Universo da obra
Universo da obra
Laura Pinheiro viu a foto antes do café esfriar. Estava no perfil de Eva Amaral, jovem desaparecida havia seis meses e transformada em assunto de podcast, corrente de oração e briga familiar na internet. A postagem subira às três e dezessete da madrugada, sem legenda, sem localização e sem erro aparente de invasão. Mostrava uma mesa de fórmica azul, duas xícaras vazias, um chaveiro amarelo em forma de sol e parte de uma mão masculina refletida no tampo. Para a maioria, era sinal de vida. Para Laura, era alguém querendo medir reação.
Ela trabalhava em uma sala pequena acima de uma copiadora, apagando vazamentos, rastreando ameaças e limpando rastros de gente que chegava tarde demais ao próprio desastre. Ex-jornalista, ex-esposa de um delegado e ex-crente em versões oficiais, Laura sabia que perfis mortos raramente voltam sozinhos. Baixou a imagem, preservou metadados, fotografou a tela com outro aparelho e desligou a sincronização. O arquivo tinha sido editado em aplicativo antigo, versão usada por celulares baratos de uma marca que já não vendia no país.
Nicolas Amaral apareceu uma hora depois, sem marcar horário, cabelo molhado de chuva e olheiras que faziam o rosto bonito parecer sem defesa. Trazia o celular da irmã dentro de um saco plástico e uma pasta de recortes impressos. Disse que ninguém da família tinha acesso ao perfil de Eva desde a semana do sumiço. Disse também que a polícia chamaria aquilo de brincadeira cruel, e ele não aguentava ouvir mais uma pessoa usando a palavra brincadeira perto do nome da irmã. Laura gostou da raiva dele antes de gostar do rosto, o que já era inconveniente.
O aparelho de Eva estava travado, tela rachada no canto, capa transparente com adesivos desbotados. Laura perguntou por que Nicolas guardara aquilo fora da perícia. Ele respondeu que o celular foi devolvido sem laudo útil, junto com uma sacola de roupas e um bilhete oficial pedindo paciência. Paciência não encontra mulher desaparecida. Laura conectou o aparelho a uma máquina isolada, longe da rede, e viu uma notificação surgir por um segundo antes de apagar. Um novo acesso havia acabado de entrar no perfil de Eva, a menos de três quilômetros dali.
A conta dela voltou a postar seis meses depois do sumiço. A única pista era uma foto que ninguém deveria ter visto.
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