Universo da obra
Universo da obra
Clara Nogueira desceu do ônibus às cinco e quarenta da tarde, segurando a mala pela alça quebrada e tentando reconhecer Santa Inês sem conceder à cidade o prazer de parecer ferida. A rodoviária continuava pequena, com bancos de metal, azulejo rachado e uma lanchonete que vendia café aguado em copo de plástico. Do outro lado da rua, a farmácia ainda exibia letreiro vermelho, embora a pintura estivesse descascada e a porta automática abrisse aos solavancos. Quinze anos fora deveriam bastar para fazer um lugar virar outro. Não bastaram. A cidade permanecia com a mesma forma estreita, o mesmo cheiro de chuva represada em bueiro, a mesma mania de olhar primeiro para a mala de quem chegava e depois para o rosto. Clara percebeu duas mulheres pararem de conversar quando a reconheceram. Uma levou a mão à boca. A outra virou o pescoço na direção da avenida, onde a antiga Pensão Nogueira ficava a quatro quarteirões, fechada desde a noite em que três hóspedes sumiram.
O corretor esperava encostado em um carro prata, usando camisa clara, pasta de couro e sorriso treinado para não parecer curioso. Chamava-se Orlando Reis, segundo as mensagens enviadas durante duas semanas de negociação, e falava da pensão por telefone usando termos limpos. Imóvel amplo. Potencial comercial. Necessidade de reforma. Nunca dizia quarto seis, hóspedes desaparecidos, sangue no tanque, mãe acusada por vizinhos, filha retirada da cidade antes do inquérito esfriar. Clara colocou a mala no porta-malas sem aceitar ajuda. Orlando comentou que a viagem devia ter sido cansativa. Ela respondeu que a venda seria mais rápida se ele deixasse os documentos prontos. O sorriso dele diminuiu um pouco. No caminho, passaram pela praça da igreja, pelo cinema transformado em depósito e pela rua onde Clara comprava pão quando ainda acreditava que a mãe apenas trabalhava demais e conversava pouco por cansaço. As lojas fechavam cedo, e mesmo assim havia gente nas portas olhando o carro passar.
A Pensão Nogueira ocupava a esquina da Rua das Palmeiras com a Travessa do Mercado, três andares de fachada azul desbotada, varandas estreitas e janelas altas protegidas por grades antigas. A placa de madeira continuava pendurada, torta, presa por uma corrente enferrujada. O nome da família resistia no verniz gasto, com as letras mais claras onde a chuva entrava. Clara ficou parada na calçada tempo suficiente para Orlando abrir a pasta, tossir e perguntar se ela preferia assinar primeiro no cartório ou fazer uma última vistoria. Última. A palavra entrou nela com gosto metálico. A pensão fora casa, trabalho, esconderijo, vergonha, manchete local e herança recusada. Agora precisava virar contrato. Clara tirou do bolso a chave principal, enviada pelo advogado depois da morte de Ruth Nogueira, e viu a própria mão hesitar diante da fechadura. A chave entrou sem dificuldade, obediente demais para uma porta que passara anos fechada.
O cheiro veio antes da escuridão. Madeira úmida, lençol guardado, mofo antigo, cera barata e alguma coisa mais funda, quase animal, presa no corredor. Orlando acendeu a lanterna do celular e procurou o quadro de luz. Clara não se mexeu. O saguão ainda guardava o balcão de atendimento, o relógio de parede parado às duas e dezessete, o sofá de couro rasgado, a estante de folhetos turísticos com propaganda de cachoeira e passeio de maria-fumaça. A mãe mantinha flores de plástico sobre o balcão porque flor viva, segundo ela, chamava mosquito e tristeza. As mesmas flores estavam ali, cobertas de poeira, inclinadas dentro de um vaso rachado. Clara tocou o balcão e sentiu partículas grudarem na ponta dos dedos. No verniz, perto da campainha antiga, alguém havia riscado uma palavra com objeto fino. Voltei. A marca parecia recente demais. Ela esfregou o dedo na letra V e a poeira saiu ao redor, deixando a madeira limpa sob a unha.
Orlando encontrou energia no disjuntor dos fundos, e as lâmpadas do saguão piscaram com uma fraqueza amarela. Ele explicou que uma equipe de limpeza entrara ali duas vezes no último mês para avaliar o orçamento da venda. Clara perguntou se a equipe havia riscado o balcão. O corretor olhou, leu a palavra e guardou o celular no bolso com gesto rápido. Disse que imóvel fechado atraía moleque, curioso e gente atrás de história para internet. Clara quis perguntar por que um moleque escreveria aquilo do lado de dentro, sobre poeira intacta, sem quebrar janela ou porta. Guardou a pergunta. No lugar, pediu para ver o contrato de compra. Orlando disse que o comprador aceitara o preço cheio, desde que ela entregasse o prédio livre de pendências e objetos pessoais. Havia prazo curto. Sete dias. Depois disso, a proposta cairia. Clara quase riu. Quinze anos sem comprador, e agora alguém tinha pressa para adquirir uma pensão maldita com infiltração, móveis podres e três desaparecidos presos à fachada.
Subiram ao primeiro andar pela escada larga, evitando o elevador antigo, interditado desde antes do caso. Os quartos comuns estavam abertos, cobertos por lençóis cinzentos. Clara reconheceu o dez, onde um vendedor de panos dormia toda terça e deixava balas de hortelã na mesa. Reconheceu o doze, preferido por uma professora aposentada que escrevia cartas para um filho no Acre. Reconheceu o quinze, onde uma família de Barbacena brigara durante três noites seguidas até Ruth devolver metade do dinheiro e pedir silêncio em nome dos outros hóspedes. Cada porta guardava uma versão menor da mãe, prática, seca, usando chinelos de borracha e um molho de chaves preso à cintura. Clara nunca lembrava de Ruth descansando. A lembrança sempre vinha com balde, caderno de reservas, contas, olhar atento ao corredor dos fundos. Quando chegaram ao patamar superior, Orlando parou antes da ala fechada. A parede ali fora pintada de branco por cima da antiga placa de acesso. Mesmo assim, as letras apareciam sob a tinta fraca. Quartos seis a nove.
A porta da ala dos fundos tinha corrente grossa e cadeado novo, colocado pelo advogado depois que os documentos da venda começaram. Clara carregava a chave menor em um envelope separado. Orlando disse que talvez não fosse necessário abrir naquela tarde, pois o comprador aceitara vistoria parcial até a limpeza final. A pressa dele deu à porta uma importância que ela já tinha. Clara rasgou o envelope com a unha e colocou a chave no cadeado. O metal resistiu um pouco, depois cedeu com estalo alto. Nenhum vento saiu do corredor. Nenhum barulho dramático. Apenas um cheiro mais fechado, de parede molhada e colchão velho, avançou sobre eles. Orlando acendeu de novo a lanterna. A luz mostrou quatro portas alinhadas, todas com números de latão. Seis, sete, oito, nove. As maçanetas dos quartos sete a nove estavam cobertas por plástico. A do seis permanecia exposta, limpa, sem poeira, tocada com regularidade que não combinava com prédio abandonado.
Clara sentiu o estômago apertar antes de ouvir qualquer coisa. O quarto seis fora ocupado por Júlia Amaral na noite dos desaparecimentos. Júlia tinha vinte e três anos, estudava enfermagem e viajara para Santa Inês para visitar uma tia que morreu antes de encontrá-la. O quarto sete ficara com Mauro Lins, motorista de ônibus afastado por problemas na vista. O oito, com Teresa Falcão, vendedora de cosméticos que deixara três malas e uma nota de hotel dobrada na carteira. Nenhum corpo, nenhuma fuga confirmada, nenhuma movimentação bancária depois daquela noite. Ruth dissera à polícia que dormia no térreo e acordara com Clara gritando na escada. Clara lembrava do grito, lembrava da mãe tapando sua boca com a mão, lembrava de uma batida de dentro da parede. O resto vinha em pedaços ruins. Água no corredor. Um lençol arrastado. A respiração de alguém muito perto de seu ouvido dizendo para não olhar para baixo.
Orlando tentou filmar o corredor para o comprador, e o celular desligou sozinho. Ele reclamou da bateria, embora o aparelho estivesse com metade da carga minutos antes. Clara não comentou. Aproximou-se da porta seis e colocou a mão sobre a madeira. Estava morna. A pensão inteira parecia fria, exceto aquela porta. Retirou a mão depressa, irritada com o próprio gesto. Orlando disse que alguns imóveis retinham calor por causa da tubulação antiga. A explicação saiu pronta demais, igual frase achada em site. Clara pegou a chave do quarto no antigo quadro de reservas preso à parede lateral. A etiqueta amarelada ainda trazia a letra da mãe. Seis. Não abrir depois das vinte e três. Ruth usava instruções objetivas para tudo, desde trocar lâmpada até lidar com bêbado. Aquela ordem, escrita em cartão de chave, era a coisa mais próxima de medo que Clara já vira sair da mão dela.
A chave não entrou. Clara tentou duas vezes, sem forçar. Orlando sugeriu chamar chaveiro. Ela ignorou. Abaixo da maçaneta havia marcas pequenas, feitas de dentro para fora, riscos verticais repetidos por alguém que usara unha, metal ou osso. Clara aproximou o rosto. Entre os riscos, quase escondida, havia uma linha de letras minúsculas. C N volta. O sobrenome dela virou suor nas costas. Orlando perguntou se estava tudo bem, e Clara respondeu que sim com a voz de quem mentia mal. Do fundo do corredor veio um som baixo, uma entrada de ar longa, seguida por saída lenta. Não era vento passando por janela. Não havia janela aberta naquela ala. Orlando ouviu também, porque parou de mexer no celular e ergueu a lanterna. A luz tremeu sobre a porta seis. O som voltou. Inspiração. Pausa. Expiração. O quarto parecia respirar com paciência de pessoa acordada.
Clara desceu antes que Orlando decidisse correr por ela. No saguão, assinou apenas o termo de vistoria, recusou a proposta final até examinar todos os cômodos e pediu que o corretor voltasse no dia seguinte com o comprador identificado. Orlando protestou, falou de prazo, oportunidade e custo de manutenção. Ela manteve a caneta parada sobre o papel até ele se calar. Quando ele foi embora, deixou no balcão uma cópia da minuta e o cartão do chaveiro. Clara viu o carro prata desaparecer na esquina e trancou a porta principal. Só então percebeu que pretendia ficar. Não havia hotel disponível sem perguntas, a casa da tia fora vendida, e dormir ali parecia menos humilhante que bater na porta de gente que passara quinze anos repetindo o sobrenome Nogueira em voz baixa. Escolheu o antigo quarto da mãe, no térreo, perto da copa. Arrastou a cama para longe da parede manchada e manteve a mala fechada.
Às nove da noite, a energia caiu em todo o quarteirão, segundo o grupo de mensagens que ainda mantinha no celular com três colegas de tradução e um primo distante. Clara acendeu duas velas encontradas na cozinha e preparou café em uma chaleira enferrujada, com água mineral comprada na rodoviária. A pensão mudou no escuro. Durante o dia, era ruína. À noite, era lugar ocupado por intenções sem corpo. A madeira estalava, o encanamento engolia ar, uma goteira batia dentro de balde invisível. Clara abriu o caderno de reservas da mãe, guardado sob o balcão, e folheou os últimos meses antes do fechamento. Nomes, datas, valores, observações de lavanderia. Na semana do desaparecimento, as páginas tinham sido arrancadas. Restavam farpas de papel presas à argola metálica do caderno, pequenas o bastante para alguém apressado achar que sumiriam. Clara as tocou com a pinça do kit de sobrancelha e retirou um fragmento. Havia nele apenas duas palavras. Clara escuta.
O telefone do balcão tocou às dez e cinquenta e oito. Clara derrubou a pinça. O aparelho preto, sem linha desde o inventário, vibrava sobre a madeira com a campainha antiga, insistente, viva. Ela esperou cinco toques. No sexto, atendeu. Do outro lado havia ruído de chuva, embora a noite lá fora estivesse seca. Depois veio uma voz feminina, fraca, jovem, tão próxima que parecia falar com a boca encostada no fone. Perguntou se Ruth ainda guardava a chave no vaso das flores. Clara não respondeu. A voz respirou, e o som era o mesmo do quarto seis, ar entrando devagar em lugar apertado. Depois disse que tinha pouco tempo antes de a parede fechar outra vez. Clara segurou o balcão para não se mover. Perguntou quem falava. A mulher chorou uma vez, sem soluço, um choro curto e cansado. Disse que se chamava Júlia, que estivera no quarto seis, e que Clara não deveria vender a pensão antes de descobrir onde sua mãe escondeu os outros dois.
Clara Nogueira deixou Santa Inês aos dezessete anos, depois que três hóspedes desapareceram da pensão administrada por sua mãe. Quinze anos depois, volta para assinar a venda do imóvel e encerrar de vez o assunto que destruiu a família. A cidade, porém, ainda lembra o caso, e a pensão permanece quase intacta, com quartos cobertos, telefone sem linha, manchas que voltam às paredes e um cômodo no fim do corredor que ninguém conseguiu abrir sem adoecer. Quando Clara encontra diários escondidos sob o assoalho e descobre que uma das hóspedes sumidas escrevia cartas para ela antes de conhecê-la, a venda vira armadilha. O quarto lacrado parece respirar durante a madrugada, repetindo nomes de pessoas que a cidade apagou. Para sair dali, Clara terá de descobrir se sua mãe protegeu a família de um crime, de uma entidade ou das duas coisas ao mesmo tempo.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias do Livro como colaboração ao autor e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.