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Capítulo 8 · As Minas de Prata

As Minas de Prata: Primeira Parte - Capítulo VIII: Como o padre provincial deu xaque ao rei e foi xaqueado

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Deu uma hora da tarde.

Na vasta sala da biblioteca, pouco antes deserta, andava um frade, que percorria o aposento a passos vagarosos, com o movimento automático e maquinal do homem absorvido em funda meditação.

Às vezes parava em face do quadro de Santo Inácio de Loiola; erigia então a alta estatura, fitava no retrato o olhar ardente, e rastreando na tela as linhas das feições nobres e expressivas, trocava com a imagem inanimada um sorriso de orgulho.

Quem o observasse nesse momento, compreenderia o que passava em sua alma.

Aquela fronte larga e proeminente, cobrindo como uma abóbada de mármore os olhos fundos, onde a pupila negra brilhava na sombra com reflexos de um fogo vulcânico nas trevas da noite; o oval do rosto que terminava na ponta de uma barba saliente, o nariz aquilino, as faces longas, a boca fina e cerrada; todos esses traços enérgicos pareciam cinzelados pelo molde do busto, que o artista havia desenhado no quadro suspenso em um dos panos da biblioteca.

Era tal a semelhança, que à primeira vista se julgaria que o vulto do fundador da Ordem de Jesus destacara da moldura, e encarnando-se, passeava pela sala deserta, a revolver na mente os destinos futuros da poderosa criação de seu espírito, esse apostolado que devia conduzir a humanidade dos umbrais da Idade Média ao pórtico da civilização moderna.

Mas passada essa primeira ilusão, conhecia-se que entre aqueles dois homens, o que revivia no quadro e o que contemplava, havia mais de um século: separava-os o túmulo de duas gerações; um nascera com a descoberta do Novo Mundo, em 1491; o outro apenas contava trinta anos de idade.

Não era portanto um retrato em face do original, como a princípio parecia; era sim uma recordação, um tipo conservado pelo artista, que a natureza por uma misteriosa coincidência caprichara em reproduzir, e que talvez o artifício inspirado por oculto pensamento tratara de aperfeiçoar.

Depois de rever-se um momento naquela imagem, como em um espelho moral, onde se reproduziam as suas ideias, o frade continuava seu passeio, perlongando o aposento.

Então já não era o mesmo homem; o talhe acurvava-se; a cabeça inclinando obscurecia os traços da fisionomia; os olhos afundavam quase ocultos pelo cenho carregado; as faces se contraíam, e a boca ainda mais cerrada, repuxando os músculos faciais, abria rugas precoces naquele rosto que antes parecia expandir-se em toda a robustez da idade.

Nessa ocasião representava mais dez anos; era quase um velho, gasto pelas vigílias e macerações de uma prática ascética, arrastando com o passo já meio trêmulo uma existência atribulada, expiando talvez no jejum e penitência os erros da mocidade desregrada.

Qual dos dois homens era o verdadeiro? Qual das duas fisionomias era a máscara que disfarçava a outra?

A mocidade não se finge; o fogo do sangue, que borbulha nas veias e ferve no coração, depois que os anos o gelam, não há mais aquecê-lo; essa expansão da vida no momento de sua florescência, uma vez passada, nada a faz voltar.

Se pois havia máscara na fisionomia desse homem, era a velhice prematura, que desaparecia quando o espírito distraído por algum pensamento grave esquecia a matéria que ele escravizava, deixando o corpo, livre da pressão, reivindicar sua atividade e desenvolver-se de repente com o impulso da vigorosa constituição.

Havia apenas três horas que o P. Gusmão de Molina desembarcara e achava-se no convento; ninguém sabia ao certo o que o trazia ao Brasil e quem o enviava; mas era natural que tocado do mesmo fervor de Nóbrega e Anchieta, viesse apostolar entre os selvagens e plantar a cruz nos desertos, cingindo-a com as palmas do martírio.

Assim pensavam todos e o mesmo provincial, a quem o recém-chegado nada comunicara a respeito de sua viagem: apenas no momento de beijar-lhe a mão, dera-lhe o toque simbólico do grau de professo , e tanto bastou para que o superior não lhe dirigisse uma só pergunta e o acolhesse como filho da casa.

Rodeado pela comunidade que estava ansiosa por saber notícias da Europa, Molina satisfez a todos e ao mesmo tempo informou-se do estado das coisas no Brasil; daí a uma hora ficou ao corrente das questões importantes da Ordem, na Bahia; não porque lhe houvessem os padres revelado segredos que ignoravam, mas porque a sua perspicácia lera a verdade nas notícias vagas que lhe ministravam.

Quando a sineta do refeitório tocou, o recém-chegado, que desejava estar só, mandara pedir dispensa ao provincial; e depois de tomar na cela uma açorda confortante e um cálice de vinho de relego, dirigiu-se à biblioteca então completamente deserta.

Aí, seu primeiro cuidado foi passar um exame minucioso nos papéis que os padres haviam deixado sobre a mesa na ocasião de irem à refeição; leu um trecho ou uma página de cada um destes trabalhos, e fez o seu juízo a respeito da capacidade de seus autores; pela escolha das matérias deduziu observações que deviam servir-lhe para conhecer o caráter daqueles homens.

Depois de ter assim interrogado esses objetos e lido em seu aspecto tudo que eles exprimiam, como pouco antes havia lido no espírito dos frades, Molina deixou-se levar pelos pensamentos que de tropel lhe assaltavam o espírito e o transportavam a outras regiões.

É nessa ocasião que o encontramos medindo a passos lentos a sala da livraria, até que a comunidade voltando da refeição o veio interromper em suas elucubrações.

Fernão Cardim e Vaz Caminha entraram em último lugar. O provincial tinha o rosto ainda mais prazenteiro e o gesto ainda mais vivo e animado. O licenciado conservava o sério imperturbável que nunca o abandonou; a ventura lhe negara uma das expressões características da fisionomia humana; seu lábio não sabia sorrir.

Atravessando a sala os dois encontraram-se com o P. Gusmão de Molina, que continuava seu passeio:

-- V. Paternidade já repousou dos incômodos da travessia? perguntou Fernão Cardim.

-- Quanto basta para cumprir as ordens de V. Reverência, disse Molina com humildade.

-- As ordens do nosso Instituto, P. Molina, replicou Fernão Cardim. Mas para isso ainda é cedo; mal chegastes, e ninguém conheceis na cidade do Salvador.

-- É verdade; ninguém que eu saiba.

-- Pois quero que vosso primeiro conhecimento seja o melhor. Aqui está o Doutor Vaz Caminha, principal advogado da terra, homem de boas letras e melhores virtudes, com quem gostareis de praticar.

O frade e o licenciado cortejaram-se cerimoniosamente.

-- Agradeço a V. Reverência o favor que me depara; porém receio que pessoa de tanto saber não se desagrade da companhia de um pobre servo de Deus, ignorante nas coisas que deleitam o espírito.

-- V. Paternidade bem sabe, respondeu mansamente o doutor, que as aves de altanaria antes de erguer o voo rastejam com o chão para desentorpecerem as asas; aos homens de grande engenho sucede o mesmo, descem muito para subirem mais.

O frade lançou um olhar rápido sobre o velhinho. Adivinhou ele que essa crosta rude e grosseira cobria delicada polpa e um espírito elevado?

O provincial tinha-se afastado alguns passos para inspecionar o serviço de um donato que preparava o jogo de xadrez, colocado junto à janela sobre um bufete; vendo todas as peças enfileiradas em seu lugar, voltara-se para o licenciado.

-- Não façamos esperar aos reis , doutor! disse Fernão Cardim apontando para as figurinhas chinesas e sorrindo de seu trocadilho.

-- Não sou capaz de tal descortesia; aqui me tendes.

Fazendo uma reverência ao P. Gusmão, o licenciado foi tomar o seu lugar à direita do bufete e defronte do provincial; este esquecendo o mundo concentrava sua atenção no tabuleiro, cujas casas pretas e brancas se lhe afiguravam posições estratégicas de dois exércitos inimigos no começo de uma grande batalha.

-- Toca-vos a mão, Vaz Caminha, disse o provincial depois de tirar a sorte.

-- É justo, replicou o letrado; aqui são os peões que primeiro saem.

E dizendo isto empurrou um trebelho, que fez o jesuíta erguer a cabeça e olhá-lo espantado.

-- Que é isto, doutor! Jogais o peão do roque?

-- Omnis variatio delectat , padre provincial. Quero experimentar jogo novo.

-- Não creio que vos deis bem com a lembrança.

-- A experiência mostrará.

Fernão Cardim desconcertado em seus planos com a saída do parceiro, levou o anelar à testa e refletiu profundamente no lance, até que ao cabo de cinco minutos resolveu-se a fazer a primeira jogada.

A biblioteca a pouco e pouco ficara deserta; os padres acabando o trabalho, desciam à cerca do convento, e aí à sombra das árvores prosseguiam na leitura de alguma obra; outros saíam ao cumprimento de seus deveres religiosos e apesar de ser o dia de festa iam, como confessores que eram de diversas casas, à cura das almas.

Entretanto a partida de xadrez se travara; o provincial completamente absorvido não dava fé de coisa alguma; porém Vaz Caminha dividia a atenção entre o jogo e os importantes acontecimentos daquela manhã, que vieram perturbar a calma e doce monotonia de sua existência.

Não lhe saía da memória a carta que Estácio lhe mostrara; quanto mais refletia, maior vulto tomava a suspeita de que as últimas novidades políticas do reino tivessem alguma conexão com o destino de seu pupilo. A estas preocupações vinha ligar-se a lembrança do misterioso emprazamento daquela dama desconhecida que dizia precisar do seu conselho.

Também não deixava de impressioná-lo a presença do jesuíta recém-chegado, que continuava a passear de um canto a outro da sala.

O ar de excessiva humildade do P. Molina não o tinha iludido; adivinhara que sob aquela aparência enganadora se escondia o superior, o qual não tardaria a revelar-se.

Nisto o jesuíta aproximou-se do bufete e esteve alguns instantes a contemplar o jogo, que se complicara em suas variadas evoluções. Segurava então o provincial uma das peças, e assentando-a de chapa na próxima casa exclamou com ar de triunfo:

-- Xaque ao rei!

O licenciado era um hábil jogador; com um volver d'olhos apreciava a posição do parceiro, e opunha uma defesa invencível, ou preparava um ataque decisivo; descobria todas as manhãs do adversário e previa os mais bem combinados lances.

Ele tinha porém estudado o parceiro e conhecido seu fraco; por isso como homem que sabia viver, perdia sempre, e sacrificava a gloríola de jogador de xadrez à vantagem real e positiva de conservar um amigo, que lhe podia servir de muito em caso de necessidade.

Assim quando o provincial, pensando que ia ganhar a partida, soltou o primeiro grito de triunfo, já o seu parceiro, que desejava ainda por algum tempo disputar a vitória, tinha prevenido o ataque e inutilizado todo o plano, cobrindo o rei com um cavalo.

-- Ah! tínheis esse cavaleiro à mão! disse Fernão Cardim desconcertado.

-- Se V. Reverendíssima em vez de xaquear de longe aproximasse sua dama do rei, não sucederia isso, disse o P. Molina, em tom condoído; e na segunda jogada daria mate.

O provincial mordeu os beiços de despeito:

-- Não sabia que V. Paternidade era forte no xadrez.

-- Pouco entendo deste, como de outros jogos.

-- Entretanto tem avisos prudentes que não são de principiante, mas de mestre.

P. Gusmão sorriu:

-- Tais avisos não os aprendi nesse tabuleiro de sessenta e quatro casas, porém em outro maior a que chamam o mundo, padre provincial. Se eu quisesse atacar um governador, digo, um rei, não o ameaçaria de longe para que ele se prevenisse; aproximar-me-ia ao contrário para conhecer-lhe o fraco, e dar mais certeiro o golpe.

O licenciado volveu a furto os olhinhos para o frade e admirou a expressão de energia que realçava a inteligente fisionomia; o provincial embebido em novos cálculos não deu atenção ao incidente.

Ouviu-se no Terreiro a música das charamelas, adufes e pífaros em concerto com o vozear alegre da multidão.

O P. Molina dirigiu-se a uma das janelas que abria sobre a praça; por entre as rótulas pretas enfiou o olhar rápido e incisivo do homem observador.

Entretanto os dois enxadristas continuavam impassíveis. O convento poderia tombar sobre suas cabeças, que o estrondo da queda não perturbaria o provincial na elucubração profunda do xaque-mate, e o paciente doutor no quilo do jantar e das ideias que ruminava desde a sua chegada.

Si fractus illabatur orbis, Impavidum ferient ruinae.

As Minas de Prata

Sinopse

Leia As Minas de Prata, de José de Alencar, grátis no Literunico. Romance histórico clássico brasileiro em domínio público, publicado para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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