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Diálogos das Grandezas do Brasil

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Diálogos das Grandezas do Brasil

Capítulo 3 · Diálogos das Grandezas do Brasil

Diálogo terceiro

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Diálogo terceiro

BRANDONIO Por não ser notado de negligente ha já pedaço que vos espero, gozando desta viração que corre aqui da parte do mar assás fresca.

ALVIANO A importunação de uma visita me fez cahir na falta de havertardado; mas comtudo as horas são apropriadas para darmos principio á nossa pratica, que é o havermos de tratar da riqueza, fertilidade e abundancia deste Brasil, e assim vos peço me digaes destas. cousas as que souberdes, porque me tendes disposto pera vos ouvir com attenção.

BRANDONIO São tão grandes as riquezas deste novo mundo e da mesma maneira sua fertilidade e abundancia, que não sei por qual das cousas comece primeiramente; mas, pois todas ellas são de muita consideração, farei uma salada na melhor fórma que souber, pera que fiquem claras e dêem gosto. Pelo que, começando, digo que as riquezas do Brasil consistem em seis cousas, com as quaes seus povoadores se fazem ricos, que são estas: a primeira a lavoura do assucar, a segunda a mercancia, a terceira o páo a que chamam do Brasil, a quarta os algodões e madeiras, a quinta a lavoura de mantimentos, a sexta e ultima a criação de gados. De todas estas cousas o principal nervo e substancia da riqueza da terra é a lavoura dos assucares (1 ).

ALVIANO Não deve de ser de muita consideração a riqueza que consiste sémente de fazer assucares, pois vemos que da nossa India Oriental se enriquecem seus mercadores de tantas e diversas cousas, como são grande cantidade de drogas prestantissimas, roupas muito finas, ouro, prata, perolas, diamantes, rubis e topasios, almiscre, ambar, sedas, anil e outras mercadorias, de que as náos vêm de lá todos os annos colmadas pera a Espanha.

BRANDONIO Verdade é que todas essas cousas e outras mais se trazem dessas partes; mas comtudo me esforço a provar que, com se não tirar do Brasil senão sómente assucares, é mais rico e dá mais rendimento pera a fazenda de Sua Magestade de que são todas essas Indias Orientaes.

ALVIANO A muito vos arrojaes, e certamente que parece desvario o quererdes pôr semelhante cousa em pratica, pois o poder-se provar está tão longe, como a terra dos céos, e assim vos peço não queiraes que vos ouça ninguem semelhante proposta, porque será julgada geralmente por ridiculosa.

BRANDONIO Não me sei desdizer do que tenho dito com todas essas carrancas que me ides fazendo, antes entendo provar o que digo mui claramente, como já outra vez o fiz no Reino deante dos senhores governadores no anno de 97 (2 ); porque vós não me haveis de negar que todos os annos vão do Reino pera a India tres, quatro e algumas vezes cinco náos, que della tornam carregadas de mercadorias.

ALVIANO Assim passa.

BRANDONIO Tambem não duvidareis que cada uma destas náos faz de despesa á fazenda de Sua Magestade até posta á vela, feita de novo, ao redor de corenta mil cruzados. Nem isso nego.

Alviano

BRANDONIO E da mesma maneira que manda nellas em cada anno Sua Magestade, de cabedal em reales de oito e de quatro pera se haver de comprar a pimenta na India, ao redor de duzentos mil cruzados. E muitas vezes mais.

Alviano

BRANDONIO E outrosim que paga de soldo aos soldados, gente do mar, que se assentam pera ir á India, e de moradia a seus criados, mercês a fidalgos e outras pessoas particulares, muito grande cantidade de dinheiro. Não ha duvida nosso.

Alviano

BRANDONIO Tambem deveis de saber que cada náo dessas, despois de vir da India a salvamento carregada de fazendas, importa a Sua Magestade, afóra a pimenta que traz, de corenta e cinco pera cincoenta contos de réis e por tantos se arrendam publicamente a pessoas que as tomam por contrato, e deste dinheiro se abate ainda muito, de que Sua Magestade se não aproveita, em descontos que se fazem na casa da India, e isto com muitas vezes não chegarem a salvamento ao Reino mais de uma ou duas náos.

ALVIANO Desse modo passa; mas além desse dinheiro, por que Sua Magestade manda arrendar cada uma dessas náos, como tendes dito, se arrecadam por seus ministros os fretes das ditas náos pera sua fazenda, que devem de importar em grande pedaço.

BRANDONIO Os fretes de cada náo não importam á fazenda de Sua Magestade mais que ao redor de tres contos de réis, e em tantos os arrendou um amigo meu no anno de seiscentos e um, e destes tres contos se fazem tantos descontos de lugares que o Viso rei dá na India a particulares, que case se vem a consumir tudo nisso e noutras cousas, donde succede vir Sua Magestade a embolsar mui pouco dinheiro destes fretes.

ALVIANO Pois como é possivel que umas náos de tão grande porte dêem tão pouco de frete ?

BRANDONIO E ' disso causa os muitos lugares que Sua Magestade nellas dá, porque o capitão tem sua camara, despensa e outros lugares que sempre pera os taes estão deputados, e da mesma maneira o piloto, mestre, contra-mestre, guardião, marinheiro, que todos têm lugares assignalados, de modo que até o menino grumete e pagem não carecem delle, em fórma que nos lugares, que por esta ordem se distribuem e liberdades concedidas por Sua Magestade, se occupa toda a praça, aonde se podia metter fazenda nas náos que pagassem frete, donde nasce o pouco rendimento que dellas tem sua fazenda.

ALVIANO Estou já bem nessa causa, mas não nessa longa computação que ides fazendo.

BRANDONIO Faço-a pera provar minha tenção que o Brasil é mais rico e dá mais proveito á fazenda de Sua Magestade que toda a India; porque não me haveis de negar que pera as náos, que della vêm, virem carregadas das fazendas que trazem, se desentranha todo esse Oriente com se ajuntar a pimenta do Malabar, a canella de Ceylão, cravo de Maluco, massa e nós moscada da Banda, almiscre, benjoim, porcellana e sedas da China, roupas e anil de Cambaya e Bengala, pedraria do Balaguate e Bisnaga e Ceylão; por maneira que é necessario que se ajuntem todas estas cousas de todas estas partes pera as náos que vêm pera o Reino poderem vir carregadas, e se se não ajuntassem não viriam.

ALVIANO Isso é cousa clara que todos sabem.

BRANDONIO Pois o Brasil, e não todo elle, senão tres capitanias, que são a de Pernambuco, a de Tamaracá e a da Parahiba, que occupam pouco mais ou menos, no que dellas está povoado, cincoenta ou sessenta leguas de costa, as quaes habitam seus moradores, com se não alargarem pera o sertão dez leguas, e somente neste espaço de terra, sem adjutorio de nação estrangeira, nem de outra parte, lavram e tiram os portuguezes das entranhas della, á custa de seu trabalho e industria, tanto assucar que basta pera carregar, todos os annos, cento e trinta (* ) ou cento e corenta (** ) náos, de que muitas dellas são de grandissimo porte, sem Sua Magestade gastar de sua fazenda pera a fabrica e sustentação de tudo isto um só vintem, a qual carga de assucares se leva ao Reino e se mette nas alfandegas delle, onde pagam os direitos devidos a Sua Magestade, e se esta carga que estas náos levam se houvesse de carregar em outras da grandeza das da India, não bastariam 20 semelhantes a ellas pera a poderem alojar.

ALVIANO Posto que não posso negar o passar isso desse modo, todavia é de muito menos importancia, pera a fazenda de Sua Magestade, o direito que se lhe paga dos assucares de aquelle que arrecada das fazendas e drogas que vêm da India. (*) Riscado e escripto por cima (**) Riscado e escripto por cima oitenta. duzentas, com letra differente.

BRANDONIO Enganae-vos, porque nestas náos que carregam nas tres capitanias da parte do Norte que tenho dito, sem tratar das demais do Sul, devem de ir passando de quinhentas mil arrobas de assucares, dos quaes quero que sejam cem mil arrobas de assucar, a que chamam panellas. Todos estes assucares pagam de direito na alfandega de Lisboa, o branco e o mascavado a duzentos e cincoenta réis a arroba, e as panellas a cento e cincoenta réis a arroba, isto afóra o consulado (3 ), de que feita a somma vem a importar á fazenda de Sua Magestade mais de trezentos mil cruzados, sem elle gastar nem despender na sustentação do Estado um só real de sua casa, porquanto o rendimento dos dizimos, que se colhem na propria terra, basta pera sua sustentação. Ora, fazei a este respeito computação do que lhe rendem as mais capitanias do Sul, nas quaes entra a bahia de Todos os Santos, cabeça de todo este Estado, e despois desta feita formae uma conta de deve e ha de haver como de mercador, e de uma parte ponde o que Sua Magestade gasta em cada um anno com as náos que manda á India, soldos da gente de guerra e maritima, moradias de seus criados, mercês feitas a particulares, juntamente com o cabedal que manda pera a compra de pimenta, e de outra parte o que lhe ella rende, e juntamente o preço por que arrenda os direitos das náos que de lá vêm, e notae bem o que houver de avanço pera o igualardes com o rendimento que colhe do Brasil das tres capitanias referidas tão somente, e vereis comquanto excesso sobrepuja ao da India, e assim não hei mister mais prova pera corroborar minha verdade.

ALVIANO Parece muito esse rendimento, que quereis applicar ao Brasil, porque nem todos os assucares pagam esse direito por em cheio, pois sabemos que muitos não pagam nenhum, por gozarem da liberdade que Sua Magestade tem concedido ás pessoas que novamente fazem engenhos.

BRANDONIO Assim passa; mas essa liberdade, que Sua Magestade concede aos engenhos feitos de novo, não dura mais que por tempo de dez annos (4 ), e passados elles perece, e posto que comtudo sempre pagam menos direitos os senhores de engenhos e lavradores que carregam seus assucares por sua conta, são poucos os que fazem. E não vai a dizer nisso cousa de consideração, e pera semelhante quebra deixei de contar de industria na somma que acima fiz o rendimento dc páo Brasil, que se leva deste Estado das mesmas tres capitanias pera o Reino, que importa mais de corenta mil cruzados por anno, que os ministros de Sua Magestade cobram no Reino dos contratadores delle, e assim o rendimento das alfandegas do Estado, direitos que se pagam dos algodões e madeiras nas alfandegas do Reino, que importam em grandissimo pedaço, descompensada uma cousa de outra achareis que mais é o rendimento destas cousas que a diminuição da liberdade que apontastes.

ALVIANO Em verdade que tão persuadido estava em cuidar o contrario disso que tendes provado e mostrado claramente, que ainda agora me está titubiando o entendimento por me parecer sonho o que vos tenho ouvido; mas comtudo o que eu sei é que tenho visto em Portugal muitas casas grandissimas e homens de muita renda grangeada e adquirida com dinheiro, que adquiriram e ganharam na India, e não acho nenhum, e, se alguns, são poucos que tenham lá semelhantes casas e rendas com o dinheiro que levassem do Brasil.

BRANDONIO Isso é maior indicio de sua riqueza, porque os homens da India, quando de lá vêm pera o Reino trazem comsigo toda quanta fazenda tinham, porque não ha nenhum que tenha lá bens de raiz, e se os têm são de pouca consideração, e como todo o seu cabedal está empregado em cousas manuaes embarcam-nas comsigo, e do preço por que as vendem no Reino compram essas rendas e fazem essas casas; mas os moradores do Brasil toda a sua fazenda têm mettida em bens de raiz, não é possivel serem levados pera o Reino, e quando algum pera lá vai os deixa na propria terra, e desses deveis de conhecer muitos em Portugal, e assim não lhes é possivel deixarem cá tanta fazenda e comprarem lá outra, contentando-se mais de a terem no Brasil pelo grande rendimento que colhem della. E, pera concluirmos, nesta terra achareis muitos homens que têm a cincoenta, cento e ainda duzentos mil cruzados de fazenda, e na India muitos poucos destes, e, se os que vivem no Brasil, fossem mais curiosos, de maiores cousas poderiam lançar mão pera se fazerem ricos e Sua Magestade colher mais rendimento delle.

ALVIANO Folgarei em extremo que me digaes que cousas são essas que prometteis poderem dar tanto de si.

BRANDONIO Pouco disse em dizer que podia ainda este Brasil ser mais rico e dar mais rendimento pera a fazenda de Sua Magestade, se esse senhor e os de seu conselho quizeram pôr os olhos nelle, porque, se os puzessem, fôra tambem bastante o Brasil a fazer com que os Hollandezes e mais estrangeiros que navegavam para a India cessem de suas navegações e commercios, sem Sua Magestade dispender nisso um real nem se arrancar contra elles espada.

ALVIANO Se isso não fôr obrado por encantamento, pelas vias ordinarias não sei como possa ser.

BRANDONIO Sem encantamento se poderá dar á execução, quando Sua Magestade e os senhores do seu conselho se quizerem dispôr a isso.

ALVIANO Pois dizei-me o modo.

BRANDONIO Notorio é que os Hollandezes não armam pera a India á custa dos Estados, antes os mercadores o fazem á sua propria custa e despesa, aprestando as náos que pera lá navegam, de que o cabedal pera a fabrica dellas e mercadorias que hão de levar se ajuntam por muitas pessoas que nellas se interessam, mettendo uns mais e outros menos, segundo o muito ou pouco dinheiro com que se acham, de que se faz livro, no qual por partidas se declara com quanto cada um entrou, e feita a viagem, tornando a náo a salvamento, se vende a fazenda e do monte-mór se tiram os gastos, e do que resta se faz conta de a quantos por cento houve de ganho. E tantos fazem bons a cada um dos armadores, com se lhe tornar o cabedal que metteram accrescentado naquella conta.

ALVIANO Assim passa, porque um grande amigo meu, que assistiu em Frandes muitos dias, me affirmou que deste modo se fazem; mas isso que sympathia tem pera o Brasil poder impedir o commercio a essas gentes ?

BRANDONIO Muito grande, porque já sabemos que a principal mercadoria e de mais porte, que essas náos vão buscar á India, é a pimenta, porque o cravo, massa, nóz, porcellanas, beijoim e cousas semelhantes que tambem trazem são accessorias, e não servem pera o nervo de sua mercancia; porque muito pouca de cada uma destas basta pera fartar todas estas partes do Norte, attento que estes estrangeiros não podem trazer canella, roupas, nem anil, por não se acharem na parte onde elles commerceiam com os Indios. Assim que pimenta é a que querem, e pimenta a que vão buscar, e de pimenta tiram o proveito que têm da sua navegação.

ALVIANO Pois que é que quereis dizer nisso ?

BRANDONIO Digo que devia fazer Sua Magestade o que fez El-Rey D. Manoel de gloriosa memoria, pera impedir o trato da pimenta que se trazia por terra á Veneza por via do Cairo, donde se passava e vendia por toda a Europa (5 ).

ALVIANO Que é o que fez el-rei ?

BRANDONIO Despois de descoberta a navegação da India, querendo que a pimenta só corresse por mãos de Portuguezes, com se navegar della somente em suas náos pera Europa, pretendeu cerrar de todo aquelle commercio em Veneza, o que fez desta maneira: mandou pessoas confidentes que fossem áquella cidade, pera que se informassem com toda a verdade do custo que fazia um quintal de pimenta posto nella, e por quanto se devia vender pera tirarem ganho os que nella commerciavam por aquella via, e, despois de bem informado disto, mandou a Frandes feitores portuguezes, pera que lhe vendessem a sua pimenta que pera lá mandava por preço que, se por elle se vendesse a que vinha á Veneza, ficassem perdendo muito dinheiro os mercadores que nella contratavam, e desta maneira todos os que haviam mister ter pimenta concorriam a comprar a de el-rei, por se vender,mais barato, e como por semelhante preço não podiam dar os Venezianos a sua sem muito damno pelo custo que lhe fazia, cessaram de seu commercio.

ALVIANO Acabae já de vos desembuçar.

BRANDONIO Digo que toda a terra deste Brasil é tão caroavel de dar pimenta que, de por si sem beneficio algum, nasce grande cantidade della pelos campos de differentes castas, mas não daquella que vem da India, que deixa de dar por não se achar na terra semelhante semente, e, quando a houvesse, daria daquella sorte pimenta sem numero.

ALVIANO Não duvido disso, porque já sei bem que a terra é mui disposta pera produzir pimenta, em tanto que os passaros que a comem, indo a extercar a outra parte, ainda que seja sobre troncos de arvores, ahi nasce; mas é necessario que vos acabeis de declarar nesses argumentos que ides tomando.

BRANDONIO Foi-me necessario propo-los pera haver de vir a dizer o que pretendo, e é que Sua Magestade devia de mandar uma caravella á India, pera que somente lhe trouxesse de lá muita semente de pimenta em pipas ou em outra parte, onde mais accommodada viesse, e que a tal caravella passasse pelo Brasil, aonde a fosse entregando nas capitanias de Sua Magestade aos capitães-móres que a repartissem pelos moradores, obrigando-os a que a plantassem e beneficiassem, e desta maneira se colheria do Brasil mais pimenta do que se colhe na costa do Malabar.

ALVIANO E a que trazem as náos da India de ordinario não servirá tambem pera effeito de se plantar ?

BRANDONIO Não, porque essa, segundo se diz, é passada pela decoada e não pode nascer; e assim, como neste Brasil houvesse muita pimenta, The ficára custando a Sua Magestade pouco ou nenhum trabalho e menos despesa traspo-las em Portugal, donde á imitação de el-rei D. Manoel a poderia mandar vender por preço que ficassem os Hollandezes perdendo muito dinheiro, se vendessem a sua que vão buscar á India. A esse respeito e por esta maneira, como a essas gentes se lhe não seguisse proveito de seu commercio, não tinham pera que continuar com semelhante navegação, e se acabaria sem despesa nem sangue porfia, que tanto tem custado a Portugal, e Sua Magestade, mandando vender a sua pimenta mais barato, perdia pouco, se não ganhasse dinheiro, pelo menos custo que lhe havia de fazer em a levar pera o reino, e o menos preço por que a havia de comprar no Brasil.

ALVIANO Tendes proposto isso com tão apparentes razões, que não haverá quem duvide de haver de ser assim, antes me maravilho como vos não embarcaes pera o reino a dar esse alvitre a Sua Magestade, pois tanta utilidade se deve de seguir delle pera todo o estado da India.

BRANDONIO Já o pratiquei com um ministro que tinha grande lugar em sua fazenda, e com lhe parecer a traça maravilhosa, me respondeu que estava já tão introduzido em Portugal o modo da navegação da pimenta, que custaria muito trabalho o querer-se tratar agora de remover noutro modo; e assim como entendi ser aquillo mal velho no nosso Portugal que não leva remedio, desisti da minha pratica, e da mesma maneira o farei agora, deixando a cargo aos que lhe toca remediar semelhante necessidade, se o quizerem fazer.

ALVIANO Dizeis bem, que é erro querer emendar o mundo os que têm tão pequena parte nelle, como cada um de nós, e assim tornemos á nossa pratica que, se me não lembra mal, deve ser sobre o haverdes de mostrar as riquezas do Brasil, de que a principal tendes affirmado ser a lavoura dos assucares.

BRANDONIO Assim passa, porque o assucar é a principal cousa com que todo este Brasil se ennobrece e faz rico, e na lavra delle se tem guardado até o presente esta ordem: os capitães-móres, que são sesmeiros por Sua Magestade, cada um na capitania de sua jurisdicção, repartiram e repartam ainda agora as terras com os moradores, dando a cada um delles aquella cantidade, a que as suas forças e possibilidades são bastantes a grangear, e as pessoas a quem se dão semelhantes terras, quando ellas são capazes pera se fabricarem nella engenhos de fazer assucares, os fabricam, tendo cabedal pera o poderem fazer, e quando lhes falta, as vendem a pessoas que os possam fabricar por ser necessario muitas forças e cabedal pera os haverem de pôr em perfeição, porque um engenho dos de agua, como até agora se costumava de fazer, e ainda dos que chamam trapiches que móem com bois, fazem de despesa, feito e fabricado, ao redor de dez mil cruzados pouco mais ou menos.

ALVIANO Parece-me que quereis dizer que ha mais modos de engenhos pera fazer assucares que os de agua e trapiches que moem com bois.

BRANDONIO Isso quero dizer; porque os de agua se alevantam ao longo de rios caudalosos, e ainda fazem grandes tanques pera represa della, pera assim poderem moer com mais força dagua, e nestes taes engenhos, despois de a canna de assucar moida entre dous grandes eixos que fazem mover uma roda, em que fere a agua com força, se expreme o bagaço que dalli sae debaixo de uns grandes paos, a que chamam gangorras, que fazer apertar com força de bois, aonde larga e lança de si o tal bagaço todo o summo que a canna tinha, o qual se ajunta em um tanque, e dalli o lançam em grandes caldeiras de cobre, aonde se alimpa, coze e apura á força de fogo, que por debaixo lhe dão em umas fornalhas, sobre que estão assentadas, sendo necessariao pera este assucar se alimpar e fortificar melhor, lançar-lhe dentro decoada que se faz de cinza. E outros engenhos se fazem sem agua, e estes são os trapiches, que disse, os quaes moem a canna por uma invenção de rodas que alevantam pera o effeito tirada de bois e no mais de fazer o assucar se guarda a mesma ordem que tenho dito. Mas agora novamente se ha introduzido uma nova invenção de moenda (6 ), a que chamam palitos, pera a qual convem menos fabrica, e tambem se ajudam pera moenda delles de agua e de bois, e tem-se esta invenção por tão boa que tenho pera mim, que se extinguirão e acabarão de todo os engenhos antigos, e somente se servirão desta nova traça.

ALVIANO Toda cousa que se faz com menos trabalho e despesa se deve de estimar muito, e pois nesse modo dos palitos se alcança isto, não duvido que todos pretendam usar delles; mas folgarei de saber a ordem que ha para se fazer um pão de assucar tão alvo e fermoso, como se leva a Portugal e aqui o vimos.

BRANDONIO A ordem é esta: despois do assucar limpo e melado nas caldeiras, se passa umas tachas tambem de cobre, aonde á força de fogo o fazem pôr no ponto necessario pera haver de coalhar e criar corpo, e dalli se lança em uma formas de barro, dentro nas quaes se encorpora e endurece, e despois de estar frio o levam a uma casa muito grande, que só pera esse effeito se prepara, a que dão o nome de casa de purgar e nella sobre taboado que está furado se assentam as taes formas, com lhes abrirem um buraco que tem por baixo, por onde vão purgando o mel sobre correntes do mesmo taboado, que pera o effeito lhe põem por baixo, e o mel que por essa maneira vai cahindo das formas se ajunta todo em um tanque grande, do qual se faz despois o retame, e ainda outro modo de assucares, e que chamam batidos e como as formas estão despedidas de todo o mel lhe lançam em cima barro desfeito e agua, o qual é bastante pera dar ao assucar a brancura que nelle vemos.

ALVIANO E como é possivel que o barro, que, por rezão o devia sujar e fazer preto, o embranqueça, é pera mim um segredo difficultoso de entender.

BRANDONIO Nem o entenderam muitos annos os primeiros que lavraram assucares, porque do modo que primeiramente o faziam desse o gastavam, até que uma gallinha aclarou este segredo, a qual acaso voando com os pés cheios de barro humido, se poz sobre uma forma cheia de assucar, e naquella parte aonde ficou estampada a pegada se fez todo o circuito branco, donde se veio a entender o segredo e virtude que tinha o barro para embranquecer, e se pôz. em uso (7 ).

ALVIANO Não foi má mestra a gallinha pera mostrar por esse modo a cura da negridão do assucar, pois ha tanta differença na valia do alvo ao negro, e assim, se o engenho fizer muita cantidade do bom,. não deixará de dar proveito ao senhor delle.

BRANDONIO Nos engenhos de fazer assucares ha muita differença dos bons aos máos; porque aquelles que gozam de tres cousas, quando seus senhores têm fabrica bastante, são summamente bons, as quaes tres cousas consistem em ter muitas terras e boas pera a planta dos cannaviaes, agua bastante que não falte pera a moenda e lenha em grandes matas tambem em cantidade, de modo que nem a canna nem a lenha fique distante do engenho, antes tão accommodada que se acarrete uma cousa e outra com facilidade, e quando os taes engenhos são desta calidade, não lhe faltando, como tenho dito, a fabrica necessaria, costumam a fazer em cada anno a seis, sete, oito e ainda a dez mil arrobas de assucar macho, e fora os meles, que são retames e batidos, que sempre chegam ao redor de tres mil arrobas; quando se sabe aproveitar este assucar, costuma a ser um muito bom e outro somenos, e algum summamente máo, segundo os mestres que o fazem são bons ou ruins, e os outros engenhos de menos porte costumam a fazer a cinco e a quatro, e ainda a tres mil arrobas de assucar, e os taes são de pouco proveito pera seu dono.

ALVIANO E que fabrica é necessario que tenha um desses engenhos que costumam fazer muito assucar ?

BRANDONIO E ' necessario que tenha 50 peças de escravos de serviço bons, 15 ou 20 juntas de bois com seus carros necessarios apparelhados, cobres bastantes e bem concertados, officiaes bons, muita lenha, formaria, grande cantidade de dinheiro, além de serem muito liberaes em darem a particulares dadivas de muita importancia. E eu vi ja affirmar a homens mui experimentados na côrte de Madrid que se não traja melhor nella do que se trajam no Brasil os senhores de engenhos, suas mulheres e filhas, e outros homens afazendados e mercadores. E pera prova disto quero dar sómente uma assás bastante, a qual é que na capitania de Pernambuco ha uma casa de misericordia, a qual faz de despesa em cada anno na obrigação della treze e quatorze mil cruzados pouco mais ou menos; estes são todos dados de esmolas pelos moradores da mesma capitania, com não ter a casa de renda cousa que seja de consideração, e é tanto isto assim que os provedores, que succedem pera serviço della em cada um anno, gastam de sua bolsa mais de tres mil cruzados, e as demais capitanias todas têm misericordias, nas quaes se gasta tambem muito dinheiro; mas esta de Pernambuco se faz com mais excesso.

ALVIANO Não é pequeno argumento esse pera por elle se poder considerar a muita riquesa do Brasil; e pois tendes dito o que basta da primeira condição dellas, que quizestes attribuir a toda a provincia, passemos á segunda que quereis que seja a mercancia.

BRANDONIO Muitos homens têm adquirido grande cantidade de dinheiro amoedado e de fazenda no Brasil pela mercancia, posto que os que mais se avantajam nella são os mercadores que vêm do reino pera esse effeito, os quaes commercĉam por dous modos, de que um delles é que vêm de ida por vinda, e assim despois de venderem as suas mercadorias fazem o seu emprego em assucares, algodões e ainda ambar muito bom e gris, e se tornam pera o reino nas mesmas náos, em que vieram ou noutras. O segundo modo de mercadores. são os que estão assistentes na terra com logea aberta, colmadas de mercadorias de muito preço, como são toda sorte de louçaria, sedas riquissimas, pannos finissimos, brocados maravilhosos, que tudo se gasta em grande cópia na terra, com deixar grande proveito aos. mercadores que os vendem.

ALVIANO E esses mercadores, que estão assistentes na terra com suas lo-- geas abertas, mandam por ventura vir essas fazendas do reino, ou as compram a outras pessoas que de lá as trazem ?

BRANDONIO Muito as mandam vir do reino, mas a maior parte delles as compram a outros que as trazem de lá, com lhe darem a corenta e a cincoenta por cento de avanço a respeito do preço, por que as compraram, segundo a sorte e a calidade das mercadorias, ou a falta ou abundancia que ha dellas na terra, e ainda destes mercadores. se formam outros de menos porte.

ALVIANO E de que condição são esses ?

BRANDONIO Ha muitas pessoas que vivem sómente com se fazerem riquissimas com comprarem estas fazendas aos mercadores assistentes nas villas ou cidades, e as tornarem a levar a vender pelos engenhos e fazendas que estão dalli distantes, com ganharem muitas. vezes nellas a mais de cento por cento. E eu vi na capitania de Pernambuco a certo mercador fazer um negocio, posto que o modo delle não approvo, pelo ter por illicito, o qual foi comprar pera pagar de presente uma partida de peças de escravos de Guiné por cantidade de dinheiro e logo no mesmo instante, sem lhe entrarem os taes escravos em poder, os tornou a vender a um lavrador fia- 14i dos por certo tempo que não chegava a um anno, com mais de 85 por cento de avanço (8 ).

ALVIANO A isso chamam, onde eu nasci, em bom portuguez, onzena; e comtudo é cousa extranha o haver-se de ganhar tanto dinheiro na propria terra de uma mão para a outra, sem intervir nenhum risco.

BRANDONIO Pois assim passa. E ' tanto isto assim, que desta sorte de mercadores, e dos que têm suas logeas abertas, ha muitos que têm grossas fazendas de engenho e lavoura na propria terra, e estão nella assistentes e alguns casados.

ALVIANO Não têm pequena habilidade os que se sabem conservar desse modo na terra alheia.

BRANDONIO Haveis de saber que o Brasil é praça do mundo, se não fazemos aggravo a algum reino ou cidade em lhe darmos tal nome; e juntamente academia publica, onde se aprende com muita facilidade toda a policia, bom modo de fallar, honrados termos de cortezia, saber bem negociar, e outros attributos desta qualidade.

ALVIANO Antes isso devia de ser pelo contrario; pois sabemos que o Brasil se povoou primeiramente por degredados e gente de máo viver, e pelo conseguinte pouco politica; pois bastava carecerem de nobreza para lhes faltar a policia.

BRANDONIO Nisso não ha duvida. Mas deveis de saber que esses povoadores, que primeiramente vieram a povoar o Brasil, a poucos lanços, pela largueza da terra deram em ser ricos, e com a riqueza foram largando de si a ruim natureza, de que as necessidades e pobrezas que padeciam no Reino os faziam usar. E os filhos dos taes, já enthronisados com a mesma riqueza e governo da terra despiram a pelle velha, como cobra, usando em tudo de honradissimos termos, com se ajuntar a isto o haverem vindo depois a este Estado muitos homens nobilissimos e fidalgos, os quaes casaram nelle, e se liaram em parentesco com os da terra, em fórma que se ha feito entre todos uma mistura de sangue assás nobre. E então, como neste Brasil concorrem de todas as partes diversas condições de gente a commerciar, e este commercio o tratam com os naturaes da terra, que geralmente são dotados de muita habilidade, ou por natureza do clima ou do bom céo, de que gozam, tomam dos extrangeiros tudo o que acham bom, de que fazem excellente conserva pera a seu tempo usarem della.

ALVIANO Saber imitar e furtar as habilidades áquelles, que as têm bôas, é tomar a clava das mãos a Hercules.

BRANDONIO Assim o fazem os do Brasil, em tanto que os filhos de Lisboa e os das mais partes do Reino vêm a aprender a elle os bons termos, com os quaes se fazem differentes na policia, que dantes lhes faltava. Mas parece-me que havemos cortado já muito o fio de nossa pratica, que era de tratarmos do proveito que a mercancia dá neste Brasil aos que della usam.

ALVIANO Nem estoutra breve em que nos distrahimos deve de desagradar aos que a ouvirem, principalmente aos Brasilienses; mas, deixando-a de parte, resta que me digaes, se no Brasil ha mais commercio que pera o Reino ?

BRANDONIO Sim, ha; porque se faz muito grande pera Angola e pera o Kio da Prata. A ' Angola se mandam náos com muitas fazendas, que de lá tornam carregadas de escravos, por que se commutam, deixando grande proveito aos que nisto negociam; e ainda as náos, que pera lá navegam em direitura do Reino, aportam na capitania do Rio de Janeiro, aonde carregam de farinhas, mantimento da terra, por alli se achar mais barata, a qual levam a vender á Angola a troco de escravos e de marfim que de lá trazem em muita cantidade (9 ).

ALVIANO Isso é quanto ao tocante á Angola; mas pera o Rio da Prata folgarei que me digaes que modo de negocio se faz.

BRANDONIO Do Rio da Prata costumam a navegar muitos peruleiros em caravelas, e caravelas de pouco porte, onde trazem somma grande de patacas de quatro e de oito reales, e assim prata lavrada e por lavrar, em pinhas e em postas, ouro em pó e em grão, e outro lavrado em cadeias, os quaes aportam com estas cousas no Rio de Janeiro, bahia de Todos os Santos e Pernambuco, e commutam as taes cousas por fazendas das sortes que lhes são necessarias, deixando toda a prata e ouro que trouxeram na terra, donde tornam carregados das taes fazendas a fazer outra vez viagem para o Rio da Prata (10 ). E ainda os moradores assistentes na terra se interessam tambem nesta navegação com não pequena utilidade, e dos taes peruleiros se deixam tambem ficar alguns na terra, que dão o seu dinheiro por letra, ou compram assucares, ou o levam comsigo pera Portugal.

ALVIANO Não é máo o commercio de que se colhe por fructo ouro e prata; mas toda essa mercancia, de que tendes tratado, de que se tira tanto proveito, parece que se vem a resumir em mão dos estrangeiros, e dos taes é o proveito, e não dos naturaes da terra.

BRANDONIO Assim passa pela maior parte; porque os naturaes da terra se occupam no grangeamento dos seus engenhos e no beneficio de suas lavouras, sem quererem tratar de mercancias, posto que alguns o fazem, contentando-se sómente de navegar os seus assucares pera o Reino, e mandar de lá vir o provimento que lhes é necessario pera suas fazendas, deixando, no de mais, a porta aberta aos mercadores que exercitam seu negocio com grande utilidade; em tanto que, por excellencia, contarei uma cousa como testemunha de vista. No anno de 92 veio um mercador de pouco porte com uma caravela a Pernambuco, em direitura do Algarve, carregada de alguns vinhos de Alvor, pouco azeite, cantidade de passas e figos, com mais outras cousas que de lá se costuma trazer, em que metteu de cabedal setecentos e trinta mil réis, por conta de carregação, que eu vi. Esse homem esteve seis mezes na terra, nos quaes vendeu sua fazenda a dinheiro de contado, e fez della perto de sete mil cruzados, que empregou em assucar branco excellente, comprado a seiscentos e cincoenta réis a arroba, nos quaes assucares, pela barateza por que os comprou, devia de dobrar outra vez o dinheiro no Reino.

ALVIANO Terra, donde tanto proveito tiram os que nella negocêam, confesso que não póde deixar de ser muito rica.

BRANDONIO Sabeis em quanto é rica que com só uma cousa vos representarei sua riqueza, a qual é que ha um homem nobre particular neste Brasil, morador na capitania da Parahiba (11 ), o qual, com não possuir mais de um só engenho de fazer assucar, ousou prometter a todas as pessoas que fizessem casas na cidade, que então de novo se fabricava, sendo de pedra e cal de sobrado a vinte mil réis por cada morada de casas, e a dez mil reis, se fossem terreas; e assim o cumpriu por muito tempo, com se haverem alevantado muitas moradas, sem disso se lhe conseguir algum proveito mais do desejo que tinha de ver augmentar a cidade. E tratou mais (com sair com isso ) de fazer a casa da Santa Misericordia da propria cidade, cousa de grandissimo custo pela grandeza e nobreza do edificio do templo, que tem já quasi acabado; e assim, com este exemplo, me quero passar a tratar da terceira cousa, com que os moradores deste Estado se fazem ricos, com tirarem della muito proveito, que é o pão do Brasil.

ALVIANO Assim vos peço que o façaes.

BRANDONIO O pão do Brasil, de que toma nome toda esta provincia, como já disse, larga de si uma tinta vermelha, excellente para tingir pannos de lã e seda, e se fazer della outras pinturas e curiosidades; o qual, posto que se acha por todo este Estado, o mais perfeito e de maior valia é o que se tira das capitanias de Pernambuco, Tamaracá e Parahiba, porque sobrepuja, com muito excesso de bondade, aos mais páo desta calidade, que se dá pelas mais partes (12 ). E assim sómente do que se tira das tres capitanias referidas se faz caso, e se leva pera o Reino, aonde se vende a quatro, e ás vezes a cinco mil reis o quintal, segundo a falta ou abundancia que ha delle.

ALVIANO Pois, dizei-me de que modo tirão os moradores deste Brasil proveito de semelhante páo, e quanto importa a fazenda de Sua Magestade ?

BRANDONIO O páo do Brasil é droga sua, e como tal defeso; de modo que ninguem póde tratar nelle senão o mesmo Rei ou os que tiverem licença sua por contrato. Antigamente era licito negociarem todos nelle, com pagarem á fazenda de Sua Magestade um cruzado por quintal de sahida; mas por se entender que se usava mal desta ordem que estava dada, se revogou pera que corresse o negocio por contrato, como hoje em dia corre, e se paga de arrendamento por elle no Reino á fazenda de Sua Magestade quarenta mil cruzados pouco mais ou menos, com declaração que os contratadores não poderão tirar em cada um anno deste Estado, especialmente das capitanias que tenho apontado, mais de dez mil quintaes de páo; e, quando um anno tirassem menos, o poderão perfazer no outro.

ALVIANO Não entendia que o páo do Brasil era cousa de tanto rendimento pera a fazenda de Sua Magestade, sem na sustentação delle gastar um só real, gastando muitos cruzados na India por adquirir as demais drogas.

BRANDONIO Todo o Brasil rende pera a fazenda de Sua Magestade sem nenhuma despesa, que é o que mais se deve de estimar.

ALVIANO E os moradores, que proveito tiram desse páo ?

BRANDONIO O modo é este: vão-no buscar doze, quinze, e ainda vinte leguas distante da capitania de Pernambuco, aonde ha o maior concurso delle; porque se não se póde achar mais perto pelo muito que é buscado, e alli, entre grandes matas, o acham, o qual tem uma folha miuda e alguns espinhos pelo tronco; e estes homens occupados neste exercicio, levam comsigo pera a feitura do páo muitos escravos de Guiné e da terra, que, a golpes de machado, derribam a arvore, á qual despois de estar no chão, lhe tiram todo o branco; porque no amago delle está o brasil, e por este modo uma arvore de muita grossura vem a dar o páo, que a não tem maior de uma perna; o qual, despois de limpo se ajunta em rumas, donde o vão acarretando em carros por pousas (13 ), até o pôrem nos passos (14 ), pera que os bateis possam vir a tomar.

ALVIANO Não deve de dar pequeno trabalho o fazer esse páo por esse modo; e se o proveito não é muito ficará sendo cara a mercancia.

BRANDONIO Sim, dá grande proveito; porque ha muitos homens destes que fazem brasil, que colhem em cada um anno a mil e a dous mil quintaes delle, que todos acarretam com seus bois; e despois de posto no passo o vendem por preço de sete e oito tostões o quintal, e ás vezes mais, no que vêm a grangear grande copia de dinheiro, e por este modo se tem feito muitos homens ricos.

ALVIANO Se isso passa dessa maneira, poderemos dizer que dá Deus aos moradores do Brasil ouro e prata pelos campos, e que de cousa, que elles não plantaram, nem grangearam, colhem fructo.

BRANDONIO Sabeis quanto é assim, que ainda vos poderei affirmar que se acham outras cousas de mais importancia, sem lhes custar nenhum trabalho nem industria.

ALVIANO E de que modo póde succeder isso ?

BRANDONIO Deste: que muitos homens se fazem ricos neste Brasil com somma de ambar (15 ), que acham pelas praias, uns em muita, e outros em menos cantidade; em tanto que houve certo morador que achou tanta cópia delle, que a muita cantidade lhe fez duvidar o poder ser o que tinha achado ambar, e o reputou por breu ou pez, e como tal se poz a brear com elle uma barca, que tinha posta em estaleiro pera o effeito, e continuou com a obra até que alguns compadres seus, que o viram occupado nella, o desenganaram do erro que fazia, e, com ter já gastado grande cantidade de ambar, ainda se ficou com muito.

ALVIANO Isto parece dos contos do Trancoso (16 ) e, como tal, não me persuado a dar-lhe credito.

BRANDONIO Não é senão pura verdade, e passou da maneira que o tenho relatado. E porque não mendiguemos semelhantes acontecimentos por casas alheias, vos contarei um que me succedeu, e se duvidardes delle, em tempo me acho de poder verificar minha verdade com testemunhas dignas de fé. E o caso é este: estando eu no anno de oitenta e tres assistente na capitania de Pernambuco, na villa de Olinda, ao tempo de partir uma frota pera o Reino, que me trazia assás occupado com o haver de escrever pera lá, chegou um criado meu, a quem trazia occupado no recebimento dos dizimos dos assucares, que então estavam a meu cargo, chamado por nome o Comilão, e em grande segredo, depois de nos mettermos ambos em uma camara, me disse que, indo a buscar o dia antecedente um pouco de peixe a uma rede que pescava no rio do Extremo (17 ), achara na praia grande cantidade de certa cousa, que logo me amostrou, com me metter na mão uma bola daquillo que dizia haver achado, a qual pesaria, segundo minha estimação, de seis para sete arrateis, e que do semelhante era tanta a cantidade a que estava na praia, junto dagua, que gastaram elle e dous negros, que comsigo levava, mais de tres horas em o acarretarem em uma fôrma, que fôra de assucar, e dous cabaços, até pôrem tudo desviado da praia e caminho entre alguns mangues, e que elle junto fazia um arrezoado monte. Eu era então novo na terra, e não havia ainda visto nella nenhum ambar, posto que em Portugal me passára pela mão algum; mas, como era ambar gris, que vem da India, dava maravilhoso cheiro com ser branco, e pelo contrario aquillo, que me o mancebo dizia haver achado, era uma cousa negra viscosa, que tinha o cheiro de azeite de peixe, e por esse respeito cobrei tanto asco de o ter nas mãos, que lancei a bola pela janella fóra entre umas ramas crescidas, ficando-me somente entre os dedos um pequeno papel em que o apertára, cousa de tres para quatro onças, as quaes acaso, por me despojar dellas, lancei dentro na gaveta de um escriptorio que tinha aberto. E despedi o mancebo com lhe dizer que não tinham pera que fazer caso daquillo, que dizia haver achado, porque devia de ser alguma immundicie que sae á praia. Com isto se foi o pobre descuidado do muito que se lhe ia de entre as mãos. Passaram-se tres annos, dentro dos quaes veio a esta terra do Reino um parente meu de muita obrigação, o qual querendo fazer volta outra vez pera lá, me foi necessario dar-lhe um papel de importancia, pera que o levasse comsigo, o qual não achava, e por esse respeito o busquei por todas as gavetas do escriptorio muito de espaço, é em uma dellas fui dar com o papel envolto naquella cousa que alli tinha lançado. E como com o tempo tinha já gastado o ruim cheiro de azeite de peixe e cobrado outro muito bom, mostrou claramente ser ambar, e de se achar alli, estive confuso por me não alembrar quando ou de que maneira o havia mettido naquella gaveta, ou donde me viera; todavia, examinando bem a memoria, vim a cahir no que havia precedido com não pequeno pezar. E imaginando poder ainda dar remedio ao que já o não tinha, mandei chamar logo o descobridor, que então era casado, e dando-lhe conta do que passava, faltou pouco pera se enforcar; todavia nos puzemos a cavallo, indo a parte onde elle achara o ambar, com a qual elle já mal atinava, e por fim não achamos cousa nenhuma, com cahir na conta de que os caranguejos, aves, e mais immundicies o deveriam ter comido.

ALVIANO Todavia esse foi extranho caso, e bem digno de se sentir a perda de tão grande haver, que não crêra haver passado desse modo, senão affirmasseis com tantas veras; mas esse ambar como podia ser preto ? porque tenho pera mim que todo é branco e pardo.

BRANDONIO Neste nosso Brasil ha dous modos de ambar: um é branco e gris, que se acha na costa de Jaguaribe, o qual por ser tal se vende a onça delle a quatro mil réis e ás vezes por mais; o outro é negro, que se acha desde Pernambuco até a Bahia, posto que tambem sahe do branco; mas o preto val de tres pera quatro cruzados a onça.

ALVIANO Tão sentido estou do que me contastes haver-vos succedido, que não quero ouvir fallar mais em ambar; e assim nos passemos a tratar da quarta condição da riqueza do Brasil, pela ordem que as levaes enfiadas.

BRANDONIO Todavia, antes de começar a tratar o que me perguntaes, vos hei de contar uma graça ou historia que succedeu, ha poucos dias, neste Estado sobre o achar do ambar. Certo homem ia a pescar pera a parte da capitania do Rio Grande, em uma enseada que alli faz a costa, e querendo se metter em uma jangada pera o effeito, The faltava uma pedra de que pudesse fazer fateixa, e lançando os olhos pela praia viu uma, que, ao seu parecer, teve por accommodada pera isso, e, tomando-a, atou nella o cabo, e se metteu na jangada pera ir fazer sua pescaria; e estando já na parte que queria, porque o vento fazia desgarrar a jangada do porto, lançou a sua fateixa ao mar, a qual, como se fôra de cortiça, andava sobre agua; e, vendo que lhe não aproveitava a diligencia que tinha feito com aquella fateixa, pois nadava, tornou pera terra ao tempo que chegava á praia um seu amigo, tambem pera haver de pescar com outra jangada, e dando-lhe conta do que lhe havia succedido com aquella pedra que nadava, o outro, que devia ser mais trefego, lhe disse que não tomasse por isso pena, porquanto elle se achava indisposto, e não determinava de pescar, que alli tinha a sua fateixa de que se podia servir. Aceitou-lhe o outro o offerecimento, e com ella se foi á sua pescaria, deixando a pedra nadadora nas mãos do que novamente chegára, que logo conheceu ser ambar, e tomando ás costas se recolheu e fez-se invisivel com ella, aproveitando-se de sua valia, porque pesava quasi uma arroba.

ALVIANO Não foi máo lanço esse; e posto que a riqueza se estrebuxe pelos homens por venturas, se é licito poder-se dizer assim, pera toda esta cousa de haver, principalmente pera o achar do ambar se requer grandissima; e, porque ainda estou maguado do que me contastes, vos peço que torneis ao fio da vossa narração.

BRANDONIO Parece-me que disse que o quarto modo, que havia no Brasil, pera se fazerem ricos seus moradores eram os algodões e madeiras; pelo que tratarei primeiro dos algodões, que já foram tidos em mais reputação, e deram mais proveito aos que nelle tratavam do que de presente dão (18 ). E qual é a causa disso ?

Alviano

BRANDONIO Haver muito em Veneza e em outras partes, com que se abate o que levam do Brasil; posto que a terra é tão caroavel de o produzir, que em qualquer parte se colhe grande cantidade de algodão. Planta-se de semente, e em breve tempo leva fructo, o qual se colhe depois de estar maduro e de vez, e tirado do coculo (19 ), aonde se cria, o põem em rimas, e deste modo se chama algodão sujo, o que se aparta da semente é o limpo. E pera se haver de apartar della usam de uma invenção de dous eixos, que andam á roda, e passado por elles o algodão larga uma parte, que é a por onde se mette a semente, e pela outra vai lançando por entre os eixos o algodão, que se costumava a vender na terra a dous mil réis a arroba, com deixar muito proveito aos que o lavram, pelo pouco custo que na lavoura delle faziam e no reino se vendia a quatro mil réis a arroba, mas já agora, pelo respeito que disse, se vende tanto em uma parte como em outra por muito menos preço.

ALVIANO E de que modo se leva esse algodão pera o Reino ?

BRANDONIO Levam-no dentro em grandes saccos, que pera esse effeito fazem de angeo, onde se mette mui bem socado, de modo que a saca fica dura e tesa; e, como está apertado, não importa que o levem pera o Reino sobre a coberta dos navios, porque a chuva lhe não faz damno. E com isto me parece que tenho dito o que basta dos algodões, dos quaes tambem neste Brasil se faz muito bom panno de serviço.

ALVIANO Pois passemos a tratar das madeiras, que deve de ser cousa de mais importancia.

BRANDONIO Certamente que estimara muito não me metter em semelhante trabalho, pelo muito que ha que dizer acerca dessa materia; porque por cada parte que ponho os olhos, vejo frondosas arvores, entrebastecidas matas e intrincadas selvas, amenos campos, composto tudo de uma doce e suave primavera; porquanto, em todo o decurso do anno, gozam as arvores de uma fresca verdura, e tão verdes se mostram no verão como no inverno, sem nunca se despirem de todo de suas folhas, como costumam de fazer na nossa Espanha; antes, tanto que lhe cahe uma, lhe nasce immediatamente outra, campeando a vista com formosas paizagens, de modo que as alamedas de alemos e outras semelhantes plantas, que em Madrid, Valhadolid e em outras villas e lugares de Castella se plantam e grangeam com tanta industria e curiosidade, pera formosura e recreação dos povos, lhes ficam muito atraz e quasi sem comparação uma cousa da outra; porque aqui as matas, e bosques são naturaes, e não industriosos, acompanhados de tão crescidos arvoredos, que, além de suas tapadas frescas folhas defenderem aos raios do sol poder visitar o terreno de que gozam, não é bastante uma flecha despedida de um teso arco, por galhardo braço, a poder sobrepujar a sua alteza; e destas semelhantes plantas e arvores ha tantas e diversas castas que se embaraçam os olhos na contemplação dellas, e sómente se satisfazem com dar graças a Deus de as haver criado daquella sorte. Donde certamente cuido que se neste Brasil houvera bons arbolarios, se poderiam fazer da qualidade e natureza das plantas e arvores muitos volumes de livros maiores que os de Dioscorides; porque gozam e encerram em si grandissimas virtudes e excellencias occultas, e enxerga-se o seu muito em algum pouco dellas, de que nos aproveitamos.

ALVIANO Por essa maneira temos no Brasil outros novos campos de Thesalia; porque tendes encarecido os seus com tão efficazes palavras, representando nelles tantas grandezas e excellencias, que me vem desejo me transformar em um agreste pastor, sómente pera poder gozar de tanta frescura.

BRANDONIO Não vos fôra mal, quando assim o fizesseis, porque em tudo quanto tenho dito fico eerto a perder de vista pera o muito que podera dizer.

ALVIANO Confesso que esses campos terão essa amenidade que representaes, mas nunca ouvi dizer que as plantas, que por elles se produzem, gozem de tantas virtudes medicinaes de que os fazeis abundantes.

BRANDONIO Não me quero distrair em mostrar a verdade do que digo em contrario dessa vossa opinião; porque seria metter-me em materia de que a sahida fôra difficultosa. Só vos direi dous exemplos, que experimentei e vi por proprios olhos, pelos quaes ficareis entendendo o mais que podera relatar; dos quaes o primeiro é que, tendo eu, em minha casa, uma mulatinha de pouca idade, que nella me nasecu, a quem queria muito pela haver criado, um escravo meu, com animo diabolico, estimulado de a menina me descobrir um furto, que elle havia feito, lhe deu peçonha, de tal sorte que em muito breve espaço inchou toda com uma côr denegrida, e, com apressasado resfolego, escumava pela bocca, os dentes cerrados, e olhos em alvo, mostrando nisto e em outras cousas todos os signaes de morte.. Vendo eu a menina em tal estado, além de ficar pezaroso em extremo, imaginei, com firme presupposto, ser o accidente causado por peçonha, e que o autor de lh'a dar devia de ser o proprio escravo, que lhe havia dado, porque tinha entre os taes nome de feiticeiro e arbolario. Pelo que fiz lançar mão delle, affirmando-lhe que não teria mais vida que em quanto a menina gozava della, porque sabia de certo haver-lhe elle dado peçonha, com lhe dizer mais. e ainda mostrar que o queria fazer, que o havia de passar por entre os eixos do engenho; por tanto que procurasse com brevidade dar remedio ao mal que tinha feito. Pôde tanto o temor destas ameaças com elle, que se obrigou a curar a enferma, á condição que The havia de dar licença pera poder ir ao matto buscar algumas hervas pera o effeito. Consenti no que me pedia, mas com o mandar aljavado com outro escravo ladino dos da terra, a quem encommendei em segredo que notasse bem a herva que colhia pera despois a ficar conhecendo; mas o outro foi tão matreiro que, por se guardar disso, colheu muitas e diversas hervas, entre as quaes o fez a de que tinha necessidade; em fórma que o outro aljavado, que com elle ia, não pôde atinar que herva era a de que se havia de aproveitar. Tornaram ambos aonde eu os esperava, e o arbolario trazia já a herva desfeita entre as mãos e mastigada com os dentes; e em chegando, não fez mais do que ir-se á atossigada e lançar-lhe o sumo della por dentro da bocca, que lhe abriu com uma colher, e juntamente pelos ouvidos e narizes, fazendo mais esfregação com ella nos pulsos e juntas do corpo, ó cousa maravilhosa ! que no mesmo instante abriu a menina os olhos e bocca, e após isso, purgando grandemente por baixo e por riba, se lhe começou a desinchar corpo, e dentro de um dia esteve sã como dantes. E eu extranhamente magoado de não poder conhecer a herva, porque nunca pude acabar com o escravo, nem por ameaças nem por dadivas que lhe prometti, que m'a amostrasse: sómente em- um pequeno pedaço della, que lhe tomei dentre as mãos, enxerguei que era uma herva cabelluda.

ALVIANO Houvera-o eu de obrigar com tormentos, porque antidoto tão preservativo e de tanta virtude era bem que fôra conhecido do mundo.

BRANDONIO Nada bastou com o escravo. O outro exemplo é que um escrave dos de Angola, de pouca importancia, vi tomar com as mãos muitas cobras peçonhentissimas, e ajunta-las comsigo, as quaes, posto que o mordiam por muitas partes, lhe não faziam as taes mordeduras damno; sendo assim que, em outras pessoas, as de semelhantes cobras matavam em vinte e quatro horas. Deu-me maravilha o sucecsso, e imaginei que devia de ser aquillo obra de palavras ou força de encantamento; mas todavia me desenganei que nem uma cousa nem outra era, porque, grangeando eu a vontade do negro com dadivas, me veio a mostrar umas raizes e outra herva, dizendo-me que toda pessoa que trouxesse untadas as juntas do sumo daquella raiz, despois de bem mastigada na boca, podia com muita seguridade tomar nas mãos quantas cobras quizesse, sem temor de que a sua mordedura lhe fizesse damno por muito peçonhenta que a cobra fosse; e assim o experimentei, e fiz experimentar, e se experimenta ainda até o dia de hoje entre os meus escravos. A herva que mais me deu era pera se haver de curar com ella aos que fossem mordidos de qualquer cobra, sem o preservativo que tenho dito; porque untado e bem esfregado com ella e com o seu sumo, o lugar da mordedura, com outras diligencias que o escravo fazia de esfregações, sarava, como sararam infinidades de homens mordidos de semelhantes bichas peçonhentissimas com tanta facilidade como se foram mordidos de uma abelha. E porque este negro é morto, alguns escravos meus usam da mesma herva com grande utilidade.

ALVIANO Pois haveis-me de fazer mercê de mandar a esses vossos escravos que me dêm uma pequena dessa raiz e herva que as quero trazer sempre comigo pera o que succeder; mas folgarei de saber se a virtude da raiz e herva se extende a mais que a ser antidoto contra a peçonha da cobra.

BRANDONIO Não o tenho ainda experimentado por negligencia minha; mas, assim como ha neste Brasil semelhantes preservativos contra a peçonha, tambem ha muitas arvores e plantas que a dão finissima, de que os negros de Guiné se aproveitam com matarem de ordinario muitos dos seus semelhantes com ella.

ALVIANO E quem mostrou a esses escravos o segredo dessa peçonha ?

BRANDONIO Da sua terra vieram mestres della, e nesta fazem muito mal aos moradores com lhe matarem seus escravos. Mas parece-me que nos imos desviando de nossa pratica, que era havermos de tratar do modo que os habitantes deste Brasil se fazem ricos pela madeira, o que succede com lavrarem e serrarem muita, assim pera se fazerem caixas, em que encaixam os assucares, como muitos e bons chaprões, que se levam pera o Reino, e outras excellentes madeiras pera casas e obras primas de escriptorios, bofetes, leitos e outras. semelhantes.

ALVIANO E os proprios moradores são por ventura os que lavram e serram essas madeiras ?

BRANDONIO Não, porque a gente do Brasil é mais afidalgada do que imaginaes; antes a fazem serrar por seus escravos, e ha homem que faz serrar em cada anno mil e dous mil caixões de assucar, que vendem aos senhores de engenho, lavradores e mercadores, a quatrocentos e cincoenta e a quinhentos réis cada um, segundo a falta ou abundancia que ha delles; e nisto se vê a grande quantidade de madeiras que ha neste Estado, que com haver tanto tempo que é povoado, fazendo-se todos os annos nelle tão grande numero de taboado para caixões, não cessam as matas de terem madeiras pera outros muitos, e nunca faltarão nelles.

ALVIANO E de que páos se lavram essas madeiras para caixões ?

BRANDONIO Os caixões se fazem de páo molle, como são mongubas, buraremas, visgueiro, páo de gamella, camaçaris e um páo que chamam de alho, e outro branco; e dos taes ha diversas castas, porque pera caixões se busca sempre madeira molle, por ser mais facil de serrar.

ALVIANO E pera chaprões que dizeis se levam para o Reino, madeiras pera casa e outras obras, de que sorte dellas usam ?

BRANDONIO De muitas excellentes, as melhores que ha no mundo. E ha tanta cantidade das taes que não haverá homem que as possa conhecer, nem saber-lhes o nome pera as haver de nomear, de vinte partes a uma, ainda que o tal fosse carpinteiro, cujo officio não seja outro que corta-las nas matas.

ALVIANO Todavia, folgarei que me digaes a calidade de algumas.

BRANDONIO Por vos fazer a vontade me esforçarei a dizer algumas, das pou--cas a que sei o nome (20 ). E assim digo que as madeiras, de que tenho noticia, e me alembra a calidade dellas, são estas: assabengitas, que é um páo amarello, que lança de si a mesma tinta, muito rijo; jataúba vermelho, de formosa côr; piqueá, muito rijo e de côr amarella; outro páo, que chamam amarello, excellente pera taboado; jataúba, de côr dourada; massaranduba e cabaraiba, ambos de côr roxa, maravilhosos pera obra prima, principalmente pera cadeiras; jacarandá, tão estimado em nossa Espanha pera leitos e outras obras; condurú, páo de grande fortaleza, do qual se fazem bons chaprões; sapopira, de que se faz tambem o mesmo, e muitos carros, e tambem liames pera navios; camaçarim, apropriado pera taboado; outro páo chamado d'arco, porque se fazem delle de muita fortaleza e rigidão; zabucai, tambem muito estimado pera eixos de engenhos e estearia; canafistula de côr parda; camará, rigidissimo, e por esse respeito assás estimado; páo-ferro, que lhe deram este nome ser por igual a elle na fortaleza; outro páo chamado santo, tão estimado e conhecido por toda a parte; buraquihi, assás proveitoso; angelim, de que se faz tanto cabedal nas Indias Orientaes, e o incorrupto cedro, louvado na Escriptura; e assim burapiroca, louro, dos quaes se aproveitam pera armações de casas; buraem, de que se faz taboado pera navios, quasi incorrupto; corpaúba, de uma côr preta excellente; orendeuba, de uma galharda côr vermelha; e assim guoanadim, que se produzem por alagadiços e mangues, que se não dão senão pelo salgado. Outro páo, chamado quiri, que corta pelo ferro por ser mais duro que elle, cujo branco de fóra póde supprir a falta do marfim em qualquer obra, e o amago de dentro demonstra as aguas e côres de um jaspe muito formoso; e da mesma maneira é outro páo, que vem de Jaguaribe. Estes poucos me occorreram á memoria entre os muitos de que podera fazer menção, os quaes são todos das capitanias da parte do Norte do cabo de Santo Agostinho; porque das do Sul tenho pouca noticia, por não haver andado por aquellas partes.

ALVIANO Os dias passados vi nas mãos de um homem ancião um pão da grossura de uma manilha, que lhe servia de bordão; parecendo-me que era grande, e, como tal, devia de ser pesado pera o effeito, o tomei e achei tão leve, que quasi o não senti nas mãos; porque o era mais do que pudera ser uma meada de estopa.

BRANDONIO Esse páo ou, pera melhor dizer, canna se forma de um junco grosso, chamado tabúa, do qual se fazem esteiras; e quando é muito velho dá semelhante canna. Tambem ha outro páo que chamam de jangada, porque se fazem as taes delle pera andarem pelo mar, o qual é tambem levissimo, por esse respeito fazem delle os páos dos andores, em que andam as mulheres, da maneira que adiante direi.

ALVIANO Não sei eu em que parte do mundo se poderão achar tantas e tão boas madeiras, como são as que tendes referido; e maravilhome como Sua Magestade se não aproveita dellas pera fabrica de náos e galeões, os quaes podéra lavrar a estas partes.

BRANDONIO Estando eu no Reino, no anno de seiscentos e sete, se quiz informar de mim o Conde Meirinho-mór, veador da fazenda de Sua Magestade, de duas cousas: uma se poderia mandar lavrar navios neste Estado, e a outra se haveria commodidade nelle para se fazerem piques, porque, dizia, lhe custava trabalho manda-los vir de fóra do Reino; ao que lhe respondi que não havia modo como se pudessem alevantar neste Estado embarcações de importancia, porquanto as madeiras estavam já mui desviadas, pelos engenhos haverem consumido as de perto, e que assim custaria muita despesa o acarreta-las á borda dagua; demais que seria difficultoso poderse ter os officiaes necessarios pera a obra obrigados a ella, porque, posto que os mandassem do Reino á soldada, logo se haviam de ausentar pela terra, de modo que não poderiam ser achados. Mas já hoje estou de differente opinião; porque com a nova povoação do Maranhão e Pará, que é o rio das Amazonas, poderá Sua Magestade mandar fabricar naquellas partes muitas embarcações, onde se acham grande cantidade de madeiras á borda dagua, da qual se podem aproveitar a pouco custo. E os officiaes, que pera o effeito mandar do Reino, não se poderão ausentar, por não haver ainda, em aquellas partes, fazendas nem povoações pela terra a dentro, por onde se possam espalhar (21 ).

ALVIANO Não é máo alvitre esse pera Sua Magestade lançar mão delle; porque creio que logo o deve de mandar pôr em execução. E dos piques que respondestes a esse ministro ?

BRANDONIO Disse-lhe que se podiam fazer muitos e mui bons de um páo que havia na terra chamado páo d'astea, pelas fazer bôas; e ainda, pera que experimentasse a verdade do que lhe dizia, me obriguei a The mandar desta terra, para onde então estava de caminho, alguns piques lavrados, o que cumpri na fórma que lh'o promettera, tanto que a ella cheguei, sem ter mais sobre a materia resposta.

ALVIANO Estou maravilhado de vos ouvir nomear tanta diversidade de madeiras, que, pelos nomes differentes que lhes daes, entendo que devem de ser todas de differentes feições e calidades.

BRANDONIO Sim, são em tanto que se parecem raramente, nem na folha nem no tronco, uma arvore com a outra. E não quero deixar em silencio duas cousas que vi de muita consideração, ambas na capitania da Parahiba; das quaes uma dellas foi um pão de gamella de muita grossura, que estava ôco por dentro, mas comtudo não secco, porque tinha a sua rama verde e perfeita, e dentro deste páo nascia outro de mangue, de grossura de sete palmos por roda, o qual penetrava, com o seu tronco inteiro mettido pelo outro, por dentro de sua concavidade até responder com a rama, que era assás grande, pelo mais alto, justamente com a da outra arvore; porque nascida tão baralhada, que demonstrava ser toda uma, e somente no modo das folhas se conhecia a differença; assim que as duas arvores se formavam de duas raizes, e de dous troncos differentes, estando uma dentro na outra. E a outra é haver visto, na serra da Copaoba, uma arvore de summa grandeza, cavalgada sobre um alto penedo, que estava alevantado da terra mais de doze palmos, e as raizes da arvore, por uma parte e outra, a vinham buscar, donde tomavam o nutrimento pera o seu tronco e rama, sem poder acabar de entender o modo como semelhante planta podia nascer sobre aquelle penedo cavalgada, sem ter por meio terra, em que se sustentasse.

ALVIANO Tendes-me contado tantas maravilhas, que não tenho essa por extranha, posto que o é assás. Mas, pois haveis fallado em mangues, dizei-se se é verdade que tem as raizes de cima pera baixo; porque sou tão descuidado que ainda não olhei para isso.

BRANDONIO Os mangues nascem nos alagados entre rios que estão sujeitos aos fluxos e refluxos da maré, e os mais delles sobre vasa, dos quaes ha ahi duas castas, um vermelho e outro branco: o vermelho é mais rijo, e dá-se melhor na vasa, o outro branco é páo molle, e nasce um pouco mais desviado do salgado e em terra mais fixa; e todos botam as raizes de cima pera baixo, mas em mais cantidade o vermelho. E com isto ponhamos por hoje termo á nossa pratica, porque vos confesso de mim que não estou pera mais.

ALVIANO Nunca sahirei do que levardes gosto, mas á condição que nos tornemos a ajuntar amenhã nestas partes, ás horas costumadas, pera proseguirmos avante com o que nos resta por dizer.

Diálogos das Grandezas do Brasil

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Leia gratuitamente Diálogos das Grandezas do Brasil, obra colonial de 1618 atribuída a Ambrósio Fernandes Brandão, em domínio público. Edição digital organizada em seis diálogos para leitura online no Literunico, com fonte integral da edição de 1930, busca, redes sociais e descoberta por pesquisa de IA.

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