Universo da obra
Universo da obra
Chama os servos Smail-agá,
No meio das torres de Stolac,
Na terra da Herzegóvina:
“Vinde aqui, servos meus,
Trazei-me os montanheses,
Que eu cativei por escravos
Nas águas frias do Morača.
E também o velho Durak,
Que, traste vil, me aconselhava
A deixá-los voltar a suas casas,
Pois são, dizia, vlacos ferozes;
Eles hão de vingar em mim
Cabeças vlacas com minha cabeça:
Como se tremesse o lobo sombrio
Diante do faminto rato da serra.”
Os servos ligeiros obedeceram,
Trouxeram os prisioneiros.
Nos pés, pesadas grilhetas,
Nas mãos, algemas de ferro.
Quando os viu o poderoso agá,
Mandou jungir bois gordos
E algozes, linces cruéis,
E deu-lhes presentes turcos:
A cada moço entrega uma estaca aguda,
A este uma estaca, àquele uma corda,
A outro destina o sabre afiado.
“Ide, cristãos, repartir os dons
Que eu, turco, vos preparei,
A vós e a vossas montanhas de pedra;
Pois como for convosco, assim será com todas as Brdas.”
Disse o turco; mas morrer
Pela santa fé de Cristo
Não é penoso a quem por ela luta.
Gemeu a estaca algumas vezes,
Sibilou o sabre algumas vezes,
Tremeram aquelas forcas frágeis,
Mas não gemeu a jovem gente montenegrina,
Nem gemeu, nem rangeu os dentes.
Pelo campo correu o sangue escuro,
Nem gemeu, nem rangeu os dentes.
O campo se encheu de corpos,
Nem gemeu, nem rangeu os dentes.
Só houve quem invocasse o grande Deus,
Quem chamasse o belo nome de Jesus,
E assim facilmente se apartaram do sol
Os campeões acostumados a morrer.
Como rio, o sangue corre pelo campo;
A turcada fita, de braços cruzados.
Quem é mais moço olha com gosto
As dores na cruz de tília;
Mas quem é mais velho, essas mesmas dores,
Pela mão vlaca, sobre si próprio
Já de antemão sente de medo.
O agá irado olha sombrio
Para onde, poderoso, é forçado a admirar
O forte leão diante do rato da montanha.
Quem és tu, herói? Vingar-te não podes
De outro herói enquanto ele não se entrega.
O turco degolou tantos valentes,
Ceifou-os, mas não saciou o coração,
Pois sem temor todos diante dele caíram.
Teme aquele que se acostumou
A morrer sem grande aflição.
Vendo o agá tamanha fortaleza,
Gelou-lhe o fundo do peito,
Como se, com lâmina gelada,
Uma ponta de gelo lhe tocasse a alma.
Seria dor pelos heróis
Que, poderoso, em vão matara?
O turco não sente dor por cristãos.
Seria medo, por temer a própria cabeça?
O poderoso agá oculta isso de si mesmo.
Não vês como se esforça
O bravo herói para conter o frio
Que, daquele pequeno ponto,
Lhe rola pelo corpo ondas de gelo?
Olha a cabeça, para os céus,
Como orgulhosa e brava se ergue;
Olha a fronte clara e o olho,
Como sob ela límpido relampeja;
Olha o porte robusto, que, conhecendo
Sua própria força, se mantém ereto;
E então me dize: há ali
A menor sombra de medo?
E agora escuta como fala o herói,
E como asperamente censura os covardes:
“Ai, Durak, velho dos velhos,
Por onde irás agora, para onde irás?
Agora que degolei os ratos da serra?
Para a montanha? Lá estão os montanheses;
Para a planície? À planície eles descerão;
Ou viverás para perder a cabeça?
Melhor é fugir para debaixo das nuvens.
Os ratos mordem, mas rastejam pelo chão;
Só a águia cinzenta sobe sob o céu.
Erguei-o nas forcas frágeis,
Para que saiba de que lhe valeu o medo.
E o turco, se ainda houver
Em algum lugar alguém que tema o vlaco,
Eu o erguerei ao céu, sob as nuvens,
Ali fique a presa negra para os corvos.”
Calados calam-se os servos escravos,
Calados calam-se, agarram sua presa.
“Aman, aman!”, guincha o velho,
E Novica, seu filho, em vão,
“Aman, aman!”, soluçando grita.
Está de pé o agá, fera da montanha,
Pilar de ferro, pedra dura.
Mal respira, com a mão acena,
O velho Durak quase expira.
“Medet, medet!...” O algoz feroz
Já lhe aperta até a garganta.
Durak bramiu, tudo emudeceu.
Tradução literária em português-BR do poema épico croata de Ivan Mažuranić, marco do romantismo eslavo do sul, preparado para a Copa do Mundo Literunico.
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