Leia agora
As Minas de Prata

Universo da obra

As Minas de Prata

Capítulo 14 · As Minas de Prata

As Minas de Prata: Primeira Parte - Capítulo XIV: Que reza de magarefes e alfeloeiras

14 de 73 ≈ 26 min de leitura

Uma espada volteou no ar; houve um grito abafado e o tumulto serenou de chofre.

Era o tempo, em que o alcaide-pequeno com os seus quadrilheiros armados de lanças desembocava pela Rua da Sé, e varava entre o povo para aproximar-se do lugar do conflito e prender os delinquentes, que transgrediam a Ordenação do Livro Quinto, levantando volta e assuada.

Mas já o tumulto fora apaziguado; da luta renhida e encarniçada apenas restava o morno silêncio que sucede aos grandes clamores, como às grandes borrascas.

Inesperada intervenção pusera termo ao combate; quando Anselmo impelido com a pressão da onda popular, amiudava os golpes, surgiram dentre a multidão Estácio e Cristóvão; fora a espada do primeiro dos cavalheiros que batendo de prancha, fizera voar a adaga da mão do lutador.

Estácio, ao sair do torneio, correra a casa a tomar suas roupas de gala, para ir-se ao sarau.

Na volta parou como prometera no adro de Santa Luzia, olhando para o mar. Sentiu logo o contato macio de mão que apertava-lhe docemente o braço, e as falas de uma voz maviosa, como o canto do saí.

A dama velada estava em face dele:

-- Deus vos recompensará, cavalheiro, a graça de acudir tão pronto ao meu rogo.

-- Ordenai, senhora, em que vos possa eu ser agradável.

-- Esta que vos fala é uma dama infeliz e ao desamparo dos homens, sem outro apoio mais que Deus. Em sua angústia inspirou-lhe ele que se valesse do vosso braço, e venho em seu nome pedir-vos proteção contra a desventura. Me recusareis?

-- Não a pode recusar um cristão ao próximo, nem um cavalheiro às damas.

-- Bem me dizia o coração que esperasse tudo de vossa generosidade. Não é porém chegado ainda o momento de recorrer ao vosso esforço; em ele chegando vos mandarei aviso. Até lá permiti que me conserve velada e desconhecida.

-- Não preciso conhecer-vos para servir-vos; basta que me assegureis que vossa causa é boa e justa.

-- Eu vo-lo juro!

-- Então só careço de conhecer vosso inimigo.

-- Heis de conhecê-lo em tempo. Não vos quero deter mais. Sei que vos esperam no sarau.

A voz teve um ligeiro estremecimento.

-- É a hora de lá estar, disse Estácio.

-- Dai-me vosso braço; deixar-me-eis em caminho.

A dama seguiu com passo demorado ao flanco de Estácio, fazendo-lhe perguntas sobre as justas e o torneio. A pouca distância um vulto aproximou-se deles e com voz lacrimosa solfejou:

-- Esmola pelo amor de Deus!...

-- Não trago moeda comigo! murmurou a dama.

Estácio tirou da cinta a bolsa esquia, e se não fosse a escuridão, sua companheira veria o rubor que lhe acendeu as faces. Com doce violência, cheia de faceirice, ela arrebatou-lhe a bolsa das mãos, exclamando:

-- Quero dar-lhe eu mesma! Depois voltarei o que ficar-vos a dever.

Tirou da bolsa algumas pequenas moedas de prata, resto dos dobrões deixados pela mãe de Estácio, e deu-as à mulher que implorara a caridade e logo sumiu-se. Então os seus dedos nevados, com uma graça irresistível, repuseram a bolsa à cinta do cavalheiro.

-- Ora vos deixo, cavalheiro. Ide-vos, aonde já revoam vossos pensamentos.

Desprendeu-se do braço de Estácio e afastou-se, lentamente, como se desejasse ser retida; mas ele ficou olhando-a alguns instantes, e encaminhou-se à casa de Cristóvão que já o esperava.

Juntos se dirigiam a palácio, quando o burburinho dos curiosos, os gritos dos adversários, o fluxo e refluxo da multidão, os atraíram ao lugar do conflito.

O primeiro cuidado dos cavalheiros foi livrar das mãos de Anselmo a rapariga que parecia causa e vítima da briga. Ela tinha desmaiado com o susto que sofrera; apenas livre cobrou os espíritos, e Cristóvão reconheceu, apesar das vestes rotas e ensanguentadas, o rostinho brejeiro e petulante da princesa moura, não alindado como há pouco, senão pálido, amortecido e velado pelos cabelos em desordem.

-- Então, formosa princesa, disse o moço sorrindo, não te contentas que senhores e cavalheiros justem por tua beleza, e ainda vens dar torneio na praça pública?

-- Por minha mãe vos juro, senhor cavalheiro, que não é culpa minha, replicou a rapariga abaixando as pálpebras rosadas.

-- É minha, aposto! acudiu o mancebo gracejando.

-- É de quem Deus perdoe o muito mal que me queria fazer, respondeu a princesa. Como saía do torneio, seguiram-me estes dois que aí vedes, e tanto se travaram de razões, que por fim vieram às últimas. E eu inocente que pague as custas.

-- Estás ferida? perguntou Estácio.

-- De ferro não, que antes o fora que da fama. Que não dirão de mim?

-- Sossega, Joaninha, acudiu Cristóvão, mal não pode vir a quem mal não obrou.

-- Sabes o que deves fazer? disse Estácio para a rapariga.

-- Agora mo direis, senhor cavalheiro, respondeu ela fazendo uma mesura graciosa.

-- Pois que esta noite tens foros de princesa, escolhe destes dois paladinos teus, cujo queres ser a dama dos pensamentos.

-- Justo! exclamou Cristóvão. É o meio de terminar a contenda. Qual preferes?

-- Nenhum, disse a alfeloeira com desdém.

-- Queres mostrar esquivança que não sentes; fala.

-- Quem eu escolheria, talvez me não quisesse a mim, ou me não soubesse querer, murmurou Joaninha com uma sombra de melancolia. Mais val que ninguém o saiba.

-- E se eu te disser que sei? tornou Cristóvão.

-- Voto a Deus que não!

-- Não será este mariola que te defendia contra o outro, e agora esquece o sangue que lhe corre das feridas para não tirar os olhos de ti?

-- Tiburcino!... exclamou a mulatinha fazendo um muxoxo. Ele sabe que não; tanta vez lho tenho dito, que não há conta já. Se continua a querer-me, mal de si.

-- E nem dó tens de o ver naquele estado por tua causa? disse Estácio.

-- Oh! que sim! Dó, muito! Como o sangue lhe corre! exclamou Joaninha.

Rasgando uma tira de tafetá de seu manto de princesa já esgarçado, chegou-se para o carniceiro e tratou de estancar-lhe o sangue.

Um estremecimento de prazer abalou o corpo robusto de Tiburcino, quando sentiu o tato das mãos da alfeloeira; a fisionomia que a dor contraíra achatou-se com um riso alvar.

Chegavam então os homens do alcaide. Os respeitáveis quadrilheiros daquela época já cultivavam, como seus dignos sucessores da polícia moderna, o velho axioma do “mais val tarde que nunca”. Não vinham a tempo de aplacar o tumulto, mas sempre conseguiram empolgar o mariola, que incorrera na pena da Ordenação.

Anselmo, apenas desarmado pelos dois cavalheiros, fora subjugado por mestre Bartolomeu, apesar das súplicas da mãe, cujas lamúrias e choradeiras eram entremeadas de baldões contra a pobre rapariga, que excitara a ojeriza da tia Eufrásia.

Cristóvão obtivera da autoridade a soltura de Tiburcino, que outra culpa não tinha senão a de querer obstar a violência feita a Joaninha. Os quadrilheiros conduziram unicamente Anselmo, que foi-se, lançando sobre a cena que deixava, um olhar torvo e mau.

Anunciando a música em palácio o começo do sarau, os dois amigos iam partir, quando Estácio percebeu o Doutor Vaz Caminha, a quem não tinha visto, pelo cuidado com que o advogado se ocultava atrás de mestre Bartolomeu.

-- Estáveis aqui? perguntou o moço com solicitude e reparando nas vestes amarrotadas do licenciado. Nada vos sucedeu neste tumulto?

-- Nada, nada; podeis tranquilizar-vos, filho. Saí quite por um rasgão na capa; mas não é coisa que valha a pena.

-- Vinde, deveis estar farto de ver povo e luminárias; vou conduzir-vos a casa, para que não fiqueis sujeito a alguma pior.

-- Há tamanha confusão! disse Cristóvão.

-- Não vos inquieteis, outra vez vos digo. Ide-vos ao sarau; eu fico por aqui.

-- Tanto gostais da festa? admira-me isso!

-- Nihil mirari, filho, é o preceito do sábio, bem o sabeis.

-- Mas não podeis andar só, no meio desta vilanagem, replicara Cristóvão.

-- Deixai-me vosso pajem, Estácio; ele me basta.

-- Gil! disse Estácio alteando a voz.

Um menino de quatorze anos, vivo e esperto, que acompanhara os cavalheiros e se conservava a alguma distância, chacoteando e rindo com outros da sua idade, aproximou-se.

-- Segue o senhor doutor; tu me respondes pelo que lhe acontecer.

-- Não tem dúvida, Senhor Estácio! respondeu o pajem com certa galhardia, levando a mão a uma pequena adaga que trazia à cinta, e perfilando o talhe franzino.

Os dois cavalheiros e o doutor sorriram do recacho cavalheiresco de Gil.

-- Já vedes que estou em boa guarda; parti-vos tranquilos; não esperdiceis os momentos de prazer, que tão raros vêm e tão cedo vão.

Estácio e seu amigo deixando o licenciado, atravessavam para palácio. Antes de lá chegarem, a mendiga que os vira passar correu a eles:

-- Não quereis ouvir a buena-dicha , cavalheiros? disse ela com voz submissa e volvendo em torno olhares suspeitosos.

-- Se adivinha és, como te inculcas, dize-nos primeiro onde dançarás um dia, na corda ou na fogueira?

-- Não quereis então que vos tire a sina?

-- Para quê?... retorquiu Ávila. Se boa for, não acreditaremos na sorte; se ruim, melhor é não a saber.

A bruxa enristou-se, chocando com um olhar perverso os dois mancebos que passavam diante dela ricos de mocidade e esperança.

-- Pois heis de sabê-la! resmungou ela. Ouvi bem e guardai!

Deu à voz uma entonação sarcástica:

-- Sois tão amigos, gentis cavalheiros, tão unidinhos do coração, que ao cabo desejareis trincá-lo um ao outro!...

E soltou uma risada.

Estas palavras e o relincho sardônico que as envolveu, vibraram tristemente na alma de Cristóvão. Não que fosse supersticioso; porém a amizade que votava a Estácio era sensível e nervosa, como a afeição de uma dama. Voltou-se para a feiticeira.

-- Vinde cá, mulher! Tomai...

Apalpou o cinto e sorriu; lembrara-se de aplacar as iras da Sibila das ruas, e conheceu que não tinha moeda.

-- Trazes bolsa, Estácio?

-- Que significa isto?... exclamara o outro.

O estudante, tirando da cinta a bolsa para dá-la ao amigo, ficou surpreso porque não era a sua, mas outra primorosamente bordada a fio de prata e pérolas. Abrindo-a viu que estava cheia de meias dobras. As mãos lhe queimavam como se brincasse com brasas ardentes; parecia-lhe que os olhos de toda a multidão o perseguiam como o receptador do alheio.

Cristóvão também admirado replicou:

-- Estás mais rico do que esperavas?

-- Esta bolsa não me pertence!

-- E como se acha em teu poder?

-- Não sei!...

A bruxa resmungou a rir:

-- Fortuna de quem empresta às damas caridosas!...

Estácio lembrou-se de repente da dama velada.

-- Ah! agora entendo! Vem, que te contarei...

-- Empresta-me primeiro uma moeda para dar a esta pobre. Aí tendes, mulher; rogai pela ventura de uma boa e santa amizade!

-- Rogarei, bom cavalheiro!

E sumiu-se.

Ouvindo o nome de Gil, Joaninha que ligava as feridas de Tiburcino, voltou o rosto; seu olhar afetuoso envolveu o menino. Depois, quando os cavalheiros se afastaram, disse-lhe sorrindo:

-- Adeus, Gil; não me falas?

-- Deus te dê boa-noite, Joaninha; à fé que te não tinha visto.

-- Vem cá, onde vais?

-- Vou meu caminho, respondeu o menino tomando a direção em que ia o licenciado.

A alfeloeira acabou de curar o magarefe. Este durante todo aquele tempo não proferira uma palavra, tão absorto ficara em devorar com os olhos as formas sedutoras da moça. Estava como embriagado; temia que sua voz quebrasse o encanto, em que o tinha preso o toque suave das mãos mimosas.

-- Agora podeis ir-vos a casa repousar. As feridas não vos doerão tanto, disse Joaninha.

-- Não são estas as que mais me doem; outra tenho, e bem funda, que sangra como nenhuma.

-- Para essa não lhe sei o remédio, replicou a rapariga sorrindo.

-- Sabeis-lo; mas não quereis dá-lo!

-- Que o quisesse, não podia.

-- Basta já de negaças, Joaninha. Tanto há que me trazeis assim neste embeleco! Por São Tibúrcio, meu divino patrono, que se não pondes termo a isto, a coisa acaba mal.

-- Escutai cá, Tiburcino. Já vos disse o que podia dizer, não mais. Tenho eu culpa de me quererdes mau grado meu?... Fazei o que vos aprouver; porém mal aconselhado anda quem pensa ganhar a vontade de alguém com tais abafas.

-- Não vos enquizileis, por quem sois, Joaninha de minha alma! Ninguém me tira de que sou um néscio e um sandeu! Não sei que faço; mas tende dó de mim; dizei-me ao menos que se me não dais esperança, também a outro...

-- Oh! lá isso é demais, sô Tiburcino! Cada um tem seu segredo; nunca perguntei o vosso, deixai o meu em santa paz.

-- Por Deus, que atinarei! exclamou o carniceiro batendo com o punho no peito amplo e vigoroso. Então ist'há de virar, ou eu não me chamo mais Tiburcino!

-- Que haveis de fazer? perguntou a rapariga medindo-o com os olhos.

-- Inda perguntais-lo! É pouco roubar-me tudo? E eu que cruze os braços? E não me desforre?...

-- Pois então desforrai-vos em mim; pois lhe quero a ele, sem que ele o saiba; ouvis?

-- Calai-vos que me ensandeceis!

-- Para que me fazeis falar?

-- Se me tendes dito isso há um'hora quand'ele queria levar-vos, aqui ficaríamos os três!

-- De quem cuidais? De Anselmo? Como vos enganais.

-- É ele mesmo! Outra não me escapará.

-- Pois bem, ficai-vos com essa; mas sempre vos digo, que se armardes brigas, não achareis mais cavalheiros que vos livrem da gaiola.

-- Ouvide, Joaninha.

-- Não quero ouvir nada. Deixai-me sossegada; estou cansada de aturar magarefes!

Tiburcino quis segui-la, mas debalde: a mulatinha tinha-se perdido na turbamulta. Então o tomou tal acesso de raiva e ira contra si mesmo, que aferrando um punhado de cabelos, arrancou-o com desespero.

Estava escrito, que a tia Eufrásia passaria nessa noite por todas as provanças; tendo-se aproximado para ouvir a conversa de Joaninha, que lhe devia dar tema vasto de murmurações, acertou que a mão de Tiburcino, com o movimento brusco que ele fizera, deu tal repelão nas ventas da matrona que a estendeu a fio comprido.

-- Aqui d'El-Rei!... Que me matam!

O amante infeliz de Joaninha, preocupado com seu infortúnio, nenhum caso fez do acidente; maldizendo-se do seu caiporismo, foi afogar as mágoas com um trago de vinho de Caparica na bodega do Brás Judengo.

A retirada porém não o salvou da ladainha de epítetos afrontosos, que a adela cantou em todos os tons, e com as várias modulações da voz fanhosa e esganiçada.

-- Magarefe dum demo! Cão tinhoso! Coisa ruim! Bargante! Alma danada!... Pragas te consumam, cascarreia de mouro! Judengo! Marrano!... Tu ma pagarás com língua de palmo!

A tia Eufrásia continuaria a glosar este mote pelo resto da noite, se um dos quadrilheiros, que o alcaide deixara entre a multidão para evitar novos distúrbios, não a interrompesse.

-- Arre lá também! Cala-te, boca praguenta! Se não queres ir pelo mesmo caminho que Anselmo...

A adela tragou o muito que ainda tinha a vomitar; e tratou de recolher antes que lhe sucedesse mais alguma catástrofe nessa noite, que para outros fora tão cheia de folgares e alegrias, para ela tão farta de amarguras.

Ao tempo que isto tinha lugar, Joaninha perdida entre o povo, corria inquieta e sôfrega de um a outro ponto; desde que deixara Tiburcino parecia procurar entre a multidão uma pessoa; mas todos os seus esforços eram inúteis, e a levavam de decepção em decepção.

A vida dessa rapariga tinha a sua crônica misteriosa.

Ninguém sabia de seus pais; mas quase toda a gente a conhecia por causa de sua profissão de alfeloeira ou mercadora de doces e confeitos, que ela vendia pelas ruas numa cestinha de palha; neste mister ocupava todo o dia, percorrendo de uma extrema à outra a cidade do Salvador; às vezes, quando sentia-se fatigada ou quando o sol estava a pino, sentava-se na portada da Sé ou no cruzeiro do Colégio. Divertia-se então em trançar palha de várias cores, com que tecia lindos cabazes e os mais vistosos abanos que ver-se podiam.

Estes dois ramos de negócio sobravam para sua subsistência. Ninguém a via desalinhada, senão mui composta e bem trajada. A beleza e graça natural davam-lhe o sentimento de faceirice inseparável de toda a mulher, que conhece o poder de seus encantos e deseja ostentá-lo, ainda que por simples e inocente vaidade.

A propósito da alfeloeira, um reparo.

Há pequenas indústrias que por sua natureza são próprias da mulher, e formam a sua especialidade na grande oficina do trabalho social. Exercê-las o homem, a parte robusta e livre, parece além de efeminação, injustiça ao sexo frágil e delicado, cuja atividade não é só restringida pela natureza, mas acanhada pelos usos e costumes.

Sentiram os antigos legisladores a necessidade de garantir a mulher contra a indecorosa concorrência do homem na exploração dessas indústrias, femininas por sua natureza. A ordenação do livro 1.º tít. 101 proibia que houvesse alfeloeiros e obreeiros; porém acrescentava “se algumas mulheres quiserem vender alféloas e obreias, assim nas ruas e praças, como em suas casas, podê-lo-ão fazer sem pena”.

Por que não será aproveitada na legislação moderna tão salutar disposição?

A liberdade do trabalho tem limites; e nenhum mais justo e sagrado do que a proteção devida pela sociedade às órfãs do século e pupilas da lei. Se a especulação do homem não disputasse à mulher o seu direito ao trabalho, quem sabe quantas misérias não seriam remidas do vício? O pão amassado com o suor é acerbo alguma vez; o pão amassado com lágrimas amarga sempre.

Voltemos a Joaninha.

Corriam sobre seu nascimento dizeres cuja origem aliás ninguém conhecia.

Contavam que em certa noite aparecera na rua uma criança envolta nas faixas; ali fora achada por uma parteira já idosa, a comadre Brites, que voltava de assistir certa dama. A boa mulher recolhera a criança e a educara.

Diziam mais que na toalha da menina vinha cosida uma carta na qual se pedia à pessoa que a encontrasse, tivesse dela cuidado até a idade de vinte anos, em que seus pais a reconheceriam, recompensando largamente a alma caridosa que a houvesse recolhido. Daqui tiravam mil comentários; e não faltava quem dissesse que este mistério ocultava um alto nascimento.

É a sorte dos enjeitados darem tema às fábulas fantasiadas pela imaginação popular, sempre disposta a acreditar no maravilhoso. O que havia de certo a respeito de Joaninha era ter sido ela criada pela velha parteira a quem pagava a educação que lhe dera com muito amor e o melhor dos ganhos de sua indústria. A princípio a tia Brites ajudara com seu escasso mealheiro o pequeno negócio; mas em pouco a freguesia tornou-se tão numerosa, as alféloas de Joaninha começaram a ser tão cobiçadas pelas bocas mimosas das meninas baianas, os seus abanos tão desejados pelas fidalgas, o seu gentil sorriso tão admirado pelos cavalheiros, que logo colheu os frutos do seu trabalho. À uma confessavam todos que na cidade do Salvador não havia nem mais feliz, nem mais formosa alfeloeira.

O desamparo de sua vida livre, bem como a ausência de família, junto à pobreza e ignorância do estado, fez supor aos rapazes namorados que seria uma conquista fácil; mas Joaninha, que já tinha ganho pela formosura e jovialidade a admiração geral, ganhou com uma virtude austera e uma esquivança constante, a estima e respeito da boa gente. Acabaram por confessar que ela não era só a mais gentil, senão a mais honesta de todas as alfeloeiras dos dois reinos de Portugal e Algarves.

Em verdade, nessa existência vagabunda não havia fato por pequeno que fosse, do qual pudesse nascer a mínima suspeita contra a honestidade de Joaninha; não se sabia, nem sequer desconfiava, de um rapaz ou mesmo senhor a quem ela tivesse dado mostra de bem-querer. Entretanto essa pessoa existia, pois a rapariga o confessara na conversa com Tiburcino; mas o nome estava guardado tão dentro do coração, que nem olhos de rivais, sempre alerta, tinham podido ver na sombra desse mistério. Seria seu amor mal pago? Assim parecia à primeira vista; pois a alma feliz é flor a desabrochar: tem um perfume que recende.

Mas custaria a admitir semelhante conjetura quem vira a expressão travessa e viva de seu olhar, o sorriso malicioso, e a faceirice do gesto galante. Amores tristes e mal afortunados não vivem em crisálida assim dourada e brilhante. Que houvesse completa felicidade, também não era provável. Em certas horas, mais frequentes quando estava só e ninguém a via, a expansão de contentamento desvanecia: anuviava-lhe o rosto sombra fugace de melancolia, recordo ou pressentimento de mágoas.

E porque, em assunto de amores, “essa dor é tão palreira, diz o nosso João de Barros, que logo descobre o que sente o coração”, a crença geral decidia-se pela absoluta isenção da feiticeira mulatinha.

Entretanto a alfeloeira continuava a correr em todas as direções sem achar o que procurava. Não se podendo ter já de fatigada, sentara-se na soleira de uma porta; e começou de cantarolar um vilancete, olhando de longe para as janelas iluminadas do palácio.

O que Joaninha cantava a meia voz, era, se a crônica não mente, uma trova de Gil Vicente, em compasso de lundu:

Quem quereis que veja olhinhos, Que se não perca por eles Lá por uns jeitinhos lindos Que vos metem em caminhos; E não há caminhos neles, Senão espinhos infindos.

Houve momento em que a alfeloeira suspirou; sentiu cobrir-lhe o coração uma das nuvens de melancolia que às vezes passavam no céu dos seus pensamentos. Breve rarefez-se a névoa, pois ainda no fundo de sua alma ingênua e pura não estancara a fonte das alegrias inefáveis da juventude, que o mundo, vasto areal, a pouco e pouco vai sorvendo, até que a exaure.

Quem a visse então, acompanhando a música do sarau com a voz e as inflexões da cabeça, traçando com a ponta do pé figuras e passos de dança, e dando estalinhos de castanhola nos dedos, não julgara possível esconder aquele sereno júbilo da mocidade um pesar oculto.

Passavam Bartolomeu Pires e Vaz Caminha. O licenciado oferecera ao mestre de capela uma vez de vinho; nessa intenção dirigiram-se à bodega do Brás.

Gil, cumprindo à risca a ordem de Estácio, acompanhava o licenciado; caminhava arremedando com a sua figurinha de pajem o andar solene e magistral do ex-arauto.

Mal descobriu o menino que seguia sem vê-la, Joaninha ergueu-se de um salto, e cobriu os olhos do pajem com as palmas das mãos.

Ele não se mostrou surpreso da travessura.

-- Cuidas que não te conheço as mãos? Tanta alféloa tenho manjado amassada por elas!...

-- Também! Não se doam mais elas das que amassarem para ti! respondeu Joaninha despeitada.

-- Por que então? Algum mal te fiz eu!

-- Inda agorinha? Quase nem me falaste.

-- Não viste o cavalheiro mandar que seguisse o senhor licenciado?... Lá dobram o canto! Vou-me após eles.

-- Espera!

-- Que me queres?

A alfeloeira hesitou corando.

-- O Senhor Estácio está no sarau? perguntou depois de uma pausa.

-- Pois que para lá foi; lá deve estar.

-- Que lindas que são aquelas danças! disse ela suspirando, com os olhos voltados para o palácio. Não te fazem inveja? Não estimarias também ter a tua dama, Gil?

-- Ixe! Eu cá penso nisto! disse o travesso pajem afastando-se.

-- Até amanhã!... gritou a alfeloeira.

-- Guardas-me alguma coisa?

-- Vê-lo-ás.

-- Pois sim.

Gil correu a alcançar o licenciado que de fato quebrara a esquina; Joaninha voltando-se deu com Tiburcino.

O magarefe estava sombrio e torvo como uma borrasca prestes a desabar; a testa breve e estreita desaparecia franzindo e caía-lhe sobre os olhos pequenos mas vivos; os beiços grossos, fendia-os uma coisa entre carranca e riso, arreganho de dentes, que gelava a medula dos ossos.

Fitando na moça a vista ameaçadora, arrancou a custo da garganta voz surda e cava, antes rugido de fera:

-- Sabe-se já por quem vos morreis de amores!

-- Quem? perguntou a alfeloeira pálida e trêmula.

-- O Senhor Estácio! disse Tiburcino, como se aquele nome lhe queimasse os beiços.

Joaninha soltou uma gargalhada e desapareceu.

As Minas de Prata

Sinopse

Leia As Minas de Prata, de José de Alencar, grátis no Literunico. Romance histórico clássico brasileiro em domínio público, publicado para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

As Minas de Prata

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

As Minas de Prata

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de As Minas de Prata

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral As Minas de Prata Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 14 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de As Minas de Prata

Capa de As Minas de Prata
Continue a leitura As Minas de Prata: Primeira Parte - Capítulo XIV: Que reza de magarefes e alfeloeiras Capítulo 14 · 14 de 73 · ≈ 26 min
Todos os capítulos 73 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir