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A Morte de Smail-aga Čengić

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A Morte de Smail-aga Čengić

Capítulo 4 · A Morte de Smail-aga Čengić

III. A Companhia

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III. A Companhia

Ergueu-se pequena companhia

Em Cetinje da Montanha Negra.

Pequena é, porém valente,

Nela mal cabem cem heróis,

Não heróis escolhidos

Pela feição nem pela beleza,

Mas pelo coração heroico;

Daqueles que hão de investir

Não contra dez, para fugir,

Mas contra dois, para ceifá-los;

Daqueles que hão de morrer

Pela cruz honrada, em que se batizaram,

Pela cruz honrada e pela liberdade de ouro.

Estranha companhia! não reunida

Como se reúne outra companhia.

Ali não se ouviu, como alhures:

“Quem for herói, ao desfiladeiro!”

“Ao desfiladeiro, quem for herói!”

Ali não ribombou o eco áspero.

Mas, como secreta voz dos espíritos,

Com que falam os altos gênios,

Um sussurro escuro pela Montanha Negra

De uma rocha a outra adejou,

E eis o prodígio! pela treva dirias:

A pedra fria recebe vida,

Treme, rasteja, ergue a cabeça,

Da dura laje compacta

Mostra o punho forte, a perna robusta,

E pelos nervos gelados, quente,

Dirias, o sangue lhe ferve em rio.

Vês então a longa espingarda

Que se alteia rumo aos céus,

Mas o que a faixa à cintura

Fiel esconde, teus olhos

Isso não veem; ... e a treva mais densa

Todo ser noturno te arrebatou;

Partiu o guerreiro de onde a voz desceu.

É hora surda da noite escura,

A nuvem encobre as estrelas claras,

A noite e a faixa, o ferro luzente.

Vai a companhia noturna, escura,

E diante dela um cavaleiro nobre,

Se um companheiro a outro dele sussurrasse,

Sussurrando o chamaria Mirko.

Vai a companhia, mas para onde?

Em vão perguntarás à própria companhia.

Em vão perguntarás aos relâmpagos velozes

E aos trovões fortes, em vão,

Por onde ribombam acima da montanha?

Quando eles sempre te respondem:

“Não nós, não nós, mas o trovejador,

A quem todos devemos servir!”

Vai a companhia, por onde? para onde?

Só o sabe aquele que está no alto.

Deve ser pesado pecador

Aquele sobre quem ele quer lançar

Tamanho poder do alto dos céus,

Juízo de sua justiça eterna.

Marcha a companhia, quieta e muda,

Por entre densas, surdas trevas.

Ninguém sussurra, ninguém fala,

Ninguém canta, nem se ri:

De cem vozes, voz alguma se ouve.

Mas, como nuvem de granizo pesado

Pesados flagelos no seio esconde,

Cintilando surda, ameaçando surda

Ruína à terra sobre a qual se revolve:

Assim também a companhia envolta em treva,

Semelhante à destra do Altíssimo,

Marcha calada, para que os culpados aprendam

Que, embora o trovão não responda logo

Às iniquidades, nem por isso estão seguros:

Pois quanto mais tarde, tanto mais forte fere.

Não tilinta o ferro claro,

Nem trovejam os canos mortais,

Nem ao passo leve dos pés

Respondem as fivelas luzentes:

Mas, como se soubesse quem carrega,

Sob a opanca dos filhos valentes

Cede a penha dura,

E a áspera encosta das montanhas.

Junto ao fiel companheiro caminha o companheiro

Inseparável, fiel e firme,

Como os Gêmeos, estrelas claras,

Quando o raio do sol se extingue.

Komljani e Zagarač,

E o feroz Bjelopavlić também,

Há muito ficaram para trás,

E já pisam os quebrados Rovci.

E depois de Rovci, a companhia noturna,

No alvo raiar da aurora,

Caiu sobre a célebre Morača,

De cujas águas frias

Tira nome a terra que delas nasce.

A valente companhia, para passar o dia,

Sentou-se junto à fria Morača.

Um se abaixa à relva orvalhada

Para fortalecer com sono a força do corpo;

Outro examina o fogo feroz da espingarda

E conta os cartuchos mortais,

Ou a lâmina segura

Da faca fiel alisa com a pedra;

Outro, arrancando do sílex a centelha

Com firme esperança, e em leve graveto

Acolhendo-a, depois amontoando ramos,

Logo, com pequeno sopro heroico,

Faz crescer a chama; e outro, alegre,

O presente do rebanho manso, um quarto de carneiro,

Gira num espeto de aveleira,

Ou uma fatia de queijo branco

Tira do ventre da fiel sacola.

Tem sede? A Morača está perto;

Precisa de taça? Tem duas mãos.

Nisso o dia já começou a avermelhar,

E na montanha vizinha

Ouves a voz do pastor chamar o rebanho,

À qual sonoro responde

O sino do carneiro guia.

Mas eis que vem outro pastor,

Onde manso caminha para seu rebanho.

Não o adorna prata nem ouro,

Mas virtude e a batina negra.

Não o seguem brilhantes acompanhantes

Com lampiões e tochas luzentes,

Nem soberbos sinos dos campanários:

Antes o segue, do ocidente, o sol,

E o sino humilde do carneiro na montanha.

Sua igreja é o maravilhoso firmamento,

Seu altar honrado, a montanha e o vale,

Seu incenso, o aroma que sobe ao céu

Da flor e do vasto mundo branco,

E do sangue derramado pela cruz.

Quando se aproximou da companhia

O digno servo de senhor mais digno,

Invocou sobre ela o auxílio de Deus.

E, reunindo os bravos cavaleiros,

Subiu à pedra fria,

Pedra fria, mas o coração ardente.

O bom ancião falou à companhia:

“Filhos meus, bravos campeões,

Esta terra vos deu à luz,

Pedregosa, mas para vós dourada.

Vossos avós nasceram aqui,

Vossos pais nasceram aqui,

E vós mesmos nascestes aqui:

Para vós, nada há mais belo no mundo.

Vossos avós por ela verteram sangue,

Vossos pais por ela verteram sangue,

Por ela vós mesmos verteis sangue:

Para vós, nada há mais caro no mundo.

A águia tece o ninho no cume escarpado,

Pois liberdade não há na planície.

A vós, que a isso vos habituastes,

A passar sóbrios os dias,

Quem vos pergunta se as rochas dão vinho?

Quem vos pergunta se as rochas dão trigo?

Quem vos pergunta se as rochas dão seda?

Enquanto nas fontes houver águas frias;

Enquanto nos vales mugirem rebanhos fartos;

Enquanto nas serras balirem pequenos gados?

Pólvora tens, chumbo te basta;

Forte é a destra do herói;

Sob as pálpebras, olho de falcão;

No peito, coração ardente pulsa;

A fé é firme, dela não te apartarás;

O irmão jurado te guarda como irmão;

A mulher fiel abraça o homem fiel;

Teu dom é a nobre canção de teus feitos;

Precisas de ferro? O turco o traz a ti:

Eis tudo quanto teu coração pede!

Mas, acima de tudo, o que orna estes penhascos

É a cruz honrada que sobre eles paira.

É ela que vos fortalece na aflição;

É ela, misericordiosa, que vos protege do céu.

Ah, se vissem os demais povos do mundo,

Lá das planícies, de onde visão não há,

Esta cruz gloriosa, nunca vencida,

Que do alto do Lovćen se ergue para o céu;

E se soubessem como o monstro turco,

Tentando tragá-la com horrenda garganta,

Em vão quebra seus dentes contra estas rochas:

Não cruzariam lerdos os braços,

Enquanto vós, pela cruz, suportais tormentos,

Nem por isso vos chamariam bárbaros,

Porque morrestes enquanto eles dormiam!

Pela cruz honrada estais prontos a morrer.

Por ela também agora vos levantastes para morrer,

Bravos vingadores da ira de Deus;

Mas quem vai servir fielmente a Deus

Com coração puro deve servi-lo,

Com alma pura deve cumprir

Aquilo que cumpre Deus, que julga do céu.

Se algum de vós ofendeu um irmão;

Se, tirando ao fraco amado do adversário

A vida, gravou pecado na alma;

Ou fechou a porta ao viajante;

Ou deu a fé e depois a quebrou;

Ou negou alimento ao faminto;

Ou não ligou a ferida do ferido;

Tudo é pecado, tudo são obras ásperas:

Sem arrependimento não há perdão.

Arrependei-vos, enquanto há dia,

Enquanto é tempo, filhos, arrependei-vos;

Arrependei-vos, antes que seja chamada

A alma àquele que abala os céus;

Arrependei-vos, pois da morada terrena

O curso escapa fugindo, arrependei-vos;

Arrependei-vos, pois a aurora cedo

Encontrará muitos no caminho de onde não se torna.

Arrependei-vos...”

Mas na garganta

Do bom ancião a palavrinha se prendeu,

E na barba grisalha uma límpida

Gota, ao raio do sol,

Como pequena pérola brilhou.

Talvez também a ele os anos moços

Com amarga lembrança repreendam,

E, curando as feridas do rebanho,

Lembre-se ele próprio de sua dor:

Bom pastor, pois o que diz aos outros

Confirma também com seu próprio ato.

Está a multidão tomada de dor

Pela palavra branda do ancião brando;

Dirias cordeiros mansos

Aqueles que eram leões da montanha;

Tais prodígios faz a palavra de Deus.

Mas, entrementes, quem apareceu

Diante dos olhos da companhia mansa,

De modo que cem mãos para cem facas

Num só instante se lançaram?

Estranha criatura! Capaz de apartar

Cem corações dos céus,

E cem vontades, se o quisesse,

Arrasar todas aquele único ser!

É Novica, o verdugo maldito.

É Novica, cheio de liberdade,

Que avança para o círculo piedoso,

E, chegando mais perto do ancião,

Assim ergue sua voz robusta:

“Por Deus, irmãos, bravos montenegrinos,

Não leveis a mão às armas claras.

Sou Novica, mas não aquele de antes,

Pois não contra vós, mas convosco caminho

Para agora ungir as mãos em sangue turco.

Entre os turcos, tudo quanto eu possuía

O turco odioso me arrebatou.

Nada me restou senão a destra valente,

E que doravante ela seja montenegrina.

E porque ao guerreiro da cruz não convém

Senão ser cristão, desejo: batizai-me,

Pois o tempo urge a agir depressa.”

Cem destras, a essas palavras,

Largaram as armas ferozes,

E cem olhos, como através do orvalho,

Em lugar do sol, viram um arco-íris.

Acenou com os olhos o bom ancião;

Os homens da Morača lhe deram um gorro:

“Crê, filho, no Pai altíssimo,

E em seu Filho desde a eternidade,

E no terceiro Espírito misericordioso:

Crê na fé, e a fé te salvará!”

Disse, e aspergiu o feroz infiel

Diante das testemunhas, as altas montanhas,

E de seus filhos, a companhia na serra.

Então o ancião ergueu os olhos,

Os olhos brandos e as brancas mãos,

E absolveu a companhia de seus pecados.

Depois começou a ofertar-lhe Deus:

A cada moço dá uma partícula

Da comida secreta, o pão celeste;

A cada moço dá uma gotinha

Da bebida secreta, o vinho celeste.

O sol ardente contempla o milagre admirável,

Onde um fraco ancião fortalece homens fracos,

Para que sua força semelhante a Deus se torne.

Quando o ancião os fortaleceu,

Toda a companhia se beijou em ordem.

Permanece a companhia cheia do Deus altíssimo,

Não como faca sangrenta, com que se inflige

Ferida mortal e pesada:

Mas como pena santa e dourada,

Com que o céu, para netos tardios,

Registra os feitos heroicos dos pais.

O sol ardente atrás da montanha se sentou;

O ancião partiu, a companhia seguiu adiante.

A Morte de Smail-aga Čengić

Sinopse

Tradução literária em português-BR do poema épico croata de Ivan Mažuranić, marco do romantismo eslavo do sul, preparado para a Copa do Mundo Literunico.

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