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Tabaré

Capítulo 15 · Tabaré

Livro terceiro - Canto quinto

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Livro terceiro - Canto quinto

I

Quem é esse índio pálido que cruza
As colinas solitárias,
E atravessa o chircal e os banhados,
E leva uma virgem às costas?

Caminha vacilante como um ébrio;
Em rápidas convulsões
Sacodem-se-lhe os membros, e em seus braços
Oscila às vezes a preciosa carga.

É o índio impassível, o estrangeiro,
O selvagem com lágrimas,
A última gota de um sangue frio
Que ainda não bebeu a pampa sedenta.

II

O sol já percorreu
A metade de sua marcha,
E os viajantes sem cessar caminham
Através das colinas solitárias.

Ouvem por toda parte
A metálica voz da cigarra,
E a mamangava que zumbe dando voltas,
E o camoatí que ferve entre os ramos.

O trêmulo voo
Da perdiz distante,
E, no quebracho, o golpe vigoroso
Do pica-pau, lenhador com asas.

O ar está povoado
De murmúrios que passam;
Como envolto num véu de cristal,
O campo brilha entre auréolas diáfanas.

Com breves intervalos,
Nos ramos do arbusto,
Lança o tico-tico seu canto igual,
Prolongando a nota com que acaba.

E se ouve repetida
A diversas distâncias,
A mesma melodia queixosa
Que vai, vem, responde, roga ou chama.

A raposa entre as chircas
Arrasta a longa cauda,
Fugindo aos saltos e voltando às vezes

O focinho pontudo entre as sarças;
A pesada cabeça
Inclina o cardo seco; de sua branda
Plumagem desprendem-se as sementes

Como enxame de estrelas apagadas,
Que voam em flutuantes remoinhos
Ou pelo chão se arrastam;
Detêm-se, e retomam novamente

Seu caminho sem rumo, aturdidas.
E, com Blanca nos braços,
O índio não descansa,
Caminha lento, sem cessar caminha,

Deixando para trás as colinas solitárias.

III

Cruzam os banhados
Cobertos de taboas,
Sobre as quais desenvolve ao ar
Seu penacho gentil a palha brava;

Ali os mirassóis
Abrem suas verdes asas,
E lançam estridentes alaridos

Os pesados chajás nas barrancas.

Tremem os amarelos pajonais,
E brilham as tacuaras,
E, entre os cardos secos e caídos,
Cruzam a lagartixa e as iguanas.

Queixumes de pombas invisíveis,
E vozes de calandras,
E notas como golpes sonoros
Dos salgueiros adormecidos se desprendem,

E povoam o silêncio dos ares
Misturados às rajadas
De aromas puros, hálito do campo,
E de perdidas flores ignoradas.

A passo grave e lento, a cegonha
Percorre as canhadas,
Ou, roçando os juncos ao erguer-se,
Abana-os com suas asas brancas,

E, voando em compasso firme e solene,
Tranquila se adianta,
E se afasta e se afasta até perder-se
Diluída no ar e na distância.

Nas águas imóveis

Refletem-se as garças,
Que dormitam ou cruzam cadenciosas,
Como formas de espuma, entre as canas;

Os insetos se penduram
Em seus fios de prata,
Ou trepam por suas redes, que parecem
Fios de sol ou cristalinas harpas;

E com Blanca nos braços
Segue o índio sua marcha,
Despertando à sua passagem no matagal
Os veados, que fugindo se levantam,

E no cume distante da colina
Param para olhá-lo,
Projetando no céu a silhueta
Do corpo esbelto e das ramadas hastes.

IV

E os viajantes seguem.
E sobre eles as águias
Em imensos balanços se remontam,
Soberanas do espaço transparente.

Gritam os quero-queros,

Cujas asas armadas
Zumbem em voo oblíquo e atrevido
Que o ar em todas as direções rasga.

Ou correm pelo chão
E, fugindo, se agacham,
Abandonando o ninho silenciosos
Para gritar depois à distância.

Brilham entre as flores
A pequena couraça
E a armadura azul e o elmo de ouro
Do beija-flor, armado pelas auras,

Para travar, tremendo,
Suas rápidas batalhas
Contra os gênios que invisíveis flutuam,
E guardam os ovários das flores.

E tudo para o índio
Luz, ressoa e passa,
Como adeuses confusos e derradeiros
Que se vão para sempre e se abraçam.

Ele segue, segue sempre
Com Blanca às costas;
Nada escuta; seu corpo já não treme,
Já as feridas de seus pés não sangram.

Não saiu do lábio do charrúa
Nem uma só palavra;
O movimento de seu passo é doce
Como o balanço de um berço; Blanca

Sobre o braço, no ombro do selvagem,
A cabeça descansa;
As horas fecham suas inchadas pálpebras;
A virgem dorme... Por seus lábios passa

O alento em compasso, e neles deixa
Um sorriso amargo,
Longínqua transparência de um sonho
Que se move no fundo de sua alma.

V

Deteve-se Tabaré junto a um salgueiro.
Sob os ramos trêmulos
Está imóvel, absorto; para o índio
A doce menina aniquilou a terra.

Só sente em seu ouvido, compassada,
A tépida intermitência
Do alento de Blanca, que, adormecida,
Sobre um ombro descansa a cabeça.

Percebe suas batidas melodiosas
Que lhe golpeiam o peito,
Como o ritmo de um canto sem sons
Que sem tocar seu corpo chega à sua alma.

O índio não se move; como em êxtase
Conserva em seus braços
A virgem que dorme, como a ave
Dorme no ninho que pende do ramo.

VI

Aproxima-se o sol da última colina
E Blanca não desperta;
Dorme tranquila. Sua jornada o índio
De novo empreende, cuidadosa e lenta.

Seu pé desnudo, para guardar silêncio,
Esquiva a folha seca;
Sua mão, sem esforço, suavemente
Afasta a silvestre trepadeira;

Do lugar em que aninha o quero-quero
Com cuidado se afasta,
Para evitar seus gritos, que de Blanca
O doce sono interromper poderiam.

E segue, e segue, e cruza, uma após outra,
As colinas desertas;
Perde-se no cardal das canhadas,
E aparece de novo lá na encosta.

VII

Vedes ali na colina? O vento fresco
Da tarde que chega
Desperta a espanhola que, em torno de si,
Derrama o olhar com surpresa.

Como pôde dormir? Um raro sonho,
Que quase não recorda,
Acaba de voar deixando em sua alma,
Como o calor do pássaro que voa

Fica no ninho, um rastro de algo triste
Que precisar não consegue;
Algo como um acorde, cujas notas
Seguem vibrando ainda, mas dispersas.

Blanca mira o charrúa. Com o dedo
Este à virgem mostra
Uma coluna de fumaça que ao longe,
Sobre a massa das árvores, se eleva.

O Uruguay!
San Salvador!
A menina

Cravou um olhar intenso
Nos olhos do charrúa,
Azuis e tristíssimos. A estrela
Brilhava neles, pálida, longínqua,

Agonizante e trêmula,
A estrela solitária das tardes
Que as colinas últimas passeia.

O índio mirou Blanca, e sobre o peito
Inclinou a cabeça;
Seu olhar era frio e extenuado
Qual o último que envia, entre as brenhas,

O inerte veado que ali morre
Sem lançar uma queixa,
Lambendo a ferida dolorosa
Já sem sangue no flanco aberta.

A menina, sobre o ombro do charrúa,
E entre as mãos hirtes,
Ocultou o rosto, como se houvesse ouvido
Uma angustiosa inesperada nova;

Algo como o anúncio da morte

Que já tarde nos chega
De alguém que, ao expirar, nos chamou
E que talvez ouvimos sem dar conta.

Que viu Blanca ao despertar, e encontrar-se
Com aquele olhar?
Por que irrompeu de súbito num soluço
E num pranto de lágrimas acerbas?

Chorava aos gritos, com o rosto afundado
Entre as mãos gélidas,
E através de suas lágrimas mirava,
Levantando um momento a cabeça,

O índio em cujos braços se via,
A corrente imensa
Do Uruguay, e a coluna de fumaça
Que se elevava transparente e lenta.

VIII

Tabaré ouviu de Blanca os soluços
Com muda indiferença:
Impassível, perdida, sem pousar-se
Entre os ares sua mirada morta.

Estava de pé, mas insensível, frio,

Frio como a terra;
Parecia extenuado; mas de súbito,
Como empurrado por alheia força,

Seu corpo gelado desceu a colina
Com a espanhola às costas,
Cujos longos soluços ressoavam
Na selvagem solidão deserta.

E aquele grupo, atravessando o llano
Em sinistra carreira,
Como a sombra que no chão cruza
De escura nuvem que os ventos levam,

Afundou-se na sombra do bosque próximo,
Cujos talas e ceibos
Pareceram fechar-se após a passagem
Do índio e da espanhola. Assim se fecham

As águas ou o sepulcro, em cujo seio
Se afundam ou se precipitam
A flor que se desprende de seu ramo,
E o homem que escorrega da terra.

Tabaré

Sinopse

Poema nacional uruguaio em que Juan Zorrilla de San Martín transforma a paisagem do Prata, a memória charrúa e o conflito colonial em uma narrativa lírica de perda, origem e destino.

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