Universo da obra
Universo da obra
Caía essa noite fatal que vinha tão prenhe de calamidades. Elvira, recostada na penumbra do balcão, engolfava-se em um melancólico cismar.
Acudiam-lhe à mente as doces recordações de seus puros e castos amores, quando o virgem coração começara a desbotoar como uma flor, à luz ardente dos olhos de Cristóvão. Lembravam-lhe as tímidas esperanças, os contínuos rubores, os desejos travados de sustos, todos esses desmaios do coração que anunciam a concepção do amor.
Mas a pouco e pouco iam-se apagando estas reminiscências vivaces, como se apagavam no horizonte os tons rubros e áureos do arrebol da tarde; sucediam tons mais carregados e sombrios; lembranças da luta que teve a sustentar com sua mãe para defender seu amor. Finalmente a luz esvaecia-se de todo; ao crepúsculo sucedia a treva do presente cheia de tristura e ermo de esperanças.
Era noite.
O espírito da donzela parecia acompanhar o declínio da luz no horizonte, e sofrer a influência da sombra no espaço. A mesma escuridão, que sepultava a natureza, enlutava agora sua alma.
Depois da tarde em que com generosa abnegação restituíra a Cristóvão seu juramento, a existência da donzela era essa: sair um instante do presente para logo após tombar nele e mais fundo. Era o transe do mísero náufrago; à custa de violento esforço surde à tona, braceja em vão, respira, entrevê o risonho azul do céu, e afinal de novo submerge-se.
Elvira estava excessivamente pálida, mas ainda assim formosa; sua beleza tinha certa diafanez que a assemelhava a uma linda imagem de cera, qual se adora nos altares. Uma semana havia que ela começara de sentir um estranho sofrimento. De repente fugia-lhe a vida, deixando seu corpo frio e exânime; após a vertigem ficava-lhe uma sensação inexprimível, como a aspiração interna de todo o seu ser, seguida de uma constrição profunda.
A donzela curtia consigo este novo padecimento; ela se habituara de há muito a sofrer só e sem queixumes. Desde que sua mãe uma noite vibrara o punhal que devia cortar o elo de seu amor, e abandonara a vis assassinos a existência de Cristóvão, interpusera-se entre ambas véu glacial como um sudário.
Um dia porém D. Luísa de Paiva surpreendera a filha presa da costumada vertigem:
-- Que tens, Elvira?
-- Nada, minha mãe.
-- Estás sofrendo alguma coisa, que pretendes ocultar-me! replicou a dona com voz severa.
A donzela ergueu para ela um límpido olhar; mas sua voz era profunda.
-- Confessei-vos piores coisas, senhora!
Depois acrescentou:
-- Há dias sinto uma vertigem, que me vem de repente, e uma agonia dentro, como se me arrancassem as entranhas. Mas logo passa... Há de ser fraqueza.
D. Luísa estremeceu; logo se contendo, derramou pelos lábios um sorriso de cruel ironia. Elvira viu esse sorriso sem o compreender; sua alma porém agastou-se com ele, como a sensitiva.
-- Sei o que isso é!... Careces sem demora de ser curada para que não cresça o mal, que então será sem remédio. Vou te preparar uma mezinha de muita virtude, que me ensinaram.
-- Para que, minha mãe? Isto nada é.
A dona voltara tempo depois com uma beberagem, de que obrigou a filha a tomar alguns tragos; nos dias que seguiram repetiu a dose, que a donzela bebeu sempre com indiferença, insensível tanto ao amargo do remédio como ao benefício dele.
Nessa noite, apenas acenderam luzes, D. Luísa veio como de costume trazer à filha a taça com remédio. Elvira, perturbada em sua dolorosa cisma, mas não arrancada a ela, segurou a taça maquinalmente e levou-a ao lábio. Quando porém o líquido verteu a primeira gota, ergueu-se a donzela arrebatada e fora de si.
A cabeça levemente pendida à esquerda, como se inclinara o ouvido às palpitações do coração, os lábios entreabertos pelo forte anelo, o corpo convulso para dentro de si, tal foi a atitude de Elvira alguns instantes. De repente ela soltou um grande e pungente ai, levando a mão ao regaço; uma cólera grande que dormia no fundo de sua alma, desencadeou-se como uma procela.
-- Não o haveis de matar! Quereis imolar o filho, como já imolastes a mãe ao vosso fanatismo! Mas Deus não consentiu. Ele acaba de revelar-me por uma influição de sua infinita misericórdia a existência de meu filho!...
D. Luísa de Paiva dardejou sobre a donzela um olhar ímpio:
-- Bebe!... exclamou apresentando de novo a taça.
-- Nunca!...
-- Preferes a infâmia?
-- Estou resignada, respondeu a donzela com humildade.
A viúva teve um instante os olhos cravados sobre a filha. Que mau pensamento ruminava ela naquele transe?
-- Então para salvar este fruto do crime e da vergonha que trazes no ventre, não te importa macular o nome de teu pai e a virtude de tua mãe, de lançar sobre os que te geraram o desprezo e o escárnio de tua desonra?
-- O crime foi meu; só eu serei punida!
-- Assim devia ser, mas assim não é. O mundo dirá vendo-te passar: -- É a filha de Afonso de Paiva, o honrado mercador, que tornou-se uma...
-- Minha mãe!...
-- Arrepia-te o nome? O povo o dirá não uma, porém mil vezes!
Sentiu Elvira irritar-se o coração contra aquela crueldade:
-- Pois que repita!... Será maior o castigo, quanto maior for a vergonha! Tudo sofreria, e agora ainda mais, por meu filho.
-- Por teu filho!... E esse mesmo, quando souber que é um bastardo, não te pedirá contas severas de tua virtude e de sua honra?
-- Ah! exclamou Elvira ferida n'alma.
Sua mão chegou a estender-se para a taça; mas uma boa inspiração lhe desceu do céu, que retraiu o movimento e lhe orvalhou de sorriso e esperança o semblante angustiado:
-- Meu filho terá um nome honrado e nobre!
-- Qual?
-- O de seu pai.
A viúva soltou um riso de mofa.
-- Supondes que Cristóvão me abandonou? continuou Elvira. Pois sabei, minha mãe, que fui eu quem o absolvi de seus votos e a seu pesar, porque me julguei indigna de seu amor, depois de meu pecado, embora fosse ele a causa. Mas aceitarei para meu filho o que para mim recusei.
O riso escarninho da dama redobrou:
-- De que rides vós, minha mãe?
-- É verdade; não sabeis ainda! Ouvis este rumor de festa que anda lá fora? Nem suspeitais o que seja?...
-- Acabai!
-- São as bodas de vosso fiel amante D. Cristóvão de Garcia de Ávila.
-- Meu Deus!
-- E adivinhais com quem? Com vossa melhor amiga, a formosa D. Inês de Aguilar.
-- Ah!
Elvira caiu fulminada sobre o estrado. Sua mãe, depois de a contemplar algum tempo, conhecendo que ela não carecia de socorro corporal, retirou-se, esperando tudo da situação em que deixava a donzela. Perdida toda a esperança de casamento, o único recurso, que restava, era o aborto; assim destruiria o obstáculo que sobreviera para impedir o cumprimento de seus votos.
Ergue Elvira a cabeça e circula o aposento com olhares esvairados. Não vendo a mãe, como que sua alma sentiu-se aliviada de um grande peso.
-- Não é a primeira vez que ela me engana! Verei Cristóvão e lhe suplicarei em nome de meu, de nosso filho! Ele é nobre e generoso! Se porém for verdade... Se chegar tarde para obstar que seja esposo de outra...
Levantou-se resoluta:
-- Não matarei meu filho, não!... Morrerei para que ele não nasça à vergonha e à desonra!
Rebuçando-se à pressa em escura manta, resvalou como sombra ao longo do corredor. Já corre na direção da cidade; passa a porta de São Bento; seu instinto a leva à Sé, cujo caminho conhece. Ela sabe que Ávila mora nas imediações, e espera poder orientar-se ali chegando.
A gente do povo, que concorria à casa do fidalgo para ver chegar os noivos, a guiou; quando o cortejo já aparecia no princípio da rua, Elvira sem dar fé, atravessou da outra banda e entrou na habitação de Cristóvão.
Esgueirou-se como um fantasma ao longo das escadas e deslizou pelos aposentos iluminados; de repente abriu-se diante dela uma porta, e seus olhos viram o leito nupcial ricamente adornado. Em torno as aias da noiva dispunham suas roupas de dormir sobre o coxim de veludo, e davam o último alinho à câmera festiva.
-- Cristóvão!... Cristóvão!... exclamou Elvira arrojando-se no aposento, e recuando ante aquele aparato.
As mulheres, que ali estavam, volveram para a desconhecida com surpresa, depois se entreolharam rindo, e cochicharam da aventura.
-- Não me direis onde encontrarei D. Cristóvão de Ávila?... Não é esta sua casa?
-- Pois não estais vendo que é esta mesma? Onde o encontrareis?... Não vedes o povo que festeja os desposados?
-- Os desposados!... Mas então já vêm da igreja?
-- De lá saíram.
-- Sois também das convidadas?
-- Chegastes tarde para a cerimônia, mas a tempo para a ceia.
-- Ai, Jesus, que foi?
Era Elvira que tinha caído desmaiada. O rebuço da manta desconcertou-se, descobrindo o rosto. Uma das aias reconheceu a amiga querida de Inesita; tomando-a nos braços, deitou-a sobre o leito, e cuidou de chamá-la a si.
Por este tempo entrava o cortejo. Os convidados eram conduzidos à sala da ceia, e corria a cena até o momento, em que se retirou Cristóvão depois de seu estranho pedido.
Saído o mancebo, a noiva querendo repousar um instante no camarim, pediu ao pai que a abençoasse. Apenas se viu livre do rumor e alegria da festa, a donzela derramou no pranto os sentimentos por tantas horas recalcados.
Durou pouco essa expansão. Logo enxugando as lágrimas, revestiu-se de uma expressão glacial.
-- Enfim!...
Suas aias viram a mão gentil lançar pela janela um objeto diminuto, e apinharem-se os lábios como se libassem gotas de mel.
Entretanto a história da desconhecida, que se apresentara bruscamente, corria a casa, graças à indiscrição das aias. Em pouco não se falou em outra coisa, e o acontecimento, aliás natural, ainda que estranho, tomou logo o cunho supersticioso do tempo. Diziam que a desconhecida não entrara pela porta, mas saíra da parede, fendida para lhe dar passagem; outros, que era tão fria e gelada a mão, que arrepiava ao toque.
Assoalhando-se tais vozes, chegaram a Inesita que as ouviu das aias próximas. Inquirindo do motivo, veio ao conhecimento do caso estranho. As almas sucumbidas e já desertas de esperança, tanto se deleitam com as cenas de tristeza, como se afligem com o espetáculo da alegria.
Ergueu-se pois a desposada e foi ao camarim nupcial, impelida por vivos desejos de fugir aos folgares da festa, e de saturar-se ainda mais nas agonias dessa noite agourada, com a presença da desconhecida. A donzela quis entrar só na câmera.
Reviram-se as duas amigas sem grande comoção; ambas estas duas almas estavam flácidas de tanto sofrer. Dos lábios de Inesita escapou-se um leve rumorejo, como de um coração que se afoga no abismo; dentro do seio de Elvira soou o estalido da última fibra rota.
-- Também tu, Elvira!...
Só então se lembrara a filha de D. Francisco do quinhão que tocara à amante de Cristóvão na desgraça comum. Para as naturezas privilegiadas a felicidade é pródiga; a dor egoísta.
-- Vinha buscar o pai de meu filho; roubaste-o, Inês. Peço-te eu agora somente mãe para o mísero, pois esta, roubou-a ele, teu esposo!...
-- Filho!... balbuciou a donzela espavorida.
Elvira, com a sublime impudência da agonia, abaixou ao regaço um olhar morto:
-- Se o não amparardes, levá-lo-ei comigo. O ódio de minha mãe o matará antes de nascer.
Compreendeu Inesita que havia nesse abismo, a que fora precipitada, voragens ainda mais profundas. Correu para a infeliz amiga; cingiu-a nos braços e envolveu-a de ternura e consolo.
Abriu-se com este tépido calor o seio de Elvira, e verteu no coração da amiga as lágrimas e soluços ali condensados durante tão longos dias e curtidas noites. Tudo referiu, tudo e com a ingenuidade da inocência. A santidade desse martírio da virtude era tanta, que o anjo decaído nada velava, e o anjo exaltado não enrubescia.
De repente houve em Inesita um sobressalto. Sua alma recaíra na realidade esquecida. A dolorosa expressão, que a vendava, dissipou-se; sorriu, e desse sorriso derramou-se por toda sua pessoa uma aspersão de luz. Dir-se-ia que o céu já lhe flutuava em torno.
-- Abençoada seja esta minha pena, pois trouxe ela vossa ventura, Elvira!
Elvira não compreendeu.
-- Sereis esta mesma noite esposa de Cristóvão! disse Inesita.
-- E vós? acudiu a donzela esvairada. Que sereis vós, Inês?
-- Serei a que foi.
-- Quereis sacrificar-vos por mim?
-- Prometi-me a Estácio no túmulo, pois não pude ser dele em vida. Tenho já a morte dentro de mim; ela me advertiu neste momento. Esperai-me; breve tornarei com vosso esposo.
Antes que Elvira pudesse opor-se à resolução, a donzela saiu em busca de Ávila, a quem mandou aviso por um pajem. É já conhecido o que passou na sala até o momento da brusca desaparição de Estácio.
Cristóvão retido por Inesita, a olhava estupidamente; o sentimento da realidade lhe escapava:
-- Era Estácio que ali estava! repetiu ele esvairado.
-- Breve o tornarei a ver!... Não sabeis vós para onde foi ele deste passo? Sei-o eu; vai encontrar-me no céu.
-- Ah! exclamou o mancebo, sacudindo a opressão. Ainda o amais?...
-- Não se trata já de Estácio nem de mim, senhor, que não somos deste mundo, mas de vós e de Elvira.
-- E por que não partiremos nós também convosco?
-- Não podeis, não. Vosso filho já vos prendeu à terra.
-- Meu filho!... Meu filho!... Que vozes são estas, senhora?...
-- Vinde!
-- Aonde?
-- A vossa câmera nupcial. Em vez do cadáver, que vos esperava, achareis a esposa abençoada do céu que se perdeu para não perder-vos. Não compreendeis este sublime sacrifício?...
-- Nada compreendo.
-- Elvira se condenou à maldição, porque era o meio de se unir eternamente ao seu amado. Vinde, que ela vos dirá tudo.
Momentos depois Cristóvão estava aos pés de Elvira e dela ouvia a plena confissão do suicídio de sua castidade.
Leia As Minas de Prata, de José de Alencar, grátis no Literunico. Romance histórico clássico brasileiro em domínio público, publicado para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.