Universo da obra
Universo da obra
O sol se pôs, e a lua se ergueu.
Quem galga pelos desfiladeiros, abaixo e acima,
E se esgueira rumo àquela Montanha Negra?
À noite caminha, de dia repousa,
Herói outrora, agora herói já não,
Mas junco a que toda sombra faz estremecer.
Se em algum ponto junto ao caminho sussurra a víbora,
Ou sob a moita se precipita a lebre ruiva,
Então ele, outrora mais feroz que víbora feroz,
Quase mais medroso que a lebre vacila.
Pensa, o mísero, que é lobo da serra,
Ou, pior ainda, salteador montanhês,
E teme o lugar onde há de perecer,
Mas não alcança aquilo que lhe turva o peito.
Caro estima sua cabeça ruiva;
Nem é de ouro, nem é dourada:
Bem se vê que morrer ele não quer,
Mas há algo que o impele adiante.
Será salteador, ou espião turco,
Que espreita os rebanhos de lã sedosa,
Ou as manadas de bois de chifres retorcidos?
Nem é salteador, nem espião turco,
Mas Novica, cavaz de Čengić;
Turco furioso, verdugo da Montanha Negra,
Que conhecem velhos e moços,
E nem as vilas o levariam,
Quanto mais as pernas do herói,
Pela Montanha Negra, em pleno dia claro.
Ao ombro pendurou a espingarda longa,
O feroz iatagã rosna à cintura,
E, ao lado dele, dois bacamartes.
Com a faixa cobriu o ninho de serpentes,
A leve opanca apertou aos pés,
E pôs o gorro nu na cabeça valente;
Do saruk nem lembrança há.
Sem saruk eis que segue o turco;
Bem se vê que perecer ele não quer,
Mas há algo que o impele adiante.
Atento, o herói atravessou os Cuce,
E ainda os belicosos Bjelice,
E então se lança aos fragosos Ćeklići.
Lança-se a eles, e a Deus suplica
Que lhe conceda também atravessá-los
Sem ser ouvido, sem ser visto em parte alguma.
Bem se vê que morrer ele não quer,
Mas há algo que o impele adiante.
Cantam segundos galos no campo de Cetinje,
E Novica entra no campo de Cetinje;
Cantam terceiros galos no lugar de Cetinje,
E Novica caiu sobre Cetinje.
Ali invoca o auxílio de Deus ao guarda:
“Auxílio de Deus, sentinela de Cetinje!”
Mais belo ainda lhe respondeu a guarda:
“Boa sorte a ti, desconhecido valente!
De onde vens, de que lado?
Que fortuna te trouxe,
Para que tão cedo madrugasses, herói?”
Turco astuto, por necessidade,
Turco astuto, astutamente responde:
“Já que perguntas, direi a verdade:
Sou herói da fria Morača,
Da pequena aldeia de Tušina,
Sob a montanha do célebre Durmitor.
Trago três dores no coração:
Uma dor trago no coração,
Porque Čengić degolou os Moračanos;
Outra dor trago no coração,
Porque Čengić me matou o pai;
E a terceira dor trago no coração,
E maior ainda: que o algoz ainda respire.
Assim, pelo grande Deus te rogo,
Deixa-me ir a teu senhor,
Senhor meu e teu,
Para ver se cura minhas dores.”
Mais astuta lhe respondeu a guarda:
“Tira as armas, desconhecido valente,
E então leva a cabeça por onde te aprouver.”
Rumo ao paço, à porta, foi o turco,
E a última estrela fugia da vista:
Era a estrela do agá Čengić.
Tradução literária em português-BR do poema épico croata de Ivan Mažuranić, marco do romantismo eslavo do sul, preparado para a Copa do Mundo Literunico.
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