Universo da obra
Universo da obra
Lear sobre um leito, adormecido; música suave tocando. Médico, Cavalheiro e outros assistindo.
Entram Cordelia e Kent.
CORDELIA.
Ó bom Kent, como hei de viver e trabalhar
Para igualar tua bondade? Minha vida será curta demais,
E toda medida há de falhar-me.
KENT.
Ser reconhecido, senhora, já é pago em excesso.
Todos os meus relatos seguem com a modesta verdade;
Nem mais, nem podada, mas assim.
CORDELIA.
Vesti-vos melhor;
Estes andrajos são lembranças daquelas horas piores:
Rogo-vos que os deixeis.
KENT.
Perdoai, cara senhora;
Ainda ser conhecido encurta meu intento fabricado.
Faço deste o meu favor: que não me conheçais
Até que o tempo e eu o julguemos próprio.
CORDELIA.
Então seja assim, meu bom senhor. Ao Médico. Como está o Rei?
MÉDICO.
Senhora, ainda dorme.
CORDELIA.
Ó vós, bondosos deuses,
Curai esta grande brecha em sua natureza maltratada!
Os sentidos desafinados e dissonantes, oh, tornai a ajustar
Deste pai transformado em criança.
MÉDICO.
Se apraz a vossa majestade,
Podemos despertar o Rei: ele dormiu longamente.
CORDELIA.
Sede governado por vosso saber, e procedei
Sob o governo de vossa própria vontade. Está vestido?
MÉDICO.
Sim, senhora. No peso do sono,
Pusemos-lhe vestes frescas.
Ficai perto, boa senhora, quando o despertarmos;
Não duvido de sua temperança.
CORDELIA.
Muito bem.
MÉDICO.
Tende a bondade de aproximar-vos. Mais alta a música aí!
CORDELIA.
Ó meu querido pai! Que a restauração pendure
Seu remédio em meus lábios; e que este beijo
Repare os violentos males que minhas duas irmãs
Fizeram à tua reverência!
KENT.
Bondosa e cara princesa!
CORDELIA.
Ainda que não fosses pai delas, estes flocos brancos
Teriam reclamado piedade. Era este um rosto
Para ser oposto aos ventos guerreadores?
Para resistir ao trovão profundo, terrível, armado de raios?
No golpe mais terrível e ágil
Do relâmpago súbito e cruzado? Para vigiar, pobre sentinela perdida,
Com este elmo tão fino? O cão de meu inimigo,
Ainda que me houvesse mordido, deveria, naquela noite,
Ficar junto a meu fogo; e tu, pobre pai,
Foste forçado a meter-te em choupana com porcos e malandros abandonados,
Em palha curta e mofada? Ai, ai!
É espanto que tua vida e teus sentidos, de uma só vez,
Não tenham concluído tudo. Ele desperta; falai com ele.
MÉDICO.
Senhora, falai vós; é o mais adequado.
CORDELIA.
Como está meu real senhor? Como passa vossa majestade?
LEAR.
Fazeis-me mal em tirar-me da sepultura.
Tu és uma alma em bem-aventurança; mas eu estou preso
A uma roda de fogo, onde minhas próprias lágrimas
Escaldam como chumbo derretido.
CORDELIA.
Senhor, conheceis-me?
LEAR.
És um espírito, eu sei: quando morreste?
CORDELIA.
Ainda, ainda tão longe!
MÉDICO.
Mal está acordado: deixai-o só por um momento.
LEAR.
Onde estive? Onde estou? Bela luz do dia?
Fui poderosamente maltratado. Eu mesmo morreria de piedade
Ao ver outro assim. Não sei o que dizer.
Não jurarei que estas são minhas mãos: vejamos;
Sinto esta alfinetada. Quem me dera ter certeza
De minha condição!
CORDELIA.
Oh, olhai para mim, senhor,
E mantende vossas mãos em bênção sobre mim.
Não, senhor, não deveis ajoelhar-vos.
LEAR.
Rogo-vos, não zombeis de mim:
Sou um velho muito tolo e frágil,
De oitenta anos e mais, nem uma hora a mais nem a menos;
E, para falar claramente,
Temo não estar em meu perfeito juízo.
Parece-me que eu deveria conhecer-vos, e conhecer este homem;
Contudo, duvido: pois sou grandemente ignorante
De que lugar seja este; e toda a habilidade que tenho
Não recorda estas vestes; nem sei
Onde me hospedei na noite passada. Não riais de mim;
Pois, como sou homem, penso que esta senhora
Seja minha filha Cordelia.
CORDELIA.
E assim sou. Sou eu.
LEAR.
Vossas lágrimas estão molhadas? Sim, por minha fé. Rogo-vos, não choreis:
Se tendes veneno para mim, eu o beberei.
Sei que não me amais; pois vossas irmãs,
Como me lembro, fizeram-me mal.
Vós tendes alguma causa; elas não têm.
CORDELIA.
Nenhuma causa, nenhuma causa.
LEAR.
Estou na França?
KENT.
Em vosso próprio reino, senhor.
LEAR.
Não me enganeis.
MÉDICO.
Confortai-vos, boa senhora; a grande fúria,
Vedes, está morta nele: e ainda assim é perigoso
Pô-lo a par do tempo que perdeu.
Convidai-o a entrar; não o perturbeis mais
Até maior assentamento.
CORDELIA.
Apraz a vossa alteza caminhar?
LEAR.
Deveis suportar-me:
Rogo-vos agora, esquecei e perdoai: sou velho e tolo.
Saem Lear, Cordelia, Médico e Acompanhantes.
CAVALHEIRO.
Confirma-se como verdade, senhor, que o Duque de Cornwall foi assim morto?
KENT.
Certíssimo, senhor.
CAVALHEIRO.
Quem conduz sua gente?
KENT.
Como se diz, o filho bastardo de Gloucester.
CAVALHEIRO.
Dizem que Edgar, seu filho banido, está com o Conde de Kent
Na Alemanha.
KENT.
O rumor é mutável. É tempo de olhar ao redor; as forças
Do reino se aproximam depressa.
CAVALHEIRO.
O arbitramento parece que será sangrento.
Passai bem, senhor.
Sai.
KENT.
Meu ponto e meu termo serão inteiramente lavrados,
Para bem ou para mal, conforme se travar a batalha deste dia.
Sai.
Tradução Literunico em português brasileiro de King Lear, tragédia de William Shakespeare em domínio público. A edição preserva a estrutura teatral em atos e cenas, com linguagem clássica legível para leitura contemporânea.
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