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A Morte de Smail-aga Čengić

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A Morte de Smail-aga Čengić

Capítulo 5 · A Morte de Smail-aga Čengić

IV. O Tributo

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IV. O Tributo

Campo de Gacko, belo tu és,

Quando em ti não há fome,

Fome feroz nem feroz desdita!

Mas hoje, pobre, te esmagaram

Moços sanguinários e armas luzentes,

Cavalos de guerra, tendas brancas,

Pesados ferros e falacas terríveis.

Que querem os moços? que querem as armas luzentes?

Que querem os cavalos? que querem as tendas?

Os pesados ferros e as falacas terríveis?

Smail-aga recolhe tributo sangrento

Por Gacko e ao redor de Gacko.

No meio do campo ergueu as tendas,

Depois espalhou os cruéis cobradores,

Cobradores — que os lobos os devorem —,

E por cabeça exige um ducado amarelo,

E por lar um carneiro cevado,

E por noite, em ordem, uma donzela.

Do oriente cavalgam os cobradores,

Conduzem a ráia nua presa às caudas;

Do ocidente cavalgam os cobradores,

Conduzem a ráia nua presa às caudas;

Cavalgam dragões do norte e do sul,

A ráia nua às caudas vão levando.

Pobre ráia, mãos às costas,

Segue as pegadas dos cavalos, presa à corda.

Deus amado, em que é culpada a ráia?

É culpada por ser peste que os turcos corrói?

É culpada por ser ferrugem que os fere?

Em que é culpada? — Culpada é de estar viva,

E de não ter o que ao turco falta:

Ouro amarelo e pão branco.

Nisso o aga, em bom cavalo,

Diante da tenda vai e vem brincando,

E com o dardo o olho claro

E a destra brava exercita.

Ora ultrapassa outros turcos no salto

Do rápido cavalo, ora no arremesso os vence,

Bom herói — se homem assim fosse homem!

E quando viu que presa

Os cobradores cruéis arrastavam,

Lançou-se como seta

No alazão, bom cavalo,

E em pleno voo, por prová-lo,

Arrancou com a mão o dardo feroz

E à primeira cabeça cristã o endereçou.

Mas até no bom herói

Dormita às vezes a mão valente.

Assim então quis o acaso adverso:

Tropeçou o veloz alazão,

Zuniu no ar o dardo torneado,

E, leve de asas, em voo desigual,

Em vez do cordeiro tocou o lobo escuro,

E a Safer, que conduzia o cristão,

Um raio da cabeça arrancou.

Rebentou o olho sobre a relva verde,

E sangue turco o mouro cobriu.

Chiou o turco como víbora raivosa;

Inflamou-se o aga como chama viva:

Vergonha é para tal herói

Cobrar tributo e não ajuntar tributo,

Lançar o dardo e não acertar o alvo,

Quanto mais cegar turcos em vez da ráia,

Quanto mais deixar que a cruz malévola dele ria.

Inflamou-se o aga como chama viva;

Ai, meu Deus, que será de agora em diante,

Se até agora os cristãos já eram culpados!

“Mujo, Haso, Omere, Jašar,

Vamos, cadelas, vossos bons cavalos

Fazei dançar pelo campo raso,

Para vermos como correm as cruzes!”

Urrou o aga como touro furioso.

Os servos velozes mais velozes obedeceram.

Fizeram os bons cavalos dançar pelo campo.

Fica a gritaria dos servos nos cavalos,

Fica a corrida dos cavalos sob os servos,

Fica o guincho da ráia atrás dos cavalos.

No primeiro instante, crerias,

A ráia-andorinha alcançará os cavalos-fadas;

No segundo instante, já não distingues

Se são os cavalos ou a ráia mais ligeira;

No terceiro instante, os cavalos se afastam,

A pobre ráia começou a ficar para trás;

E se no quarto instante olhasses,

A pobre ráia por terra tombara,

E os cavalos de pés alados a arrastavam

Pelo pó e pela lama:

Como Heitor sob a cidade de Troia,

Quando os deuses já haviam abandonado Troia.

O aga contempla, os outros turcos contemplam,

E com o espetáculo lamentável

Apascentam irados seus olhos,

E toda a terrível sede de sangue

Com sangue cristão, com dor cristã saciam.

E quando o coração lhes saltou de júbilo,

Às gargalhadas se puseram a rir

Da bela vista, quando a ráia,

Quando os cães beijavam a terra negra.

Com esse mesmo riso o Ad maldito ressoa,

Quando o pecador com eternos tormentos peleja.

Não se cansam os turcos cruéis;

Cansaram-se os bons cavalos,

Abrindo no campo plano

Terrível gradeado de carnes vivas,

Cansaram-se e por fim pararam.

Então o aga: “Ora, servos,

Morre a ráia, morre o tributo, servos;

Ide agora ressuscitar a ráia,

Para ver se salvamos meu tributo.”

Maus servos de pior senhor

Tomaram chicotes de três tiras

E saltaram dos cavalos velozes,

Para investir contra a ráia moribunda,

A ver se a ráia tornava a si.

O golpe cruel do açoite,

Guiado por mão hábil,

Pelo ar insensível assobia

E com tríplice dente, surdo,

A carne mártir dilacera,

E fontes de sangue faz brotar;

Ou, se tropeça a destra acostumada,

Pelo corpo roxo-negro

Escreve terríveis imagens de serpentes,

Enquanto debaixo dela a pobre vítima expira.

“Vamos, ráia, de pé,

De pé, cruzes, cães!”

Das bocas turcas o campo ressoa.

Quem é mais forte, sob os golpes,

Recolhe os ânimos exaustos

E nas pernas quebradiças se apoia;

E quem é mais fraco, como através de eterno

Sono, ouve as palavras malditas

E, sentindo o ferrão cruel,

Traz de volta a alma meio fugida,

E se move até de quatro,

Pelo campo verde rasteja,

Prova chorosa de que não só a última

Trombeta pode despertar os mortos para o juízo,

Quando os tríplices açoites fazem o mesmo.

Quando, banhada em sangue, rasteja

Até a tenda a triste ráia,

O aga furioso, monstro hediondo,

“Tributo, ráia, tributo!” brame,

“Tributo, tributo, ou açoites ainda piores!”

O Criador altíssimo às aves deu o céu,

Covas serenas e desejados ninhos;

Aos peixes, águas e vastidões do mar,

Morada de vidro, para nela se expandirem;

Às feras, prados e montanhas,

Frias cavernas e verdes bosques;

À pobre ráia? — nem uma côdea deu

De pão seco, para ela molhar com lágrimas.

Mas que digo? o bom céu lhe deu,

Só que o turco insaciável já tudo colheu.

“Tributo, tributo!” De onde à ráia o tributo?

De onde ouro a quem nem teto possui,

Teto tranquilo onde abrigar a cabeça?

De onde ouro a quem não possui campo,

Senão o campo turco que com seu suor encharca?

De onde ouro a quem não possui rebanho,

Mas pelo alheio nas montanhas se bate?

De onde ouro a quem não possui veste?

De onde ouro a quem não possui pão?

— “Fome, nudez, senhor!

Ah, espera cinco ou seis dias,

Até que te mendiguemos o desejado tributo!” —

“Tributo, tributo, ráia, é preciso!”

— “Pão, pão, senhor!

Há muito não vemos pão!” —

“Espera, cruz, até que do céu

Esta noite caia a noite quieta,

Assado te darei em vez de pão! —

Até lá, moços, pois as cruzes estão descalças,

Ferrai-as, que o cão lhes arranhe a mãe!”

Acrescenta o aga e sob a tenda entra.

Servos hábeis agarram a ráia,

E sobretudo Safer, o caolho,

Pronto salta acima dos demais,

E para alegria ainda maior de todos

Arde por vingar a vela apagada.

Ali fica o ranger das falacas,

Ali o bramido selvagem de Safer:

“Tributo, tributo, ráia, é preciso!”

Ali o gemido da ráia miserável:

“Pão, pão, senhor;

Há muito não vemos pão!”

— “Espera, cruz, até que do céu

Esta noite caia a noite quieta,

Assado te darei em vez de pão!”

As palavras malditas devolve o maldito. —

Mas quem há de descrever fielmente

Esses duros ais padecidos?

Quem, com coração sereno, ouviria

Quão amarga é tamanha dor?...

Passou o dia, depois veio o crepúsculo,

E depois dele caiu a noite quieta.

Os céus se cobriram de estrelas,

Só o ocidente envolvia um fio escuro;

E a lua minguada no meio do céu tremia,

Triste candeia de triste espetáculo.

No meio do campo calmo e deserto,

Cresce uma tília antiga.

Junto dela estão as tendas,

E entre elas a mais bela,

A mais bela, a maior,

A tenda do aga sobre as outras se elevava,

Como o cisne, ave branca,

Sobre as brancas aves, as pombas.

Branqueiam brancas as tendas

Na quieta claridade da lua,

Como enormes sepulcros sob a neve,

Ao redor dos quais, na hora surda,

Maus espíritos vagueiam e, com terríveis

Imagens, assustam o viajante noturno,

Ou lhe ensurdecem o ouvido

Com fingido rugido de leões, ladrar de cães

E lamento dos que padecem.

São túmulos, julgas, dos pais

Eslavos, cujo nome glorioso

Soava longe, muito longe;

Ao redor deles os turcos selvagens,

Ao meio-dia como em hora surda,

Vagueiam impuros e o cérebro

Ágil revolvem, pensando em como

Assustar as crianças chorosas,

Para que, sobre os destroços de melhor sorte,

Não chorem suas dores severas.

Parece-te ora que ruge como leão,

Parece-te ora que ladra como cão;

E agora ouves o pranto dos mártires,

O gemido, o grito, os fundos suspiros;

Ouves o tinido do ferro das cadeias

E, com ele, o amargo clamor por socorro.

Escuta, pobre: será ilusão também o gemido?

Escuta o tinido: será ilusão também o tinido?

Escuta... escuta... ah, isto ilusão não é,

Pois te vejo onde te dói tão fundo...

Que?... tu choras?... ah, isto ilusão não é,

Pois por ilusão, creio, não chorarias!

Diante da tenda arde o fogo;

Ao redor dele movem-se os turcos.

Um acrescenta à chama lenha nova;

Outro, enchendo a bolsa com a boca,

Sopra, para que mais belo ela flameje;

Outro, de pernas dobradas, se acocora

Junto dela e, enorme,

No espeto gira um carneiro cevado.

Crepita o pobre carneiro sobre a brasa,

E a chama viva lambe-lhe o redor,

E ilumina o orvalho de suor

Que sob o turbante aos turcos escorre.

Quando o turco acabou de girar o carneiro,

Tiraram-no do pesado eixo,

Lançaram-no sobre a mesa pobre

E com grande faca o despedaçaram.

À mesa pronta se assentaram

Os turcos famintos como lobos famintos,

E começaram a despedaçar a presa com as unhas.

Primeiro se serviu Smail-aga,

Depois Bauk, depois os outros turcos,

Na bela ordem dos lobos na montanha.

Trouxeram pãezinhos brancos

E a cada um uma borracha de aguardente,

E revigoram-se com pão e carne,

E com furor ardente tudo regam.

Quando o aga venceu a fome

E duplicou a fúria dos outros com sua fúria,

Inflamou-se outra vez como chama viva:

Vergonha é para tal herói

Cobrar tributo e não ajuntar tributo,

Lançar o dardo e não acertar o alvo,

Quanto mais cegar turcos em vez da ráia,

Quanto mais deixar que a cruz malévola dele ria.

Inflamou-se o aga como chama viva,

E então aos servos: “Eis carne bastante;

Atirai à ráia os ossos roídos.

Atirai os ossos, preparai o assado,

Para que esteja pronto quando eu vos chamar.”

Bramiu o aga e passeou sob a tenda.

Puseram-se os servos a cear a ceia,

A cear e a preparar a festa,

Palha seca e corda dura,

Com que hão de defumar a ráia desobediente,

Pés para o alto, cabeça para baixo,

Pendurada ao ramo da tília;

Com que hão de defumá-la, com que hão de arrancar ouro

Da ráia nua, em quem pão não há.

E a ráia? — Que fará a triste ráia?

A terra é dura, o céu é alto;

Com coração choroso contempla os aparelhos terríveis,

Com coração choroso, mas secos os olhos.

Quando os servos enfim se aprontaram,

O coração não lhes pôde esperar,

E sobretudo se arrasta Ćor-Safer,

Para que o aga Čengijić grite:

“Prontos, moços, com a cruz da tília,

Subi-o ao ramo da tília!”

Enquanto isso, o aga sob a tenda está sentado,

E com ele Bauk, o multicolorido voivoda,

E Mustapa, seu fiel escriba,

E o restante dos principais turcos.

Pela tenda, ao redor, ao redor,

Estendem-se belos tapetes

E, sobre eles lançados, colchões

Luxuosamente se alargam e, fortes,

Convidam o corpo aos deleites,

Aos deleites e ao sono quieto.

No recanto, sobre um pequeno fogo,

Estalam ramos há pouco cortados,

Ou chamuscam-se e à querida canção,

Chorando, cantam; cantando, choram.

E no meio, no madeiro,

Ao redor do qual, em círculo,

A tenda soberba se estende branca,

Pendem armas luzentes e ferozes:

Canos mortais e ferro rígido.

Ali se curvam sabres damascenos,

Cem vezes saciados de sangue cristão;

Ali pendem oito yatagãs;

Facas pequenas é difícil contar;

Longas espingardas belamente douradas

Muitas vezes ali podes notar;

Pistolas — nem se sabe o número.

Mas que é aquilo junto à maça encostado,

Maravilha nunca vista até agora,

Manso cordeiro junto ao lobo escuro,

Fina fada ao lado do dragão feroz?

Vês as guslas; mas não temas, pobre,

Que a maça as despedace,

Que transforme as cordas em grilhões,

O inocente arco em corda e arco de guerra,

E o cavalinho em cavalo de combate.

Não temem as fadas eslavas

Perecer ao lado do seis-aletas;

Antes sabe: onde ele não está,

Ali não amadurece o canto eslavo.

E lá fora o céu formoso

Cobriu o rosto de trevas negras,

E, se fosse possível ver através das nuvens,

As Plêiades, miúdas estrelas,

Tremeluziriam brancas sobre a tenda,

E a lua de cornos curvos te olharia

Do ocidente, à frente das estrelas brilhantes,

Como carneiro guia à frente do rebanho.

Lá fora a noite é cega, surda.

Nenhuma voz, salvo a garoa

Miúda, como se o céu chorasse.

Densa a escuridão, densa a treva,

Estendeu-se pela planície e pela montanha,

De modo que não vês um dedo diante dos olhos,

Quanto mais a trilha diante de ti.

Ai daquele a quem agora

A noite negra alcança no caminho,

E que, pobre, não tem pouso!

Puseram-se os ventos a correr pelo céu,

E dali os relâmpagos assustados,

Cortando com fogo celeste,

Ora teus olhos mortais fulminam,

Ora treva ainda mais densa

Do que antes lançam sobre tua vista.

E depois deles ouve agora o trovão,

Que primeiro ao longe ribomba,

Depois, cada vez mais perto, grosso, terrível,

O estrondo altíssimo pelas montanhas ressoa.

Fica o fragor do céu e da planície;

Fica o eco do vale amado e da montanha:

Tudo anuncia que haverá pesado granizo.

Ai daquele a quem agora

A noite negra alcança no caminho,

E que, pobre, não tem pouso!

Mas se desses as costas ao vento,

E quando o fogo rompesse da nuvem,

Fixasses a pupila clara,

E olhasses, vento abaixo, pela planície,

Verias onde avança um grupo de homens:

A noite os separa, mas por isso seguem juntos.

Ora a chama lhes mostra a vereda;

Ora a noite sombria a rouba;

Mas eles, com passo leve,

Pelo campo escuro avançam

E a distância entre si

E a tenda depressa recolhem:

Negra é a noite, querem pouso,

E os pobres buscam atravessar a treva.

De novo cortou o fogo altíssimo.

A companhia noturna mais se aproxima,

E já podes distinguir

Quem a conduz e quem com ele caminha.

Um deve ser a cabeça do bando,

E o outro, guia fiel,

E, afeito ao campo e à montanha,

Conduz nas trevas a companhia errante.

Espia, pobre, como leve vai,

Como se no ar turvo nadasse.

Dirias que sempre algo o puxa adiante,

Enquanto o resto de sua companhia

Com duzentos pés pisa o passo.

Deve temer a noite negra

E desejar chegar logo ao pouso.

Mas o relâmpago que agora primeiro faiscou

Viu a companhia secreta atrás da tenda,

Onde se ordenara em fileira

Por três lados, para parecer maior,

E ali está a hoste noturna,

Como trovão repentino,

Ou ardente como lava,

Que das montanhas de fogo

Se derrama em chamas sobre o vale,

Justamente quando os mortais dormem sem cuidado.

Está a hoste, escuta as vozes,

Para discernir onde dorme o senhor;

Mas outra voz não se ouve,

Senão Safer, que com a companhia diligente

Ri já de antemão das torturas da ráia.

Sob a tenda está sentado o aga,

E alterna cachimbo com café,

Café escuro de hálito infernal.

Sob o turbante, a fronte serena

Franziu em escuros vincos odiosos,

E sob ela o olho heroico

Como por mecha de nuvem

Escureceu; e cala-se, calado.

Pensa o aga pensamentos de toda sorte:

De copos de espada e de donzelas,

De caça e de falcões,

De ouro e de guerra feroz,

De estacas e montenegrinos,

De dardos e de lanças torneadas,

E então se inflama como chama viva:

Vergonha é para tal herói

Cobrar tributo e não ajuntar tributo,

Lançar o dardo e não acertar o alvo,

Quanto mais cegar turcos em vez da ráia,

Quanto mais deixar que a cruz malévola dele ria.

Inflamou-se o aga como fogo vivo,

Mas quando junto ao mastro as sonoras guslas

Entre as armas o herói avistou,

Recuou um pouco a fúria sanguinária,

E adocicou-se o sangue amargo

Como pelo celeste concerto das cordas.

E o que antes fora sede de sangue,

Tornou-se então sede de canto:

Tamanha doçura do canto se derrama!

Então ao Bauk disse o aga:

“Ó Bauk, valente voivoda,

Louvam-te como bom herói;

Mas se atacassem ratos das montanhas,

Dize, Bauk, quantos ratos

Tu, sozinho herói, degolarias?”

— “Dá-me um sexto, bom senhor.” —

“Ferrugem, cadela, voivoda Bauk,

Pensei que fosses melhor herói;

Se atacassem vinte montanheses,

Pela fé turca que assim me ajude,

Eu sozinho lhes cortaria as cabeças. —

Mas quase me inquieteis,

Fumando o cachimbo e revirando pensamentos,

Pois a noite escura não nos permite

Divertir-nos defumando a cruz.

Por minha fé, tu és bom cantor,

E eu desejo guslas e cantor:

Vamos, canta, para que me passe o desejo.”

Levantou-se Bauk, tomou as guslas,

E então, humilde, de pernas dobradas,

Sentou-se no lugar de antes;

E, apoiando diante de si

Sobre o macio colchão as cordas sonoras,

Roçou com o arco estridente

De um lado a outro a crina de cavalo;

E quando a cravelha algumas vezes

Rangendo girou, em trovejante

Voz, junto às cordas ajustadas,

Assim começou o astuto cantor:

“Deus amado, que grande maravilha,

Como era poderoso Rizvan-aga

Na espada e na lança torneada,

Na espingarda e na faca feroz,

No punho e no bom cavalo!

Desceu o aga ao campo de Kosovo

E arrendou o tributo do czar,

De cada cabeça exige um ducado amarelo,

E de cada lar um carneiro cevado,

E por noite, em ordem, uma donzela.

O aga recolhe o tributo do czar,

A dura ráia dá e não dá.

Onde de cada cabeça exige um ducado amarelo,

Ali muitas vezes nem cobre há;

Onde de cada lar exige um carneiro cevado,

Dão-lho, mas veem-se-lhe as costelas;

E onde, por noite, uma donzela moça,

Dali nem velha pestilenta lhe vem.

Prende o aga a ráia teimosa,

E pelo campo a dispõe em fileiras,

Depois começa a saltá-la a cavalo.

Os primeiros dez saltou o aga;

Os segundos dez saltou o aga;

Mas quando veio a terceira dezena,

O garanhão furioso furioso empina,

E quando saltou, rompeu-se a cilha maldita,

E o poderoso aga caiu na relva.

Pouco tempo se passara,

E foi um sussurro de boca em boca

Pelo formoso campo de Kosovo.

Quanto mais longe, tanto mais forte crescia,

Mais longe o riso, mais longe o escárnio da ráia,

Até que das guslas brotou uma canção,

E agora canta por Kosovo o cego:

“Ferrugem era o poderoso Rizvan-aga.”

Ainda enquanto a canção funesta

Da boca de Bauk trovejando se derramava,

Quem no aga, e não no cantor,

Tinha fixo o olhar, esse podia

Reconhecer-lhe no rosto as dores,

Os sofrimentos, as iras, as cóleras, os furores,

E cem outras raivas,

Que no coração soberbo,

Ao menor sopro de vergonha e riso,

Com unhas sangrentas cavam ninho.

Chama sangrenta primeiro lhe irrompeu

No coração irado contra a ráia negra,

Contra o valáquio, o cão, a cruz

Da tília, que não é digna

De o sol aquecer junto ao turco.

Ferros, veneno, corda, facas,

Sabre, fogo, estaca horrenda,

Óleo fervente e cem tormentos

Num só instante o herói imagina,

Para apagar da amarga vergonha os rastros

E guardar pura a lembrança,

Puro o nome ao som da corda suave.

Sobre as sobrancelhas senta-se-lhe negra nuvem;

Ardem-lhe os olhos como fogo vivo;

Chama rubra lhe lambe a face;

De fúria terrível dilatam-se-lhe as narinas;

E na boca, sob a espuma branca,

Deteve-se expressão horrenda, infernal,

Como se dissesse: pereça a ráia,

Contanto que da canção se guarde ele!

Mas quando Bauk proferiu a última palavra,

Como se, num só golpe, um raio

Lhe cortasse medonho o cérebro:

A ráia sozinha não é testemunha da vergonha,

A ráia sozinha não tem olhos nem boca;

Fere a ráia, fere também os turcos,

Só preserva a lembrança preciosa!

Mas nisso o aga afunda

No fundo do coração o pensamento terrível;

As linhas do rosto doma, consola, abranda,

Mas pela face cada vez mais se apodera

A chama da cólera; quer mostrar-se

Sereno ao mundo, mas todo estremece e treme.

E por fim, quando a cólera enorme

Não pôde esconder diante das testemunhas,

Ergueu-se e bradou, em labareda: “Prontos, moços,

Prontos com a cruz, prontos com as facas ferozes,

Com o sabre, com o fogo, com a estaca, com o óleo fervente;

Desacorrentai todos os poderes infernais!

Eu sou herói, a canção há de dizê-lo;

Para esse fim todos cairão como vítima!...”

O aga mal acabara de falar,

E lá fora trovejou a espingarda,

E a Safer, que primeiro

Ao chamado do aga saltou pronto,

Na noite espalhou o outro olho;

Assim, o que hoje o feroz

Dardo começara, a bala mortal completou.

“Valáquios, valáquios!” por toda parte ecoou o grito.

Então uma parte da hoste

Despejou carga nas tendas.

“Valáquios, valáquios!” gritam os turcos,

“Cavalo, cavalo!” troveja o aga.

Então ribombou a segunda parte.

“Valáquios por toda parte, espingardas, facas!”

“Cavalo, cavalo, Haso, cavalo!”

A terceira parte descarregou as longas armas;

E já Hasan, mais veloz que galgo,

Trouxe-lhe o bom cavalo.

Quando o aga quis montá-lo,

Da nuvem faiscou um relâmpago,

E chumbo quente o levou à terra:

A noite é escura; não sabes quem o derrubou,

Mas ali perto Mirko dispara a espingarda...

Pela noite negra voou, sem corpo,

A alma brava, nua, desditosa!...

Caiu o aga, mas os turcos combatem,

Só que a treva não te deixa admirar

Quantas façanhas ali se fazem.

Da escuridão nada se distingue;

Mas quando relampeja fogo do céu,

Ou da espingarda de fiel companheiro,

Muitas vezes a cruz e o turco se acham

Ao alcance da faca feroz,

Onde pensavam haver distância de tiro,

E se abraçam com braços de ferro,

E se beijam com bicos de ferro,

A cruz e o profeta, até que um deles expire:

Tamanho ódio lhes queima os corações!

Vestida com a noite negra,

A morte súbita vaga pelo campo ensanguentado;

Com relâmpago medonho lhe brilham os olhos,

E através dos ossos sopra o vento frio;

Com voz de trovão, horrenda, ela brada

Ora “ai de mim!”, ora “socorro, socorro!”,

Ora “ajuda-me, ó Jesus benigno!”

E geme, chia, guincha, arqueja,

E então arrebata ora cristãos, ora turcos,

E com sua própria veste lhes venda os olhos.

Ali pereceu o fiel escriba do aga,

Mujo, Haso, Omer, Jašar feroz

E trinta outros turcos.

E a Bauk salvou a noite sombria,

E ao restante que ainda conseguiu escapar.

Mas quem é aquele que jaz junto ao aga?

E, morto sobre o morto, rosna irado?

É Novica; o feroz Hasan o abateu,

Justo quando o herói saltou para o leão morto,

Para lhe tirar a cabeça dentre os turcos.

Cessou o granizo mortal dos canos,

E caiu o granizo dos céus:

A hoste noturna entrou nas tendas.

A noite é terrível, banhada em sangue,

Escura, negra; ditosa a hoste agora,

Quando, já cansada, caiu no pouso.

A Morte de Smail-aga Čengić

Sinopse

Tradução literária em português-BR do poema épico croata de Ivan Mažuranić, marco do romantismo eslavo do sul, preparado para a Copa do Mundo Literunico.

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