se arrematam de feição que mostra a quem o não conhece, que por alli teve principio; é formoso e gostoso pomo, do qual se sustenta muita gente em todo o tempo que duram. A bondade de suas castanhas passo em silencio, porque já tenho tratado dellas. Janamacaras ( * ), cuja planta é á feição de cardos, e dão uma fruta vermelha gostosissima no comer; pitombas, que são semelhantes a ameixas; massarandubas, que se parecem com as cerejas; gabiraba, do modo de azeitonas, e são doces; gotis, que são do tamanho de ovos; garuatás, fruta branca e comprida, que se come chupada, com deixar muito gosto; zabucai é uma arvore grande, que dá umas pinhas, dentro nas quaes se acham castanhas gostosas pera comer; abaiba, semelhante aos dedos da mão, tem o sabor de figos; enguas, que são semelhantes a alfarrobas, e doces no gosto; macujé, fruta excellentissima, da feição de peras; jeambos, como ameixas brancas; peiti, que semelham a datiles mui gostosos; canafistula, que se cria nos mattos em grandes canudos bastecidos de sua medula.

ALVIANO Pois, valha-me Deus, como se não leva pera Portugal, pera se usar lá della ?! (*) Por cima se lê, escripto por letra differente: “ jamandacaras nasce na praia”.

BRANDONIO Nem na mesma terra se aproveitam de semelhante fruto. Verdade seja que, por ser a planta agreste, parece elle tambem um pouco agreste; mas, se for cultivado, não tenho duvida que seja tão bom como o que se usa em Portugal. E deixando de parte esta canafistula, vamos continuando com o nosso pomar; porque ainda tenho muitas plantas que traspôr nelle, das quaes a primeira seja um fruto a que chamam piqueá, de que já tratei, que dá no seu miolo quasi um como clarificado de assucar mui gostoso; quamocá, outra fruta, vermelha, semelhante a ginjas; iba-mirim, como limões: uti, fruta comprida, gostosa no comer; ubacropari, como pecegos; comixá, fruta muida, á feição de murtinhos; grexiuruba, outra a modo de zamboa; eycajerús, do modo de ameixas mousinhas; não-taiaambus são semelhantes a ameixas brancas; ubaperunga, como uvas bastardas pequenas, que dão mostra de nesparas; ubapitanga, da feição de ginjas; tatajuba, semelhante a pecego, de cuja planta comida a raiz mata a sede, por grande que seja; morosis, que são apropriados a murtinhos; quiabo, fruta de massaroca, como beringelas: mamão, pomo do tamanho do marmelo, muito adocicado; araçá, do tamanho da fruta nova, de muito gosto, do qual se faz bôa marmelada; ha outro modo de araçá, por sobrenome açú, por ser maior e mais estimado pera se comer. Estas são as frutas que de presente me occorreram, com me ficarem outras infinitas por dizer, de que não sou alembrado, que os moradores do Brasil por negligencia deixam estar até agora agrestes, espalhadas pelos matos, as quaes, se foram cultivadas, se avantajariam em bondade e gosto.

ALVIANO Certamente que me tendes suspenso com tanta diversidade de frutos, quantos tendes nomeado, dos quaes não tão somente podereis formar um pomar, senão cem mil; e assim estou já de todo arrependido de haver tido o Brasil em differente reputação do que elle merece.

BRANDONIO Folgo de vos retratardes, e porque não succeda invejardes os alamos e choupos do nosso Portugal, com que se ornam grandemente semelhantes pomares e jardins, vos quero dar em seu lugar crescidos e alevantados coqueiros, que não menos zunido fazem com suas folhas açoutadas do vento. E com elles demos por hoje fim á nossa pratica, porque se vão fazendo horas de nos recolhermos.

ALVIANO Assim seja á condição que amenhã venhaes ás horas costumadas a este mesmo posto.

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Leia gratuitamente Diálogos das Grandezas do Brasil, obra colonial de 1618 atribuída a Ambrósio Fernandes Brandão, em domínio público. Edição digital organizada em seis diálogos para leitura online no Literunico, com fonte integral da edição de 1930, busca, redes sociais e descoberta por pesquisa de IA.

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