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A Morte Renunciada

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A Morte Renunciada

Capítulo 1 · A Morte Renunciada

A Primeira Certidão

Verônica Duarte chegou à casa da mãe pouco depois das seis, quando a chuva já havia transformado a rua de paralelepípedos em uma sequência de pedras escuras e brilhos tortos. O motorista do aplicativo perguntou duas vezes se aquele era mesmo o endereço, talvez por causa do portão alto, talvez pela varanda com as grades descascadas, talvez pelo tipo de abandono que certas casas antigas exibem sem perder autoridade. Verônica confirmou com um gesto, pagou pelo celular e ficou parada na calçada enquanto o carro manobrava devagar, afastando a única luz branca que ainda parecia interessada nela. Havia uma faixa de isolamento dobrada dentro da lixeira, molhada e suja, e no muro lateral alguém tinha prendido um aviso da funerária com fita crepe, desses que são feitos para durar poucas horas e mesmo assim conseguem envergonhar uma família inteira.

A chave continuava na argola de latão que Estela usara por trinta anos, presa ao mesmo pingente de acrílico azul com a inscrição de uma locadora extinta. Lívia havia deixado o molho com o porteiro do prédio de Verônica na noite anterior, dentro de um envelope pardo, junto com um bilhete breve: "Não precisa vir se não aguentar. Eu resolvo o cartório." A frase tinha a educação errada, limpa demais para uma filha que acabara de perder a mãe. Verônica guardou o bilhete na bolsa sem responder. Passara a madrugada vendo a mensagem na tela do celular, tentando decidir se a irmã estava oferecendo cuidado ou tomando posse de uma tarefa que Estela jamais confiaria a ela.

O hall tinha cheiro de madeira úmida, remédio vencido e café antigo. A lâmpada do teto falhava em intervalos irregulares, acendendo o suficiente para mostrar o cabideiro vazio, apagando antes que o olho se acostumasse. Verônica fechou a porta com cuidado, sem conseguir evitar o estalo da fechadura. A casa respondeu com ruídos pequenos: uma veneziana batendo no andar de cima, a geladeira armando o motor, água descendo por algum cano interno. Tudo ali parecia ativo por conta própria, mantido em funcionamento por uma disciplina que Estela levara a sério até o fim. Na mesinha de entrada, ao lado de uma tigela de porcelana com moedas estrangeiras, havia três recibos da farmácia, um comprovante de táxi e um envelope branco com o nome de Verônica escrito à mão.

Ela reconheceu a letra antes de tocar no papel. Estela inclinava o V inicial para a direita, deixava o D de Duarte quase fechado e nunca alinhava bem as palavras em superfícies sem pauta. Verônica pegou o envelope pelas bordas, hábito antigo de perita, embora já soubesse que a casa ficaria fora de qualquer perícia oficial e que ninguém além dela daria valor à preservação de digitais. Dentro havia uma folha dobrada em quatro, sem carta, sem explicação, apenas a cópia autenticada de uma certidão de óbito. O nome de Estela Duarte aparecia no centro do documento, acima da filiação, do estado civil e do endereço da casa. A data da morte, impressa em tinta preta, era 14 de agosto de 2015.

Verônica leu a data três vezes. A primeira leitura falhou por incredulidade, a segunda por cálculo, a terceira por um cuidado profissional que sempre chegava quando o pânico queria assumir o corpo inteiro. Em agosto de 2015, Estela tinha ido à audiência de divórcio de Lívia, quebrado o punho ao cair da escada do quintal e ligado para Verônica reclamando que o gesso a impedia de assinar cheques. Havia fotos daquele mês, mensagens, consultas médicas, compras no cartão, uma discussão memorável sobre a venda de um terreno em Atibaia. A certidão, no entanto, dizia outra coisa. Dizia que Estela morrera no Hospital Santa Úrsula, às duas e quarenta da madrugada, de insuficiência respiratória, e que o corpo fora sepultado no Cemitério da Consolação no dia seguinte.

O campo do declarante estava preenchido com o nome completo de Verônica: Verônica Duarte, brasileira, solteira, perita documental, RG 34.887.210-9. A assinatura no rodapé tinha método demais para simples imitação. A pressão começava firme no V, perdia força no sobrenome e terminava com o traço curto que ela adotara depois de entrar no Instituto de Criminalística, quando passou a assinar laudos às dezenas. Qualquer assistente treinado descartaria falsificação por imitação servil. Qualquer perito honesto pediria o documento original antes de concluir. Verônica baixou a folha até a altura da cintura e olhou para o espelho oval pendurado sobre o aparador. A mulher refletida tinha cabelo preso sem cuidado, olheiras fundas e o casaco encharcado nos ombros. Era uma testemunha pouco confiável para a própria vida.

O celular vibrou na bolsa. Lívia ligava. Verônica deixou tocar até cair, ainda encarando a assinatura. Depois a irmã mandou mensagem: "Você chegou?" A pergunta apareceu na tela com a pressa de quem já conhecia a resposta. Verônica digitou "sim", apagou, digitou "estou vendo uns papéis", apagou de novo. Por fim, guardou o aparelho e levou a certidão para a sala de jantar, onde Estela mantinha a mesa grande mesmo depois de anos sem receber ninguém. A toalha de linho tinha sido retirada. No tampo encerado havia marcas retangulares de objetos que permaneceram tempo demais no mesmo lugar. A ausência deles desenhava um inventário: porta-retrato, bandeja, caixa de linhas, talvez o rádio antigo. Alguém limpara a casa antes da funerária chegar, escolhendo o que deveria desaparecer primeiro.

Verônica abriu as gavetas do aparador uma por uma. Encontrou jogos americanos, guardanapos engomados, talheres de prata embrulhados em flanela, carnês de IPTU separados por ano e uma pasta preta com etiqueta de cartório. O adesivo estava gasto, ainda assim dava para ler: "Estela: documentos civis". Dentro havia certidão de nascimento, certidão de casamento, averbação do divórcio, escritura da casa, cópias de RG, CPF, comprovantes de residência e uma segunda certidão de óbito. Esta era recente, expedida na véspera. O número de matrícula era diferente, o hospital também. O documento novo registrava a morte de Estela Duarte em 16 de maio de 2026, às nove e dez da manhã, no quarto dela, por parada cardiorrespiratória. O declarante desta vez era Lívia.

As duas certidões ficaram lado a lado sobre a mesa. Onze anos separavam uma morte da outra. A primeira trazia o nome de Verônica. A segunda trazia o nome de Lívia. A primeira falava de hospital, médico, sepultamento. A segunda falava de residência, atendimento emergencial, cremação marcada. Nenhuma parecia rascunho. Nenhuma carregava carimbo suspeito ou erro vulgar. Verônica pegou uma lupa pequena que Estela guardava no porta-talheres, examinou a textura da cópia antiga, a borda do selo, a rubrica do tabelião, a numeração do livro. A autenticação era de 2020, cinco anos depois da morte registrada e seis anos antes daquela que a funerária preparava agora. Alguém não apenas criara uma morte impossível. Alguém voltara ao documento para confirmá-lo quando Estela ainda andava pela casa.

Lívia ligou outra vez. Desta vez Verônica atendeu e manteve a certidão antiga debaixo da mão esquerda, sentindo o papel frio contra a pele molhada da manga. "Você não devia ter ido sozinha", disse a irmã, antes de qualquer cumprimento. A voz vinha abafada, com barulho de rua ao fundo. Verônica perguntou onde ela estava. "No crematório. A mulher pediu sua autorização para liberar uns documentos. Eu disse que você está abalada." Verônica fechou os olhos por um segundo, abriu de novo e fixou a vista no nome do médico que assinara a certidão de 2015: Osvaldo Meireles. O mesmo psiquiatra que Estela indicara, anos antes, quando Verônica deixara o instituto sob acusação de adulterar uma prova. O mesmo homem que escrevera, em laudo particular, que ela apresentava lapsos de julgamento sob estresse intenso.

"Que documentos?", Verônica perguntou. Lívia demorou um tempo curto, suficiente para denunciar cálculo. "Coisa de praxe. Formulários, autorização, cópia do RG dela. Eu posso assinar." Verônica ouviu uma porta metálica fechar do outro lado da linha e, por trás da respiração da irmã, uma voz masculina chamando "senhora Duarte" sem especificar qual delas. A casa pareceu escurecer ao mesmo tempo, embora a lâmpada continuasse acesa sobre a mesa. Verônica afastou a certidão nova, dobrou a antiga com o mesmo vinco que Estela deixara e colocou a folha dentro da bolsa. "Não assine nada até eu chegar", disse. Lívia respondeu depressa, quase ofendida, que Verônica estava confundindo luto com desconfiança. A frase teria soado melhor se não viesse acompanhada de uma ordem para que ela tomasse um calmante antes de sair.

Verônica desligou sem se despedir. Pegou a pasta preta, conferiu o corredor e subiu até o quarto de Estela, levando a bolsa contra o corpo. A cama estava feita, o travesseiro ainda marcado no centro. Sobre a cômoda havia um copo com água pela metade, uma cartela de comprimidos sem rótulo e o relógio de pulso que a mãe tirava apenas para dormir. Na parede ao lado do armário, o espelho alto refletia a porta aberta e o começo da escada. Verônica viu, pelo reflexo, uma tira de papel presa atrás da moldura, dobrada em ângulo mínimo. Puxou com cuidado. Era uma ficha de internação antiga, amarelada, sem timbre visível. O nome da paciente aparecia como Ana Vidal. Estela Duarte não figurava em campo algum. A data de entrada era 14 de agosto de 2015, a mesma da primeira certidão. No campo de responsável, em letra de forma, alguém escrevera: Verônica Duarte.

Por alguns segundos, o quarto ficou reduzido a quatro objetos: a ficha, o relógio parado, a cartela sem rótulo e o reflexo da escada atrás dela. Verônica procurou na memória qualquer viagem naquele agosto, qualquer hospital, qualquer assinatura dada às pressas. Encontrou apenas fragmentos burocráticos de outra época, o instituto, um laudo rejeitado, o rosto de Benício Nóbrega do lado de fora de uma sala de depoimento, Estela dizendo ao telefone que documentos podiam matar mais devagar que veneno. Na época, Verônica pensara que a mãe dramatizava uma disputa de herança. Agora a frase estava de volta, guardada atrás de um espelho, com data, nome falso e a assinatura dela cercando a primeira morte de uma mulher que ainda demoraria onze anos para morrer de novo.

A Morte Renunciada

Sinopse

Verônica Duarte, perita documental afastada após uma investigação que terminou em escândalo, volta à casa da família para reconhecer o corpo da mãe. No cartório, a certidão já existe há onze anos. O registro traz a assinatura de Verônica como declarante, embora ela não estivesse na cidade naquela data. A partir desse erro impossível, ela encontra cartas, recibos e gravações que indicam uma mulher mantida viva em documentos depois de enterrada em silêncio. Cada prova conduz ao mesmo círculo: o psiquiatra da família, o antigo tabelião, um investigador aposentado e a irmã que jura ter protegido Verônica. Para descobrir quem renunciou à morte e por quê, Verônica precisa voltar ao caso que destruiu sua carreira e aceitar que sua própria identidade pode ter sido assinada por outra pessoa.

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