Universo da obra
Universo da obra
Entram Lear, o Bobo e um Cavalheiro.
LEAR.
É estranho que tenham partido assim de casa,
E não enviado de volta meu mensageiro.
CAVALHEIRO.
Pelo que soube,
Na noite anterior não havia neles propósito algum
Dessa mudança.
KENT.
Salve, nobre senhor!
LEAR.
Ah! Fazes desta vergonha teu passatempo?
KENT.
Não, meu senhor.
BOBO.
Ha, ha! Ele usa ligas cruéis. Cavalos são atados pela cabeça; cães e ursos pelo pescoço, macacos pelos lombos, e homens pelas pernas: quando um homem é demasiadamente viçoso nas pernas, então usa meias inferiores de madeira.
LEAR.
Quem foi que tanto errou tua posição
A ponto de pôr-te aqui?
KENT.
Foram ambos, ele e ela,
Vosso filho e vossa filha.
LEAR.
Não.
KENT.
Sim.
LEAR.
Não, digo eu.
KENT.
Eu digo que sim.
LEAR.
Não, não; eles não o fariam.
KENT.
Sim, fizeram.
LEAR.
Por Júpiter, juro que não.
KENT.
Por Juno, juro que sim.
LEAR.
Não ousariam fazê-lo.
Não poderiam, não quereriam fazê-lo; é pior que assassínio
Cometer tão violento ultraje contra a reverência:
Explica-me, com toda modesta pressa, por que modo
Pudeste merecer, ou eles impor, este tratamento
A quem vinha de nós.
KENT.
Meu senhor, quando na casa deles
Entreguei a vossa alteza as cartas que levava,
Antes que eu me erguesse do lugar que mostrava
Meu dever ajoelhado, chegou um mensageiro fumegante,
Cozido em sua pressa, meio sem fôlego, arquejando
Saudações de Goneril, sua senhora;
Entregou cartas que, apesar da interrupção,
Eles logo leram; e por esse conteúdo
Convocaram sua gente, montaram imediatamente a cavalo;
Ordenaram-me que os seguisse e aguardasse
A oportunidade de sua resposta; deram-me olhares frios.
E encontrando aqui o outro mensageiro,
Cuja acolhida percebi haver envenenado a minha,
Sendo ele o próprio sujeito que ultimamente
Se exibiu com tanta insolência contra vossa alteza,
Eu, tendo mais homem que juízo em mim, saquei;
Ele ergueu a casa com gritos altos e covardes.
Vosso filho e vossa filha julgaram esta transgressão digna
Da vergonha que aqui sofre.
BOBO.
O inverno ainda não se foi, se os gansos selvagens voam por esse caminho.
Pais que vestem trapos
Deixam seus filhos cegos,
Mas pais que carregam sacos
Verão os filhos meigos.
A Fortuna, essa puta consumada,
Jamais vira a chave para a pobre morada.
Mas, apesar de tudo isso, terás tantas dores por tuas filhas quantas puderes contar num ano.
LEAR.
Oh, como esta mãe se incha rumo ao meu coração!
Hysterica passio, desce, dor trepadora,
Teu elemento é embaixo! Onde está esta filha?
KENT.
Com o conde, senhor, aqui dentro.
LEAR.
Não me sigais; ficai aqui.
Sai.
CAVALHEIRO.
Não cometestes outra ofensa além do que contais?
KENT.
Nenhuma.
Como sucede que o Rei venha com tão pequeno número?
BOBO.
Se tivesses sido posto nos troncos por essa pergunta, bem o terias merecido.
KENT.
Por quê, bobo?
BOBO.
Vamos pôr-te na escola de uma formiga, para ensinar-te que não se trabalha no inverno. Todos os que seguem o nariz são guiados pelos olhos, exceto os cegos; e não há um nariz entre vinte que não possa cheirar aquele que está fedendo. Solta teu apoio quando uma grande roda desce a colina, para que ela não quebre teu pescoço ao segui-la; mas a grande que sobe, deixa que te arraste atrás. Quando um homem sábio te der conselho melhor, devolve-me o meu: eu não quisera que ninguém senão velhacos o seguisse, já que um bobo o dá.
Aquele senhor que serve e busca proveito,
E segue só por aparência,
Arruma as malas quando começa a chover,
E te deixa na tormenta.
Mas eu ficarei; o bobo há de ficar,
E deixará fugir o sábio:
O velhaco vira bobo quando foge;
O bobo não é velhaco, por Deus.
KENT.
Onde aprendeste isso, bobo?
BOBO.
Não nos troncos, bobo.
Entram Lear e Gloucester.
LEAR.
Negam-se a falar comigo? Estão doentes? Estão cansados?
Viajaram a noite inteira? Meras evasivas;
Imagens de revolta e deserção.
Traze-me resposta melhor.
GLOUCESTER.
Meu caro senhor,
Conheceis a qualidade ardente do Duque;
Quão irremovível e fixo ele é
Em seu próprio curso.
LEAR.
Vingança! peste! morte! confusão!
Ardente? Que qualidade? Ora, Gloucester, Gloucester,
Eu quero falar com o Duque de Cornwall e sua esposa.
GLOUCESTER.
Bem, meu bom senhor, já os informei disso.
LEAR.
Informaste-os! Entendes-me, homem?
GLOUCESTER.
Sim, meu bom senhor.
LEAR.
O Rei quer falar com Cornwall; o caro pai
Quer falar com sua filha; comandos, obséquios, serviço,
Estão eles informados disto? Meu fôlego e sangue!
Ardente? O Duque ardente? Dize ao Duque quente que...
Não, ainda não: talvez ele não esteja bem.
A enfermidade ainda negligencia todo ofício
A que nossa saúde está presa: não somos nós mesmos
Quando a natureza, oprimida, ordena à mente
Que sofra com o corpo. Eu me conterei;
E estou em desacordo com minha vontade mais impetuosa
Por tomar o acesso indisposto e enfermo
Pelo homem são. Olhando para Kent.
Morte sobre meu estado! Por que
Deveria ele estar sentado aqui? Este ato me persuade
De que esta retirada do Duque e dela
É somente maquinação. Libertai meu servo.
Vai dizer ao Duque e à sua esposa que desejo falar com eles,
Agora, imediatamente: manda-os vir para fora e ouvir-me,
Ou à porta de seu quarto baterei o tambor
Até que ele grite o sono para a morte.
GLOUCESTER.
Eu quisera que tudo estivesse bem entre vós.
Sai.
LEAR.
Oh, eu, meu coração, meu coração que se ergue! Mas desce!
BOBO.
Grita com ele, tiozinho, como a cozinheira gritou com as enguias quando as pôs vivas na massa; batia-lhes nas cabeças com um pau e gritava: “Desçam, travessas, desçam!” Foi o irmão dela que, em pura bondade para com seu cavalo, passou manteiga no feno.
Entram Cornwall, Regan, Gloucester e Criados.
LEAR.
Bom dia a ambos.
CORNWALL.
Salve vossa graça!
Kent é aqui posto em liberdade.
REGAN.
Alegro-me de ver vossa alteza.
LEAR.
Regan, creio que te alegras; sei que razão
Tenho para pensá-lo. Se não te alegrasses,
Eu me divorciaria do túmulo de tua mãe,
Por sepultar uma adúltera. A Kent. Oh, estás livre?
Outra hora trataremos disso. Amada Regan,
Tua irmã é perversa: oh, Regan, ela atou
A aspereza de dentes agudos, como um abutre, aqui.
Aponta para o coração.
Mal posso falar contigo; não acreditarás
Com que qualidade depravada... Oh, Regan!
REGAN.
Rogo-vos, senhor, tende paciência. Tenho esperança
De que vós saibais menos avaliar o mérito dela
Do que ela diminuir seu dever.
LEAR.
Dize: como é isso?
REGAN.
Não posso pensar que minha irmã, no mínimo,
Faltasse à sua obrigação. Se, senhor, porventura
Ela conteve os tumultos de vossos seguidores,
Foi por tal fundamento, e para tão saudável fim,
Que a limpa de toda culpa.
LEAR.
Minhas maldições sobre ela.
REGAN.
Oh, senhor, sois velho;
A natureza em vós está no próprio limite
De sua fronteira. Deveríeis ser regido e guiado
Por alguma discrição que discirna vosso estado
Melhor que vós mesmo. Portanto, rogo-vos
Que volteis a nossa irmã;
Dizei que a ofendestes, senhor.
LEAR.
Pedir-lhe perdão?
Observai apenas como isto convém à casa:
“Cara filha, confesso que sou velho;
Ajoelhando-se.
A idade é desnecessária: de joelhos suplico
Que vos digneis conceder-me roupa, cama e comida.”
REGAN.
Bom senhor, basta! Estes são gestos indecorosos:
Voltai para minha irmã.
LEAR.
Erguendo-se. Nunca, Regan:
Ela me reduziu metade do séquito;
Olhou-me com negrume; feriu-me com a língua,
Serpentinamente, no próprio coração.
Todas as vinganças guardadas do céu caiam
Sobre sua cabeça ingrata! Feridos sejam seus ossos jovens,
Ó ares que tomais, com paralisia!
CORNWALL.
Fie, senhor, fie!
LEAR.
Vós, ágeis relâmpagos, arremessai vossas chamas cegantes
Contra seus olhos desdenhosos! Infectai sua beleza,
Vós, nevoeiros sugados dos pântanos, atraídos pelo sol poderoso,
Para cair e crestá-la em seu orgulho!
REGAN.
Oh, deuses benditos!
Assim desejareis contra mim quando vier o humor precipitado.
LEAR.
Não, Regan, jamais terás minha maldição.
Tua natureza de terno peso não te entregará
À dureza. Os olhos dela são ferozes; mas os teus
Confortam, e não queimam. Não está em ti
Ressentir meus prazeres, cortar meu séquito,
Trocar palavras apressadas, diminuir minhas porções,
E, enfim, opor o ferrolho
À minha entrada. Tu conheces melhor
Os ofícios da natureza, o vínculo da infância,
Os efeitos da cortesia, os débitos da gratidão;
Não esqueceste tua metade do reino,
Com que te dotei.
REGAN.
Bom senhor, ao assunto.
LEAR.
Quem pôs meu homem nos troncos?
Toque de clarim dentro.
CORNWALL.
Que trombeta é essa?
REGAN.
Conheço-a: é de minha irmã. Isto confirma sua carta,
Que dizia que ela logo estaria aqui.
Entra Oswald.
Vossa senhora chegou?
LEAR.
Este é um escravo cujo fácil orgulho emprestado
Habita a graça volúvel daquela que ele segue.
Fora, patife, de minha vista!
CORNWALL.
Que quer dizer vossa graça?
LEAR.
Quem pôs meu servo nos troncos? Regan, tenho boa esperança
De que tu não o soubesses. Quem vem aqui? Ó céus!
Entra Goneril.
Se amais os velhos, se vosso doce governo
Permite obediência, se vós mesmas sois velhas,
Fazei disso vossa causa; descei e tomai meu partido!
A Goneril. Não te envergonhas de olhar para esta barba?
Oh, Regan, tomarás tu a mão dela?
GONERIL.
Por que não pela mão, senhor? Como vos ofendi?
Nem tudo é ofensa que a indiscrição descobre
E a caduquice assim nomeia.
LEAR.
Ó flancos, sois duros demais!
Ainda resistireis? Como veio meu homem aos troncos?
CORNWALL.
Fui eu que o pus ali, senhor; mas suas próprias desordens
Mereciam promoção muito menor.
LEAR.
Vós? Vós o fizestes?
REGAN.
Rogo-vos, pai: sendo fraco, parecei sê-lo.
Se, até a expiração de vosso mês,
Quiserdes voltar e hospedar-vos com minha irmã,
Dispensando metade de vosso séquito, vinde então a mim:
Estou agora fora de casa, e sem aquela provisão
Que será necessária para vosso recebimento.
LEAR.
Voltar a ela, e dispensar cinquenta homens?
Não; antes abjuro todos os tetos, e escolho
Combater contra a inimizade do ar;
Ser companheiro do lobo e da coruja,
Agudo beliscão da necessidade! Voltar com ela?
Ora, a França de sangue quente, que sem dote tomou
Nossa filha mais nova, eu poderia igualmente ser levado
A ajoelhar-me diante de seu trono, e, como escudeiro, pedir pensão
Para manter de pé uma vida vil. Voltar com ela?
Persuadi-me antes a ser escravo e besta de carga
Deste lacaio detestado.
Apontando para Oswald.
GONERIL.
À vossa escolha, senhor.
LEAR.
Rogo-te, filha, não me enlouqueças:
Não te perturbarei, minha criança; adeus:
Não mais nos encontraremos, não mais veremos um ao outro.
Mas ainda és minha carne, meu sangue, minha filha;
Ou antes, uma doença que está em minha carne,
Que preciso chamar de minha. Tu és um furúnculo,
Uma chaga pestilenta, ou carbúnculo inchado
Em meu sangue corrompido. Mas não te censurarei;
Que venha a vergonha quando quiser, eu não a chamo:
Não ordeno ao portador do trovão que dispare,
Nem conto histórias de ti a Jove, juiz supremo:
Emenda-te quando puderes; melhora quando te aprouver:
Posso ser paciente; posso ficar com Regan,
Eu e meus cem cavaleiros.
REGAN.
Não é bem assim;
Eu ainda não vos esperava, nem estou provida
Para vos dar acolhida conveniente. Dai ouvidos, senhor, a minha irmã;
Pois aqueles que misturam razão à vossa paixão
Devem contentar-se em pensar que sois velho, e assim...
Mas ela sabe o que faz.
LEAR.
Isto foi bem dito?
REGAN.
Ouso garanti-lo, senhor: quê, cinquenta seguidores?
Não está bem? Que necessidade tendes de mais?
Sim, ou de tantos, visto que tanto o encargo quanto o perigo
Falam contra número tão grande? Como, numa só casa,
Tanta gente, sob dois comandos,
Poderia manter amizade? É difícil; quase impossível.
GONERIL.
Por que não poderíeis, meu senhor, receber atendimento
Daqueles que ela chama criados, ou dos meus?
REGAN.
Por que não, meu senhor? Se acaso eles vos faltassem,
Poderíamos controlá-los. Se quiserdes vir a mim,
Pois agora percebo um perigo, suplico-vos
Que tragais apenas vinte e cinco: a nenhum número maior
Darei lugar ou reconhecimento.
LEAR.
Eu vos dei tudo...
REGAN.
E em boa hora o destes.
LEAR.
Fiz de vós minhas guardiãs, minhas depositárias;
Mas mantive uma reserva: ser seguido
Por tal número. Quê, devo vir a ti
Com vinte e cinco, Regan? Disseste isso?
REGAN.
E digo-o de novo, meu senhor: não mais comigo.
LEAR.
As criaturas perversas ainda parecem bem-favorecidas
Quando outras são mais perversas; não ser a pior
Ocupa algum posto de louvor.
A Goneril. Irei contigo:
Teus cinquenta ainda dobram vinte e cinco,
E tu és o dobro do amor dela.
GONERIL.
Ouvi-me, meu senhor:
Que necessidade tendes de vinte e cinco? Dez? Ou cinco?
Para seguir-vos numa casa onde duas vezes tantos
Têm ordem de vos servir?
REGAN.
Que necessidade de um?
LEAR.
Oh, não raciocineis sobre a necessidade: nossos mais vis mendigos
Têm, na coisa mais pobre, algo supérfluo.
Não concedais à natureza mais do que a natureza necessita,
E a vida do homem será barata como a da fera. Tu és uma dama;
Se apenas andar quente fosse esplêndido,
Ora, a natureza não precisa do que vestes com esplendor,
Que mal te conserva quente. Mas, quanto à verdadeira necessidade...
Vós, céus, dai-me paciência, a paciência de que preciso!
Vedes-me aqui, ó deuses, pobre velho,
Tão cheio de dor quanto de idade; miserável em ambas!
Se sois vós que agitais os corações destas filhas
Contra o pai, não me façais tão tolo
Que eu suporte isso mansamente; tocai-me com nobre cólera,
E não deixeis que armas de mulheres, gotas d’água,
Maculem minhas faces de homem! Não, bruxas desnaturadas,
Hei de tomar tais vinganças de ambas
Que todo o mundo há de... farei tais coisas...
Quais sejam, ainda não sei; mas serão
Os terrores da terra. Pensais que chorarei;
Não, não chorarei. Tormenta e tempestade.
Tenho causa plena para chorar; mas este coração
Há de romper-se em cem mil fendas
Antes que eu chore. Ó bobo, ficarei louco!
Saem Lear, Gloucester, Kent e o Bobo.
CORNWALL.
Retiremo-nos; haverá tempestade.
REGAN.
Esta casa é pequena: o velho e sua gente
Não podem ser bem acomodados.
GONERIL.
A culpa é dele mesmo; tirou-se do repouso
E deve necessariamente provar sua loucura.
REGAN.
Quanto a ele em particular, recebê-lo-ei de bom grado,
Mas não um só seguidor.
GONERIL.
Assim também estou decidida.
Onde está meu Lorde de Gloucester?
Entra Gloucester.
CORNWALL.
Seguiu o velho para fora; já voltou.
GLOUCESTER.
O Rei está em grande furor.
CORNWALL.
Para onde vai?
GLOUCESTER.
Chama os cavalos; mas não sei para onde irá.
CORNWALL.
É melhor deixá-lo passar; ele se conduz a si mesmo.
GONERIL.
Meu senhor, de modo algum lhe peçais que fique.
GLOUCESTER.
Ai de mim, a noite se aproxima, e os ventos altos
Rugem asperamente; por muitas milhas ao redor
Mal há um arbusto.
REGAN.
Oh, senhor, para homens obstinados,
As injúrias que eles mesmos procuram
Devem ser seus mestres. Fechai vossas portas.
Ele é assistido por um séquito desesperado,
E o que possam incitá-lo a fazer, sendo ele propenso
A ter o ouvido abusado, a sabedoria manda temer.
CORNWALL.
Fechai vossas portas, meu senhor; é uma noite selvagem.
Minha Regan aconselha bem: vinde para fora da tempestade.
Saem.
Tradução Literunico em português brasileiro de King Lear, tragédia de William Shakespeare em domínio público. A edição preserva a estrutura teatral em atos e cenas, com linguagem clássica legível para leitura contemporânea.
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