Universo da obra
Universo da obra
Tomás ganhava a vida levando turista até piscina natural, pescador até banco de sardinha e político até praia onde ninguém pudesse fotografar. Aceitou levar Clara Naves à Ilha do Último Farol porque ela pagou em dinheiro vivo, trouxe pouca bagagem e mentiu muito mal. Disse que pesquisava aves marinhas, embora carregasse mapas plastificados, um rádio militar antigo e uma chave de bronze presa no pescoço. O porto de São Bento ainda dormia quando os dois saíram, com gelo no porão, combustível contado e uma ordem informal da capitania proibindo qualquer embarcação de chegar perto daquela ilha desde o acidente de quinze anos atrás.
Clara contou parte da verdade quando perderam a costa de vista. O pai dela trabalhara no farol antes da explosão que matou três homens e fechou a ilha. O corpo dele nunca apareceu. Na semana anterior, Clara recebera uma carta com a letra dele, marcada por sal, pedindo que ela buscasse o livro de serviço guardado na sala da lente. Tomás conhecia história de gente morta que continuava dando ordem aos vivos e preferia não participar. Mesmo assim, seguiu adiante porque viu medo real na voz dela, e medo real costumava pagar melhor que mentira de turista.
O mar mudou perto do meio-dia. Ondas curtas batiam de lado, levantando a proa com brutalidade, e o motor engasgou duas vezes antes da ilha surgir por trás da névoa baixa. O farol ficava no alto do rochedo, torto, com a cúpula quebrada e paredes manchadas de ferrugem. Na praia estreita havia marcas recentes de pneu e uma lona verde cobrindo caixas metálicas. Clara jurou que vinha sozinha. Tomás desligou o motor e deixou o barco correr até a areia sem ruído. Quando desceram, um tiro acertou a água perto da popa. Ele puxou Clara para trás de uma pedra e entendeu que a ilha proibida estava muito ocupada.
Um piloto de barco aceita levar uma pesquisadora a uma ilha proibida e encontra uma fortuna antiga protegida por mentiras, mar bravo e gente armada.
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