Universo da obra
Universo da obra
Livro segundo — Canto quinto
I
Diluída nas tintas da aurora,
A luz se desprendeu das estrelas;
O riso dos céus
Despertou o hino da terra.
O ombú solitário das colinas
Mal balança a copa verde;
O salgueiro beija o rio,
E o talhe esbelto meneiam as palmeiras.
Sua carnosa roupagem verde-negra
Sacode o canelón das ribeiras;
A flor do camalote,
Roxa e branca, brinca na corrente.
Como gotas de sangue que sorriem,
Despertam as margaridas vermelhas;
Despertam as azuis
E essas filhas sem nome da erva,
De um amarelo e branco deslumbrantes,
Que no campo se contam
Como as claras noites de dezembro
Contam-se no céu as estrelas.
Todas as folhas brilham; uma seiva
Jovem e turbulenta
Circula pelas canas e pelos juncos,
Dá ternura aos braços da hera,
Desabotoa as flores dos talas,
Do guaviyú e da ceiba,
E alegra o coração dos palmares,
E rebenta os estames úmidos.
Os cardos, agrupados ou dispersos,
Erguem as cabeças
Com suas coroas frescas e azuladas
Descobertas sobre o caule espinhoso;
E, como roupas estendidas pela noite
A secar na areia,
Veem-se espalhados entre espadanas
Flamingos, gaivotas e cegonhas:
De dois em dois, dispersos e pesados,
Ou em escuras fileiras,
Pousam na margem os chajás,
Lançando, de quando em quando, seu estridente lamento;
Passeia cadenciosa entre os juncos,
Com seu andar rítmico, a garça esbelta,
Ou entre eles assoma o pescoço nevado,
Enquanto o biguá abre suas asas negras;
E correm pela areia da praia
Essas pequenas aves
De longas patas e bicos afiados
Que em sua base sutil se equilibram,
Como se tentassem levantar voo
E disso desistissem,
Para correr de novo pela margem,
Ali deixando suas leves pegadas.
Como um vapor um tanto sonoro
Que no espaço ondula,
Os pássaros, como harpas que a aurora
Dos ramos desprende,
Entoam o canto do dia
Que em trêmula ebulição se eleva:
Nadam em luz as notas,
E a alma da luz palpita nelas.
O dia as recolhe
E as ajusta ao ritmo de uma ideia,
E assim elabora o salmo indescritível
Que a terra, ao despertar, eleva a Deus.
As ilhas vão brotando lentamente
Do seio das névoas
Dissolvidas na luz; os horizontes,
Através das árvores, se afastam.
A claridade nascente vai ganhando
Colinas e encostas;
Atrás dela, o sol dispara, vitorioso,
Através dos ares, suas setas.
II
Quem não sente na alma
A fresca sensação da beleza,
O doce repousar dos sentidos,
O instintivo amor à existência?
Quem não sente nos lábios
Os sorrisos serenos
Em que a luz e a quietude da alma
E o escondido amor se transparentam,
E essas lágrimas puras,
De luz e encantos cheias,
Que umedecem os olhos sem lhes deixar
Do pranto nem da dor a amarga marca?
III
Ele: Tabaré, o cacique
A quem as sombras cercam,
E a seus pés se retorcem em abismos
E em tempestades rolam sobre sua fronte.
Vede-o. É o índio puro;
É o charrúa da fronte estreita;
Seu sangue aflui ao pômulo saliente,
Seu lábio treme, sua pupila fumega.
A luta sustentada
Na noite anterior, rude e suprema;
As armas apontadas ao seu peito,
Que ainda crê estilhaçar entre as mãos inertes.
Tudo lhe exaspera a alma,
Tudo nela desperta
O instinto adormecido, a ânsia viva
De liberdade, de destruição e guerra.
Como do fundo escuro do abismo
Voam as aves negras,
Do fundo de sua alma se levantam
As ferocidades ingênitas,
Que cruzam por seus olhos
Cravados no chão, e refletem
Neles repentinas labaredas
Que em suas pupilas acesas tremem.
Em vão, de seus lábios,
Solícito, pretende o padre Esteban
Ouvir uma palavra que revele
Ao menos um eco de sua luta interna;
Em vão, às lembranças
Que outras vezes comoveram o índio
Chamou em seu auxílio
Para tocar-lhe com elas o coração:
A mão da memória
Não desfaz essa ruga da fronte,
Nem separa esses dedos que serpentes
Enroscadas parecem.
Ouve gritos de morte e de vitória,
Silvos de setas,
Uivos de uma guerra inextinguível
Que atroam seu pensamento enraivecido;
Já o sangue charrúa
Só sente em suas veias,
Mas assoma a seus olhos azulados
A alma da doce Magdalena.
E a mortal angústia
Do índio se apodera,
E a luta de um átomo com outro
Renova-se potente em suas artérias,
E sibila em seus ouvidos,
E lhe esmaga a cabeça,
E aflui ao coração, e nele estala,
E se difunde violenta por seu ser.
IV
Dona Luz suplicava
Ao nobre capitão que, ensimesmado,
Escutava a esposa, com os olhos
Cravados, sem ver, no espaço.
— Só vi nesse homem
Um mistério infeliz, um ser estranho;
Não acho perigo nele; mas... tu o queres.
Tabaré partirá — disse Gonzalo.
— Partirá! — disse Blanca;
E para onde há de ir o índio desgraçado?
Que será dele no deserto bosque,
Enfermo e só? Não faças tal, irmão!
E que mal nos fez?
Por que abandoná-lo assim?
O pobre Tabaré não nos ofende...
Que ides fazer? É uma fera, acaso?
— Blanca; tu, sempre menina —
Disse-lhe dona Luz. — Pois quê! Estão pensando
Que são capazes de paixões boas
Esses seres nascidos para escravos?
Pensarás, Blanca, que ontem à noite
Não meditava um crime esse bárbaro,
Quando, nas altas horas, felizmente
Em vigília o encontraram os soldados?
— Um crime! Não, por certo.
Um crime, Tabaré! Que estás dizendo?
Tu não ouviste, como eu, o charrúa;
Se o ouvires, Luz, já não poderás odiá-lo.
Oh! Não expulseis o índio.
Lançá-lo para sempre!... É desumano!
Chamem o padre Esteban; que ele vos diga
Se Tabaré, o charrúa, é um malvado.
— Oh! O padre, o padre Esteban!
De massa de índios quer fazer cristãos!
Inocente ilusão! Ele não imagina...
Não pode ser! Expulsa-o, Gonzalo.
Se ainda crês que não é culpado
Depois que ontem à noite o encontraram velando,
Não lhe faças mal; mas, por Deus, expulsa-o,
Dá-lhe a liberdade; não o vejamos.
Enquanto ele está aqui, tu bem o sabes,
Sentada em meu leito
Sempre a insônia, com o rosto desse índio,
Introduz seus dedos em minhas pálpebras...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
V
Tabaré entrou sombrio...
Dom Gonzalo, que sozinho o esperava,
Busca, ao vê-lo entrar, mas busca em vão
O olhar do índio,
Que lampeja no fundo
Da órbita cerrada, como chama
Que, em luta com espessa escuridão,
Extingue-se, reaparece e se dilata.
Por que o índio charrúa
Foi surpreendido ontem à noite pela guarda?
Que procurava àquelas horas?
Que intento o levava?
O índio permanece imóvel em seu lugar,
Com a cabeça baixa.
Repete sua pergunta Dom Gonzalo,
E igual resposta: o prisioneiro cala.
O chefe continuou: — Quando o cacique
Quebrou diante de mim sua lança
Em sinal de amizade, dei-lhe a minha;
Não fui fiel à amizade jurada?
Diga o índio charrúa se o cristão
Falta às suas promessas...
Responda Tabaré! Que é o que pretende?
Tudo é em vão: o prisioneiro cala.
— Em troca, o índio amigo
Na alta noite pelo povoado vaga;
E na sombra revela sua fronte
Que em seu espírito há sombras, sombras más.
Que plano revolve nelas?
Nada em seu favor encontra para dizer-nos?
Raça maldita! Não é capaz então
De amor e gratidão? Tudo é vingança?
Uma terrível luta
Na alma de Tabaré se desencadeia,
E, como o eco da luta interna,
Soa um rouco gemido em sua garganta;
Mas cala. Um tremor imperceptível
Percorre-lhe a carne. Onda da alma
Chega a seu corpo enfermo, como morrem
As ondas na praia.
Compassivo, sem ódio,
O capitão contemplava o índio;
Mas, recordando o rogo de sua esposa,
— Pois bem — gritou, com expressão irada —,
Já que o índio charrúa
Nossa amizade rejeita,
Volte a seus bosques para envenenar suas flechas,
Volte a buscar as feras, suas irmãs.
O espanhol não quer
Violar em nada a amizade jurada;
Mas verá no índio seu inimigo,
O eterno inimigo de sua raça.
Vá livre à sua selva,
Pois não há amor nem gratidão em sua alma;
Mas jamais, onde o cristão respire,
Torne a pousar a planta sigilosa.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Dom Gonzalo partiu. Quis no lábio
De Tabaré assomar uma palavra;
Ergueu a fronte... e inclinou-a de novo!
Mudo e sombrio abandonou a sala.
Poema nacional uruguaio em que Juan Zorrilla de San Martín transforma a paisagem do Prata, a memória charrúa e o conflito colonial em uma narrativa lírica de perda, origem e destino.
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