Universo da obra
Universo da obra
Clara Montês estava sozinha na oficina quando a impressora térmica acordou no escuro. Eram vinte e três e dezessete, hora ruim para qualquer máquina decidir viver por conta própria. O ventilador de parede girava com ruído seco, empurrando cheiro de graxa, café velho e chuva presa no asfalto. Sobre a bancada, motores desmontados, cabos de aço, roldanas e placas de comando formavam uma bagunça que ela entendia melhor que a própria casa. A impressora ficava perto do telefone fixo, desligada da tomada desde a semana anterior, porque cuspira papel em branco durante três noites seguidas e Clara perdera a paciência. Ainda assim, a luz verde piscava. A fita de papel saiu devagar, com letras pretas queimando a superfície branca. Edifício Dália. Cabine social parada entre décimo segundo e décimo terceiro. Passageira retida. Abaixo, no campo da assinatura, apareceu um nome que fez Clara largar a chave de boca sobre a bancada. Nestor Paiva. O antigo zelador do Dália, morto havia vinte anos, assinava ordens de serviço desde antes de Marina desaparecer.
Clara não tocou o papel de imediato. Ficou olhando a tira crescer até cair no chão, sentindo o coração bater em um lugar errado, perto da garganta. Três meses antes, a polícia encerrara as buscas por Marina Montês com uma frase limpa demais para uma irmã aceitar. Desaparecimento sem indício de crime. A última imagem mostrava Marina entrando no elevador social do Edifício Dália às onze e cinquenta e nove da noite, usando jaqueta vermelha, mochila pequena e o cabelo preso por uma presilha amarela. A cabine subira até o décimo segundo andar, segundo o laudo do condomínio. Depois a câmera falhara por quarenta segundos. Quando voltou, a cabine estava vazia. Desde então, Clara consertara portas, motores e freios em dezenas de prédios, sempre ouvindo a própria mente repetir que elevador nenhum engolia pessoa. Máquina quebrava, prendia, caía, travava. Máquina deixava marca. O Dália não deixara nada além de um vídeo cortado e de um síndico que sorria com dentes apertados.
O telefone fixo tocou uma vez. Clara quase arrancou o aparelho da mesa. A linha chiou com um som molhado, cheio de estalos, depois veio uma respiração curta que ela reconheceu antes da primeira palavra. “Clara.” A voz de Marina saiu baixa, cansada, atravessada por ruídos de metal. Clara fechou os olhos e apertou o fone contra a orelha até doer. “Mari, onde você está?” perguntou, já sabendo que pergunta nenhuma caberia naquela faixa de som. A irmã respondeu depois de um intervalo grande. “Não suba pelo social.” Em seguida, três batidas soaram do outro lado da linha, lentas, iguais às pancadas que técnicos dão em porta de cabine para saber se há gente presa. Clara chamou de novo, repetiu o nome de Marina, bateu no gancho, mexeu no cabo, verificou a linha. A chamada caiu. Na tela pequena do identificador, em vez de número, apareceu a palavra manutenção. Clara pegou a ordem de serviço do chão, enfiou na pasta de couro, guardou duas lanternas, o multímetro, a chave de abertura e uma lâmina curta que usava para cortar fita isolante. Pela primeira vez em meses, sair correndo parecia menos absurdo que ficar parada.
O Edifício Dália ocupava uma esquina antiga no centro, entre uma farmácia vinte e quatro horas e um cinema fechado que ainda exibia cartazes rasgados de filmes antigos. A fachada tinha doze andares, todos com varandas estreitas, vasos mortos e persianas baixadas. No alto, o nome do prédio aparecia em letras douradas gastas, preso a uma moldura de concreto manchada pela chuva. Clara estacionou a caminhonete de manutenção perto da guia, observando as janelas sem luz. O porteiro noturno, Valdir, abriu a grade antes que ela tocasse o interfone. Usava camisa cinza do condomínio, chinelos e uma expressão de quem não dormia havia dias. “Eu não liguei para a empresa”, disse, antes mesmo de cumprimentar. Clara ergueu a ordem impressa. Valdir leu, ficou pálido e olhou para o teto do saguão, onde uma câmera preta apontava para a porta. “O social está interditado desde o sumiço da sua irmã.” Clara passou por ele sem pedir licença. O saguão cheirava a desinfetante barato e flores velhas, com um quadro de avisos cheio de comunicados sobre silêncio depois das dez.
A cabine social ficava à esquerda do hall, cercada por fita amarela de obra e placas de proibido usar. A porta de aço escovado refletia Clara em pedaços, rosto cansado, cabelo preso de qualquer jeito, jaqueta molhada nos ombros. Ao lado, havia o elevador de serviço, menor, antigo, ainda funcionando segundo a luz vermelha do painel. Valdir mantinha distância da porta social. Disse que, depois de Marina, moradores começaram a reclamar de paradas no escuro, números errados no visor, vozes no interfone interno. O síndico mandou bloquear a cabine, trocou a empresa de segurança, apagou gravações antigas e proibiu reunião sobre o assunto. Clara retirou a fita de isolamento com cuidado técnico, porque raiva não abria porta sem danificar trilho. Encaixou a chave triangular no ponto de abertura manual. Antes de girar, viu no quadro de avisos uma folha que não estava presa por tachinha. Era outra ordem de serviço, antiga, amarelada, com a mesma assinatura de Nestor Paiva. A data era do dia em que Marina sumira. No campo de observação, alguém escrevera a mão. Passageira entregue no andar correto.
Dante Farias apareceu pela escada antes que Clara pudesse perguntar. Tinha camisa social sem gravata, cabelo úmido, uma pasta preta debaixo do braço e olhos atentos demais para um morador acordado por acaso. Valdir endireitou a postura ao vê-lo. “Doutor Dante”, disse, com respeito e medo misturados. Dante olhou para a folha na mão de Clara, depois para a porta do elevador social. “Você deveria ir embora enquanto ainda consegue sair pela frente”, falou. Clara guardou a ordem antiga na pasta, junto da nova. “Essa frase costuma funcionar com quem deve aluguel ou com quem esconde corpo?” Dante não sorriu. Aproximou-se o bastante para falar baixo e informou que o condomínio registrara sete desaparecimentos em trinta anos, sempre pessoas vistas perto dos elevadores, sempre câmeras falhando, sempre algum documento assinado por Nestor. Ele era advogado do prédio havia dois anos, porém herdara arquivos do pai, que também servira ao Dália. “Eu tentei entregar isso à polícia depois da sua irmã”, disse. “O delegado devolveu a pasta sem abrir.” Clara estudou o rosto dele, procurando mentira. Encontrou cansaço e uma culpa mal guardada.
A porta social abriu com um suspiro de borracha velha. A cabine estava no térreo, embora o quadro elétrico indicasse bloqueio entre andares. Dentro havia poeira sobre o piso de granito, marcas de dedos na parede de inox e um cheiro frio que não vinha do poço. Clara entrou apenas o suficiente para iluminar o painel. Os botões iam do térreo ao doze, com garagem e cobertura técnica. Nenhum treze. Ainda assim, acima do visor apagado, alguém riscara no aço um número pequeno, feito com ponta de chave ou unha. Treze. Valdir recuou até a guarita. Dante ficou na soleira, tenso. Clara abriu a tampa do painel de manutenção e encontrou ali a presilha amarela de Marina presa entre dois conectores. Por um momento, a oficina, a chuva e o prédio sumiram do alcance dela. Restou apenas aquele pedaço de plástico barato, comprado em uma banca no metrô, que Marina usava quando queria parecer arrumada sem tentar demais. Clara fechou a mão em volta da presilha. O interfone interno chiou. A voz da irmã voltou, mais próxima. “Eu disse para não subir pelo social.”
A cabine se moveu antes que Clara alcançasse a porta. Dante agarrou o batente e tentou puxá-la para fora, mas o elevador fechou com força suficiente para separar os dois. Valdir gritou do hall. Clara bateu no botão de emergência, depois no térreo, depois no abrir portas. Nenhum respondeu. O painel acendeu sozinho, passando do um ao doze com calma indecente. A subida não balançava, não raspava, não dava nenhum sinal de defeito mecânico. Era isso que apavorava Clara. Máquinas defeituosas reclamavam. Aquela obedecia a uma ordem que não vinha dos cabos. No décimo segundo, a cabine parou. As luzes piscaram uma vez. O visor apagou, respirou em vermelho e mostrou o número treze. Clara segurou a chave de abertura com a mão suada. Do lado de fora, algo arrastou um objeto pesado pelo corredor. A porta abriu para um andar que o prédio não possuía, com carpete verde, lâmpadas amareladas e uma fileira de apartamentos sem maçaneta. No fim do corredor, Marina estava de costas, usando a jaqueta vermelha do vídeo. Quando Clara disse seu nome, a irmã virou apenas a cabeça e levou um dedo aos lábios.
Clara Montês conserta elevadores desde que aprendeu a distinguir cabo gasto, motor cansado e mentira de cliente. Três meses depois do desaparecimento da irmã Marina, ela recebe uma ordem de serviço impossível no Edifício Dália, o último lugar onde Marina foi vista nas câmeras. O condomínio insiste que a gravação terminou no décimo segundo andar, mas Clara encontra no painel uma mensagem de voz da irmã pedindo que ela não suba pelo elevador social. Com a ajuda relutante de Dante Farias, advogado do condomínio e morador que sabe demais sobre os sumiços antigos, Clara descobre que a cabine abre para um décimo terceiro andar apagado das plantas. Lá, portas fechadas repetem escolhas que os moradores juram ter esquecido. Para encontrar Marina, Clara terá de descobrir quem alimenta o prédio com desaparecimentos e por que ordens de serviço continuam sendo assinadas por um zelador morto há vinte anos.
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