Leia agora
As Minas de Prata

Universo da obra

As Minas de Prata

Capítulo 53 · As Minas de Prata

As Minas de Prata: Terceira Parte - Capítulo VIII: Como brota o amor entre goivos

53 de 73 ≈ 28 min de leitura

O bergantim, a pique sobre a amarra, se balança docemente ao fraco ondular das ondas alisadas pela bonança.

Pouco tempo decorreu depois que Estácio partira na chalupa para a cidade de São Sebastião. Reina a bordo o maior silêncio. Os quatro homens, que ficaram de guarda ao navio, estão cada um em seu posto. Esteves na escotilha de popa, velando sobre os prisioneiros; Pedro de vigia no cesto de gávea para explorar os arredores; dois índios, um junto ao leme, outro à proa, com a machadinha ao alcance para cortar a amarra se fosse preciso.

Raquel ainda está no mesmo lugar, em que a deixara Estácio e de onde ela acompanhara com a vista a chalupa até encobrir-se nas saliências do costão de Santa Cruz. A linda judia parece melancólica e pensativa; entretanto nem sempre são tristes os pensamentos que revolve a mente, pois deles escapa alguma vez uma centelha de júbilo, que ilumina o formoso semblante e acende o sorriso nos lábios feiticeiros. Esse raio de alegria, que atravessa as sombras de sua alma, tem o quer que seja de celeste e imaterial; não o desfere o bem-estar comum, que chamamos felicidade.

Quem já sofreu um desses martírios do coração, a que o condena alguma paixão infeliz, conhece a situação estranha da alegria no seio da dor. Quando o objeto de nossa afeição nos repele e nega toda esperança, não podemos deixar de acompanhá-lo com os nossos votos, ainda mesmo que já começássemos a odiá-lo. Se o egoísmo vil se apodera de toda nossa personalidade, lá fica um cantinho isento, onde se abriga a essência pura do sentimento nobre, do amor. É aí o foco de onde rutila a luz divina que sorri através das lágrimas.

Raquel amava Estácio. Já não podia duvidar dessa verdade que enchia toda sua pessoa. Parecia que a alma, recentemente amalrotada por uma primeira afeição, dorida ainda e tão suscetível da cruel decepção que sofrera, não devia tão cedo abrir-se para um novo amor. Mas foi justamente esse estado de exacerbação que rendeu o coração da donzela tão poderosamente, que ela nem tempo teve de se aperceber da revolução.

Vítima de uma ilusão fatal, da qual pôde arrancar-se completamente, sem recordações que a fizessem corar, Raquel sentia a tristeza, que deixa o vácuo de uma afeição, e ao mesmo tempo o despeito de ter-se enganado. Encontrando em seu caminho, poucos instantes depois da crise, o ideal verdadeiro, que pensara achar no indigno alferes, continuou nele o mesmo amor, sem aperceber-se desse acontecimento, senão por uma espécie de bem-estar que se foi derramando por sua alma.

Os sonhos doces e os celestes enlevos do amor iludido, ainda estavam incandescentes, e pois naturalmente e sem esforço soldaram-se às esperanças do novo sentimento. Quando ela sentiu que amava Estácio, pareceu-lhe também que nunca amara senão a ele. O outro fora apenas um desconhecido, que se apresentara um instante disfarçado, como em uma mascarada, e conseguira iludi-la, procurando imitar seu verdadeiro amante; mas conhecido o engano o despedira. Não era pois a este, mas ao seu ideal, a quem ela dera o afeto. Se viesse a conhecer Estácio mais tarde, quando a dor tivesse esfriado no coração, talvez passasse ele sem deixar impressão na crosta gelada de sua alma.

Conhecendo seu estado, não se preocupou Raquel um só instante com o futuro desse amor. Ama; esse presente é bastante para desvanecer todo o passado, e encher todo o futuro, até onde pode o desejo alcançar. Mais tarde sem dúvida viria o desejo natural de ser retribuída em seu afeto; porém a declaração imprevista que fez Estácio de seu amor por Inesita, crestou aquela paixão nascente. Ela conheceu que o mancebo talvez viesse a sentir por ela algum movimento de simpatia ou compaixão quando soubesse do sentimento que lhe havia inspirado; mas nunca a poderia amar, como ela quer e merece ser amada.

Entretanto podia Estácio não ser feliz no seu primeiro amor, e buscar também no segundo a realização do ideal? Sim; ele podia ser desgraçado e traído; mas sua alma tinha-se já saturado completamente daquele amor para que conseguisse arrancar-se isenta e livre, como ela extirpara a sua das cinzas de um passado morto. Seu segundo amor era a floração virgem, que o primeiro ameaçara crestar em botão; o segundo amor de Estácio, se ele o tivesse, seria o murchar da rosa esmaiada de cores e aromas.

Assim a altiva donzela não queria ser amada, e preferia condenar seu coração ardente à eterna viuvez.

Desfolhava ela estas cismas, e como os olhos, o pensamento às vezes submergia-se no oceano para sondar a profundeza de suas mágoas, outras engolfava-se no azul diáfano do firmamento, talvez entrevendo ali os gozos angélicos de um amor infeliz na terra.

Nisto, Esteves passando a cabeça pela escotilha, disse e repetiu em voz alta:

-- Dona, seu pai a está chamando!

Raquel, depois de um instante tomado para despedir-se de seus caros pensamentos e entrar na realidade, percorreu com os olhos a vasta superfície dos mares a ver se a chalupa já aparecia, e com passo lento desceu a escada.

Samuel e os dois holandeses estavam encerrados no camarim de estado próximo à sala d’armas. O velho rabino esperava a filha encostado à grade:

-- Estamos fundeados, Raquel?

-- Sim, pai.

-- Em que paragem? A terra fica próxima?

-- A terra nos está a pequena distância pela direita, e é da Baía de São Sebastião, à entrada da qual nos achamos.

O velho voltou-se para os flamengos com um sorriso, ao qual Hugo respondeu:

-- Bem vos dizia eu!...

Samuel tomou entre as suas uma das mãos da judia, e acenou-lhe para que se encostasse mais à grade:

-- Raquel, filha minha, o Deus de Israel pôs em tuas mãos, como outrora nas mãos de Ester, a salvação de teu povo. Tu podes restituir a vida a teu pai e evitar a ruína de todos os teus irmãos da Bahia, bem como a morte destes dois infelizes que se sacrificaram para nosso bem comum.

-- Que é preciso que faça tua filha, Samuel, para o conseguir?

-- Basta que tu nos passes um ferro de que necessitamos.

-- Que pretendes fazer com ele?

-- Quebrar o cadeado das algemas de Hugo e Dick; eles livres, arrombaremos a porta da sala d'armas, cairemos sobre a gente descuidada e ficaremos senhores do navio.

-- Vós unicamente?... Três pessoas!...

-- Três pessoas resolvidas a morrer ou resgatar sua vida... Não sabes o que valem. Demais, tu nos auxiliarás, distraindo alguns deles, enquanto de surpresa e silenciosamente iremos acabando os outros.

-- Supondo mesmo que sejais bem sucedidos e vos apodereis do navio, que tereis ganho com isto? Falta batel para vos transportar à terra, onde aliás só achareis inimigos; a chalupa chegará, e podereis resistir a doze homens destemidos e valentes como leões?

-- Far-nos-emos de vela, de modo que a chalupa já nos não encontrará! acudiu Hugo.

-- Para onde? Para a Europa? Com uma tripulação de dois homens, um velho e uma donzela? disse Raquel escarnecendo.

-- Vede se tinha eu razão! disse Dick. Meu plano é melhor! Arrombamos a sala d'armas e tomamos conta do paiol sem que nos percebam. Acendemos a mecha e esperamos que volte a chalupa; quando estiverem todos a bordo, um fica de sentinela com a mecha, e os outros sobem ao convés para intimar ao inimigo que se renda, ou se disponha a saltar pelos ares. Não há quem resista a isto! Entregam-se à discrição; enforcaremos os chefes para exemplo, e nos serviremos da maruja para navegar rumo da Holanda, tendo o cuidado de um de nós conservar sempre a mecha acesa e pronta para o que der e vier.

Raquel abriu o lábio crespo de cólera e desprezo:

-- Pensais que o mancebo, que comanda este navio e o tomou à mão armada, se renderá com essa ameaça? Pois então sabei, que duas vezes já estivestes para voar, uma por sua própria mão, e outra por ordem dele! Perdei a esperança, Sr. Dick; vosso plano é pior que o de vosso amigo, pois com ele caminhais a uma morte certa e horrível.

-- Raquel avisa bem. O melhor parecer estou que é o primeiro. Falta-nos, é certo, batel para ganhar a terra, mas estes irmãos sabem nadar, e por esse modo se poderão salvar e a vós também, filha. Quanto a mim, sacrifico-me de bom grado; como Moisés, não entrarei na terra santa; porém meu espírito acompanhará o povo de Israel.

-- Em caso algum, pai, eu te abandonarei. Nossa sorte há de ser comum na adversidade, como foi na ventura.

-- Também nenhum de nós consentiria em deixar-vos no poder do inimigo. Podemos salvar-vos a ambos juntamente.

-- E que fareis em terra de inimigos?

-- Esqueces que temos irmãos em São Sebastião, Raquel, e que deles devemos esperar todo o auxílio. Podemos aí aguardar ocultos a oportunidade de passar à Europa!

A judia não replicou; com os olhos baixos e a fronte pensativa conservou-se junto à grade.

-- Não há tempo a perder! disse Hugo.

-- Certo! Vai, Raquel, e traz-nos o ferro necessário.

-- Como o posso eu trazer que o não percebam?

-- Envolto nas roupas; ninguém suspeita de ti. Enquanto voltas, nós acabaremos de concertar o melhor modo de salvar nossa vida e liberdade.

Raquel ergueu a cabeça e fitou no pai um olhar brilhante.

-- Não, pai; tua filha Raquel não pode ajudar-te nesse intento.

-- Por que motivo, Raquel? perguntou o judeu surpreso.

-- Porque trairia aquele a quem agradece a tua vida, pois a tendo em suas mãos, bem como a desses homens ingratos, generosamente a poupou.

-- E queres tu, filha desnaturada, trair aquele que te deu o ser, sacrificar teus irmãos e renegar da religião de teus pais?

-- A religião de meus pais, que de ti aprendi, me ordena que respeite como coisa sagrada a fé do juramento. Jurei a Estácio que não praticaria ato algum que lhe pudesse ser nocivo; e cumprirei meu juramento.

-- Não hás de cumpri-lo, porque um juramento dado a um cristão é falso e nulo, de nada vale!...

-- Quando o dei não me lembrei qual era a sua religião, e somente que o dava a um nobre e leal cavalheiro, em troca da extrema delicadeza com que por ele fui tratada. Se ele depositou bastante confiança em mim para acreditar-me sob a fé e respeito de uma religião que não comunga, não serei eu que lhe dê o exemplo de desprezo ao Deus de Abraão, quebrando a palavra selada com sua invocação. E quando não tivesse jurado... Que ideia farias tu, pai, de uma donzela prisioneira que se aproveitasse da liberdade consentida por quem respeitou seu recato e fragilidade, para promover a morte e ruína do benfeitor?

O velho rabino estava absorto em seu espanto e indignação.

-- Sinto não ter aqui um ferro para te imolar.

-- Terás tempo para o sacrifício.

-- Retira-te de minha presença!

-- Eu obedecerei, pai; mas quero levar a promessa de que abandonarás teu intento.

-- Mais do que nunca insistirei nele, para vingar em ti a religião de meus pais que traíste, e em teu amante a minha honra que profanaste.

-- Insultas tua filha? Eu te perdoo, porque a cólera te cega; senão havias de te lembrar que não podes tu, pai, me pedir contas de tua honra!

O velho vergou a fronte encanecida. Tal é o poder da virtude que aquela fronte respeitável, ornada de uma tríplice coroa, de paternidade, sacerdócio e velhice, se humilhava subjugada ao olhar límpido de uma virgem.

-- Espero tua promessa, pai!

-- Deixa-me!

-- Se ma recusas, serei obrigada a avisar de teus intentos aquele contra quem tramas!

-- Completa a tua obra! Denuncia teu pai, fruto perverso de meu sangue!...

-- Te denunciarei, sim, pois que é esta a palavra; te denunciarei para ter o direito de aceitar a vida e liberdade tua que me foi por ele concedida.

Acentuando estas palavras enérgicas, a donzela retirou-se com dignidade, pondo termo à cena desagradável.

Chegada que foi à tolda avistou uma vela dobrando a ponta do costão; à medida que se aproximava, as conjeturas de que fosse a chalupa se tornavam mais fortes, até que afinal não houve mais dúvida. Estácio à popa, com o pé regia o leme, e tinha na mão as escotas das velas; os índios se deitavam sobre os remos com furor, excitados por Antão que também remava. O batel, carregado com o pano que o vento enfunava, trazia uma borda a raso da onda e a outra levantada até a quilha.

Apenas chegou à fala do bergantim, ouviu-se o grito do mancebo:

-- Suspendei o ferro!...

Esteves e os outros atiraram-se ao cabrestante; como já a amarra estivesse a pique, em pouco a âncora soltou-se da vasa e pendeu aos flancos do navio. Atracou a chalupa, que foi num momento içada aos cachorros. Os índios espalharam-se pelas enxárcias; as velas desfraldadas ao vento, como brancas asas, imprimiram ao navio o suave deslize de um cisne.

Estácio explorou de novo o horizonte a ver se era perseguido, e nada descobrindo de suspeito, retirou a um canto para guardar na cinta de malhas o papel lacrado, que lhe entregara o frade. Bem desejos tinha ele de devorar o manuscrito, única fatal herança, que tantas fadigas, perigos e dissabores lhe tinha já custado, e quem sabe quantas desgraças ainda lhe reservava. Mas antes de tudo a situação crítica e melindrosa em que se achava exigia toda sua atenção; ele contava com certeza que havia de ser perseguido, e admirava-se muito de não ter já à vista os que lhe deviam dar caça.

Singrava o bergantim ligeiramente à bolina, quando Raquel, que assistira de parte a toda a cena anterior, sem tirar os olhos do mancebo, achegou-se dele, pensando que já sua presença não lhe causaria estorvo:

-- Careço falar-vos, disse ela.

-- Estou sempre pronto a escutar-vos, senhora.

-- Devo avisar-vos de que tramam contra vós.

-- Quem?... A minha gente?...

-- Não: os flamengos.

-- Ah!

-- Seu plano é quebrar o cadeado das algemas, arrombarem a sala d'armas, e vos ameaçarem com a explosão do navio!

-- Mas como podem levar essa empresa ao cabo sem auxílio de alguém! Para quebrar o cadeado das algemas era preciso que vosso pai os ajudasse! Entrava ele na conspiração?...

-- Não sei; aprecatai-vos!...

-- Bem! Menos vos agradeço, senhora, que me lisonjeio de ter formado tão justa ideia de vosso nobre caráter e ânimo grande. Não me quisestes ficar em dívida de generosidade; em paga da liberdade que vos dei, me salvais a vida e os graves interesses que me estão confiados!...

-- Julgais que somente esta razão fosse bastante para dar-me a força de desobedecer a meu pai? perguntou Raquel com ardente vivacidade. Não; essa força, só vós me inspirastes!

Conhecendo pelo olhar interrogador de Estácio que se havia excedido, continuou mais calma:

-- A gratidão pelos vossos benefícios me cativou. Vos devo a salvação de meu pai, e uma coisa que uma donzela não esquece nunca, o respeito à sua virtude e recato.

-- Isso não o fiz a vós, senão a mim e aos meus próprios sentimentos.

-- Embora!

Estácio distraiu um instante a atenção para examinar um ponto branco que alvejava ao longe pela popa do navio sobre a linha azulada dos mares. O receio logo se desvanece; é a vela isolada de algum pescador, que segue rumo oposto. A judia acompanhara com ansiedade os movimentos do mancebo, enquanto ele examinava a canoa.

-- A mesma causa que me impôs o dever imperioso de prevenir-vos contra os meus, a gratidão, creio eu que dá também o direito de me interessar pela fortuna vossa. Não atribuí pois a receio a pergunta que desejo fazer-vos.

-- Tantas provas já destes de coragem, que não poderia nunca supor esse motivo.

-- Dizei-me: correis ainda algum perigo?

-- E grande!... Vou ser perseguido por forças superiores, se já não o sou!

-- Mas não são eles vossos irmãos? Não tendes o mesmo Deus e o mesmo rei? Como se tornaram vossos inimigos?...

-- Não vos posso contar a minha história. Asseguro-vos porém que sigo o caminho direito, e defendo uma causa justa. Aos outros, o Senhor os julgará.

As previsões de Estácio eram exatas. Àquela hora já ele era perseguido por forças muito superiores.

É de lembrar que o P. Molina ficara em pé na Praia do Boqueirão, quando a chalupa se afastara. Longe de sucumbir, a queda era para o jesuíta, como para Anteu, o recobro do vigor. Naquele instante mesmo, em que seu plano, combinado de há tantos anos, acabava de ser aniquilado, ele formulara rapidamente outro tão audaz e engenhoso como o primeiro.

Quando Estácio surgira de repente na casa de D. Diogo de Mariz, o visitador que o deixara, além de pobre e baldo de recursos, preso no Castelo do Mar, ficou atordoado com a súbita aparição. Como pudera ele tão depressa livrar-se da prisão e fazer a viagem de São Sebastião, naquela época, longa e penosa? Habituado a não deixar que fato algum passasse, sem lhe investigar a causa, estivera desde aquele instante a cogitar sobre o acidente. Aquela vinda repentina, coincidindo com a chegada do governador, só tinha uma explicação: D. Francisco de Sousa passara pela Bahia e trouxera consigo o herdeiro de Robério Dias para facilitar a empresa.

A fuga de Estácio na chalupa, com direção à barra, acabava de derrocar a sua primeira suposição. O mancebo não era instrumento do governador, mas servia aos seus próprios interesses; fora da barra estava naturalmente fundeado algum navio, que o esperava para fazer-se à vela, rumo da Bahia.

Sem demorar-se desta vez em buscar a explicação dos estranhos acontecimentos, compreendeu o P. Molina que o essencial era salvar Estácio, e por conseguinte o roteiro, das garras de D. Francisco de Sousa; depois trataria de conquistá-lo do inimigo mais fraco. O visitador dirigiu-se pois apressado à Rua de São José, onde o povo estava ainda em comoção por causa do arrojo de Estácio. A gente da rua falava da evasão; os guardas, a quem já o governador transmitira os sinais do mancebo, interrogavam os vários grupos.

Molina volteou por entre estes como uma vespa; em pouco não se ouvia senão este ruge-ruge: “Foi para as bandas do Campo dos Ciganos. Viram-no montar a cavalo nos ranchos de Mataporcos! Levava uma bandeira de vinte homens bem armados”.

O frade buscava assim derrotar a vigilância do governador, fazendo-o perder o rastro à caça. Com efeito o rumor foi crescendo; com pouco já ninguém duvidava que o fugitivo houvesse tomado o caminho de São Vicente; e neste sentido foram dirigidas todas as pesquisas.

Então o visitador recolheu ao Colégio, e deu suas ordens para que o galeão Santo Inácio, da Companhia, se fizesse à vela imediatamente. Quando suspendiam o ferro, o sol marcava no quadrante do Castelo meio-dia em ponto. Molina, devorando com os olhos os horizontes acanhados para a impaciência de seu audaz pensamento, exclamava:

-- Ele tem quatro horas de avanço sobre mim nesta viagem; mas eu tenho sobre ele vinte anos de experiência na viagem da vida.

Passando o Forte do Leme, descobriram de bordo do galeão quatro embarcações que viravam de amuras na altura da Rasa e se faziam no bordo do norte. Seria essa conserva mandada à caça de Estácio pelo governador? Foi a primeira suspeita do frade; e bem fundada. Molina ignorava a circunstância do encontro no mar de D. Francisco de Sousa com Estácio, a qual fez abortar seu plano. Perdida a esperança de prender o mancebo na cidade, o governador se lembrara do bergantim, e pensou que devia estar fundeado em algum lugar fora da baía, à espera de seu arrojado comandante. Enquanto pois a guarda perseguia o fugitivo por terra, ordens prontas eram dadas para a partida da esquadra que já sulcava os mares sob as ordens do próprio D. Francisco.

Compunha-se ela de um só vaso de alto bordo para o caso de combate; os mais eram três galés de vinte e quatro ou dezoito bancos. O governador, previdente, escolhera de preferência os navios de remo, como mais próprios para a caça do veleiro bergantim. Quando a armada achou-se completamente alagada, só descobriu na extrema do horizonte o velame de um navio que sumia-se como um branco alcíone, adejando para os confins do mundo.

À tarde, porém, com as sombras, aquele ponto branco desvaneceu-se. Os navios, por ordem do governador, se distanciaram uns dos outros, seguindo rumos paralelos; era uma precaução para o caso de que o bergantim por estratégia mudasse a rota durante a noite, ou amarando-se ou demandando a terra. Ao romper d'alva a vigia do cesto de gávea assinalou ainda a mesma vela sempre à proa direita; mas nenhum avanço tinha a esquadra ganho sobre a caça.

Três dias passaram sem maior alteração; a caça prosseguia com igual afinco; mas o bergantim conservava sempre a mesma distância; a rapidez da singradura zombava dos esforços dos remos. Estácio já se considerava salvo, quando uma circunstância lhe fez perder toda a esperança. Gonçalo desde pela manhã que tinha o nariz ao faro e a mão sobre os olhos, explorando a extrema dos horizontes e as nuvens que se erguiam do oceano; até que afinal murchou e encolheu qual rã em tempo seco.

-- O vento vai rondar!... disse ele a Estácio com uma voz triste.

O mancebo compreendeu o alcance da observação; mas desejou saber ao justo o que pensava o Antão.

-- Que tem isto?

-- Tem que daqui a uma hora estaremos bordejando, enquanto as malditas galés, que pouco se importam com o vento, virão sobre nós direitas como uma bala.

-- E quando pensais que nos alcançarão?

-- Hum!... Pela noite adiante, ou no mais tardar pela madrugada.

Eram sete horas da manhã. Nesse instante Raquel subia à tolda, e aproximou-se do mancebo para saudá-lo; ela conheceu logo em sua fronte carregada e na atitude do contramestre, que a situação piorava, e inquiriu com empenho do que era passado.

-- Não vos assusteis, senhora! É um pequeno acidente que já tinha previsto, respondeu Estácio com um sorriso.

Voltando-se então para mestre Gonçalo, falou-lhe com serena firmeza:

-- A minha resolução está tomada, Antão. O combate com forças tão superiores fora uma loucura. Além do mais, toda esta perseguição nada tem convosco e só comigo; eu cometeria um crime sacrificando tantas vidas a meu interesse individual. Portanto desde este momento vos entrego o comando do navio com as seguintes determinações, que haveis de jurar-me cumprir à risca. Esta dama e seu pai são livres, e os confio de vossa honra. Os prisioneiros, entregareis a D. Diogo de Menezes, se vos deixarem ir em liberdade, senão ao próprio D. Francisco de Sousa com esta declaração, que trate de guardar o Brasil contra os flamengos...

-- Mas vós?... exclamou Raquel em ânsia.

-- Sim, vós, Sr. Estácio, que contais fazer? perguntou Antão.

Fazendo-lhe um gesto de espera, o mancebo respondeu primeiro à interrogação da moça:

-- Ficai tranquila. Levo comigo o único documento que podia comprometer vosso pai.

-- É a segunda vez que me supondes movida por um receio!... Que me importa tudo isso? exclamou a judia arrebatada pela paixão. É de vós, do que pretendeis fazer, que me aflijo e inquieto. Ouvides, senhor?

Estácio fitou a donzela surpreso; pela primeira vez uma suspeita atravessou-lhe o espírito.

-- Também eu, acudiu o contramestre; preciso saber para meu governo quais são vossas intenções.

-- Não vos inquieteis ambos comigo. Meu destino vai cumprir-se.

Depois espraiando os olhos pela vastidão dos mares, disse à meia voz:

-- O oceano é bastante vasto e profundo para esconder me à cólera dos homens e dos reis, a quem eles servem!

Raquel pendeu ao seio a fronte abatida, como o cálice de uma flor que verga para verter o orvalho da noite; duas lágrimas brilharam nas pupilas negras, e perlaram as rosas desbotadas de suas faces.

Quanto a Antão, tinha ele empinado a cabeça como um lagarto quando se aquenta ao sol e percebe rumor suspeito:

-- Visto isto pretendeis lançar-vos ao mar?

-- No momento em que vierem sobre nós. Não tenho outro recurso.

-- Heis de estar lembrado do que nos disse João Fogaça, quando nos mandou que vos seguíssemos? Pois então ficai sabendo que daí não nos afastamos eu e minha gente. Hemos de seguir-vos até o inferno.

-- Tal não fareis, Antão. Antes disso mandou ele que me obedecêsseis, e o contrário vos ordeno eu.

-- Dês que me entregastes o comando deste navio, ninguém mais, senão eu, dá ordens aqui. Sois meu prisioneiro sob palavra, e é escusado vos atirardes pela borda fora, porque atrás irá quem vos traga.

Estácio levantou os ombros. O contramestre, bufando como um boto, ganhou a proa para dar as ordens; imediatamente um índio ganhou uma ponta da mezena, e outro aproximou-se do castelo de popa, prontos a se lançarem à água atrás do mancebo. As velas começaram a arfar batendo os mastros; logo após o vento escasseou, e rondou para lés-nordeste; o receio do mestre se realizava.

Estácio ficara recostado à amurada, olhando entre admirado e triste a linda judia que tinha ainda a fronte pendida e magoada.

-- Por que separais agora o vosso de nosso destino?... Mais arriscada empresa cometestes do que a de tentar a sorte do combate com os que vos perseguem.

-- Engano vosso! Suas embarcações são de remo; manobram com mais rapidez que não o podemos fazer.

-- Em todo o caso, esse meio extremo de que por duas vezes lançastes mão para defender-vos... Por que o não empregais agora?

-- De fazer voar o navio?... Mas naquela ocasião eu servia a El-Rei e a pátria; agora serviria apenas meu interesse; e fora um crime infame sacrificar tantas vidas!

-- A minha, não; porque eu a dera de bom grado para vosso bem!...

-- Obrigado, senhora; conservai-a para a ventura que vos espera.

-- Ventura!... a mim?... murmurou a donzela.

-- Demais, toda a esperança não é perdida! disse o mancebo com um sorriso falaz.

-- Julgais poder escapar ao perigo?...

-- Deus ainda não me abandonou!

-- Oh! salvai-vos... Em nome dela... de Inês, eu vos suplico!

-- Obrigado!... disse o mancebo. Não imaginais que bem me fizestes!... Neste momento supremo de minha vida representastes aos meus olhos a imagem dela. Parece-se convosco na beleza e na bondade.

Estácio travara da mão de Raquel, e ficaram ambos presos daquele mútuo anelo; ele afagando a doce ilusão que despertara em seu espírito; ela contente de ser amada um rápido instante ainda mesmo sob a invocação de sua rival feliz.

Por esse tempo debuxava-se na linha azul do oceano um relevo escuro. Logo um murmúrio confuso percorreu os bordos do bergantim.

-- Terra!... Terra!... disseram vozes esparsas.

-- Onde? perguntou Estácio voltando-se.

-- Pela proa!

-- O Antão Gonçalo?

-- Ei-lo rente! acudiu o mestre.

-- Sabeis qual terra seja aquela?

-- São os Abrolhos!

Os olhos de Estácio brilharam, e volveram rápidos para as velas da frota do governador, que avançava com velocidade.

A voz murmurou-lhe nos lábios:

-- Se...

As Minas de Prata

Sinopse

Leia As Minas de Prata, de José de Alencar, grátis no Literunico. Romance histórico clássico brasileiro em domínio público, publicado para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

As Minas de Prata

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

As Minas de Prata

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de As Minas de Prata

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral As Minas de Prata Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 53 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de As Minas de Prata

Capa de As Minas de Prata
Continue a leitura As Minas de Prata: Terceira Parte - Capítulo VIII: Como brota o amor entre goivos Capítulo 53 · 53 de 73 · ≈ 28 min
Todos os capítulos 73 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir