Universo da obra
Universo da obra
Marina entrou na Galeria Figueira pela porta de carga, com fita métrica no pescoço, tênis molhado de chuva e uma irritação antiga contra prédios que fingiam grandeza depois da falência. A loja de departamentos ocupava um quarteirão inteiro no centro, cheia de escadas de mármore, vitrines vazias e manequins cobertos por plástico. O contrato enviado na véspera prometia dinheiro suficiente para quitar a oficina da mãe e manter três funcionárias empregadas até o Natal. O dono novo, André Figueira, queria reabrir a loja em vinte dias com uma campanha sentimental sobre tradição. Marina achava tradição uma palavra elegante para esconder boleto velho.
André apareceu no salão principal usando camisa branca dobrada no antebraço e uma pressa que combinava mal com aquele lugar cheio de poeira. Disse que precisava de vitrines capazes de fazer a cidade lembrar o que a loja fora. Marina respondeu que cidade lembrava dívida, demissão e liquidação mal organizada, caso ele desejasse realismo. Ele segurou o riso, ofereceu café e mostrou os andares vazios. No terceiro piso, diante da antiga seção de noivas, Marina encontrou uma etiqueta presa no verso de um vestido guardado em saco plástico. O nome da mãe dela estava escrito ali, com data de vinte e oito anos atrás.
A mãe de Marina nunca mencionara trabalho na Galeria Figueira. Dizia ter aprendido ofício com uma tia, em ateliê pequeno, longe de patrão importante. André percebeu a mudança no rosto dela e perguntou se havia problema. Marina guardou a etiqueta no bolso sem pedir licença. Disse que problema era o prazo absurdo, o orçamento curto e o fato de ele achar que charme de família comprava competência. André assinou a autorização de compra sem discutir, e a caneta dele roçou os dedos dela no balcão antigo. O contato durou pouco, suficiente para irritar os dois. Marina saiu com o contrato fechado e uma pergunta maior que a loja.
Uma vitrinista aceita salvar a loja de departamentos de um herdeiro arrogante e descobre que o contrato profissional mexe com a memoria da familia dela.
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