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Tabaré

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Tabaré

Capítulo 12 · Tabaré

Livro terceiro - Canto segundo

12 de 16 ≈ 19 min de leitura

I
Quem grita por ali, que treme o bosque,
E até os ares tremem?
Um vago resplendor, lá ao longe,
Sobre o céu escuro se projeta.
Destaca o bosquezinho, cujas formas
Vacilantes revela,
E ilumina aquele ombú, que só e negro
Está de pé, dormindo, lá na encosta.
Parece que se movem por um instante
As lombas sonolentas,
Que na turbada escuridão estavam,
E que assomam por entre as trevas.
De novo o alarido temeroso
Nos ares rebenta.
Acaso a fome congregou
Nesses matagais as feras?
Não; vede as feras: em rebanhos,
De orelhas estendidas,
Saltam daqui e dali; sobre as lombas

Detêm-se, voltando as cabeças;
Empreendem novamente, amedrontadas,
Sua rápida carreira;
E, alongando os corpos, deslizam
Com passo sigiloso entre as brenhas.
Arqueando os lombos amarelos,
Ficam encolhidas,
E na profunda escuridão do bosque
Seus dois olhos de fogo cintilam.
A ema corre pela planície,
Já com as asas soltas;
Sente-se o bater de asas dos pássaros
Que abandonam seus ninhos e se afastam;
E ouvem-se as corridas do veado
Que salta na ramagem,
E o rumor de manadas de capivaras
Que correm a buscar suas tocas.

II
Quem vai? Que sombras são essas que, correndo,
Vão entre as trevas
E indicam, com os braços estendidos,

O resplendor da fogueira distante?
São os índios charrúas. Brilharam
Os fogos da guerra
Nas lombas do Hum; fogos de morte,
Luzes do Uruguay nas ribeiras.
E o índio que perseguia o veado
Nas pampas desertas;
E o que acendia o tronco de algarrobo
No lar do vale, e às flechas
Atava, com os nervos da capivara,
O dente de pedra,
Ou torcia a corda do arco,
Feita de flexível trepadeira;
E o que olhava mais além, estendido
Com sua eterna indolência,
Suas mulheres fermentarem a chicha
E levantarem as peles da tenda,
Todos viram os fogos das lombas
E ergueram as cabeças,
E apontando o resplendor gritaram:
Ahú! Ahú! Ahú! Fogos de guerra!
Todos caminham; todos tomaram

Suas lanças e suas flechas;
Pintaram os rostos e os corpos
Com riscas muito azuis e muito negras,
Injetando em sua pele os sucos acres
Das ervas silvestres
Que o veado não come nem a lontra,
E que crescem de noite entre as pedras,
Sob as quais, nas horas altas,
Ladra a raposa em sua toca,
E se esconde a iguana perseguida,
E fazem ninho a coruja e a cobra.
Todos caminham; levam nos corpos
Arreios de peleja:
As plumas de ñandú sobre a fronte,
Nas lanças, cabeleiras humanas.
Aonde vão? Aonde os chama o fogo,
O fogo da guerra;
O que anuncia a morte do cacique
Lá no bosquezinho dos ceibos.
Ahú! Ahú! Ahú! Correm os índios,
Gritando nas trevas,
E o turbado silêncio da noite
Foge a esconder-se na selva próxima.

III
As nuvens de fumaça densa e iluminada
Que no ar se elevam
Sobre a massa negra das árvores
Marcam o sítio em que as tribos velam;
De longe se veem dos charrúas
As escuras silhuetas
Que, cruzando e saltando entre os troncos,
Sobre o fundo avermelhado se projetam.

IV
Estranho funeral! Os índios ébrios
Avivam dez fogueiras
Acesas em torno de um cadáver
Estendido sobre um leito de mato.
É um velho cacique. O sono frio
Entrou-lhe pelas veias;
Ninguém pôde arrancá-lo com a boca
Da pele do ancião; nela ficou,
Deixando-lhe a cor amarelada
Que entristece os ceibos
Quando o vento se esfria, e dos ramos

As folhas descem para morrer na terra.
Os médicos o ventre do cacique
Sugaram com força
Para arrancar-lhe o dardo e o verme
Que lhe causavam mal. Inútil luta.
Vede-o estendido, imóvel, taciturno,
Tão comprido como era;
Os índios gritam, em torno dele correm,
E golpeiam as bocas abertas.
O arco de urunday tem o cadáver
Entre as mãos hirtas;
Colocaram em ordem ao seu lado
Sua lança, suas macanas e suas flechas,
E peles de veado, e as vasilhas
Em que fermenta o sumo
De guaviyús silvestres e algarrobas,
E do mel que fabricam as abelhas.

V
As tribos cuidam para que tenha o morto
As pupilas abertas;
Bem atadas puseram em sua cintura

As assobiadoras boleadeiras de combate;
E, para que espante entre os negros toldos
A Añang e a Macachera,
Com sucos de urucum pintam seu corpo
E embijam-lhe o rosto que amedronta.
Tem azuis os pômulos salientes;
Amarelas e negras
São as riscas que cruzam suas faces,
E seu peito, e seus braços, e suas pernas.
O rosto deformado do cadáver
Forma uma horrível careta
Que infundirá terror quando o cacique
Dos gênios do ar se defender.

VI
Ahú! Ahú! Ahú! Por todos os lados
Os índios atravessam;
Uivam, correm, saltam arquejantes,
Dando ao ar as rígidas melenas.
Fazem assobiar as boleadeiras, agitadas
Em torno de suas cabeças,
Chocam as lanças, os punhos cerrados

Com gesto feroz elevam ao ar,
E formam um acorde indescritível
Que nos ares rebenta:
Ebulição de gritos e clamores,
Golpes, imprecações e corridas.
Ora ferindo-os em cheio, ora ao longe
Banhando-os pela metade,
Conforme das fogueiras se aproximam,
Ou delas, com vertigem, se afastam,
A luz faz brotar, como arrancados
Do meio em que se revolvem,
Corpos nus, rostos que aparecem
E de novo se afundam nas trevas.

VII
Não são mulheres essas que agora
As fogueiras iluminam,
Essas que dançam em redor do morto
E levam seus pequenos nos braços?
Sim; são mães de índios. Seus cabelos,
Em escuras madeixas,
Flutuam sobre as mórbidas espáduas,
Cingidos na fronte; mas não velam

Os corpos palpitantes e nus
Em que os fogos tremem,
Dando relevo aos seios redondos
Que, suados de cansaço, ondulam.
Têm seus movimentos convulsivos
Certa rude cadência,
E suas formas desnudas, às formas
Da fêmea do veado se assemelham.
Seus olhos negros brilham, embebidos
Na luz, e faiscam;
Cintilam suas cinturas elásticas,
Em plumas cinzentas de avestruz envoltas.
Os colares de pedras coloridas
Soam em suas gargantas,
E os cintilhos de brilhantes plumas
Adornam seus tornozelos e pulsos.
Aquele que, ajustado na fronte,
Ao erguer-se sobre ela,
Dá à figura a esbeltez do pássaro
Que ostenta seu penacho no salgueiral.
As índias vão cantando; seus cantares
São uma estranha mistura
De alaridos e gritos queixosos

Que num ritmo monótono se estreitam.
Os ruidosos bandos de gaivotas
Que sobre a água voam
Gritam como essas índias, e no ar
Como elas se revolvem e atropelam.
A turba dos índios as empurra,
E as mulheres rolam
Feridas, dando gritos que ao vagido
De seus filhos se unem. Não se arredam:
De novo se levantam, e prosseguem
Em sua dança frenética,
E nos cantares bárbaros que entoam
Em torno do cadáver, dando voltas.

VIII
Em redor daquele fogo e de cócoras,
Vede essas índias velhas;
Quase com os joelhos sobre o peito,
Revolvem suas vasilhas e bocejam.
Sobre seus rostos pendem os cabelos,
Que o tempo não branqueia,
Como rebentos lassos e murchos

Que ainda dos troncos vacilantes pendem.
Não adornam os corpos angulosos;
Suas mandíbulas secas
Mastigam algo que ao beberagem lançam,
Que nas silvestres cascas fermenta;
Gritam de vez em quando, e se levantam,
E de novo se sentam.
Há em suas vozes algo de rangido
Que talvez do grito do chajá se aproxime.

IX
E esses índios de bruços na sombra?
Por que dão esses queixumes?
Não é sangue o que brota de suas mãos
Que mostram destroçadas?
Cortaram os dedos. São parentes
Do cacique que velam:
Cortaram os dedos com o fio
De seus machados de pedra.
Assim, de que choraram o ancião,
Dão eloquente prova.
Quem porá em dúvida sua dor, que em vozes

Em coro manifestam?

X
Ninguém que à meia-noite aqueles gritos
E clamores ouvisse
Evitária que o terror lhe gelasse
Com um frio de morte até as veias.
Os prantos das crianças e mulheres
No ar se misturam
Com os gritos, palavras e alaridos
Dos índios que, irados, vociferam,
E com o choque das armas, e o assobio
Das boleadeiras de pedra,
E os golpes de corpos desabados
Que, feridos, no chão se revolvem.

XI
Que querem essas gentes? Por que correm?
Que veem nas trevas?
A quem ameaçam no ar
E dirigem suas bárbaras arenga?

Quem não o sabe! Espantam as sombras
Que, em bandos, se aproximam
Do índio morto, para fechar seus olhos
E apagar-lhe os fogos. Vede: são essas,
Essas que, com suas asas de carancho,
Entre os ramos voam;
Curupirá as sopra e as revolve,
O negro Añanguazú vem com elas.
São os filhos do ar e da noite,
Que andam nas tormentas
Acendendo seus fogos nas nuvens,
Espalhando nelas os grandes ruídos;
São os cães que roem as luas
E apagam as estrelas,
E lançam os latidos prolongados
Que se costumam ouvir nas cavernas;
Os que afiam os dentes das víboras
Adormecidas em suas covas,
E na relva que pisam os charrúas
Semeiam as aranhazinhas da morte.
São as sombras malditas que do cadáver
Do cacique se aproximam,
Para fechar suas pálpebras, ficando

Sob elas ocultas; ali esperam
Que se apague do índio o olhar
E para dentro se volte.
Então o perseguem e o acossam
Na noite sem luas que começa.
E ali, escondidos em seus toldos negros,
Disparam-lhe suas flechas,
Fingem rostos horríveis no escuro
E sopram como o vento em suas orelhas.

XII
O vento se acalmou; algumas vozes,
Em meio à incoerência
Da gritaria selvagem, com esforço
Talvez se compreendam.
Ouvi esses que cruzam: suas palavras
Claras ali ressoam;
Também aqueles que, com duros gestos,
Ameaçando o ar, vociferam:
— Ahú! Deixai o morto!
Deixai o tubichá!
Por que soprais a chama de seus fogos?

Deixai o morto, Añang!
— Não lhe fecheis os olhos!
— Ahú! Ahú! Ahú!
— Sentis ladrar as sombras? Saíram
Do tronco do ombú.
— Correi, segui aquela que ali se revolve!
Sacode a ramagem com as asas
E agita o ñapintá.
A quem leva o fantasma
De rápido correr?
Já fugitivo, em seus ombros leva
O cacique que foi.
— Como gritam as árvores!
— Ahú! Ahú! Ahú!
— O ar zumbe; são os moscardos
Que corre Añanguazú.
— Perseguindo a lua,
Os cães negros vão!
— Os cães negros que começam a beber
Sua tépida claridade!
Como olha essa sombra
Com seus olhos de luz!
— E como se retorcem e se alongam
Suas asas de ñandú!

— O vento! O vento negro!
Lá vai! Lá vai!
Quem zumbe nele? As moscas que conduz
Rosnando a mamangava!

XIII

As sombras da noite
Vêm voando em caravana aérea,
E lutam com as chamas, sacodem-nas,
E em torno do lar volteiam.
As chamas as rechaçam,
E as detêm em auréola negra,
Em cujo seio as árvores anosas
Tomam formas mutáveis e quiméricas.
Os olhos do cadáver,
Horrivelmente abertos, pestanejam;
Parece que seus membros estremecem
Ao avivar-se o fogo que o cerca,
Ou que o rígido corpo
Nada no ar, flutua nas trevas,
E afunda, e reaparece, e se transforma
Quando a inquieta labareda míngua,

Formando um fundo negro
Cheio de linhas vagas e revoltas;
Um meio em que se esfumam e se movem
Formas variegadas e incompletas.

XIV

O vento se calou entre os ares;
Os selvagens arquejam;
Apoiam-se nas lanças ou nos troncos,
Ou deixam-se cair sobre a relva.
A gritaria rareia: pelo ar
As vozes se dispersam.
Soam aqui os prantos das mulheres;
Além, os contundidos ainda se queixam.
Os fogos, não avivados, languescem;
Suas línguas oscilantes
Movem-se como o índio que, bêbado,
Leva de um ombro ao outro a cabeça.
Corre entre aquelas vozes um silêncio
Semelhante ao que reina
Sobre a onda do rio quando acaba
De passar pelo ar a tormenta.

XV

Rompe-o um jovem índio que, saltando,
Chega desvairado;
Dá um grito clamoroso e, com sua lança,
Fura a casca de um velho tronco.
Fala aos brados, furioso, sacudindo
Sua cabeleira negra;
Suas palavras parecem alaridos
De uma rude e fantástica eloquência;
E salta como o tigre, e com a maça
Ensanguenta o corpo,
E sobre o negro matagal de plumas
Agita a bola atada ao seu pulso.
São de ferro seus membros; ninguém excede
Sua estatura gigantesca;
Ramos de salgueiro negro, seus cabelos
Pelo rosto e ombros se despenham,
E em seus olhos pequenos e escondidos
Os olhares faíscam
Como águas negras e profundas,
Tocadas pelo raio de uma estrela.

XVI

É o cacique Yamandú. Os índios
Erguem-se e o rodeiam.
Que quer Yamandú? Reclama o mando,
Mostrando suas feridas e sua força.
Ninguém como ele descompõe o rosto
Com espantosa careta,
Nem lança o alarido que, na luta,
Brota do oco de sua boca aberta;
Ninguém como ele no lábio inchado
Atravessa o sinal
Que distingue os índios das tribos
Que mais espanto infundem na guerra.
Quem, senão ele, então, a gente
Levará à peleja?
Quem senão ele, que de inimigos mortos
Cem cabeleiras ostenta em sua tenda,
E adorna sua garganta com colares
De dentes e molares
De arachanes vencidos, cujas peles
Formam de seu arco a flexível corda?
Jamais o gamo, fugindo na planície,

Pôde esquivar-se à sua flecha,
Nem a ema ao golpe de sua bola,
Que silva como víbora sedenta.
Ahú! clama com grito prolongado,
Aqui, no urunday,
O índio Yamandú cravou sua lança...
Ninguém a arrancará!
Eu pelejei com ela entre as tribos
Que veem nascer o sol;
Nem jamais a quebrei no joelho,
Nem em meu braço tremeu.
Cravei-a no bosque onde acendem,
Os caciques chanás,
E os manuanos, tapes e bohanes,
Os fogos de seu lar.
Eu arranquei a sangrenta cabeleira
Do feroz Tubichá,
Cuja piroga atravessou as ondas
Do rio como mar.
Vede minha pele! Tem mais feridas
Que plumas o ñandú,
E que luas viram os anciãos
Sair do guaycurú.

Eu derramo o sangue de meu corpo,
Do qual, no chircal,
Brotam os yacarés que entre os juncos
Dormem do Uruguay.
Os raios dos brancos não penetram
Em minha curtida pele,
Mais dura que a pele da tartaruga
E do Jaguareté.
Olhai meus olhos: brilham na sombra;
São os ñacurutú...
Qual dos índios tem o olhar
De meus olhos de luz?

XVII

Um murmúrio de assombro se difunde
Entre aquela turba;
A tribo, fascinada e aturdida,
Encontra novo cacique no selvagem.
Já em algumas gargantas comprimido
Está o grito de guerra;
A aclamação ao índio cujos olhos
Ao mover-se na sombra centelham.

Entreabertos e imóveis os lábios,
Os outros o contemplam;
Sobre aquele grupo de corpos nus
As rubras labaredas se refletem.
Só elas se movem, e o cacique,
Cuja rude eloquência
É algo como uma vertigem que estoura;
Uma dança fantástica e sinistra.
Só ele se agita, salta, se retorce
Com espantosa força.
Imóvel o restante; todas as almas
Nos olhos absortos se condensam.
Ninguém, prossegue o índio, estremecendo
A turba com sua voz,
Ninguém a lança que meu braço cravou
De seu tronco arrancou!
Chega à minha tenda, sem morder-me as pernas,
O mau añanguazú;
Eu penetro de noite no mais escuro
Bosquezinho do Hum;
As sombras dos velhos de minha tribo,
Que vivem em Tupá,
Vêm em suas nuvens ensinar-me o grito

Que lançam os chajás;
Os cães que devoram as luas
Não ladram como eu;
O vento negro da noite se cala
Quando escuta minha voz.
Quem arranca minha lança? Quem sua força
Mede com Yamandú,
O índio dos braços como o tronco
Do velho guabiyú?
Não ouvis o rio? Soa em suas barrancas.
Ouvi o Uruguay!
É rio dos índios. E os brancos
Em sua margem estão!
Os brancos que vieram de lá longe,
De onde nasce o sol;
Os que matam os índios com os raios
Que o astro lhes emprestou,
E lhes cortam as negras cabeleiras,
E lhes tiram a pele;
E lhes roubam a terra em que nasceram
E em que pousam os pés.
Dando um gemido morrerá o charrúa

Que nunca se queixou,
E suas mulheres correrão lançando
Seus gritos de dor.
Quereis matar o estrangeiro? Então
Segui Yamandú.
Eu sei matá-lo como ao gato bravo
Dos bosques do Hum.
Os crânios dos pálidos guerreiros
Ao índio servirão
Para beber a chicha de algarrobas
E o sumo do palmar.
Seus raios não me ofendem; em seu sangue
Afundarão nossos pés;
Suas cabeleiras em nossas lanças
O vento há de mover;
Virgens brancas, que nos olhos têm
Formosa claridade,
Acenderão em nossos livres vales
Nosso selvagem lar.
Nesses dias de horas longas
Em que canta o sabiá,
E ao pé da barranca está o banhado
Adormecido no juncal;

Nessas noites em que de quando em quando se ouve
O canto do urú,
As virgens escravas do charrúa
Brilharão com sua luz.
Seus corpos são mais brandos que o veado
Que acaba de nascer,
E tremem como treme entre a relva
A verde caicobé.
Seus cabelos parecem os renovos
Mais tenros do salgueiral;
Suas bocas se abrem como o doce fruto
Que dá o mburucuyá...
Vamos! Segui-me! O estrangeiro dorme,
Dorme no Uruguay!
O sono que em seus olhos se sentou
Não se levantará!
Vedes? A lua de fogo das colinas
Ainda não se distingue;
Ainda se sente ao longe, nos ramos,
O canto do urú!
Só escravos do branco, lá em sua tenda,
O índio engendrará,
E em seus bosques o fogo da guerra

Não acenderá jamais;

XVIII

Um alarido imenso, pavoroso,
Nos ares rebenta;
Ninguém a fauces humanas tais gritos,
Ao ouvi-los de noite, atribuiria.
Uma águia tranquila, que passava
Sobre aquela selva,
Acelerou o voo, mudou de rumo,
E se perdeu na solidão imensa;
E o tigre, sob a pálpebra apagando
De sua enorme pupila a luz,
E varrendo a terra com a cauda,
E estendendo para trás a aguda orelha,
A passo largo, e com temor mudando
De lugar na macega,
Revolveu-se três vezes para afundar-se
E ficar mais oculto entre as brenhas.

XIX

Yamandú tubichá! Yamandú acende
Os fogos da guerra!
Ao rio! Ao rio! O estrangeiro branco
Estendido dorme em sua tenda fechada!
Ahú! ahú! ahú! Vamos, cacique,
Lança ao ar tua flecha,
Para que o astro dos índios a alcance,
E com presságios de vitória volte!
E a flecha do índio pelo ar
Estende as asas mortas...
Ahú! ahú! ahú! Voltou do astro,
Voltou do astro e cravou-se na terra.
Reta como as palmas das ilhas!
O astro falou com ela!
Ao rio! Ao rio! Ao Uruguay! Ao rio!
Cacique Yamandú! Fogos de guerra!

XX

Atrás de Yamandú corre a tribo.
Sua negra silhueta
Vê-se ao longe transmontar as colinas
Como escuro rebanho de cobras.

Seus gritos e os choques de suas armas
Mal se percebem;
As mulheres, as crianças, os feridos
Em todas as direções se dispersam.
Escutam-se seus gemidos por algum tempo,
Que no bosque se internam;
O silêncio que fugiu, de novo volta
A deitar-se fatigado entre a relva.

XXI

Tudo está em calma; o vento está calado,
Voltaram as estrelas
A brilhar através de seus vapores,
E seguem em silêncio sua carreira.
O cadáver do índio, abandonado,
Flutua entre as trevas;
As fogueiras a ponto de extinguir-se
Iluminam-no com penosa intermitência,
Banhando-o nas tênues labaredas
Que, oscilantes e trêmulas,
Arrancam de entre as cálidas cinzas
As pontiagudas e azuladas línguas.

As sombras que adejam, pouco a pouco
Baixaram à terra,
E em torno dos fogos expirantes
Arrastam-se, agarrando-se às brenhas.

Tabaré

Sinopse

Poema nacional uruguaio em que Juan Zorrilla de San Martín transforma a paisagem do Prata, a memória charrúa e o conflito colonial em uma narrativa lírica de perda, origem e destino.

Tabaré

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