Universo da obra
Universo da obra
Sofia aceitou ser síndica do Prédio Doze porque o aluguel vinha com desconto e porque, depois do divórcio, qualquer lugar onde ninguém conhecesse sua história parecia adequado. O edifício ficava numa avenida barulhenta, com fachada bege, elevadores temperamentais e moradores que observavam tudo pelo olho mágico. Na primeira semana, recebeu reclamações sobre vazamento, cachorro, música alta e uma senhora do décimo andar que deixava flores novas diante da porta do antigo depósito. A senhora era Ester Albuquerque, viúva havia dois anos, conhecida por pagar condomínio adiantado, falar pouco e nunca usar o elevador depois das nove.
O zelador entregou a Sofia um molho de chaves herdado da gestão anterior. Entre elas havia uma etiqueta escrita à mão com a palavra terraço, embora o acesso estivesse oficialmente interditado desde a morte de Osvaldo, porteiro noturno encontrado no fosso do elevador de serviço. O caso fora tratado como acidente. Sofia desconfiou da facilidade dessa palavra porque prédios antigos tinham uma vocação desagradável para chamar queda de tudo que não queriam explicar. Subiu ao terraço numa tarde abafada, abriu o cadeado e encontrou, perto da caixa dágua, uma carteira de cigarro sem uso, um botão masculino e marcas de salto fino na poeira endurecida.
Ester apareceu atrás dela sem fazer barulho. Usava vestido preto simples, óculos escuros e segurava um regador vazio. Disse que o terraço era perigoso e que Sofia deveria trancar a porta antes que alguém reclamasse. Sofia perguntou se ela conhecia Osvaldo. A viúva demorou um segundo além do necessário para responder que todos conheciam o porteiro. Depois colocou a mão sobre o botão encontrado no chão e fechou os dedos, gesto rápido demais para ser casual. Sofia pediu que ela devolvesse. Ester sorriu pela primeira vez. Disse que havia coisas naquele prédio que só continuavam quietas porque algumas pessoas ainda sabiam onde pisar.
Uma sindica recem-chegada descobre que a viuva mais discreta do edificio sabe quem matou o antigo porteiro e por que todos fingiram luto.
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