Universo da obra
Universo da obra
A tempestade continua. Entram Lear e o Bobo.
LEAR.
Soprai, ventos, e arrebentai vossas faces! Fúria! Soprai!
Vós, cataratas e furacões, jorrai
Até encharcardes nossos campanários, afogardes os galos!
Vós, fogos sulfurosos, executores do pensamento,
Batedores dos raios que fendem carvalhos,
Chamuscai minha cabeça branca! E tu, trovão que tudo abalas,
Achata a espessa redondez do mundo!
Quebra os moldes da natureza, derrama de uma vez todos os germes
Que fazem o homem ingrato!
BOBO.
Oh, tiozinho, água-benta de corte em casa seca é melhor que esta água de chuva ao ar livre. Bom tiozinho, entra; e pede a bênção de tuas filhas: esta é uma noite que não tem pena nem de sábios nem de bobos.
LEAR.
Ronca até fartar teu ventre! Cospe, fogo! Jorra, chuva!
Nem chuva, nem vento, nem trovão, nem fogo são minhas filhas;
Não vos acuso, elementos, de aspereza.
Jamais vos dei reino, jamais vos chamei filhos;
Não me deveis submissão: deixai então cair
Vosso horrível prazer. Aqui estou, vosso escravo,
Um pobre, enfermo, fraco e desprezado velho;
Mas ainda vos chamo servos servis,
Que vos juntareis a duas filhas perniciosas
Para lançar vossas batalhas geradas no alto contra uma cabeça
Tão velha e branca como esta! Oh! Oh! É torpe!
BOBO.
Quem tem casa onde meter a cabeça tem boa peça de cabeça.
A braguilha que abriga
Antes que a cabeça possua algo,
A cabeça e ela se enchem de piolhos:
Assim os mendigos casam-se muito.
O homem que faz do dedo do pé
O que deveria fazer do coração
Por um calo gritará ai,
E trocará sono por vigília.
Pois nunca houve ainda mulher bela que não fizesse caretas diante do espelho.
LEAR.
Não, serei o modelo de toda paciência;
Não direi nada.
Entra Kent.
KENT.
Quem está aí?
BOBO.
Ora, aqui estão graça e braguilha; isto é, um sábio e um bobo.
KENT.
Ai de mim, senhor, estais aqui? As coisas que amam a noite
Não amam noites como esta; os céus irados
Assustam os próprios errantes da escuridão,
E fazem-nos guardar suas cavernas. Desde que sou homem,
Tais lençóis de fogo, tais explosões de horrendo trovão,
Tais gemidos de vento e chuva rugentes, nunca
Me lembro de ter ouvido. A natureza humana não pode carregar
A aflição, nem o medo.
LEAR.
Que os grandes deuses,
Que mantêm este tumulto terrível sobre nossas cabeças,
Descubram agora seus inimigos. Treme, miserável,
Que tens dentro de ti crimes não divulgados,
Ainda não açoitados pela justiça. Esconde-te, mão sangrenta;
Tu, perjuro, e tu, simulador de virtude
Que és incestuoso. Canalha, estremece em pedaços,
Tu que, sob cobertura e aparência conveniente,
Atentaste contra a vida de um homem. Culpas cerradas e presas,
Rasgai os continentes que vos ocultam, e clamai
Graça a estes temíveis convocadores. Sou um homem
Contra quem mais se pecou do que pecador.
KENT.
Ai de mim, de cabeça descoberta!
Gracioso meu senhor, aqui bem perto há uma choupana;
Alguma amizade vos prestará contra a tempestade:
Repousai ali, enquanto eu volto a esta casa dura,
Mais dura que as pedras de que se ergueu;
A qual, ainda agora, quando perguntava por vós,
Negou-me a entrada; e forço
Sua cortesia mesquinha.
LEAR.
Meus sentidos começam a virar.
Vamos, meu rapaz. Como estás, meu rapaz? Tens frio?
Eu mesmo estou frio. Onde está esta palha, camarada?
A arte de nossas necessidades é estranha,
Pois pode tornar preciosas as coisas vis. Vinde, vossa choupana.
Pobre bobo e velhaco, tenho uma parte em meu coração
Que ainda se compadece de ti.
BOBO.
Cantando.
Aquele que tem um tiquinho de juízo,
Com hei-ho, o vento e a chuva,
Deve ajustar contentamento à sua fortuna,
Embora chova, chova todo dia.
LEAR.
Verdade, rapaz. Vem, leva-nos a essa choupana.
Saem Lear e Kent.
BOBO.
Esta é uma bela noite para esfriar uma cortesã. Direi uma profecia antes de ir:
Quando os padres forem mais palavra que substância;
Quando os cervejeiros estragarem o malte com água;
Quando nobres forem tutores de seus alfaiates;
Nenhum herege queimado, senão pretendentes de rameiras;
Quando toda causa em lei for justa;
Nenhum escudeiro endividado, nem pobre cavaleiro;
Quando calúnias não viverem em línguas;
Nem cortadores de bolsas vierem às multidões;
Quando usurários contarem seu ouro no campo;
E alcoviteiras e prostitutas construírem igrejas,
Então o reino de Albion
Virá a grande confusão:
Então virá o tempo, quem viver para vê-lo,
Em que andar será feito com os pés.
Esta profecia Merlin há de fazer; pois eu vivo antes de seu tempo.
Sai.
Tradução Literunico em português brasileiro de King Lear, tragédia de William Shakespeare em domínio público. A edição preserva a estrutura teatral em atos e cenas, com linguagem clássica legível para leitura contemporânea.
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